Capítulo 124 — Quem resolve?
Marco mantinha uma ampola aberta entre as mãos.
A essência se concentrou no espaço vazio do recipiente. O ar dentro do vidro ficou turvo por um instante, e o sedativo se formou ali, preso entre as paredes transparentes.
Marco interrompeu o fluxo e estendeu a ampola.
Chralazar a recebeu imediatamente, encaixou a tampa e apertou a vedação. Girou o recipiente entre os dedos, conferindo se havia qualquer escape, antes de colocá-lo junto aos demais, perto dos soldados responsáveis por manter Reinna sedada.
Quando voltou, Marco já segurava outra ampola vazia.
Chralazar observou o gás começar a se formar dentro dela.
— Ainda acho estranho ver você aqui.
Marco manteve a atenção no recipiente.
— O que tem de estranho?
Chralazar recebeu a nova ampola assim que Marco terminou. Fechou, apertou a tampa e conferiu a vedação.
— Você não passou pelo Colégio.
— Não.
— Nem pela Academia.
— Também não.
— E não pertence ao Exército.
Marco pegou outra ampola.
— Essa parte eu já sabia.
Chralazar continuou sério.
— Mesmo assim, a general trouxe você. Você participa da investigação, construiu os radares, fez essa substância e ajudou a manter Reinna viva. Nenhum dos soldados daqui sabia fazer nada disso.
Marco apoiou os pulsos na bancada por alguns segundos. A repetição começava a pesar nos dedos.
— No meu mundo, nem todo problema é resolvido por soldados.
Chralazar colocou uma ampola vazia diante dele.
— Quem resolve?
— Depende do problema. Médicos cuidam dos doentes, engenheiros constroem máquinas, cientistas estudam o que ninguém entende. Há pessoas treinadas para organizar transporte, comunicação, alimento e energia. Soldados são necessários, mas não fazem tudo.
Marco segurou o recipiente e voltou a concentrar essência.
— Eu fui treinado para pesquisar, calcular, construir equipamentos e sobreviver fora do planeta. Aprendi a lutar depois que cheguei aqui.
Chralazar acompanhou o sedativo ocupando o interior da ampola.
— Aqui, todo mundo aprende que servir começa no Colégio.
Marco franziu o rosto.
— Eu ainda sou contra isso.
— Contra o Colégio?
— Contra mandar crianças de dez invernos aprenderem a manejar uma espada e estudar estratégias de guerra. Nessa idade, deveriam estar brincando ou aprendendo coisas normais.
Chralazar encaixou a tampa na ampola.
— Em Taeris, isso é normal.
— Eu sei. Só não preciso concordar.
Marco pegou outro recipiente vazio.
— E também não significa que o Exército seja a única maneira de alguém ser útil.
— Não é assim que as coisas funcionam.
— Você está trabalhando aqui.
— Estou entregando recipientes.
— E vedando cada um. Conferindo se o gás não escapa, separando os cheios dos vazios e mantendo os soldados abastecidos.
Chralazar olhou para a fileira próxima às correntes.
— Qualquer pessoa poderia fazer isso.
— Mas é você quem está fazendo.
Marco estendeu a ampola seguinte.
— Se fechar errado, o sedativo escapa. Se misturar as vazias com as prontas, alguém perde tempo quando Reinna acordar. Se entregar tarde demais, o que eu faço aqui não serve para nada.
Chralazar segurou o recipiente sem levá-lo imediatamente até os outros.
— É diferente.
— Por quê?
— Você cria coisas que não existem em Taeris.
Marco pegou outra ampola vazia.
— Criar uma solução e fazer com que ela funcione são partes do mesmo trabalho.
Chralazar baixou os olhos para o vidro.
Pressionou a tampa, passou o polegar ao redor da vedação e aproximou a ampola do rosto sem abri-la, procurando qualquer sinal de escape. Só então a colocou junto às demais.
Quando voltou para buscar a próxima, conferiu a tampa antes mesmo de Marco começar.
Hegoria continuava curvada sobre o microscópio, alternando entre a ocular e as lâminas separadas ao lado da base. Girou o parafuso de ajuste, esperou a imagem firmar e perguntou sem tirar o olho da lente:
— O seu povo tem outros instrumentos assim? Capazes de examinar o interior de uma pessoa sem precisar abri-la?
Marco iniciou outra ampola.
— Tem. Algumas máquinas mostram os ossos, outras conseguem formar imagens dos órgãos, dos músculos e de outros tecidos. Também existem aparelhos que acompanham a respiração, os batimentos do coração, a temperatura e outras funções do corpo.
Hegoria se afastou da ocular.
— Você conseguiria construir algum deles aqui?
Marco demorou a responder. Nova organizou possibilidades e limitações enquanto ele mantinha a essência concentrada dentro do vidro.
— Os mais complexos, não. Precisam de materiais, fontes de energia e conhecimentos que não temos aqui. Mas talvez seja possível adaptar instrumentos mais simples usando metal, selenita e algumas runas.
— Qual seria mais útil para Reinna?
Marco entregou a ampola a Chralazar.
— Algo que acompanhe a respiração e os batimentos sem depender de alguém observando o tempo inteiro. Também poderíamos construir uma centrífuga.
Hegoria inclinou o rosto.
— O que ela faz?
— Gira amostras muito rápido e separa os componentes. Sangue, por exemplo. Poderia ajudar a comparar partes diferentes e identificar onde procurar alterações.
Hegoria olhou para as lâminas sobre a mesa.
— Consegue construir isso depois que terminar os frascos?
Marco pegou outra ampola vazia.
— Primeiro preciso ver o que vocês já usam para acompanhar pacientes e trabalhar com amostras. Depois vou precisar da Kalamera para adaptar as peças e testar tudo antes de confiar os resultados.
Hegoria permaneceu diante do microscópio por mais alguns segundos, mas não voltou a ajustar a lente. Levou os dedos aos olhos e pressionou as pálpebras. Quando tornou a olhar para a bancada, demorou a encontrar a lâmina que estava ao lado da própria mão.
— Chralazar, me passe…
Ela parou no meio da frase, olhando os instrumentos.
— A lâmina limpa? — ele perguntou.
Hegoria assentiu.
Pegou a peça que ele indicou, mas ela escapou dos dedos e bateu no chão. Chralazar se abaixou.
— Eu pego.
— Não precisa.
Hegoria segurou a lateral da bancada e se curvou para alcançar a lâmina. Permaneceu naquela posição por alguns instantes, a mão fechada na madeira, antes de voltar a se erguer.
Marco interrompeu a essência dentro da ampola.
— Você deveria descansar um pouco.
Hegoria colocou a lâmina sobre a mesa.
— Ainda preciso acompanhar a garota, organizar as amostras e conferir se as doses estão mantendo o efeito.
— Os guardas estão olhando para ela desde que entraram.
Marco indicou o canto do galpão com o rosto.
— Venia está registrando qualquer mudança, Chralazar sabe onde estão os materiais e eu vou continuar produzindo o sedativo.
Hegoria esfregou os olhos outra vez.
— Estou bem.
Ela se afastou da bancada e seguiu na direção de Reinna. No segundo passo, o corpo desviou para o lado. Hegoria segurou o encosto de uma cadeira e ficou parada até recuperar o equilíbrio.
Marco largou a ampola vazia sobre a mesa.
— Você não vai ajudar ninguém se desmaiar em cima das amostras.
Hegoria olhou para Reinna. A garota continuava imóvel entre as correntes, o peito subindo e descendo sob a vigilância dos soldados.
— Está bem.
Ela recolheu algumas folhas da bancada e as apertou contra o corpo.
— Chamem-me se ela se mover antes da próxima dose. Qualquer mudança na respiração também. E não esperem para avisar se voltar a forçar as correntes.
Um dos guardas confirmou.
Hegoria passou por Reinna devagar, lançou uma última olhada para os instrumentos e atravessou o galpão em passos curtos. Só desapareceu da vista quando a porta se fechou atrás dela.
Chralazar continuou olhando para a saída.
— Ela trabalha até não conseguir mais ficar em pé.
Marco retomou a ampola. A essência voltou a se concentrar no interior do vidro. Antes de baixar os olhos, ele olhou para a porta mais uma vez.
Lou-reen já devia estar longe da vila. Talvez os radares tivessem encontrado alguma coisa. Talvez ainda estivessem atravessando a neve sem sinal algum.
O sedativo começou a ocupar o recipiente, e Marco voltou a atenção para o que tinha diante das mãos.

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