Capítulo 13 - A Estranha Cidade - Parte 1
O sol brilhava forte no céu.
O vento quente trazia areia fina que grudava no suor que escorria pela pele. Somado a isso, havia um cheiro de leite azedo característico da união entre falta de banho e calor intenso.
Desagradável.
— Já estamos chegando, Sr. Durak? — Ethos perguntou, com a fala arrastada.
— Quase — respondeu Durak, de forma firme.
Ethos caminhava arrastando os pés enquanto mantinha os braços largados para baixo.
— Tá muito quente! Minha língua vai cair, preciso de água!
Durak mantinha a postura, como se o calor não o afetasse.
— Vai se acostumando, pirralho — o baixinho respirou fundo —, o deserto é muito pior. Claro, dessa vez vamos tentar não derrubar do penhasco a bolsa com quase toda nossa água…
Ethos coçou a cabeça e fez um sorriso torto.
— Desculpe por isso…
A dupla seguiu caminhando até pararem de frente aos portões da nova cidade.
— Pirralho — Durak levantou a cabeça enquanto segurava as alças da sua grande bolsa —, vamos descansar e nos preparar bem, o deserto não é brincadeira.
— Tá bom, Sr. Durak — disse Ethos com um sorriso no rosto. — Finalmente vamos tomar água!
— Já falei, não me chame de senhor! — resmungou, irritado.
Era uma cidade pequena. As pessoas os encaravam de um jeito estranho. Ethos estava bastante desconfortável; já Durak, parecia nem ligar.
O mais estranho era a sujeira do local, a cidade tinha um cheiro de algo podre e os moradores pareciam muito magros. Mas Ethos preferiu não fazer perguntas por enquanto, já que Durak parecia tranquilo.
Vou me manter em alerta, pensou.
Chegando na hospedaria, eles se dirigiram para a recepção. Era um lugar velho que fedia a mofo e possuia pouca luz. Cada passo que davam as tabuas rangiam. Além disso não havia ninguém lá além do balconista.
— Um quarto com duas camas — pediu Durak, com a maior naturalidade.
Os olhs de Ethos quase saíram da cara de espanto. Afinal, em todas as viagens ele pedia quartos separados.
Ué… Será que as mulheres daqui não são do agrado dele?
…Não, não acho que seja isso.
Realmente, essa cidade é estranha…
Adentrando ao quarto, o garoto estava alerta, reparando em todo o local. Já Durak, como de costume, jogou sua bolsa no chão ao lado da cama. Então, ele se virou para Ethos e fez um movimento com o dedo apontando para cima.
Ethos na mesma hora abriu os braços, fazendo uma energia verde passar por todo seu corpo, seguindo desde o seu peito até a ponta dos seus dedos. Ele moveu os braços e o vento começou a girar ao redor deles, formando uma cuidadosa redoma de ar, cujas correntes se moviam de forma precisa e ordenada.
Durak ajoelhou-se e apoiou as mãos no chão, levantando um leve brilho vermelho.
— Hahahá! Demorou, pirralho — gargalhou Durak, enquanto se levantava. — Mas fez muito bem.
— Hum… Obrigado, Sr. Durak — respondeu orgulhoso, enquanto mantinha os braços abertos. — Afinal, foi você quem me ensinou a fazer a zona de silêncio. E o que foi essa coisa com a mão? Sorte que eu entendi o sinal — sorriu meio sem graça.
— Seu pirralho… eu só te ensinei a andar em silêncio, mas isso aí você inventou sozinho. Essa redoma que prende o som… você é uma figura mesmo — disse Durak, apoiando as mãos na cintura.
Ethos levantou uma das sobrancelhas.
— E o que você fez no chão?
— É que dá pra escutar pelo chão também — o velho baixinho cruzou os braços. — Tô controlando as vibrações, igual você com o ar — ele forçou um pouco o pé direito contra o chão, fazendo uma leve luz vermelha piscar sob seus pés. — Viu?
— Sério? — Os olhos do garoto brilharam. — Faz sentido já que o som também anda na terra.
— É só por precaução — afirmou.
— Incrível, Sr. Durak! — disse Ethos, animado. Mas em seguida, franziu a testa. — Agora… você vai me dizer o que diabos tá acontecendo com essa cidade?
Durak suspirou profundo.
— Sinceramente? — ele se sentou na cama, cruzando os braços. — Não faço a menor ideia. Essa cidade sempre foi muito pobre – afinal, não é nada fácil viver do lado do deserto –, mas sempre teve um povo feliz e orgulhoso.
— Você também não sabe? — respondeu Ethos, levantando somente uma das sobrancelhas. — E por que entramos então? Você parecia tão calmo.
— Pirralho, nessas horas você precisa manter a calma e analisar a situação. — Durak lançou um olhar firme no garoto. — Se a gente voltasse sem água e comida… íamos morrer. Precisava fingir que estava tudo bem, pra ninguém desconfiar. E você foi muito bem acompanhando o fluxo das coisas também.
Ethos fechou os olhos e baixou a cabeça.
— Desculpa, se eu não tivesse perdido nossa água…
— Relaxa! Além disso, eu quero entender o que há de errado aqui — Durak começou a coçar sua barba grisalha. — Eu tenho um amigo que mora por aqui. Vamos comer, nos limpar e amanhã a gente investiga. Tenta agir com naturalidade.
Ethos assentiu.
Após a conversa, voltaram ao balcão para perguntar sobre o jantar.
— Como não tem comida? — perguntou Durak, batendo com o punho no balcão.
— Simplesmente não tem — respondeu o atendente, sorrindo — mas temos água.
Ele entregou apenas um copo d’água para os dois.
Durak olhou com as veias do pescoço estourando de raiva.
— Só um?
— É o que temos — o atendente sorria cada vez mais.
O estômago de Ethos se revirou.
Durak entregou o copo à Ethos, bufando.
— Quer saber tô muito cansado pra isso. Amanhã a gente resolve.
E assim, ambos foram dormir preocupados com a noite que estava por vir, afinal ambos ainda estavam famintos e cansados da viagem.
…
No outro dia.
Ethos e Durak foram surpreendidos ao sair do quarto por duas pessoas paradas diante da porta.
Era arrepiante. Ambos tinham olhos fundos e vazios, bochechas tão magras que deixavam à mostra os ossos do crânio, os braços finos como gravetos. Em contraste, exibiam um sorriso exageradamente grande, formando uma imagem profundamente perturbadora.
— Olá, forasteiros. Bem-vindos à nossa maravilhosa cidade, o lugar mais feliz do mundo! — disse um deles, com um entusiasmo quase fúnebre.
— É… claro, uma ótima cidade — Durak respondeu meio sem graça, tentando disfarçar o incômodo.
— Bom… bom dia — Ethos seguia o fluxo.
Sem perder tempo, desceram as escadas e saíram da pousada.
Eles estavam indo à casa do amigo de Durak. Pelo caminho, perceberam que todos os residentes os encaravam com um sorriso aterrorizante e estavam muito magros, como quem não come há semanas.
Até que, enfim, chegaram.
Portas fechadas. Vidros quebrados. Poeira. Sujeira. Silêncio. Abandono.
Durak estranhou, costumava ser uma linda padaria onde o amigo dedicava a vida.
— O que aconteceu aqui? — murmurou o velhinho.
Toc-toc-toc.
— Olá, tem alguém em casa?
Silêncio.
— É muito estranho. Olha, não está trancada — disse Durak, já adentrando o local. — Pirralho, fica atento.
Ethos apenas assentiu.
Os dois entraram devagar.
Pratos quebrados cobriam o chão. Poeira por toda parte. Prateleiras quebradas, copos espalhados. Um cheiro desagradável de leite azedo e mofo.
Mas tudo aquilo se tornou secundário.
Atrás do balcão, um homem permanecia de pé, imóvel. Estava magro como todos naquela cidade e… sorrindo.
Durak deu um pulo de susto.
— DORAN?!
Aquele homem virou o pescoço lentamente olhando em direção aos dois.
— Olá… Durak… meu amigo… quanto tempo… — ele falava lentamente, mantendo sempre o sorriso assustador.
— O que diabos aconteceu aqui? — Durak deu um passo à frente. — O que houve com sua loja?
— O que aconteceu…? Bem… antes eu, minha loja, essa cidade… tudo era muito podre… agora está perfeito…
Durak ficou boquiaberto. Ethos permanecia em silêncio analisando a situação.
— Como assim perfeito? — Durak se aproximou mais. — Está um caos, há quanto tempo você não come?
— Comida…? — o sorriso do estranho homem se abriu um pouco mais. — Isso é para os pecadores… Agora encontramos a verdadeira luz… Ele nos ensinou o caminho da verdade…
— Ensinou? Como assim? Que merda estragada você comeu? — O baixinho esbravejava.
— Pobre Durak… Há há… — ele riu lentamente. — Que Deus perdoe sua ignorância… Você vai entender… Ele vai fazer você encontrar a verdade…
Durak perdeu de vez a paciência.
— DE QUEM CARALHOS VOCÊ TÁ FALANDO?
Os olhos do homem se abriram um pouco mais.
— Do nosso novo rei… Nosso Libertador… O Iluminado Aurélion…
Naquele momento, Durak engoliu seco.
Doran dizia coisas sem sentido com aquele sorriso…. mas deixou uma lágrima escorrer de seus olhos sem vida.
— Entendo — Durak baixou a cabeça. — Vou encontrá-lo, então. Te vejo depois, velho amigo.
Ambos deram a volta e saíram do estabelecimento.
Já do lado de fora, Durak falou discretamente para Ethos enquanto caminhavam.
— Pirralho, vamos pegar nossas coisas e dar o fora dessa cidade o mais rápido possível.
Ethos assentiu, tentando ser discreto.
— Não é algo que podemos lidar sozinhos — completou.
Os dois seguiram a passos rápidos.
À medida que caminhavam, mais e mais olhos os observavam.
Aproximavam-se.
Cada vez mais perto.
Até que os dois pararam, ficando estáticos por alguns segundos.
Na entrada da pousada, uma multidão de magrelos os aguardava.
Sempre sorrindo.
Eles estavam completamente cercados.
Ethos olhava para todos os cantos buscando uma saída.
Podemos fugir?
Lutar?
O que está acontecendo?
Suor escorria pela sua testa. O cheiro podre de sujeira não ajudava. Não queria lutar, afinal eram pessoas visivelmente doentes. Porém talvez não houvesse outra saída.
Ele olhava para Durak, tentando buscar alguma resposta.
Nada.
Ethos apertou suas espadas ainda embainhadas, em posição de batalha.
Durak colocou a mão em seu martelo, também se preparando.
Até que…
Do meio da multidão, surgiu o recepcionista da hospedaria, com os dentes amarelados bem à amostra.
— Queridos visitantes! Não estão pensando em ir embora, né!?
Durak, sem graça, tentou argumentar.
— É…temos assuntos a resolver…
— Não, não, não — interrompeu o homem. — Vocês não podem ir sem visitar nosso rei…
— Rei? — Um arrepio subiu pela espinha de ambos.
— Sim, o nosso salvador. O Iluminado…
Durak forçou um sorriso, tentando disfarçar sua raiva.
— Talvez na próxima.
— Não, não, não! — insistiu o homem. — Nós levamos vocês até ele.
A multidão começou a avançar, quase os empurrando.
— É… talvez uma passadinha — disse Durak, passando a mão atrás da cabeça e olhando para Ethos com uma expressão que transmitia exatamente o que ele estava pensando: “Fodeu.”

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