Capítulo 15 - A Estranha Cidade - Parte 3
A lua cheia tomava conta do céu noturno.
Dentro do castelo, numerosos candelabros iluminavam o grande salão. Pilastras brancas adornadas com desenhos abstratos sustentavam o teto, enquanto um piso de mármore reluzia, impecavelmente limpo. Grandes janelas circulares permitiam que o luar invadisse o ambiente em abundância.
Ao centro, uma mesa exageradamente grande dominava o salão.
Ethos foi acordado por um cheiro delicioso. Ele estava faminto. Tentava abrir os olhos, mas suas pálpebras estavam pesadas.
Então, ouviu uma voz ao fundo:
— Acorde cordeirinho.
Ele arregalou os olhos na mesma hora. Deu um pulo na cadeira e olhou ao redor tentando saber onde estava.
Estava sentado à mesa e Durak encontrava-se amarrado à cadeira ao seu lado.
Diante deles havia um grande banquete com todo tipo de comida. Um cheiro delicioso preenchia o ambiente. A barriga de Ethos roncava alto, não lembrava a última vez que havia comido.
Então, as memórias voltaram de uma vez.
Ele se lembrou de onde estava e recobrou a consciência, embora ainda estivesse tonto e fraco.
Como pode ter tanta comida aqui se todos estão passando fome? Ethos se perguntava enquanto salivava.
No outro lado da mesa, Aurélion o encarava. Sentado perfeitamente ereto, mantinha a postura impecável de um nobre.
— Veja, meu rebanho preparou esse banquete só para vocês. Creio que estão famintos — disse ele, exibindo sorriso sádico.
Ethos respirou fundo e decidiu entender a situação antes de agir.
— Quem é você?
— Vejo que decidiu se comunicar como gente. — Aurélion inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos sobre a mesa. — Há-ha-ha. Eu sou Aurélion, o enviado do verdadeiro Deus.
Ethos apertou os braços da cadeira.
— Deus enviou você?
— Sim. E ele quer que eu salve você também, meu cordeirinho. — Aurélion ergueu uma das mãos e apontou para a comida. — Não fique tímido, aproveite.
Diante da refeição, a barriga de Ethos roncou ainda mais alto.
— Como tem tanta comida aqui? — perguntou sem conseguir tirar os olhos da comida.— Lá fora não tem comida nenhuma.
— Oh, mas é claro que não tem — Aurélion negou com a cabeça. — Comida é pecado. Esta será sua última refeição. Espero que esteja do seu agrado.
Ethos mal conseguia pensar. Sua visão estava levemente turva e a fome consumia sua consciência a cada segundo. Ele sentia que poderia desmaiar a qualquer momento.
— Esse deus…
— O verdadeiro Deus! — interrompeu Aurélion.
— O… verdadeiro deus… — repetiu com relutância. — Ele quer que o povo passe fome? Eles estão sofrendo!
Aurélion cruzou os braços e balançou a cabeça novamente em negação.
— Não é sofrimento. É liberdade!
— Liberdade… do que?
Aurélion se inclinou para trás, impaciente, como se tivesse que explicar o óbvio.
— Quando eu era criança, via o mundo como você. Eu não conheci meus pais e a fome me acompanhava todos os dias. A rua era minha casa. Eu pedia comida, e as pessoas me ignoravam. Houve momentos em que pensei que eu não era real.
Ethos abriu um pouco mais os olhos e se inclinou de leve para frente.
— Deve ter sido horrível — comentou.
— Na época, foi — Aurélion soltou o ar devagar e descruzou os braços. — Mas percebi que eu era bem real quando me deram uma surra por tentar roubar um pão. Entendi que as pessoas me viam. Elas apenas preferiam me ignorar. Eu odiei o mundo, as pessoas e até mesmo Deus — um sorriso surgiu em seu rosto enquanto ele erguia os olhos para o teto, nostálgico. — Eu era tão ingênuo.
Ethos se esforçava para escutar com atenção, mas o cheiro da comida o distraía. Lutava contra a fome como podia.
Aurélion, por outro lado, ergueu um uma taça com um líquido escuro e bebeu com delicadeza. Depois, pegou um pequeno guardanapo de pano e enxugou os lábios.
— Um certo dia — continuou —, quando eu já não tinha mais forças para caminhar, caí no chão. “É tão injusto”, eu pensava. O que eu tinha feito para merecer aquilo? Por que eu havia nascido? Nada fazia sentido.
Ethos olhou de canto de olho para Durak que permanecia desacordado. Então, começou a olhar em volta para encontrar alguma rota de fuga. Mas sua mente embaralhada não permitia que ele elaborasse qualquer plano.
— Eu nem imagino como foi para uma criança passar por tudo isso… — comentou Ethos, abaixando o olhar.
— Tudo tem seu propósito, garoto — disse Aurélion, com uma voz suave. — Foi então que eu vi… Deus estava lá. Me esperando.
Sua voz foi se elevando.
— A dor, o frio, a tristeza… tudo foi sumindo — ele ergueu os braços enquanto olhava para o alto. — O calor do abraço d’Ele me aqueceu. Ele me escolheu. E então eu entendi.
Ethos levantou o olhar, encarando a cena.
— Entendeu o quê?
— A verdade! — respondeu aos gritos. — A fome era minha amiga! A felicidade só existe quando se rompem as correntes do desejo. Luxo. Riqueza. Prazer. Comida. Sempre que um possui, outro deseja…
Ethos se inclinou para trás.
— Mas isso não faz sentido. Como a fome pode ser um luxo?
— Porque querer não é uma necessidade. É soberba! — Aurélion perdeu a compostura por um instante enquanto um sorriso sádico tomou conta de seu rosto. — A fome é igual para todos. Ela é o que nos une. Ela nos transforma no que realmente somos! O desejo de querer é o que nos corrompe. É dele que nasce o conflito e a guerra. É isso que apodrece esse mundo.
Ele se levantou abruptamente e ergueu os braços para o alto mais uma vez
— A verdadeira perfeição está na fome! — completou.
Ethos engoliu seco e pensou por um instante. O sangue subia à cabeça, mas ele precisava disfarçar sua irritação.
— Mas… eles não estão vivendo — disse em voz baixa —, mal estão sobrevivendo. Todos vão morrer!
Os olhos de Aurélion se voltaram para o garoto. Ele se sentou novamente e sorriu de forma serena.
— Essa é a parte linda — sua voz voltou a assumir um tom suave. — Depois que superarem o desejo, encontrarão a salvação. Deus vai recebê-los. Assim como me recebeu.
POW!
Ethos bateu o punho sobre a mesa.
— Você deve estar de sacanagem, né? — gritou. — Liberdade? Você está manipulando essas pessoas. Elas não escolheram nada. Você escolheu por elas.
O sorriso de Aurélion endureceu.
— Você ainda é muito jovem. Coma logo, você precisa comer para poder pensar melhor. Você não quer que essa deliciosa comida esfrie, ne?
Ethos negou com a cabeça, evitando olhar para a comida.
— Como posso comer sabendo que estão passando fome lá fora?
O sorriso endurecido de Aurélion foi acompanhado pelo surgimento de uma veia na testa.
— Tsc… — ele estalou a língua. — Todos tiveram direito a uma última refeição. Não se preocupe.
A barriga de Ethos roncou ainda mais alto. Sua boca salivava. Por mais que tentasse, não conseguia desviar o olhar da comida.
O cheiro, a aparência, a textura… tudo parecia delicioso.
A tentação era gigante. Seu estômago implorava por um único pedaço. Mesmo sabendo que era errado, ele pensou em ceder.
A comida já tá aqui mesmo. Só um pedaço. Uma mordida não deve fazer mal
Era exatamente o que Aurélion queria. Ethos precisava ceder à fome.
— Aproveite a refeição, está deliciosa — disse Aurélion, lambendo os lábios. — Não se preocupe, todos passaram por isso antes da libertação. Você logo entenderá. Pode comer.
Aurélion olhava fixamente. Seu sorriso crescia cada vez mais.
Ethos estava em transe. Parecia não ter mais volta.
Quando ia se inclinar para comer…
Sentiu no peito o pingente que sua família o havia dado.
Eu não posso decepcioná-los, pensou.
A luz voltou aos seus olhos.
Seus sentidos foram voltando lentamente. Ele encarou aquela comida e pensou no povo faminto. Em Doran chorando. Em Durak caído. Em sua família esperando por ele.
POW!
Ele golpeou outra vez a mesa com força.
— Direito? Essa comida pertence a eles! Você roubou!
Ethos arremessou o garfo no rosto de Aurélion.
Ele desviou
— Fedelho insolente! — rugiu. — Como ousa recusar a palavra do seu salvador? Cansei de você!
Uma energia de cor índigo surgiu da testa de Aurélion e percorreu todo seu corpo até alcançar as mãos. Ele começou a caminhar na direção de Ethos e apontou as palmas para o garoto.
Ethos caiu no chão em agonia.
Com isso, Durak despertou.
O controle mental que o prendia enfraqueceu quando Aurélion concentrou sua atenção em Ethos.
Durak se debateu na cadeira, tentando se desamarrar.
— Mas que porra está acontecendo? — gritou.
Ethos estava agonizando no chão.
Durak tentava, mas não conseguia se soltar.
— PARE! — berrou. — Você vai destruir a mente dele se invadir assim. Ele vai virar um vegetal!
Aurélion não sorria mais. Veias saltavam em sua testa, e o rosto estava vermelho de raiva.
— Cansei desse pirralho. Ele é uma imperfeição que meu mundo não precisa.
— PARE!! — gritou Durak, forçando os braços contra as correntes.
Até que, depois de tanto insistir, as amarras romperam.
Sem perder tempo, ele correu e desferiu um golpe em Aurélion que foi arremessado-o contra a parede.
Dessa vez, ele acertou.
— Seus truques sujos não vão funcionar outra vez! — esbravejou, ofegante.
Sua mente estava impenetrável. Afinal ele não podia fraquejar de novo, Ethos estava em perigo.
Seu velho de merda! — Rosnou Aurélion enquanto tentava se levantar.
Sem perder tempo, Durak seguiu com o ataque. Correu, pulou e desferiu outro soco de cima para baixo.
POW!
Aurélion se lançou para trás no último instante.
Durak errou por pouco, seu punho atingiu o chão com violência, abrindo uma enorme cratera.
Aurélion se espantou com tamanha força. Isso não estava nos planos, pensou.
— Ei, calma… vamos conversar. — Ele levantou os braços e forçou um sorriso torto.
Durak nem deu atenção, continuou avançando.
Aurélion desviava como podia, mas os golpes incessantes de Durak passavam cada vez mais perto.
Desesperado, o inimigo tentou criar clones para confundir sua mente.
Sem sucesso.
Durak rapidamente destruía as ilusões e seguia correndo em direção do verdadeiro. Sua mente agora estava impenetrável.
Aurélion tinha cada vez mais dificuldade em desviar.
Até que…
PAWN!
Um golpe finalmente acertou.
Aurélion conseguiu erguer o cajado a tempo para bloquear, mas a força do impacto foi absurda.
Ele foi arremessado para trás, atravessando uma das paredes do salão.
Cof, cof, cof…
Aurélion tossia enquanto tentava se levantar. Mas antes de ficar totalmente de pé, um gancho de direita atingiu seu queixo
POW!
Ele foi lançado pelos ares.
Durak não pretendia dar tempo a ele.
Ainda no ar, um chute o lançou para ainda mais longe.
Antes mesmo de cair, Durak já estava do outro lado, pronto para aceitá-lo novamente.
E outro soco.
Outro golpe.
E outro…
Aurélion era atingido por todos os lados. Seu corpo sequer chegava a tocar o chão.
Era uma sequência quase interminável.
Uma luta completamente unilateral.
Ethos, caído e sem forças, observava. Admirava a força e a velocidade de Durak.
Isso que ele está sem seu martelo, pensava.
Ele estava imparável.
Insaciável.
Mesmo com fome.
Cansado.
Não cedia.
Até porque, se parasse por um segundo, podia não ter forças para continuar.
Barata maldita, morre logo, pensou Durak, tentando finalizar a luta o mais rápido possível.
Aurélion lutava para se manter consciente. Usava magia defensiva para diminuir o impacto dos golpes e proteger seus pontos vitais. Ainda assim, sofria danos consideráveis a cada acerto.
Até que…
Sons de portas se abrindo ecoaram pelo salão.
Durak parou por meio segundo.
Aurélion, enfim, atingiu o chão.
Pessoas invadiram o ambiente e avançaram contra Durak.
Ele se virou, furioso, e começou a desviar sem revidar. Tentava escapar da multidão sem machucá-los.
— Seu covarde — gritou Durak. — Vai se esconder atrás deles? Como pode usar as pessoas como reféns?
Aurélion se levantou com dificuldade e limpou a poeira das roupas. Seu rosto estava inchado, e sangue escorrendo por todo seu corpo.
Mas… estava sorrindo.
— Há-ha-ha — riu em tom de deboche. — Suas armas são seus músculos. A minha é o amor dos meus cordeirinhos.
E cada vez mais gente aparecia.
Não era um exército. Não eram vilões. Não eram criminosos. Eram pessoas. Apenas pessoas.
Manipuladas. Usadas. Doentes. Famintas.
Ethos permanecia no chão.
Durak tentava de tudo para não ser preso pela multidão.
Aurélion — ensanguentado, mancando e ainda sorrindo — começou a caminhar na direção de Ethos, usando o cajado como bengala.
Durak empurrou algumas pessoas para o lado e saltou em cima dele.
— AAHH! — Aurélion gritou.
Uma onda de energia explodiu ao seu redor, arremessando Durak e vários cidadãos para longe.
Durak tentou se levantar, mas foi imediatamente soterrado pelas pessoas que se jogavam sobre ele.
Aurélion chegou em Ethos e o agarrou pelo pescoço.
— A culpa é sua! — gritou. — Você estragou meu mundo perfeito!
Seus dedos se apertaram ainda mais ao redor do pescoço do garoto.
— Depois que eu terminar com você, será fácil quebrar a mente daquele velho anão. Há-ha-ha.
Da testa de Ethos surgiu uma luz índigo.
Ele gritava alto, em desespero.
Sua mente estava sendo invadida.
Durak tentou desesperadamente se soltar.
Não conseguiu.
A voz de Ethos foi enfraquecendo à medida que sua consciência se desfazia.
Durak gritava.
Aurélion sorria.
Ethos se perdia na escuridão.
Quando ele estava prestes a colapsar…
POW!!
O impacto ecoou pelo salão. Aurélion foi arremessado para longe.
Ethos caiu no chão, mal conseguindo permanecer consciente.
À frente deles, uma figura coberta por um manto negro e usando uma máscara havia acabado de atingir o vilão.
Aurélion se levantou, indignado.
— Por que você está no meu caminho? — ele caminhou bufando, na direção à pessoa misteriosa. — Ele me permitiu…
— Calado! — A palavra foi seca. Absoluta.
Aurélion obedeceu. Pela primeira vez, uma expressão de medo surgiu em seu rosto.
Ao redor, os sorrisos vazios se desfizeram, e todas as pessoas caíram desacordadas.
Durak, agora livre, correu imediatamente para junto de Ethos.
— Pirralho, como você está?
Ethos forçou um sorriso fraco.
— Vivo…
E apagou.
Um leve sorriso surgiu no rosto de Durak.
Então ele se voltou para a figura misteriosa.
— Quem é você? Por que nos ajudou?
Aurélion permanecia em silêncio, como se tivesse seus lábios colados.
O ser misterioso observou os dois por alguns instantes.
Então, com o balançar do manto, uma energia negra os envolveu. No instante seguinte, ele e Aurélion desapareceram sem deixar rastros.
O que diabos tinha acabado de acontecer?, perguntou-se Durak.
Aos poucos as pessoas foram acordando e dessa vez não havia sorrisos vazios.
Durak caiu no chão, respirando aliviado.
A barriga de Ethos voltou a roncar.
Durak sorriu de leve.
Quem são eles? O que querem? Quem era aquela pessoa estranha e porque os ajudou? Eram muitas as dúvidas que tinham. Mas isso podia esperar, o momento agora era de alívio.
Depois de algum tempo, Ethos acordou, mas sua mente ainda estava nebulosa.
Algumas pessoas choravam pelo trauma do que haviam passado. Outras sorriam verdadeiramente pela libertação.
Todos tinham lembranças de tudo que havia passado. De tudo que haviam dito e feito. De como concordaram com aquele lunático.
Doía.
Após algum tempo, depois de ajudarem os moradores a se acalmar e cuidar dos feridos, Durak e Ethos foram investigar o castelo.
Procuravam o martelo de Durak e as espadas de Ethos.
Nos fundos, encontraram um grande cofre. Lá estavam seus pertences e muita comida escondida.
— Aquele hipócrita comia muito bem — resmungou Durak.
Ethos concordou.
— O que faremos? Talvez essa comida dure algumas semanas, mas e depois? — perguntou.
— Eu tive uma ideia — Durak abriu um sorriso confiante.
Alguns dias se passaram.
A calmaria pairou após a tempestade.
A comida foi distribuída e, aos poucos, as pessoas foram se acalmando.
Ethos e Durak fizeram o que puderam para ajudar aquela cidade a começar a se reerguer. Mas já era hora de voltar à jornada.
Por enquanto a comida não era mais um problema. Graças aos contatos de Durak, mais comida chegaria em breve. Depois disso, o comércio e o plantio poderiam voltar ao normal, permitindo que a cidade se recuperasse.
Como despedida, o povo decidiu organizar uma grande festa. Queriam agradecer aos dois pela ajuda e comemorar a verdadeira liberdade.
Era um recomeço para uma cidade que havia perdido todas as esperanças.

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