Índice de Capítulo

    Marco mantinha uma ampola aberta entre as mãos.

    A essência se concentrou no espaço vazio do recipiente. O ar dentro do vidro ficou turvo por um instante, e o sedativo se formou ali, preso entre as paredes transparentes.

    Marco interrompeu o fluxo e estendeu a ampola.

    Chralazar a recebeu imediatamente, encaixou a tampa e apertou a vedação. Girou o recipiente entre os dedos, conferindo se havia qualquer escape, antes de colocá-lo junto aos demais, perto dos soldados responsáveis por manter Reinna sedada.

    Quando voltou, Marco já segurava outra ampola vazia.

    Chralazar observou o gás começar a se formar dentro dela.

    — Ainda acho estranho ver você aqui.

    Marco manteve a atenção no recipiente.

    — O que tem de estranho?

    Chralazar recebeu a nova ampola assim que Marco terminou. Fechou, apertou a tampa e conferiu a vedação.

    — Você não passou pelo Colégio.

    — Não.

    — Nem pela Academia.

    — Também não.

    — E não pertence ao Exército.

    Marco pegou outra ampola.

    — Essa parte eu já sabia.

    Chralazar continuou sério.

    — Mesmo assim, a general trouxe você. Você participa da investigação, construiu os radares, fez essa substância e ajudou a manter Reinna viva. Nenhum dos soldados daqui sabia fazer nada disso.

    Marco apoiou os pulsos na bancada por alguns segundos. A repetição começava a pesar nos dedos.

    — No meu mundo, nem todo problema é resolvido por soldados.

    Chralazar colocou uma ampola vazia diante dele.

    — Quem resolve?

    — Depende do problema. Médicos cuidam dos doentes, engenheiros constroem máquinas, cientistas estudam o que ninguém entende. Há pessoas treinadas para organizar transporte, comunicação, alimento e energia. Soldados são necessários, mas não fazem tudo.

    Marco segurou o recipiente e voltou a concentrar essência.

    — Eu fui treinado para pesquisar, calcular, construir equipamentos e sobreviver fora do planeta. Aprendi a lutar depois que cheguei aqui.

    Chralazar acompanhou o sedativo ocupando o interior da ampola.

    — Aqui, todo mundo aprende que servir começa no Colégio.

    Marco franziu o rosto.

    — Eu ainda sou contra isso.

    — Contra o Colégio?

    — Contra mandar crianças de dez invernos aprenderem a manejar uma espada e estudar estratégias de guerra. Nessa idade, deveriam estar brincando ou aprendendo coisas normais.

    Chralazar encaixou a tampa na ampola.

    — Em Taeris, isso é normal.

    — Eu sei. Só não preciso concordar.

    Marco pegou outro recipiente vazio.

    — E também não significa que o Exército seja a única maneira de alguém ser útil.

    — Não é assim que as coisas funcionam.

    — Você está trabalhando aqui.

    — Estou entregando recipientes.

    — E vedando cada um. Conferindo se o gás não escapa, separando os cheios dos vazios e mantendo os soldados abastecidos.

    Chralazar olhou para a fileira próxima às correntes.

    — Qualquer pessoa poderia fazer isso.

    — Mas é você quem está fazendo.

    Marco estendeu a ampola seguinte.

    — Se fechar errado, o sedativo escapa. Se misturar as vazias com as prontas, alguém perde tempo quando Reinna acordar. Se entregar tarde demais, o que eu faço aqui não serve para nada.

    Chralazar segurou o recipiente sem levá-lo imediatamente até os outros.

    — É diferente.

    — Por quê?

    — Você cria coisas que não existem em Taeris.

    Marco pegou outra ampola vazia.

    — Criar uma solução e fazer com que ela funcione são partes do mesmo trabalho.

    Chralazar baixou os olhos para o vidro.

    Pressionou a tampa, passou o polegar ao redor da vedação e aproximou a ampola do rosto sem abri-la, procurando qualquer sinal de escape. Só então a colocou junto às demais.

    Quando voltou para buscar a próxima, conferiu a tampa antes mesmo de Marco começar.

    Hegoria continuava curvada sobre o microscópio, alternando entre a ocular e as lâminas separadas ao lado da base. Girou o parafuso de ajuste, esperou a imagem firmar e perguntou sem tirar o olho da lente:

    — O seu povo tem outros instrumentos assim? Capazes de examinar o interior de uma pessoa sem precisar abri-la?

    Marco iniciou outra ampola.

    — Tem. Algumas máquinas mostram os ossos, outras conseguem formar imagens dos órgãos, dos músculos e de outros tecidos. Também existem aparelhos que acompanham a respiração, os batimentos do coração, a temperatura e outras funções do corpo.

    Hegoria se afastou da ocular.

    — Você conseguiria construir algum deles aqui?

    Marco demorou a responder. Nova organizou possibilidades e limitações enquanto ele mantinha a essência concentrada dentro do vidro.

    — Os mais complexos, não. Precisam de materiais, fontes de energia e conhecimentos que não temos aqui. Mas talvez seja possível adaptar instrumentos mais simples usando metal, selenita e algumas runas.

    — Qual seria mais útil para Reinna?

    Marco entregou a ampola a Chralazar.

    — Algo que acompanhe a respiração e os batimentos sem depender de alguém observando o tempo inteiro. Também poderíamos construir uma centrífuga.

    Hegoria inclinou o rosto.

    — O que ela faz?

    — Gira amostras muito rápido e separa os componentes. Sangue, por exemplo. Poderia ajudar a comparar partes diferentes e identificar onde procurar alterações.

    Hegoria olhou para as lâminas sobre a mesa.

    — Consegue construir isso depois que terminar os frascos?

    Marco pegou outra ampola vazia.

    — Primeiro preciso ver o que vocês já usam para acompanhar pacientes e trabalhar com amostras. Depois vou precisar da Kalamera para adaptar as peças e testar tudo antes de confiar os resultados.

    Hegoria permaneceu diante do microscópio por mais alguns segundos, mas não voltou a ajustar a lente. Levou os dedos aos olhos e pressionou as pálpebras. Quando tornou a olhar para a bancada, demorou a encontrar a lâmina que estava ao lado da própria mão.

    — Chralazar, me passe…

    Ela parou no meio da frase, olhando os instrumentos.

    — A lâmina limpa? — ele perguntou.

    Hegoria assentiu.

    Pegou a peça que ele indicou, mas ela escapou dos dedos e bateu no chão. Chralazar se abaixou.

    — Eu pego.

    — Não precisa.

    Hegoria segurou a lateral da bancada e se curvou para alcançar a lâmina. Permaneceu naquela posição por alguns instantes, a mão fechada na madeira, antes de voltar a se erguer.

    Marco interrompeu a essência dentro da ampola.

    — Você deveria descansar um pouco.

    Hegoria colocou a lâmina sobre a mesa.

    — Ainda preciso acompanhar a garota, organizar as amostras e conferir se as doses estão mantendo o efeito.

    — Os guardas estão olhando para ela desde que entraram.

    Marco indicou o canto do galpão com o rosto.

    — Venia está registrando qualquer mudança, Chralazar sabe onde estão os materiais e eu vou continuar produzindo o sedativo.

    Hegoria esfregou os olhos outra vez.

    — Estou bem.

    Ela se afastou da bancada e seguiu na direção de Reinna. No segundo passo, o corpo desviou para o lado. Hegoria segurou o encosto de uma cadeira e ficou parada até recuperar o equilíbrio.

    Marco largou a ampola vazia sobre a mesa.

    — Você não vai ajudar ninguém se desmaiar em cima das amostras.

    Hegoria olhou para Reinna. A garota continuava imóvel entre as correntes, o peito subindo e descendo sob a vigilância dos soldados.

    — Está bem.

    Ela recolheu algumas folhas da bancada e as apertou contra o corpo.

    — Chamem-me se ela se mover antes da próxima dose. Qualquer mudança na respiração também. E não esperem para avisar se voltar a forçar as correntes.

    Um dos guardas confirmou.

    Hegoria passou por Reinna devagar, lançou uma última olhada para os instrumentos e atravessou o galpão em passos curtos. Só desapareceu da vista quando a porta se fechou atrás dela.

    Chralazar continuou olhando para a saída.

    — Ela trabalha até não conseguir mais ficar em pé.

    Marco retomou a ampola. A essência voltou a se concentrar no interior do vidro. Antes de baixar os olhos, ele olhou para a porta mais uma vez.

    Lou-reen já devia estar longe da vila. Talvez os radares tivessem encontrado alguma coisa. Talvez ainda estivessem atravessando a neve sem sinal algum.

    O sedativo começou a ocupar o recipiente, e Marco voltou a atenção para o que tinha diante das mãos.

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