Capítulo 108 — Uma Dor Insuportável
Era o momento de tirar satisfações e saber como tudo seria dali em diante. Akane tinha suas prioridades. Se o Kamito realmente se foi, o mínimo que ele merecia era um enterro digno. Sua chegada logo atraiu olhares. Ruby se assustou ao ver a garota, especialmente por ela encarar Raishi com raiva. E ele retribuía com aquele olhar sem demonstrar nada. Ah, como isso tirava Akane do sério… Ele não tinha sentimentos?
Ruby se colocou entre ambos, temendo que Akane pudesse descontar a raiva no Raishi. E ela tinha razão. Por isso, vê-la o proteger deixou Akane ainda mais irada. Ruby estava lá. Ela viu quando Kamito se foi. Ela sempre contestou a participação do jovem casal, e agora defendia quem os trouxe àquele mundo perverso?
— Akane, está melhor? Eu fiquei preocupada. Fiquei imaginando o que você faria quando acordasse. Ainda bem que não tomou nenhuma atitude precipitada, ou sua presença aqui significa isso? — Ruby a encarou com o coração na mão.
Ela sabia como Akane se sentia e que poderia tentar algo. Na tentativa de Ruby se aproximar, Raishi a segurou pelo braço e impediu seu avanço.
— Raishi?! Por quê? — ela o encarou com espanto, mas logo se acalmou. — Você pretende contar tudo a ela? Eu pensei que você deixaria eu contar…, mas tudo bem, faça isso. Mostre o quanto você se importava com ele.
— Obrigado, Ruby. — Raishi então olhou para Akane, vendo nos olhos dela uma chama inédita. — Como está se sentindo? Sinto muito pelo que aconteceu ontem, deve ter sido muito doloroso. Eu sei muito bem como é perder alguém que você ama.
Ele olhou brevemente para Ruby. Seu olhar calmo e sereno era contraditório, no entanto. Ele falava a verdade ou não? Ele então sinalizou para Akane se sentar.
— Eu pedi para o Coruja usar sua Manifestação para encontrar o corpo do Kamito, mas ainda não temos nada. O rio onde ele caiu é muito extenso. Ele pode ter sido levado para qualquer lugar caso tenha mesmo morrido.
— Se você sabe disso, por que ela me impediu? Eu tenho certeza de que Ruby teria pulado da ponte se fosse você no lugar do Kamito, então por que me impedir? Por que eu tenho que viver sendo que quem eu amo pode estar morto?
Raishi sorriu e olhou para o céu avermelhado. Por um instante, Akane se lembrou do Kamito ter contado que, sempre que os dois conversavam, Raishi fazia aquilo pois eles eram iguais. Ambos lutariam a todo custo para proteger tudo que amavam.
— Não venha me dizer que a determinação, esperança e vontades do Kamito estão comigo. Isso significa que ele confiou seus sonhos a mim? Isso não é justo!
— Exato. Kamito era atormentado a todo momento por sua Fúria e isso o apavorou. Antes de vocês se arrumarem para a festa, ele veio até nós e pediu para que você fosse protegida a qualquer custo. — ele baixou a cabeça, contemplando a surpresa e as lágrimas no rosto da jovem. — Ele tinha muito medo de te perder, ainda mais no estado que ele estava. Ele depositou todas as esperanças em você, Akane. Ele queria que você seguisse em frente e realizasse o seu desejo, se algo ocorresse a ele.
— E-ele queria isso? Eu não consigo acreditar… Se ele sentia que algo aconteceria, por que ele não falou algo?! Eu não entendo! Eu não entendo! O Kamito nunca se importou com ele mesmo, mas eu não consigo entender por que ele faria isso! Ele sabia que poderia morrer e mesmo assim escolheu me proteger?!
As lágrimas enfim caíram. Sentia tristeza e raiva ao mesmo tempo. Queria gritar! Mesmo sabendo do desejo da namorada de protegê-lo, ele sempre priorizou o bem dela, mesmo que precisasse agir escondido para garanti-lo.
— Kamito idiota, você quis me salvar para que eu pudesse proteger aquilo que você ama e pelo que lutava, não é mesmo? Tudo bem. Raishi, Ruby, eu não tentarei nada contra a minha vida. Eu farei o que o Kamito confiou a mim. Eu colocarei um fim nessa maldita guerra! — ela apertou os punhos com força, mais determinada do que nunca.
— É assim que se fala, Akane. Irei aproveitar essa vontade para te ensinar algo novo, algo que nem mesmo ensinei ao Kamito. Tenho certeza de que você será capaz de dominar essa técnica. Eu vejo muito potencial em você.
Sem perder tempo, Raishi se levantou e caminhou até a floresta, dizendo para Akane o seguir. Ela e Ruby trocaram olhares rápidos, e então a jovem se apressou.
Pararam numa clareira no meio da floresta, onde Raishi invocou sua Relíquia.
— Irei te ensinar algo que somente você será capaz de fazer: uma técnica capaz de acabar com a Energia Espiritual de um Manifestador e incapacita-lo de se conectar ao Véu Espiritual. Essa técnica é mais refinada e segura do que aquela que ensinei ao Kamito durante o primeiro treinamento, por isso que somente você é capaz disso.
— Espera aí! Tem certeza de que irá ensinar isso a ela?! Essa técnica não é simples, Raishi! — disse Ruby, que os observava de longe. — Essa técnica chega a ser mais perigosa que a própria Foice de Energia. Tem certeza de que ela está pronta?
— Na situação que estamos, precisamos que todos fiquem mais fortes, Ruby. — ele a olhou com indiferença, mas com peso em cada palavra.
— Eu não posso concordar. Nem mesmo os outros membros da Ordem são capazes de executar essa técnica. Akane, não dê ouvidos a ele. Essa técnica consome muita energia e pode ser letal para o usuário. — ela se aproximou da jovem com esperança.
— Por que eu faria isso, Ruby? Eu preciso ficar mais forte, ou não poderei realizar o desejo do Kamito. Para isso, eu preciso de mais poder. Eu aprenderei essa habilidade e qualquer outra que for preciso. Eu farei qualquer coisa para ter o Kamito de volta! — Akane elevou sua energia, fazendo surgir em seu corpo as Vestimentas Espirituais e o sobretudo que Kamito lhe deu. Ela então encarou Raishi com seriedade. — Vamos começar logo com isso, Raishi. Eu não serei mais o escudo que protege o Kamito, agora eu serei a flecha que carrega a sua vontade!
O treinamento particular de Akane, enfim, se iniciava.
Enquanto isso, o Império revelava aos eudorianos sua verdadeira face. Vários ataques foram ordenados, cidades foram destruídas e pessoas de extrema importância eram assassinadas. Impero todos os seus recursos para eliminar aqueles que estiveram em seu caminho durante todos esses anos. O povo começava a se revoltar. Mas o que civis poderiam fazer diante das chamas da guerra?

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