Capítulo 121 — Discurso de Esperança
Na cidade de Tavasz, a Emota havia finalizado os preparativos para o discurso de inspiração. Capuz e Elarion estavam em pontos estratégicos, para caso de os guardas tentassem intervir. Raya e Ryn estavam próximas ao palco, para evitar qualquer ataque vindo da multidão. Tenebris era o único sobre o palco improvisado. Ele era o único a saber o que Raishi queria fazer para frustrar os planos do Império e, por isso, era ideal para a tarefa — especialmente por ser o melhor em discursar.
Estava quase na hora de dar início ao discurso, mas Tenebris queria esperar por mais pessoas. Centenas de cidadãos já se aglomeravam por ali, e o motivo era nítido: todos reconheciam a faceta de um dos rebeldes mais procurados do continente.
Ele respirou fundo e deu um passo à frente, para enfim dar início à primeira parte do plano. Raya e Ryn o olhavam fixamente, pois ele parecia um pouco nervoso.
— Povo da cidade de Tavasz, eu me chamo Tenebris Kalawa, o líder da Emota! Sei que vocês me conhecem, porque fomos nós que atacamos o palácio do Imperador e desencadeamos esta guerra! Muitos acharam que estávamos escondidos, com medo do Império, mas estão errados! Nós estamos aqui para mostrar que a nossa ideia cresceu ao nível de criar grupos que lutam contra o Império! Nós não estamos sozinhos, como daquela vez! Agora, temos os rebeldes ao nosso lado, e também um aliado extremamente poderoso: a Ordem dos Cavaleiros Brancos! O que começamos naquela noite, acabará daqui alguns dias!
A multidão reagia com surpresa e choque. Alguns pareciam zangados. Outros, assustados. Ele ganhou a atenção que queria, agora precisava agitar o povo.
— Por isso, venho fazer um singelo pedido! Quero que vocês participem desta guerra! Nos ajudem a vencer este maldito Império! Com o seu apoio, com o apoio do povo, seremos muito mais fortes! Estamos lutando por cada um de vocês, pelo nosso lar! Venceremos esta guerra e livraremos vocês deste tirano! Nós, a Ordem e os rebeldes já eliminamos Capitães e vários soldados imperiais! Ergam suas vozes num único grito, o grito de liberdade! Juntos, eu prometo que venceremos o Império!
— O Tenebris é mesmo incrível! — disse Ryn, animada, em meio ao grupo eufórico que gritava em apoio a eles. — Eu nunca o vi falar assim antes. Com certeza conseguimos completar a nossa missão. Não tem como os apoiadores do Império não terem se incomodado com um discurso desses!
Ela olhou para Raya e percebeu que ela estava chorando. Com um sorriso alegre, tocou no ombro da amiga e fez sinal com a cabeça.
— Vamos nos juntar a ele, Raya. Logo mais os guardas irão aparecer. Temos que estar prontas para a próxima parte do plano, principalmente agora que ganhamos o apoio do povo desta cidade. Isso foi muito fácil.
— Você conseguiu, Tenebris. — Raya sorriu com orgulho, indo até o palco. — Você fez o povo acreditar na nossa ideia e finalmente enxergar a verdade. Você está realizando o nosso sonho. Agora, é a minha vez de participar.
Ela sorriu para Tenebris, que ficou corado. Raya se virou para a multidão eufórica.
— Precisamos de mais um favor. — Raya os encarava com seriedade. — Os guardas imperiais logo estarão aqui e tentarão nos levar. Mas, com a ajuda de vocês, com o poder do povo, isso não acontecerá! Que o nosso grito seja ouvido! Não permitam que o Império nos silencie. Deixem-nos lutar por vocês!
O grito do povo ficou mais alto e forte. Os guardas imperiais enfim apareceram, mas aquela multidão se enfureceu e os confrontou. Capuz e Elarion logo se juntaram ao grupo para contemplarem algo magnífico: um povo enfurecido que se voltou contra seus líderes e agora lutavam pela tão sonhada liberdade.
— Está funcionando. Eles estão impedindo a passagem dos guardas. Você fez isso usando apenas suas palavras, Tenebris. Imagine se usasse a sua Manifestação para espalhar nossa mensagem. Você os mostrou a verdade. — Elarion sorriu. Sempre quis que seu grupo tivesse o poder de convencer o povo a lutar por sua causa. — Isso mesmo, acabem com eles! Mostrem a eles que o povo nunca será vencido! Mostrem como a nossa união jamais será vencida por esses tiranos que se dizem justos! Lutem por suas liberdades! Sejam livres de verdade!
Tenebris observou em silêncio o efeito de suas palavras: uma revolução que nem ele esperava que acontecesse. Se perguntava, em seus pensamentos, como Raishi sabia que isso funcionaria. Ele se sentia responsável por dar início a um incêndio num palheiro cheio de gasolina que só estava à espera de alguém corajoso.
Raya segurou sua mão direita e a apertou levemente. Isso o fez olhar para ela e seus amigos. Eles lutavam há anos por esse momento. Agora só lhes restava dar continuidade ao plano e colocar outros povos contra o Império. Para isso, culpariam os guardas imperiais por aquela confusão e revolta. Assim, vilanizariam o Império e se alçariam a um status de heróis, e não mais o grupo que atacou o Imperador.
— Viram só?! É assim que eles agem, silenciando e calando todos aqueles contrários às suas ideias! E se fosse com cada um de vocês?! Quanto tempo até que eles realmente comecem a fazer isso? Dias? Eles compactuaram com a morte de vários homens de bem no grande salão. O que mais cinco mortos seriam para eles?! Eu lhes digo: nada! Porque é isso que o Império faz. Ele mata todos aqueles que o rejeitam. Este não é o mundo que os nossos filhos merecem. Nós mesmos podemos dar esse mundo a eles! — Tenebris ergueu os braços.
Suas palavras fomentaram a fúria da multidão, que, em instantes, capturou os guardas. Pouco depois, o povo voltava a encará-lo seriamente.
— Muito obrigado! Cada um de vocês tem meus sinceros agradecimentos! Eu posso não saber ou me lembrar de seus nomes, mas me lembrarei de cada vítima que o Império fizer e garanto que ele pagará por toda vida que ceifar! Nós somos a Emota e também a Ordem dos Cavaleiros Brancos! Nós somos a esperança do Extra-Mundo! Nós seremos aqueles que libertaremos esta terra! — ele ergueu o braço.
A multidão repetiu o gesto em união. Braços erguidos e punhos cerrados.
— Parece que o plano deu certo. Agora, precisamos ir antes que mais guardas cheguem. — disse Elarion, descendo do palco. — Aqueles presunçosos da Ordem vão ver quem precisa de quem. Nós vamos terminar o que começamos naquela noite, galera. Eles é que precisam de nós, e vamos mostrar isso de uma vez por todas!
Ele estava empenhado em cumprir a missão. Antes, Elarion parecia incomodado com o que estava fazendo, mas mudou de ideia ao ver o poder que a Emota tinha.
— Não se empolgue tanto, Elarion — advertiu Capuz, caminhando atrás dele. — Lembre-se de que o plano não é apenas do Tenebris, e não se esqueça de que eles também são nossos aliados e amigos. Então não tente criar inimizades ou rivalidades inexistentes. Lembre-se de que já tentamos fazer isso e quase não acabou bem. Agora somos todos aliados e temos que manter isso assim.
Capuz então olhou para trás, vendo Tenebris e as garotas desmontando o palco e guardando os materiais dentro de um portal.
— Você fala muito bem, Tenebris. Provou outra vez que deve ser nosso líder. Este grupo e esta ideia tiveram início com você e com a Raya. É uma honra fazer parte disso. — ele completou, antes de seguir andando.
Ryn se apressou para alcançar Elarion e Capuz. Estava contente com o resultado daquele dia. Agora, ela acreditava que eles eram capazes de vencer a guerra.
— Finalmente há esperança. Vamos livrar o mundo desse mal. Agora o povo sabe nossos nomes e nosso objetivo. A Emota não é mais uma sombra nem uma covarde. Enfim, somos heróis. — ela afirmou, empolgada.
Capuz e Elarion caminharam por entre a multidão até não serem mais vistos. Tenebris ainda observava a multidão com encanto. Há quanto tempo esperava por esse momento? Raya o parabenizou e disse para eles irem para a próxima cidade.
Enquanto eles saíam do local, eram aplaudidos e ovacionados por toda a cidade. Eles eram vistos como verdadeiros heróis.
O plano funcionou, mas era preciso continuar até que chegasse aos ouvidos do Imperador. A Emota enfim recebia o reconhecimento que merecia. Foi a responsável pela causa rebelde e pela presença da Ordem no Extra-Mundo. Tudo se deu início num ataque frustrado, mas que abriu as portas para o inesperado.
Poderiam se orgulhar de terem dito o que queriam falar há muito tempo. Eles eram, mais uma vez, um problema para o Império, e eles queriam isso. Eles queriam ser um grande problema a ponto de o Império os atacar em vez de esperar. E, se continuassem incendiando a vontade do povo, isso seria real.

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