Capítulo 160 - Sob as Cinzas
As cinzas ainda caíam sobre Cervalhion quando o grupo deixou a ponte.
O cheiro de fumaça dominava o ar.
Madeira queimada.
Pedra pulverizada.
Sangue.
Kael seguia na frente carregando Ian nos braços sem diminuir o ritmo. O corpo do Guardião parecia pesado até para ele agora — não pelo tamanho, mas pelo estado em que estava. O braço queimado permanecia imóvel ao lado do corpo, e as fissuras vermelhas continuavam espalhadas pela pele como raízes sob a carne.
Aisha vinha logo atrás.
As roupas ainda encharcadas do rio.
Lama seca grudada nas pernas.
Sangue espalhado pelos braços e pelo rosto.
A espada presa na mão com força excessiva.
Maelis caminhava alguns passos atrás de Kael.
Uma das mãos pressionada contra a lateral do próprio corpo.
A visão ainda falhando em alguns momentos por causa do esgotamento de mana.
Lysvallis vinha apoiada nela parcialmente.
Até respirar parecia exigir esforço agora.
Elenys caminhava por último.
Silenciosa.
Os olhos vazios.
As mãos ainda manchadas com o sangue de Alexia.
Ela não havia tentado limpar.
A cidade observava.
As ruas próximas da ponte estavam tomadas por fumaça e destroços. Soldados carregavam feridos em macas improvisadas enquanto grupos de civis tentavam apagar incêndios usando baldes e tecidos molhados.
Alguns paravam quando viam Ian.
O medo vinha primeiro.
Os olhos presos nas fissuras vermelhas.
No braço destruído.
Na ausência completa de movimento fora da respiração irregular.
Um homem puxou o filho para trás no instante em que o grupo passou.
Uma mulher fez o sinal de proteção.
Mas não era só medo.
— O Guardião tá ferido…
A voz saiu baixa entre dois soldados feridos sentados próximos de uma parede destruída.
Outro homem olhou imediatamente para Ian nos braços de Kael.
— Ele segurou aquela coisa sozinho…
Uma senhora ajoelhada perto dos destroços ergueu os olhos cansados quando o grupo passou.
— Foi ele que impediu a besta de caudas atravessar o resto da ponte…
As vozes começavam baixas.
Espalhadas.
Confusas.
Ninguém entendia exatamente o que tinha acontecido.
Mas todos tinham visto a luz sobre a cidade.
Todos tinham visto a ponte quase partir ao meio.
E todos tinham visto a enorme besta branca que afugentou até o rei.
Aisha percebeu os olhares.
Os cochichos.
Ela desviou os olhos.
O peito de Ian subiu devagar.
Irregular.
Aisha sentiu o ar preso sair sem perceber.
Então a respiração seguinte demorou mais do que deveria.
Ela olhou de novo imediatamente.
Kael ajustou Ian nos braços sem parar de andar.
Os olhos vermelhos analisaram o rosto dele por menos de um segundo.
Depois continuou em frente.
Sem dizer nada.
Mais adiante, parte de uma das casas desabou na rua lateral com um estrondo pesado que espalhou poeira entre os sobreviventes.
A cidade já tinha passado do ponto do pânico.
Agora só restava cansaço.
Uma criança observava o grupo da porta de uma casa parcialmente destruída.
Os olhos presos em Ian.
— Mãe…
A mulher puxou ela para dentro imediatamente.
Mas não antes dele perguntar:
— O Guardião vai morrer?
Ninguém respondeu.
O grupo continuou caminhando entre fumaça, cinzas e o silêncio quebrado de Cervalhion.
Melissa permaneceu parada no centro da rua por alguns segundos enquanto os soldados começavam a correr entre os incêndios.
Os olhos ainda presos na direção por onde Kael havia desaparecido carregando Ian.
A fumaça atravessava o sul de Cervalhion em ondas densas agora. Parte do céu tinha desaparecido atrás das cinzas.
Aedin vinha a alguns passos atrás.
Mais lento.
A mão ainda pressionada contra a própria cabeça em intervalos irregulares.
Melissa virou de repente.
— Onde está Dan?
Aedin ergueu os olhos devagar.
Como se a pergunta tivesse atravessado alguma névoa dentro dele antes de alcançar o pensamento.
— Ele… estava lutando contra Kael.
Melissa sentiu o corpo gelar imediatamente.
— O quê?
— Eldrik… também.
O silêncio caiu pesado entre os dois.
Mesmo com a cidade queimando ao redor.
Melissa deu um passo na direção dele.
— Você mandou os dois enfrentarem Kael… sozinhos?
— Eu achei que—
O tapa de Melissa soou alto.
— Meu filho.. — A voz de Melissa embargou — Você arrastou nosso filho para isso?
— Eu— Outro tapa.
Um soldado se aproximou, mas Aedin estendeu a mão o impedindo.
Ele também entendia.
Kael tinha voltado.
Sozinho.
Sem ferimentos graves.
A lança ainda com sangue seco.
Melissa viu o olhar dele mudar no mesmo instante.
Aedin também tinha percebido.
Dan não havia voltado.
Nem Eldrik.
Melissa virou imediatamente para os soldados próximos.
— Quero equipes no foco agora!
Os homens se moveram na mesma hora.
— Procurem Dan e Eldrik!
Ela começou a andar antes mesmo de terminar a frase.
Os passos rápidos entre os destroços.
Dois soldados acompanharam imediatamente.
Aedin ficou parado meio segundo antes de seguir atrás.
Mais distante.
Mais lento.
As ruas próximas a area residencial estavam piores.
Parte das casas havia cedido completamente durante a luta.
Marcas de fogo atravessavam as paredes de pedra.
Corpos cobertos começavam a ser alinhados próximos das esquinas enquanto curandeiros tentavam estabilizar os sobreviventes no meio da fumaça.
Melissa acelerou ao virar a última rua.
Então parou.
A praça estava destruída.
Parte do chão havia cedido. Uma das torres laterais estava partida ao meio, espalhando blocos enormes de pedra pela rua enquanto fumaça subia entre as rachaduras como vapor escapando de uma ferida aberta.
Soldados passavam carregando feridos.
Outros tentavam afastar pedaços da estrutura caída.
Mas o centro da praça permanecia quieto.
O corpo de Eldrik estava deitado sobre os destroços.
A Guardião de Elandor estava sentada ao lado dele.
Uma das mãos apoiada no ombro dele.
Ela não parecia ferida.
Só cansada.
Coberta de poeira.
Melissa desacelerou ao ver os dois.
Aedin parou alguns passos atrás dela.
Aura ergueu os olhos primeiro.
Viu Melissa.
Depois Aedin.
O rosto endureceu imediatamente.
Não em raiva.
Em incredulidade.
Como se ainda estivesse tentando entender como todos tinham chegado naquele ponto.
Melissa caminhou devagar até Eldrik.
— Eldrik…
Ele não respondeu.
Os ombros tremiam.
Aura manteve a mão apoiada nele em silêncio.
Só então Eldrik ergueu os olhos.
Vermelhos.
Perdidos.
Melissa sentiu o estômago afundar antes mesmo da resposta vir.
— Onde está seu tio?
Eldrik tentou responder.
A voz falhou.
Ele puxou ar uma vez.
Depois outra.
Como se falar aquilo tornasse real.
— Dan morreu.
O som da cidade pareceu desaparecer por um instante.
Melissa ficou imóvel.
Os olhos presos no filho.
Aedin parou atrás dela sem conseguir dizer nada.
Eldrik abaixou a cabeça de novo.
As mãos fechadas na própria roupa.
— Eu vi…
A voz saiu quebrada.
— Eu vi ele morrer.
A respiração saiu falha.
Como alguém tentando se impedir de desabar em lagrimas.
Aura apertou o braço dele.
Só então Eldrik ergueu os olhos.
O rosto estava destruído pelo choque.
Melissa ajoelhou na frente dele imediatamente.
As mãos seguraram o rosto do filho.
— Você está ferido?
Eldrik balançou a cabeça devagar.
— Não.
Aedin desviou o rosto.
Aura observou os dois em silêncio.
O vento atravessou a praça carregando cinzas entre os destroços da torre quebrada.
Melissa fechou os olhos por um segundo.
Depois ergueu o rosto para os soldados próximos.
A voz voltou firme.
Fria.
Funcional.
— Quero equipes procurando o corpo do General Dan agora.
Os soldados assentiram imediatamente.
Mas antes que corressem—
— Não sobrou nada dele.
A voz saiu falha.
Baixa.
Todos viraram ao mesmo tempo.
Eldrik ainda estava sentado entre os destroços.
Os olhos presos no vazio.
Aura apertou o ombro dele quando o corpo voltou a tremer.
Melissa ficou imóvel.
— O que…?
Eldrik puxou ar devagar.
Como se ainda estivesse tentando aceitar aquilo enquanto falava.
— Kael queimou tudo.
O silêncio caiu pesado na praça.
Aedin fechou os olhos por um instante.
Porque ele entendia exatamente o que aquilo significava.
Não existia corpo.
Nada para enterrar.
Melissa desviou os olhos por um segundo.
Então voltou para os soldados.
A voz saiu firme outra vez.
— Levem Eldrik para o castelo.
Dois Guardas Reais avançaram imediatamente.
Eldrik tentou levantar sozinho.
As pernas falharam parcialmente antes de um dos homens segurá-lo.
— Quero curandeiros esperando quando ele chegar.
Melissa virou o rosto para Aedin.
— Você vai junto.
Aedin permaneceu parado alguns segundos.
Os olhos ainda perdidos entre os destroços da praça.
Depois assentiu devagar.
Sem discutir.
Aura se levantou lentamente ao lado de Eldrik.
A poeira caiu da roupa junto do movimento.
— Eu acompanho eles.
Melissa olhou para ela.
Aura sustentou o olhar sem hesitar.
— Eldrik não deve ficar sozinho agora.
Melissa assentiu.
— Certo.
Aura ajudou Eldrik a caminhar enquanto os Guardas Reais assumiam apoio dos dois lados.
Mas antes de sair da praça, ela voltou os olhos uma última vez para Aedin.
Observando.
Tentando entender.
Porque nada daquilo fazia sentido.
Nem a destruição.
Nem a guerra dentro da própria cidade.
Nem o fato do Guardião ter deixado Cervalhion viva enquanto Dan estava morto.
Um soldado surgiu correndo pela lateral da praça.
— Rainha Melissa!
Ela virou imediatamente.
— Os incêndios no distrito sul estão avançando!
Outro soldado apareceu logo atrás.
— Parte da muralha leste cedeu! Ainda tem civis presos!
Um terceiro surgiu entre a fumaça:
— O mercado central entrou em pânico! Tem gente tentando fugir pela área destruída da ponte!
Melissa fechou os olhos.
Mas já era tarde para conter o movimento da população.
As pessoas começavam a surgir nas entradas da praça.
Feridos.
Cobertos de cinzas.
Alguns carregando familiares.
Outros apenas olhando para a destruição sem conseguir processar.
E então reconheceram Aedin.
Os murmúrios começaram imediatamente.
— É o rei…
— O que aconteceu na ponte?!
— Aquela criatura branca era o Guardião?!
— Meu filho estava lá!
— O senhor matou aquela coisa ou não?!
— Por que a cidade inteira quase caiu?!
Mais civis começaram a se aproximar.
Os soldados avançaram rápido montando uma linha entre a praça e a população.
— Recuem!
— Afastem-se!
Mas ninguém queria recuar.
O medo já tinha passado do ponto do controle.
Agora as pessoas queriam respostas.
Uma mulher apareceu chorando entre os civis segurando o braço queimado.
— Meu marido estava na ponte!
Os olhos dela encontraram Aedin.
— O QUE ACONTECEU?!
Outros começaram a falar ao mesmo tempo.
— Eu vi o rei lutando contra o Guardião!
— Não era Guardião nenhum! Aquilo era uma besta!
— Mentira! O Guardião salvou gente na rua!
— Eu vi aquela criatura destruir metade da cidade!
— FOI O REI QUE LANÇOU A MAGIA!
O tumulto cresceu.
As versões já estavam se espalhando.
Confusas.
Contraditórias.
Aedin permaneceu imóvel no centro da praça.
O rosto vazio.
Os olhos ainda perdidos entre os destroços.
Ele não respondeu.
Nem conseguia.
Melissa percebeu imediatamente.
E assumiu antes que o silêncio dele piorasse tudo.
Ela avançou um passo.
A voz atravessou a praça inteira.
— O Guardião do Norte e o Rei Aedin impediram o ataque de uma grande besta na cidade.
O tumulto reduziu por instinto.
Todos ouviram.
Melissa continuou:
— Sua Majestade enfrentou a ameaça pessoalmente para impedir que Cervalhion fosse destruída completamente.
Os olhos dela percorreram a multidão.
Firmes.
Controlados.
— Ainda estamos avaliando o que aconteceu na ponte. Mas nesse momento nossa prioridade é salvar os sobreviventes.
Algumas pessoas assentiram imediatamente.
Outras trocaram olhares inseguros.
Porque ninguém sabia exatamente o que tinha visto.
Alguns lembravam da besta branca.
Outros lembravam de Ian protegendo civis.
Outros só lembravam da luz.
Da explosão.
Melissa percebeu isso.
E percebeu também que enquanto a cidade estivesse confusa…
Ela ainda podia controlar a narrativa.
Um homem deu um passo à frente.
— O Guardião vai voltar?
Silêncio.
Melissa sustentou o olhar dele por um segundo.
— Cervalhion ainda está de pé porque a ameaça foi contida.
Não confirmou.
Não negou.
Ela virou imediatamente para os soldados.
— Mobilizem todos os homens disponíveis para controle dos incêndios.
Apontou para o segundo grupo.
— Quero equipes removendo civis da área residencial agora.
Depois para outro oficial:
— Fechem o acesso ao mercado central e organizem rotas de evacuação.
Os soldados assentiram imediatamente.
Melissa endureceu o rosto uma última vez.
— E que ninguém se atreva a espalhar rumores.
O olhar passou pelos guardas.
— Nem sobre monstros. Nem sobre corrupção. Nem sobre o que aconteceu na ponte.
O vento atravessou a praça carregando cinzas entre os destroços da torre quebrada.
— O povo já está assustado o suficiente, e quando a situação acalmar iremos explicar a todos.
Os soldados partiram correndo.
A praça voltou a se mover em caos organizado.

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