Índice de Capítulo

    A porta lateral abriu antes que Lou-reen respondesse.

    Kalamera entrou com uma caixa presa contra o corpo por dois braços metálicos. Os outros dois vinham erguidos perto dos ombros, segurando placas, hastes e encaixes que já não pareciam presos do jeito certo. Uma das peças no antebraço inferior esquerdo desceu meio dedo, tremeu e foi empurrada de volta por outro conjunto de dedos metálicos sem que ela parasse de andar.

    Ela também não tinha dormido direito.

    O cabelo estava preso de qualquer jeito, os olhos fundos, a boca fechada numa linha de concentração irritada. As juntas dos braços faziam ruídos pequenos demais para o galpão inteiro ouvir, mas próximos o bastante para Marco perceber.

    Kalamera colocou a caixa sobre uma mesa vazia.

    — Estão prontos.

    Lou-reen se aproximou e Kalamera abriu a tampa.

    Dentro, os radares ocupavam divisórias de pano. Eram menores que o primeiro protótipo, mais estreitos, com aros de metal e compartimentos rasos para encaixe. Nenhum parecia exatamente igual ao outro.

    Uma haste no braço superior direito de Kalamera soltou mais um pouco. Ela prendeu a peça com os dedos do braço inferior sem mudar o tom. Marco chegou perto da caixa.

    — Isso é tranquilizador.

    Lou-reen tocou a borda de um dos aparelhos sem tirar da caixa.

    — Então só falta colocar as amostras.

    A última palavra mudou Hegoria.

    Ela deixou a folha na bancada e pegou a pinça. A agitação das perguntas sumiu do rosto, substituída por uma atenção mais fria, mais prática. Quando se voltou para Reinna, já falava como quem entrava em procedimento.

    — Eu preparo.

    Ninguém discutiu.

    Os soldados perto das correntes ajustaram a postura. Um deles firmou a mão no cabo da lança, outro se colocou entre Reinna e a bancada, para estar pronto se a sedação falhasse.

    A menina continuava apagada. O peito subia e descia pesado, a cabeça pendendo para a frente, presa pelo limite das correntes. O cabelo sujo escondia parte do rosto.

    Hegoria pegou uma bandeja limpa, pinças finas e lâminas de vidro. Chralazar apareceu ao lado dela quase sem fazer barulho, trazendo frascos pequenos.

    — Só segure — ela disse.

    Ele assentiu.

    Hegoria aproximou-se de Reinna com a mesma precisão fria da noite anterior. Não tocou mais do que precisava. Retirou um fragmento mínimo de pele endurecida perto do ombro, raspou uma linha escura de sangue seco junto a uma corrente e colheu uma fibra superficial de tecido alterado onde a pele tinha rachado sem abrir ferida nova.

    Marlen, parada mais atrás, fechou a mão contra o próprio braço.

    Hegoria voltou para a bancada e começou a separar tudo em lâminas diferentes. Kalamera pegou um suporte de metal dentro da caixa e deu um passo para a bancada.

    — Posso preparar os suportes.

    — Não.

    A palavra saiu rápida demais. Kalamera parou.

    Hegoria ficou com a pinça suspensa sobre a primeira lâmina. Então abaixou a mão, soltou o metal com cuidado e corrigiu o tom.

    — Desculpe. Não por você.

    Ela apontou para as próteses com a pinça, sem encostar.

    — Qualquer essência solta muda a leitura. Seus braços estão rodeados da essência que você manipula. Mesmo parada, você está segurando peças, corrigindo encaixes, mantendo metal no lugar. Para uma leitura comum, talvez não importe. Para calibração, importa.

    Uma peça no braço inferior de Kalamera tremeu de novo.

    Dessa vez, ela deixou o próprio mecanismo ajustar sozinho.

    — Então eu vou ficar longe.

    Chralazar atravessou até a mesa onde Kalamera tinha deixado os radares. Levantou a caixa com cuidado e levou até a bancada de Hegoria, mantendo os braços rígidos demais para o peso real da madeira.

    Hegoria virou a caixa o bastante para alcançar os compartimentos dos radares, mas manteve o corpo entre a bancada e o resto do galpão. Da posição de Marco, só dava para ver os ombros dela e o movimento pequeno dos cotovelos.

    O primeiro suporte abriu com um clique baixo.

    “Ela está deslocando a frequência da amostra antes de fechar o suporte”, Nova disse.

    Marco não respondeu. Para ele, aquilo fazia parte da calibração. Pele, sangue seco e tecido não bastavam sozinhos; o radar precisava receber uma assinatura organizada o bastante para seguir.

    Hegoria fechou o suporte e o colocou ao lado dos outros e Chralazar aproximou o próximo radar. Hegoria repetiu o processo em silêncio. Um radar, uma amostra, um suporte fechado. Chralazar entregava as peças quando ela estendia a mão.

    Quando o último suporte foi fechado, Hegoria empurrou a caixa de volta.

    — Pronto.

    Kalamera esperou mais um segundo antes de se aproximar. Ela pegou um dos radares pelas laterais e apoiou sobre a bancada.

    — Vou testar.

    A linha fina sob o disco de vidro apareceu no centro, quase apagada. Correu até a borda, voltou, correu de novo. Na terceira vez, o traço perdeu a simetria e entortou para a frente da bancada, na direção de Hegoria.

    E, atrás dela, Reinna.

    Kalamera soltou outro fio de essência no radar. A linha repetiu o caminho: saiu do centro, abriu em curva, voltou torta para o mesmo lado. Hegoria permaneceu parada diante da bancada, com as mãos baixas e o rosto voltado para o aparelho.

    Lou-reen olhou para o disco de vidro.

    — Está lendo ela?

    Kalamera manteve os dedos no metal por mais um segundo.

    — Está lendo a assinatura da amostra. E encontrou retorno naquela direção.

    Halikah acompanhou a linha com os olhos.

    — Reinna.

    Lou-reen não esperou mais.

    — Vamos abrir o raio.

    Todos se voltaram para ela.

    — Não só a vila. Quero estrada, mata, neve acumulada, caminhos para outras vilas, margem do mar e qualquer rota por onde alguém conseguiria trazer corpos de fora sem passar pela rua principal.  Halikah vem comigo.

    A menina endireitou a postura.

    — Sim, general.

    Lou-reen já se virava para Marco quando falou:

    — Quero cada soldado que sair com pelo menos um frasco do sedativo.

    Marco assentiu.

    — Vou preparar.

    — E separe alguns para mim. Vou levar comigo caso encontremos outra coisa lá fora. Quero ter como derrubar antes que alguém use a espada.

    — Certo.

    Hegoria ergueu o rosto.

    — Até onde vai procurar?

    A empolgação tinha voltado aos olhos de Hegoria, contida apenas pela voz de procedimento.

    — Há uma vila mais a leste — Lou-reen disse. — Quase na região de Eley-vine. É a mais próxima daqui. Quero ir até lá.

    Hegoria se inclinou um pouco sobre a bancada.

    — Se encontrar algo, traga para mim.

    Lou-reen sustentou o olhar dela.

    — Espero não encontrar outra criatura. Mas, se encontrar, você será a primeira a saber.

    Enquanto elas falavam, Marco terminou de separar os frascos. Os cheios foram para uma bolsa de pano; os vazios ficaram alinhados na bancada.

    Ele fechou a bolsa e entregou a Lou-reen e ela prendeu o sedativo junto ao corpo. Ela ajustou o manto sobre o ombro.

    — Vamos.

    Lou-reen saiu com Halikah logo atrás. Marco ficou no galpão, ao lado das ampolas vazias,

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