O sol brilhava intensamente no céu enquanto o vento quente carregava areia em todas as direções.

    Ethos e Durak encaravam a fina mata diante deles. O suor escorria pelo rosto de Ethos enquanto apertava forte suas espadas.

    Tentava ver. Escutar. Sentir.

    Nada.

    Só percebia o leve balançar das folhas das árvores.

    Com seu grande martelo na mão, Durak permanecia firme em posição de combate.

    Após alguns segundos de silêncio, Ethos cochichou, sem desviar o olhar da vegetação. 

    — Você tem certez…

    PUFF!

    Ele foi interrompido quando uma grande cortina de areia se ergueu diante deles.

    Assustado, Ethos deu um passo para trás cobrindo os olhos por alguns segundos. Já Durak, permaneceu imóvel, sem mover um músculo.

    Rapidamente, Ethos se recompôs e abriu os braços. Uma redoma de vento se formou ao redor deles, afastando a areia e lhes devolvendo parte da visão.

    Um sorriso surgiu no rosto de Durak.

    — Boa, pirralho. Mas agora deixa eu te mostrar como se faz.

    Ele levantou seu martelo acima da cabeça, girou-o uma única vez e o cravou no chão. 

    BOOM!

    A onda de choque percorreu a areia ao redor. Num instante, todos os grãos suspensos despencaram de volta ao solo, como se obedecesse à vontade de Durak. A cortina de poeira desapareceu por completo, revelando o que havia à frente.

    Ethos mal conseguiu processar o que acabara de acontecer. Quando a poeira baixou por completo, dez homens os aguardavam, formando um círculo ao redor dos dois. 

    Seu olhar percorria o grupo sem parar. Observava os homens, voltava para Durak, depois tornava a encará-los. Tentava manter a calma enquanto procurava uma saída. 

    Todos eles empunhavam longas lanças de pontas afiadas. O rosto de cada um era coberto por pinturas de padrões estranhos, e seus corpos estavam envoltos por mantos feitos de um material amarelado, quase da mesma cor da areia, que lembrava as escamas dos escorpiões do deserto. Nos pés, usavam longas plataformas de madeira, que os mantinham acima da areia fofa. 

    Durak soltou um leve grunhido e deu um passo à frente, sem hesitar.

    — Olá. Eu me chamo Durak. Esse é meu pupilo, Ethos. Estamos somente de passagem.

    Ele conhece esse povo?, pensou Ethos.

    Sem desviar os olhos dos homens, Durak abaixou lentamente o martelo.

    — Pirralho, as espadas!

    Ethos assentiu. Após um breve instante de hesitação, fincou as espadas na areia e deu um passo para trás.

    Um dos homens deu um passo à frente e ergueu a mão em um breve gesto. Quase instantaneamente, os demais baixaram as lanças.

    O homem, que parecia ser o líder do grupo, voltou sua atenção para Durak.

    — Um Dvergariano com um grande martelo… e com tamanho domínio sobre a areia. Saudações ao Herói Durak, o Digno.

    Em seguida, inclinou a cabeça em uma respeitosa reverência 

    — Eu sou Varro — apresentou-se. — Chefe de uma humilde aldeia que vive no Grande Mar de Areia. Desculpem-nos pela abordagem, estamos tendo problemas com invasores na nossa sagrada floresta.

    Durak retribuiu com um discreto aceno com a cabeça e prendeu o martelo às costas.

    — Vocês devem ser os Arenitas, certo? Ouvi falar sobre vocês. Como me conhecem?

    Varro ergueu a cabeça e manteve a postura respeitosa

    — O senhor é um dos heróis que expulsaram os monstros de nossa areia. Como poderíamos não conhecê-lo? Antigamente, este mar de areia era infestado por essas criaturas. Graças ao senhor, hoje vivemos em paz. Todo o povo Arenita é profundamente grato aos Sete Heróis.

    Ethos guardou suas espadas enquanto permanecia atrás de Durak. Aparentemente a situação estava controlada.

    Durak é realmente importante, pensou.

    Durak soltou o ar lentamente e coçou a cabeça.

    — Entendi… então estamos resolvidos. Mas que história é essa de invasores?

    Varro voltou-se para a floresta e apontou para o rio suspenso.

    — Desde sempre, é dever do nosso povo proteger os deuses que nos dão alimento: os peixes alados. São eles que trazem a água que dá vida a essa floresta. Sem eles, nossa tribo não teria como sobreviver nesse deserto.

    Então é o rio voador que forma a floresta, pensou Ethos.

    Durak permanecia em silêncio.

    — O problema — continuou o líder Arenita — é que eles passaram a ser muito visados por caçadores, já que só existem nesta região. Normalmente, eles permanecem protegidos em um lugar sagrado de difícil acesso. Porém, esta é uma época crucial. Todos os anos, eles criam esse rio flutuante e atravessam o deserto por ele para realizar a desova. Durante essa jornada, ficam extremamente vulneráveis. Qualquer interferência pode ser fatal para a espécie. 

    Ethos não segurou sua curiosidade.

    — Como é que os peixes fazem esse rio voar?

    — Pirralho! — bravejou Durak

    — Não, tudo bem! — respondeu Varro com um sorriso tranquilo enquanto se virava para os dois. — Um jovem deve ser curioso. 

    Em seguida, ele voltou o olhar para o rio suspenso.

    — Em nossa tribo — continuou — acreditamos que isso seja um milagre. É por isso que temos o dever de protegê-los.

    Isso não explica nada…, pensou Ethos.

    — Entendi… obrigado — respondeu, escondendo a frustração.

    Durak, então, forçou um sorriso e apoiou a mão nas costas de Ethos, conduzindo-o discretamente para longe.

    — Bem, não queremos incomodá-los. Vamos indo…

    — Não, por favor — interrompeu Varro. — Seria uma honra recebê-los em nossa aldeia.

    Durak ergueu as mãos, sem graça, enquanto dava alguns passos para trás.

    — Acho melhor não…

    — Temos comida e bebida. Venham! — insistiu Varro

    — Ok! — respondeu Durak imediatamente.

    Ethos olhou para ele, confuso.

    — Durak?

    — Eles têm bebida, pirralho. Vamos, não custa nada. Hahahá — respondeu, já mudando de direção. 

    Varro, então, passou a guiá-los até a aldeia . Os demais homens permaneceram de guarda e  saíram em direções diferentes, deslizando sobre a areia com as longas tábuas presas aos pés. 

    Ethos observou a cena, impressionado. 

    Então é pra isso que serve essas coisas nos pés deles, pensou. Mas como eles conseguem deslizar desse jeito? Deve ser assim que patrulham uma área tão grande quanto esta floresta.

    Enquanto Ethos estava perdido em seus pensamentos, o grupo chegou ao topo de uma das muitas dunas. Varro parou, levou um pequeno apito aos lábios e soprou. 

    Então, uma porta escondida sob a areia começou a se erguer.

    Ethos arregalou os olhos.

    — Uou… que incrível! Como você sabia onde estava? — perguntou, incapaz de conter sua curiosidade.

    Varro abriu um sorriso discreto.

    — Para sobreviver no deserto, temos que aprender a enxergar com os pés.

    Ethos inclinou levemente a cabeça.

    — Sentido sísmico? — perguntou Ethos, intrigado.

    — Aqui não chamamos assim — respondeu Varro. — Mas acredito que seja isso. 

    Durak concordou com a cabeça.

    Em seguida, Varro atravessou a passagem revelada sob a areia. Durak foi logo atrás.

    É realmente uma habilidade útil…, pensou Ethos, seguindo-os.

    Eles entraram em um túnel completamente escuro. Ethos forçava a visão, mas não conseguia enxergar um palmo à frente . 

    Como esse lugar não desmorona?, pensava.

    De repente, sentiu uma mão pousar sobre suas costas.

    — Pirralho, não vai se perder — disse Durak, conduzindo-o pela escuridão do local.

    Droga, preciso melhorar meu sentido sísmico, pensava Ethos enquanto caminhavam em silêncio.

    A escuridão do túnel acabou se tornando uma aliada. Sem poder confiar na visão, Ethos concentrou toda a atenção nos pés, tentando perceber as menores vibrações ao seu redor, exatamente como Durak havia lhe ensinado.

    Ao mesmo tempo, pensava a respeito dos Arenitas deslizando pela areia sobre aquelas estranhas tábuas de madeira. Pareciam surfar pelas dunas com uma facilidade impressionante. 

    Foi então que uma ideia surgiu.

    E se eu tiver pensando da forma errada?

    Afinal… areia não é igual a terra. 

    Tá mais pra… terra líquida.

    E se eu pensar nela como um fluido? Tipo a água… ou o ar? 

    Se for assim, não faria sentido senti-la como um objeto sólido. Ela está sempre escorrendo, cedendo, mudando de forma.

    Seus olhos se iluminaram.

    — Eu não tenho que sentir de onde vêm as vibrações…  — murmurou, interrompendo o silêncio. —  Eu tenho que sentir como elas se movem!

    — Do que você tá falando, pirralho? — perguntou Durak.

    — Eu entendi, Durak! — respondeu o garoto, dando um pequeno salto de empolgação.

    Um largo sorriso surgiu no rosto de Durak, embora a escuridão o escondesse.

    Com a nova ideia em mente, Ethos passou o restante do caminho praticando. A cada passo, as vibrações faziam um pouco mais de sentido. Pela primeira vez, ele começou a perceber os padrões. O caminho sob seus pés parecia ganhar forma pouco a pouco e, mesmo com dificuldade, já conseguia se orientar sem depender da visão. 

    Eles caminhavam pelo labirinto de túneis, até que, de repente, Ethos bateu costas de Durak.

    — Ai! Por que você parou do nada? — reclamou.

    — Chegamos — respondeu Durak.

    Mais uma vez, Varro soou o apito. Dessa vez, soprou uma melodia diferente.

    Em alguns instantes, outra porta oculta se abriu. A escuridão deu lugar a uma luz intensa. Ethos fechou os olhos em reflexo. 

    Aos poucos, voltou a abri-los…

    E ficou sem palavras diante da paisagem.

    Um espaço gigantesco se abria à sua frente.

    Era uma cidade feita de vidro.

    Casas translúcidas brotavam do teto como enormes estalactites apontando para o chão de areia. Tons de âmbar, mel e verde-pálido capturavam a luz que atravessava pequenas aberturas muito acima, espalhando reflexos cintilantes por toda a aldeia.

    O brilho se espalhava por toda a caverna, fazendo as paredes cintilarem como se fossem cobertas por cristais.

    Apesar do calor do deserto, o ambiente era surpreendentemente fresco.

    Pessoas caminhavam tranquilamente entre as formações invertidas, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

    — Uou… esse lugar é incrível! — disse Ethos, fascinado.

    — Hahá, obrigado — respondeu Varro com um sorriso discreto. — Nosso povo vive aqui há muitas gerações.

    — Como vocês construíram essas casas de vidro? — perguntou o garoto, incapaz de esconder a empolgação.

    — Vidro? — respondeu Varro, franzindo levemente a testa. — Não sei o que é “vidro”. Nossa aldeia foi construída com areia derretida. Foram muitas e muitas gerações para completar toda essa cidade. Temos muito orgulho desse lugar.

    — É sensacional! — disse Ethos. — Como vocês fazem isso?

    Varro sorriu enquanto voltava a caminhar, guiando os dois pela aldeia.

    — Bem… é um processo que leva muitos anos. Primeiro,coletamos um tipo de areia muito especial, encontrada apenas no território sagrado dos peixes alados. Mais uma das bênçãos que eles nos concedem. 

    Ethos escutava cada palavra com atenção absoluta. Já Durak… só conseguia pensar na bebida que Varro havia prometido. 

    — Depois — seguiu Varro —, aquecemos essa areia usando um método que vem sendo transmitido de geração em geração. Quando ela finalmente derrete, utilizamos nossa técnica ancestral para moldá-la na forma que desejamos. 

    — Isso é incrível! — exclamou Ethos.

    —Obrigado. Agora venham. Vou apresentá-los ao restante da aldeia, e depois faremos uma grande celebração em homenagem aos nossos convidados. 

    — Hahahá. Agora você está falando a minha língua! — disse Durak, esfregando as mãos.

    Ao anoitecer, a festa começou.

    A aldeia inteira parecia ainda mais bonita sob a luz das lanternas. Casas, mesas, cadeiras… tudo era feito de areia derretida . Lanternas de tom âmbar balançavam suavemente acima das mesas, espalhando uma luz quente que se refletia nas paredes translúcidas da caverna.

    O povo Arenita celebrava com música, risadas e conversas animadas. Afinal, não era todo dia que um dos Sete Heróis visitava sua aldeia.

    Enquanto Durak se servia de uma generosa caneca de bebida, Ethos permanecia próximo ao fogo onde os cozinheiros preparavam o jantar, incapaz de esconder a fome.

    Ao ver um enorme pedaço de escorpião sendo assado, arregalou os olhos. 

    — Vamos comer esse bicho? — perguntou, assustado. — Não é venenoso?

    — Calma! — respondeu um dos cozinheiros com um largo sorriso. — É venenoso sim. mas isso não é um problema.

    Ethos franziu a testa.

    — Como assim? Não é perigoso?

    — Não se preocupe. As criaturas do deserto carregam um poderoso veneno por causa da intoxicação mágica que existe por aqui. Mas aprendemos, há muitas gerações, a purificá-las. Deixamos a carne de molho durante vários dias com ervas especiais que colhemos na floresta. Depois disso, ela pode ser consumida sem nenhum risco.

    De novo…, pensou Ethos. Sem os peixes alados, esse povo não conseguiria sobreviver. Eles precisam da areia especial, do rio voador, da floresta que nasce dele… até essas ervas vem de lá.

    Naquele instante, um aroma irresistível de carne assada tomou conta do ar.

    O estômago de Ethos roncou tão alto que ele chegou a ficar sem graça.

    — Então… já podemos comer? — perguntou, incapaz de esconder a fome.

    Os cozinheiros gargalharam.

    — Tá quase! — respondeu um deles. — Só mais um pouquinho.

    E assim a festa seguiu noite adentro. 

    Durak bebia como se não houvesse amanhã. Ethos comia pelo mesmo motivo, só que com muito mais foco. Naquele momento, as barras de ração eram um pesadelo distante

    Quando a celebração finalmente chegou ao fim, os Arenitas lhes ofereceram um lugar para passar a noite. 

    Exaustos, os dois se recolheram para descansar.

    Pouco a pouco, a aldeia de areia derretida mergulhou no silêncio. 

    Dia 7

    — Pirralho… pirralho acorda.

     A voz de Durak parecia distante.

    Ethos abriu os olhos, piscou duas vezes… e os fechou novamente.

    —  PIRRALHO, ACORDA!

    — AAAH!

    Ethos saltou da cama, assustado

    — Anda. Temos que ir — disse Durak, recolhendo suas bolsas e já se preparando para partir.

    Ainda sonolento, Ethos olhava em volta, sem entender o que estava acontecendo.

    — Durak? O que houve?

    — Anda logo, não dá tempo pra explicar. Pega suas coisas e a prancha que eles nos deram de presente.

    Ethos engoliu seco e começou a se arrumar às pressas. Ele confiava em Durak o suficiente para não fazer mais perguntas. 

    — Como vamos fugir?

    — Vem. Só me siga — respondeu Durak, saindo do quarto agachado.

    Os dois se esgueiraram pela aldeia. Mesmo antes do amanhecer, a luz atravessava as construções translúcidas, tornando quase impossível se esconder.

    Durak cerrou os dentes.

    — Droga, é muito difícil se esconder quando tudo é feito de vidro.

    Ao longe, uma voz ecoou pela aldeia.

    — Acho que eles estão por ali…

    Os dois e imediatamente mudaram de direção e desapareceram entre as construções, avançando em absoluto silêncio. 

    Enquanto se movia, Durak espalhava discretamente sua magia pela areia, abafando as vibrações dos próprios passos para não deixar rastros sísmicos. Já Ethos, fazia o possível para acompanhá-lo.

    Seguiram assim por vários minutos, desviando das patrulhas, até finalmente alcançarem um dos túneis.

    Durak pousou a mão sobre a porta oculta e canalizou sua magia. Um tênue brilho vermelho percorreu seu corpo, subindo pelas pernas até alcançar a mão apoiada na pedra. A porta estremeceu e começou a se mover lentamente, abrindo passagem. 

    — Agora corre, pirralho — sussurrou Durak, empurrando Ethos de leve e guiando-o pela escuridão dos túneis. Ainda sonolento, o garoto o seguia com os olhos pesados, quase fechados e cheios de remela.

    Depois de passarem pelo labirinto de túneis, tentando despistar os perseguidos, enfim chegaram à saída.

    Dessa vez, Durak não se preocupou em ser discreto. Ergueu o pé e desferiu um chute na porta.

    CRASH!

    A porta de pedra foi arremessada para fora e os dois dispararam pelo deserto sem olhar para trás.

    Correram por alguns instantes sob a escuridão da noite, até que Durak parou de repente. 

    — Pirralho… Eles vão nos alcançar.

    Sem perder tempo, prendeu a prancha ao pé e voltou-se para Ethos.

    — Presta atenção. É mais simples do que parece. Funciona como caminhar… ou nadar.

    Ethos o encarava, ofegante 

    — Você empurra a areia para trás… e ela empurra você para a frente. Só que, em vez de usar força, você usa as vibrações. Faz a areia fluir para trás… e a prancha desliza para a frente. 

    — Vibrar… pra diminuir o atrito? — perguntou Ethos enquanto encarava sua prancha.

    — Isso, anda.

    Ethos observou Durak que partia na frente, deslizando na areia com facilidade.

    Ele respirou fundo, concentrou-se e uma luz vermelha envolveu seu pé. Aos poucos, a prancha começou a deslizar.

    — Muito bem, pirralho — disse Durak, o esperando um pouco mais a frente. — Por sorte você aprende rápido. Anda logo, se eles nos alcançarem estamos mortos.

    No instante seguinte, Ethos perdeu o equilíbrio e caiu de cara no chão.

    — Droga, é muito difícil — reclamou, cuspindo a areia que havia entrado em sua boca.

    Durak já estava desesperado à frente. 

    — Anda, pirralho. Deixa de ser molenga!

    Ethos estava enjoado de tanto que havia comido. Além disso, mal conseguia mater os olhos abertos de tanto sono e ainda estava muito irritado por ter sido acordado de um descanso tão tranquilo.

    — Tô indo! — respondeu de forma ríspida.

    Pela primeira vez, Durak pareceu intimidado. Coçou a cabeça e deu um ou dois passos para trás.

    — Hehe… no seu tempo. 

    Respirando fundo, Ethos firmou os pés na prancha e tentou novamente.

    Dessa vez conseguiu.

    É mais fácil do que eu imaginava, pensou.

    E assim, os dois deslizaram pelo deserto noite adentro, afastando-se cada vez mais da aldeia até terem certeza de que não estavam mais sendo perseguidos. 

    Após horas de fuga, eles finalmente pararam para montar acampamento e descansar. 

    A noite estava gelada. Durak acendeu uma fogueira, e os dois se sentaram ao redor das chamas. Depois de alguns instantes, Durak tirou uma barra de ração da bolsa e a estendeu para Ethos. 

    — Fome?

    Ethos fez uma careta.

    — Não!

    Depois de tomar um pouco de ar e se esquentar, um breve momento de silêncio se instalou entre eles.

    Ethos virou-se para Durak.

    — Agora… vai me dizer o que aconteceu?

    Um arrepio subiu pelas costas de Durak. Abriu um sorriso sem jeito e coçou a barba, claramente desconfortável. 

    — É… então… Eu juro não sabia.

    Uma veia saltou da testa de Ethos.

    — Não sabia o quê?

    Durak ergueu as mãos imediatamente.

    — Por favor, calma.

    Os olhos de Durak iam para todos os lados, evitando contato visual com Ethos.

    O garoto o encarava cada vez mais irritado.

    — O que você fez? — perguntou, seco.

    Durak encolheu os ombros.

    — Não foi culpa minha! Sabe aquela mulher bonita que eu te falei?

    Ethos fechou ainda mais a cara e cerrou o punho.

    — Durak…

    — Não, calma, eu posso explicar.

    — To esperando — respondeu Ethos, já levantando-se devagar.

    Uma gota de suor escorreu pela testa do anão.

    — N-não tinha como saber…

    — Saber o quê? — Ethos levantava cada vez mais sua voz.

    Durak baixou a cabeça.

    Respirou fundo.

    E confessou de uma vez.

    — …que ela era irmã do Varro.

    POW!

    Um soco acertou em cheio a cabeça de Durak, que caiu de costas na areia.

    — Ai! — gritou Durak, passando a mão onde o golpe o atingiu.

    — Ah Durak… seu velho safado! — esbravejou Ethos. — Eu não acredito nisso! Faz semanas que eu não tinha uma noite decente de sono.  “O digno”… o caramba!

    Durak se levantou aos poucos e tentou acalmá-lo.

    — Pirralho, a culpa não foi minha…

    — Velho safado! Claro que foi! — gritou Ethos, andando de um lado para o outro.

    Durak engoliu seco, nunca havia visto Ethos tão irritado.

     — Mas como eu ia saber? Eu tinha bebido… E foi ela que me chamou! E outra, quando eu descobri quem era ela, tentei sair de lá. Mas os guardas me viram e começaram a me atacar. 

    Ethos revirou os olhos.

    — Ah, claro. A culpa é deles por pegar você saindo do quarto dela. — disse de forma irônica. — Você não se segura, caramba! Eles foram tão acolhedores com a gente. Por que não foi apenas dormir? Você nunca aprende! Foi igual àquela vez que fomos expulsos da pousada no meio da noite…

    Durak já estava totalmente encolhido, envergonhado.

    — É… desculpe por aquela vez também. Mas tenta entender, ela era tão linda. Eu não podia recusar um convite desses.

    — Podia, sim! Você sabia que a irmã do líder é uma xamã. Até se aproximar dela sem permissão é proibido. O Varro falou isso quando chegamos! Você nem deve ter escutado.

    — Eu não sabia que ela era irmã dele! Ela podia ter avisado antes de me chamar! 

    Ethos deu as costas e caminhou em direção a barraca.

    — Você não presta, velho tarado. Vou dormir, já que gosta tanto de aprontar a noite, pode dormir aí fora.

    — Droga, pirralho… Acredita em mim. — disse Durak, já de joelhos.

    — Você conseguiu manchar seu nome numa terra onde era tratado como um santo. Parabéns. Você nunca deixa de me surpreender. — respondeu Ethos, enquanto adentrava na barraca.

    — Mas…

    — Boa noite… velho tarado.

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