Capítulo 12- Com amor, Ethos.
Querida mãe,
A viagem tem sido incrível.
Desculpa só entrar em contato agora. É a primeira cidade que passamos que tem um sistema de entrega de cartas eficiente.
O Sr. Durak é bastante popular, sabia? Assim que chegamos na aldeia algumas mulheres vieram falar com ele. Pareciam chateadas com a partida.
Depois disso, adivinha? Durak me levou naquele local com Wyverns.
Sim, não são dragões. O moço me explicou a diferença: dragões são um pouco maiores e têm um par de asas separado dos braços, enquanto nos Wyverns as asas saem de seus braços dianteiros.
Pra mim, dá no mesmo. Devem ser como primos ou algo do tipo.
Eles são incríveis! Com várias cores, peles duras e dentes enormes. Além disso, são muito grandes. Parece que dá pra montar até três pessoas por vez.
Mas o que eu não estava esperando foi escutar o Sr. Durak falando “Que horas partimos?”. Fiquei em choque, como assim partimos?
Perguntei e ele disse: “Como você acha que vamos descer as montanhas” e riu daquele jeito escandaloso dele.
Na hora fiquei muito animado.
Mas quando me fixaram em naquele grande quase-dragão, meu sangue chegou a trincar de tão gelado.
QUE MEDO!
Aquele bicho começou a bater as asas e subir mais e mais, até quase bater no céu. Claro, eu só consegui abrir os olhos alguns minutos depois da decolagem.
É assim que chama, sabia? “decolagem”.
MUITO LEGAL.
E, mãe… que incrível. O céu era infinito, o vento gelado passava por todo o meu corpo. Ainda bem que eu estava com a capa que você me deu, ela realmente protege do frio.
O céu estava azul, mais azul que o normal. A gente tinha uns óculos pra não entrar vento nos olhos, então era seguro olhar.
Um grupo de Wyverns se aproximou, quase como se estivesse cumprimentando a gente.
MUITO LEGAL!
Eu tentei falar com o Sr. Durak, mas lá em cima a gente não consegue escutar nada direito. Só entendi algo sobre manter a boca fechada para não comer insetos. E assim eu fiz.
Estava tudo incrível, um passeio agradável.
Até que me lembrei do que o instrutor disse antes de sairmos. Algo sobre um sinal pra segurar firme, porque pra sair da montanha tem fortes rajadas de ventos ascendentes, então sacode MUITO.
Vi o sinal, segurei firme.
QUE MEDO.
POR FAVOR DRAGÃO DE ARAQUE SEJA FORTE!
Mãe, eu tinha certeza de que morreria.
O vento era tanto que era impossível manter a boca fechada. Comi pelo menos 3 insetos. Além disso, aqueles óculos não serviram de nada! O vento deu um jeito de passar por ele, meus olhos quase saíram pra fora.
O falso-dragão sacudia pra lá e pra cá, tentando vencer a poderosa correnteza de vento. Posso jurar que escutei o Sr. Durak chorando, mas ele nega vigorosamente.
O condutor falou que foram somente alguns segundos. Pareceu horas…
ASSUSTADOR.
Porém, logo em seguida a calmaria voltou.
E, mãe…
QUE MUNDO ENORME!
Lá de cima, depois de passar as montanhas dava pra ver tudo. Os rios, as florestas, conseguia ver até o mar à distância. Você tinha que ver.
A forma como o Wyvern se defendeu de todo aquele vento, como se mexia, como voava, era simplesmente surreal! Minha cabeça estava a mil.
Li sobre como as aves voam nos livros que Leo me emprestava, mas vivenciar é uma experiência totalmente diferente.
Sinto falta do Leo, por onde será que ele anda? Tenho lembrado muito dele ultimamente, as coisas que ele me ensinou estão sendo muito úteis.
Ainda não entendi como funciona essa bússola que ele me deu. É estranha… parece quebrada, não aponta pro norte, nem pra lugar nenhum.
Ele não largava essa coisa por nada, não estaria quebrada, né?
Enfim.
À medida que fomos descendo dava pra ver os grandes muros que cercam a cidade. Do que será que estão se protegendo? Ninguém soube me responder.
Aos poucos, ela tomava cada vez mais forma. Apareciam: Casas, prédios, lagos, tudo foi ficando cada vez maior.
Até que, comecei a ver pessoas, muito pequenas, como formigas, e iam ficando cada vez maiores e maiores.
SIMPLESMENTE INCRÍVEL.
Sério, você precisa voar um dia, apesar do medo e do susto, FOI DEMAIS!
Ah… queria que você tivesse visto comigo.
Então, aterrissamos. “Aterrissar” palavra engraçada né, mas foi assim que o condutor falou.
A cidade era muito grande, nunca vi tanta gente. Tinha barracas com frutas e comidas que eu nunca tinha visto e MUITA gente, fiquei até meio tonto.
Sr. Durak me comprou algumas frutas para experimentar. Tinha uma verde que parecia deliciosa, mas quando dei uma grande mordida: MUITO AZEDA!! Ele riu muito da minha cara. Você me paga Sr. Durak!
Depois procuramos um local pra dormir. “Dois quartos” ele pediu ao recepcionista. Perguntei o porquê, já que eu tinha visto que eram caros e eu não me importaria de dividir um quarto com ele.
Ele só me respondeu “quando você for mais velho eu te conto, pirralho.” Daquele jeito dele. Um homem de poucas palavras.
Naquela hora, eu só decidi não pensar sobre. Mas agora, pensando bem, com certeza eram mulheres. Afinal, nessa viagem ele se mostrou um tanto ativo nesse sentido.
No outro dia, fomos comprar alguns equipamentos. A viagem foi à carroça e durou dias até a próxima cidade.
Mantimentos, rações, água. Fiquei impressionado com a quantidade de coisas que são necessárias nessas viagens.
Mais tarde fomos até a guilda de aventureiros. Sr. Durak já tinha deixado preparado para seguirmos viagem junto a alguns aventureiros que fariam a escolta de alguns suprimentos que seriam vendidos na outra cidade.
Eu olhei o mapa, mas não entendi nada, as cidades tinham nomes impronunciáveis. Perguntei a respeito, me falaram que tinha a ver com a linguagem antiga. Bem, não importa, nunca fui bom com nomes mesmo.
Ah, mãe! Eu fiz meu primeiro registro como aventureiro! Rank E. É o nível iniciante, o moço da guilda me explicou que fazendo missões posso subir o rank.
Ele disse que essa escolta já contava como minha primeira missão, porém pelo meu rank e pelo fato de ser uma carona não vou ganhar dinheiro.
É justo.
Mas ao finalizar, ganhei um carimbo. Aí ao acumular carimbos dá pra subir de rank e claro vou conseguir melhores missões e mais dinheiro com isso. Além disso, tenho alguns de missões que fui fazendo no caminho. Talvez eu ja consiga subir de rank, to ansioso.
Na viagem, éramos cinco na escolta: Nós dois, um aventureiro rank B e dois rank C. Não me pergunte o rank do Sr. Durak porque ele se recusou a falar, mas acredito que seja alto já que os outros o tratam com muito respeito.
Ou talvez seja só a idade. Vai saber.
Além disso, tinha dois mercadores levando suas mercadorias.
Nas carruagens era meio chato, não tinha muita coisa pra ver além de mato e mais mato. Mas sempre que a gente parava o Sr. Durak aproveitava para me ensinar um pouco mais sobre defesa estilo terra.
Ele me explicou como funcionam as técnicas do vovô. Eu sempre quis saber como os usuários de fogo faziam pra não congelar, já que pra liberar calor você gasta energia e acaba deixando o corpo frio no processo.
O vovô resolveu isso de forma simplesmente genial. Lembra que você me contou que ele tem um núcleo quase todo de fogo? Então, ele usa o pouco que tem do elemento terra e fortalece seu corpo como uma rocha, por isso ele é tão resistente.
Além disso, ele usa magia de som pra transferir as ondas pelo corpo. Aí, pra ele não congelar o que ele faz? Ele tira o calor da terra. Ele puxa, transfere pelo seu corpo e libera.
Quem diria que aquele rabugento era tão astuto né? Simplesmente genial!
Sr. Durak me falou que ele criou isso adaptando a técnica de fortalecimento do elemento terra do povo de Dvergar, que é de onde vem o Sr. Durak. Além disso, hoje quase todos os usuários de fogo de elite usam. Antes eles precisavam ficar se abastecendo com pedras mágicas de calor.
E claro, sabendo disso, insisti para que o Sr. Durak me ensinasse, até que ele aceitou. Hihihihi. Só que é muito difícil, ele não sabe explicar bem, fica falando pra “sentir a terra, ser a terra” tudo meio vago.
Tem também o que ele chamou de sentido sísmico, ele diz que dá pra “enxergar” com as vibrações da terra. Isso eu entendi um pouco mais. Ainda assim, é bem difícil, mas aos poucos até que estou pegando jeito.
E o que terra e vento têm em comum? Sei lá, mas é sempre bom ter possibilidades, afinal nunca se sabe quando vai precisar de uma defesa sólida como a do vô ou do Sr. Durak.
Enfim, o treino é bem pesado, envolvia muito treino muscular, afinal tem que ter músculo pra fortalecer, é o que diz o Sr. Durak pelo menos.
Ah outra coisa, lembrei agora. Muito legal que você colocou algo na bolsa pra somente eu conseguir usar.
Foi muito engraçado ver as pessoas tentarem levantá-la. Uma vez eu pus sem querer em cima das roupas do John, um dos aventureiros, enquanto ele tomava banho no rio.
Ele ficou possesso de raiva. Pulava pelado tentando retirar suas roupas Hahahá. Foi muito engraçado!
Falando nisso ele é ótimo com espadas, pude treinar com ele nesse período de viagem, o estilo dele é bem diferente.
Ah e teve um dia… Hahahá, muito engraçado… Um grupo de ladrões tentou roubar a gente. Péssima escolha, levaram uma surra. Mas aí um deles pra não sair de mãos vazias tentou correr com algo que parecia ter valor, e adivinha o que ele escolheu?
MINHA BOLSA.
Hahahahahá.
Ele caiu tão feio no chão que até desistiu de tentar fugir. Você tinha que ver.
Nessas horas Durak é um tanto sério e rigoroso, ele fez questão de prender os bandidos e levar para as autoridades. É o correto no fim das contas.
A viagem seguiu, passamos por mais três outras cidades. Muita gente diferente, muitas comidas diferentes. Mas nenhuma tinha o sabor da sua comida, mãe. Eu daria tudo pra um ensopado de carne com batatas que só você sabe fazer.
Certa noite, fomos em um lugar em que a comida tinha um cheiro ótimo, mas quando pus na boca, QUEIMAVA! Era pimenta pura. Como as pessoas comem isso? Ainda assim, era melhor do que as rações de alimento que a gente levava no caminho.
Nessa cidade também estava acontecendo o festival das flores. Tinha muitos tipos — rosa, azul, branco — muitas cores e cheiros diferentes. Íris iria amar, queria poder mostrar a ela. Sinto falta daquela pestinha.
Durante a noite, o Sr. Durak sempre saía, a essa altura eu já sabia que ele estava indo pra bordeis. Esse homem não tem jeito.
Durante o dia íamos às lojas comprar coisas como suprimentos, roupas, comida… essas coisas.
Enfim, amanhã vamos em direção a última cidade com esse grupo, vamos chegar na cidade e terminar a missão. Aí vou ganhar meu primeiro carimbo.
Estou feliz de terminar a missão, mas vou sentir falta do pessoal.
Depois disso parece que vamos passar uns dias no deserto, talvez eu não consiga te mandar outra carta, então assim que possível te mando notícias.
Estou morrendo de saudades de vocês. Manda um beijo para Íris e pro vovô. E diz pra ele que quero revanche agora que sei os truques dele. Hahahá.
Espero que vocês estejam bem. E não se preocupe, está tudo bem por aqui.
Com amor,
Ethos.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.