Capítulo 97 - O Ceifador VS O Feiticeiro
Kelsin esfregou as mãos e indicou Heitor com a cabeça.
— Quer a honra do primeiro ataque?
Heitor sorriu.
— Ora, educado? Não esperava por isso, mas aceito a honra — fez uma mesura.
No mesmo momento, três bolas de chamas surgiram em suas mãos.
— Amora, fica de olho — falou para Anayê.
Os olhos roxos da garota miraram o fogo dançante.
— Preparado? — Heitor perguntou em tom de deboche.
Kelsin respondeu abrindo os braços.
As bolas de chamas avançaram contra o feiticeiro que reagiu imediatamente, reunindo uma porção de energia roxa na mão e transformando em uma barreira translúcida de seu tamanho. Porém, seu cenho se franziu quando as chamas desviaram sozinhas de sua direção e o rodearam. Uma por cima e duas pelos lados.
Heitor apontou dois dedos e no instante seguinte, as três chamas se expandiram e explodiram. Uma imensa coluna de fumaça ocupou o lugar onde antes estava o feiticeiro.
Anayê arregalou os olhos, surpresa. Fenrir, ao seu lado, também não conseguiu disfarçar a admiração.
Mas antes mesmo que o vento dissipasse a fumaça, enxergaram Kelsin alguns passos atrás, intacto.
— Você é o tipo de ceifador que eu estava procurando — o feiticeiro com a face repleta de empolgação. — Agora é a minha vez.
Uma energia de cor lilás começou a se juntar na palma dele e, em seguida, se esticou e mudou para a forma de uma lança. Fenrir engoliu seco ao assistir a cena e relembrou do poder de Elchor.
Kelsin atirou a arma.
— Amora! — Heitor chamou. — Presta atenção!
As chamas voltaram a dançar na mão do ceifador, mas se juntaram e formaram uma chama maior que foi arremessada contra a lança roxa. As duas energias se chocaram e se eliminaram no mesmo instante, lançando poeira e vento para todos os lados.
Fenrir sentiu o coração bater mais forte. As pernas estremeceram, o ombro protestou de dor e a garganta secou. Ele só conseguia lembrar dos espinhos explodindo em seu peito e da escuridão que se seguiu.
Por outro lado, Anayê se sentia cada vez mais animada com as opções demonstradas por Heitor a partir daquela pequena técnica.
— Estou realmente ficando empolgado! — exclamou Kelsin com os olhos brilhando de fascinação louca.
Heitor não esperou. Invocou suas chamas outra vez e arremessou uma porção maior, seis bolas de fogo.
— Mesma técnica? — Kelsin direcionou uma expressão decepcionada.
A primeira chama se expandiu e explodiu, porém, o feiticeiro esquivou. A segunda passou perto se não fosse pela barreira erguida no último instante. A terceira e quarta expandiram e explodiram ao mesmo tempo e chamuscaram poucos fios do cabelo dele.
Heitor limpou uma gota de suor da testa antes de apontar para as duas últimas.
Kelsin levantou a barreira, deteve uma chama, contudo, antes de perceber que outra chama estavas nas costas, muito perto. Seus lábios se comprimiram.
Mas a última bola de fogo não explodiu e fez as sobrancelhas finas do feiticeiro se erguerem. A chama se extinguiu diante de seus olhos que se voltaram para a direção do ceifador.
Heitor cambaleou, estreitou os olhos e viu o mundo girar. De novo não! As mãos tremiam sem parar, a testa pingava suor, os lábios estavam secos, a respiração soltava chiados e o peito ardia.
Anayê fechou a face em uma expressão de preocupação e espanto enquanto Fenrir piscava quase sem pausas.
Até mesmo Kelsin assistiu com apreensão.
Heitor se apoiou nos joelhos. A visão ia e voltava enquanto perdia a noção dos próprios pensamentos e o controle dos membros do corpo. Porcaria. Sabia que a consequência de usar fluido de oração junto com vinho e álcool apareceria em breve, só não esperava que fosse em uma batalha.
— Heitor! — Anayê chamou.
O ceifador levantou um dedo, bem devagar.
— Fenrir… — balbuciou reunindo toda a força. — Vou precisar da minha bebida.
O rosto de Fenrir se transformou em uma imensa interrogação.
— O quê?!
— Faz logo o que ele tá pedindo! — Anayê berrou.
Contrariado, Fenrir lançou o odre para o ceifador.
— Segura!
Heitor levantou a mão na direção do odre, sentindo a boca se encher de água.
E então um lança de energia transpassou o odre e fez o objeto explodir em um milhão de pedaços. Os cacos e o líquido avermelhado descansaram no chão diante dos ceifadores.
Os três miraram Kelsin ao mesmo tempo.
— Nada de truques adicionais — ele falou. — Já ouvi falar das suas trapaças, ceifador caolho.
As mãos de Heitor se fecharam em um punho. Seu peito subia e descia debaixo dos trajes pretos. Que porcaria.
— Fenrir, eu vou ajudar — Anayê disse.
Porém, Heitor fez um gesto para que ela não viesse.
— Eu… — ele afirmou com muita dificuldade. — Eu consigo sozinho.
A ceifadora cerrou os dentes. A cena de Fenrir se colocando em sua frente para salvá-la assaltou sua mente e reviveu a amarga impotência. Não vou deixar isso acontecer de novo, prometeu para si mesma.
— Pena — Kelsin falou. — Achei que nossa batalha seria mais interessante.
O feiticeiro ergueu as duas mãos e a energia púrpura surgiu. Então, ele a levou até a boca e engoliu todo o poder.
Fenrir recuou, balançando a cabeça e sentindo uma mão gélida galgar as suas costas. Não, não, não. Sou um covarde. Fui um covarde no Ribeiral, sou um covarde agora, sempre serei um covarde. Pensou que ia chorar. Chorar era melhor do que morrer, convenceu a si.
Heitor tropeçou, mas conseguiu firmar os passos. Cerrou os dentes, estufou o peito e sustentou o olhar. Eu preciso fazer isso. Por um breve pareceu ouvir a voz distante e esquecida de sua mulher: Esse seu orgulho ainda vai te custar tudo. Odiou dois fatos ao mesmo tempo, ela estava certa e ele tinha perdido o seu tudo, que era ela.
— Amora, me desculpe — disse.
Em seguida, o punho se abriu e mirou os céus. As mãos dele estremeceram ainda mais enquanto gotas grandes de suor pingavam do rosto.
Kelsin se atirou na direção dele com uma velocidade impressionante. A boca fechada numa linha e as mãos muito rentes ao corpo.
De repente, um buraco circular se abriu acima do feiticeiro e lançou uma chuva de fogo que se espalhou em uma área redonda por onde Kelsin avançava.
O feiticeiro notou as gotas de fogo e começou a se concentrar em esquivar. Por mais impossível que fosse, ele estava obtendo êxito, deixando Anayê boquiaberta.
Heitor estava focado. Só mais um pouco, corpo, por favor. Os nervos de seu braço protestaram quando ele fechou os punhos.
E então, todas as gotas de fogo explodiram ao mesmo tempo.

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