Era de noite.

    O vento batia na praça da cidade enquanto Durak e Ethos estavam em uma mesa, comendo e bebendo. Era a merecida festa após a libertação de Aurélion.

    Ethos estava inquieto, queria perguntar algo, mas não sabia como.

    Durak percebeu e deu a deixa.

    — Anda logo, pirralho — ele levantou um grande copo e bebeu. — Sei que tem perguntas.

    Ethos olhava para os lados, buscando as palavras certas.

    — É… Você foi um dos heróis da guerra?

    Durak bebeu um pouco mais e bateu o copo na mesa, se ajeitou na cadeira e começou a falar.

    — Sim… Isso não é um segredo nem nada, só não é algo de que me orgulho.

    Ethos franziu a testa e se inclinou sobre a mesa.

    — Mas você ajudou a salvar o mundo, por que não se orgulharia?

    Durak tomou um pouco de ar lentamente.

    — Eu sei… mas sacrificamos muita coisa.

    — Como assim? — perguntou enquanto se inclinava um pouco mais em direção a Durak.

    Durak abaixou o olhar e apertou o copo com força.

    — Um dia… eu prometo te contar, mas ainda não posso.

    Ethos se apoiou para trás na cadeira e forçou um sorriso.

    — Entendo… Desculpe se toquei num assunto delicado.

    — Tá tudo bem — respondeu enquanto tomava mais um gole de bebida.

    Um silêncio breve pairou no ambiente. Ethos apoiava a cabeça sobre a mão, com o cotovelo descansando na mesa. Já Durak, bebia enquanto admirava as mulheres dançando no centro da praça.

    — Sr. Durak — disse Ethos, interrompendo o silêncio. — Como funciona a magia mental?

    Os olhos de Durak se voltaram para Ethos.

    — Pirralho, eu não sou a melhor pessoa explicando, mas posso tentar. Enfrentei alguns aqui e ali, mas a verdade é que usuários de magia mental são um tanto raros.

    Ethos apoiou os dois cotovelos sobre a mesa e descansou sua cabeça sobre suas mãos, ouvindo atentamente.

    — Basicamente — seguiu Durak. — A magia mental ela manipula sua mente, óbvio. A questão é até onde ela pode te manipular.

    O garoto levantou uma das sobrancelhas. 

    — Como assim? — perguntou.

    Durak se ajeitou na cadeira e começou a gesticular com as mãos.

    — Por exemplo, quando aquele doido usou isso em mim, ele não estava me controlando em si. Na verdade ele brincou com meus sentidos. Pra isso, ele precisa usar a magia em camadas.

    — Camadas?

    — Camadas! — disse, confirmando com a cabeça. — Como uma cebola… ele vai tirando camada por camada, até chegar ao centro. Primeiro você duvida do que sente. Depois do que vê. Depois do que escuta. Quando percebe… tá duvidando de si mesmo.

    — Não entendi… — Ethos se inclinou para trás e cruzou as pernas.

    Durak dá mais um gole na bebida e pensa por alguns segundos antes de seguir com a explicação.

    — Pensa assim… seria como se existissem dois mundos: o seu e o dele. O seu tem suas regras; o dele, as dele. E cada vez que você vai aceitando as regras que ele cria você vai saindo do seu mundo e entrando no dele.

    Ethos franziu a testa e passou a mão no queixo.

    — Tipo… você vai aceitando aquilo como real?

    — É! E então ele vai tirando camada por camada de você. — Durak se inclinou para frente, começando a se empolgar na explicação. — Por exemplo, quando o maluco lá apareceu todo pomposo parecendo um pavão, eu confesso que fiquei um pouco confuso, ele tinha uma aura estranhamente forte. Odeio admitir, mas fiquei com medo de não conseguir te proteger por estar velho.

    Ethos assentiu.

    — Por isso ele falou que você perdeu por medo da velhice? Eu não sabia que você levava isso tão a sério.

    Durak cruzou os braços e fechou os olhos por um momento.

    — Pra falar a verdade, eu também não. É que, no meu auge eu acabaria com ele rapidinho, Hahahá — ele gargalhou e deu um tapa pesado na mesa. 

    Em seguida, ele voltou a cruzar os braços e uma expressão séria tomou conta do seu rosto.

    — Mas a verdade — seguiu Durak. — É que desde aquele dia na floresta… eu percebi que não sou mais o mesmo. Eu fiquei inseguro. E foi isso que ele usou contra mim. Essa foi a primeira camada: eu acreditei que perderia.

    Ethos engoliu seco. Era a primeira vez deles conversando sobre a floresta em muito tempo. Nunca havia passado na cabeça dele que Durak se sentia dessa forma.

    — Acho que estou entendendo… — respondeu Ethos, meio cabisbaixo. — Ainda tenho pesadelos com aqueles Orcs.

    Durak descruzou os braços e começou a olhar para cima.

    — Eu também, pirralho. O que mais me incomoda é que no passado eu nunca teria tomado aquele golpe — lembranças de como ele foi nocauteado começam a tomar sua mente. — E mesmo se tomasse, eu nunca teria apagado daquela forma.

    Durak cerrou a mão com força.

    — Eu deixei seu pai lutar sozinho no final das contas — completou.

    Ethos olhava fixamente para Durak, tentava encontrar as melhores palavras.

    — Eu não sabia que você estava carregando tanto. Durak, você não devia pensar dessa forma.. Sem você e o Cárion, meu pai sequer chegaria inteiro à luta final. Talvez ninguém tivesse saído de lá vivo. E aqueles monstros teriam atacado a cidade.

    Durak fez uma leve negativa com a cabeça.

    — Mesmo assim…

    Ele soltou o ar suavemente, ajeitou sua postura e se voltou para Ethos.

    — Enfim, voltando ao assunto. O metido lá usou isso. Usou minhas dúvidas pra me manipular aos poucos. Primeiro, ele me enganou com uma ilusão muito leve: me fez acreditar que ele estava dois passos pro lado.

    — Por isso você golpeou o vento?

    — Sim, e lá se foi mais uma camada. Eu aceitei a imagem dele no lugar errado, com isso ele teve acesso a minha visão.

    Ethos esticou as pernas e apoiou os cotovelos novamente sobre a mesa.

    — Acho que to acompanhando. Quanto mais profundo, maior o controle. Começou com medo, depois partiu para os seus sentidos.

    — Sim… — respondeu Durak, gesticulando com as mãos. — Quando eu ataquei a miragem, foi a próxima camada: eu senti  que meu punho atingiu alguém. E aí, as camadas foram indo uma por uma. Então, ele me fez acreditar que eu tinha batido no Dorian.

    Os olhos de Ethos se arregalaram.

    — Que loucura!

    — Pois é — ele confirmou com a cabeça. — mas foi aí que eu perdi de vez. Porque naquele momento eu não acreditava mais no que eu via ou sentia. Perdi a confiança no meu mundo e o dele se sobrepôs. Ele me dominou completamente.

    Ethos estava boquiaberto com as informações. Durak sempre pareceu tão orgulhoso, mas estava abertamente falando sobre suas fraquezas. Ele é sempre uma surpresa, pensou.

    — Por isso desmaiou? — perguntou Ethos.

    — Sim, Aquele porra era um babaca, mas nunca vi uma magia mental tão forte.

    Ethos se inclinou novamente em direção a Durak.

    — Mas por que não funcionou em mim?

    — Bem… — respondeu, se inclinando para trás. — Sendo honesto, acho que ele não sentia que precisava. Ele sabia que se eu caísse você entraria em desespero.

    Os ombros de Ethos caíram e um pouco de tristeza tomou conta do seu rosto

    — Ou seja, ele não me via como ameaça? — perguntou.

    Durak pensou um pouco antes de responder.

    — De certa forma, sim… Mas depois, você resistiu muito bem. Ele não estava esperando que sua força de vontade fosse tão grande. Você deve ter uma visão de mundo muito forte.

    — Hm… — Ethos estava um pouco cético em relação às falas de Durak. — E aquele lance da comida e do povo?

    — Aí é que fica louco. — Durak se inclinou para frente e voltou a gesticular. — As pessoas não estavam sendo controladas. Na verdade, a visão de mundo delas tinha sido substituída pela dele. Elas ainda eram as mesmas pessoas só que acreditavam no que ele queria que acreditassem.

    — Mas como isso é possível? — perguntou Ethos, com as sobrancelhas levantadas.

    — Então, por exemplo, quando ele contou a história dele pra você, ele queria que você tivesse empatia. E depois, ele queria que a visão de mundo dele fizesse o mínimo de sentido pra você. Tá me seguindo?

    — Sim, ele queria que eu começasse a aceitar, nem que seja um pouco, o mundo dele. E aí, eu sairia um pouco do meu…

    — Isso. — respondeu Durak. — Então, se comesse a comida, aquilo em que você acredita não teria valor nem mesmo pra você mesmo. Sacou? O mundo é o que você o vê. E o jeito que você vê… vem do que você acredita. E se você não acredita… bem, basicamente você estaria abrindo as portas para ele entrar.

    Ethos olhava para Durak atentamente.

    — Faz sentido — disse.

    Durak seguiu.

    — E aí, com sua mente sem proteção, ele poderia invadir manipular suas crenças. Foi o que ele fez com todos. 

    Ethos cruzou os braços e fez uma negativa com a cabeça.

    — Ele é realmente muito cruel.

    — Sim — Durak olhou fixamente para Ethos com uma expressão séria. — O que salvou a gente não foi força ou coragem. Foi você ter se mantido firme nos seus ideais.

    Ethos sentiu aquelas palavras tocarem seu coração. Então, ele apertou forte o pingente em seu colar.

    — Foi graças a minha família.

    Durak observou o garoto apertando o colar.

    — Entendo…

    Então, Ethos voltou para Durak com mais perguntas.

    — Mas o que era aquilo que ele fez comigo depois? Eu senti como se ele tivesse esmagando minha cabeça.

    Durak bufou de leve.

    — Aquilo… Foi crueldade ao extremo. Aquele maluco tentou apagar sua visão de mundo à força. Já que ele não podia te manipular ele queria que o seu ser deixasse de existir.

    Ethos engoliu seco.

    — Preciso ficar mais forte — disse. — De novo eu não pude ajudar em quase nada.

    Durak olhou novamente para Ethos com um sorriso leve.

    — Foi graças a você que a gente sobreviveu aqui hoje. Não só eu e você, mas toda essa gente está livre por sua causa. Esteja orgulhoso! Músculos são mais fáceis de criar do que força de vontade e isso você tem de sobra.

    — Tá bom — respondeu Ethos, um pouco mais animado.

    Um breve silêncio tomou a mesa.

    Ethos pensou por alguns instantes e, em seguida, seguiu com outra pergunta.

    — E como aquelas pessoas desapareceram? Elas estavam ali e do nada sumiram.

    Durak tentou beber mais um gole, mas o copo já estava vazio.

    — Bem… Com certeza aquela pessoa era muito forte. É um tipo de magia muito rara essa que ele usou. Você conhece o conto da origem?

    — Aquele que diz “no início tudo era nada, então nasceu a luz e a escuridão…”?

    — Esse mesmo — disse Durak. — Esse conto fala sobre a hierarquia entre as diferentes magias. Cada magia representa uma das sete cores. Até aí você sabe, né?

    — Sim — respondeu Ethos. — Minha mãe me ensinou sobre isso quando eu era mais novo.

    — Então, até onde eu sei, as magias superiores seriam as que surgiram antes: Luz e Escuridão estão no topo, depois vem Espaço e Tempo.

    Ethos encarou confuso. Durak seguiu.

    — Aquela pessoa que surgiu do nada e sumiu provavelmente domina a magia do espaço. Eu particularmente só conheci uma pessoa que podia usar esse tipo de magia.

    — Magia de espaço? — Ethos pulou da cadeira e quase subiu sobre a mesa. — Como isso funciona?

    — Não tenho a menor ideia, hahahá — gargalhou. — A pessoa que eu conheci não falava muito sobre, mas era realmente poderosa.

    — Uau — o garoto voltou a se sentar. — Eu gostaria de conhecer essa pessoa.

    — Hahahá. Um dia você deve conhecê-la, mas eu acho que as bolsas que usamos para carregar tem algo parecido. Elas são feitas de um material que distorce o espaço, fazendo caber muita coisa. Mas não sei bem se isso seria magia…

    — Entendo… parece ser muito incrível esse poder. Imagina poder aparecer e desaparecer como quiser, ir para qualquer lugar rapidamente. Deve ser impossível derrotar alguém assim…

    — Toda magia tem restrições, pirralho — disse, levantando o indicador. — Não existe nada no mundo que seja infalível. Até mesmo essa magia deve ter suas fraquezas.

    — Faz sentido… Será que vamos encontrar esses dois novamente?

    Durak bufou mais uma vez.

    — Provavelmente. Esse tipo de gente não costuma ficar quieto muito tempo.

    Ethos se encolheu novamente, cabisbaixo.

    — Entendo… Tenho medo de não estar pronto quando a hora chegar.

    — Pirralho. Tudo que a gente pode fazer é se preparar o melhor possível.

    — Sim… — Ethos começou a balançar as pernas. — Se existe magia do espaço… existe do tempo também?

    — Em teoria sim, mas eu nunca vi. Dizem que quem dominava magias de espaço e de tempo eram as fadas. Mas estão desaparecidas há tanto tempo que se tornaram só uma lenda.

    — E você acredita que elas possam ser reais?

    — Quem sabe… O mundo é um lugar grande, cabe todo tipo de coisa.

    E mais uma vez o silêncio paira sobre a mesa.

    Durak então bate o copo sobre a mesa.

    — Chega de lamentação! Isso é uma festa e tá cheio de mulher bonita dançando! Vou buscar mais bebida e vamos festejar. Amanhã o deserto nos aguarda.

    Ethos levantou o olhar.

    — Tá bom!

    E assim a festa seguiu.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota