Capítulo 169 | O Banquete de Sangue
A sombra de Letônio avançava devagar. Silvo a acompanhava com o arco firme nas mãos. O passo contido representava o limite do controle da aparição. A cada esquina, a forma escura parava por um ou dois segundos. Silvo aprendeu a ler aquelas hesitações. Elas significavam o custo de manter a direção contra a vontade opressora da escuridão de Nix.
Eles viraram à esquerda e depois à direita. O muro do assentamento aproximou-se. Silvo percebeu a proximidade pelo eco dos próprios passos e pelo cheiro de terra e pedra velha. O estrondo da batalha nos portões atraiu a atenção do batedor.
Do alto de uma plataforma destruída, os dois observaram o confronto. Theo e Calixto lutavam na linha de frente. Homens tombavam. Centauros e bestas sombrias de Nesso esmagavam os escudos e as lanças de Nova Arcádia com brutalidade cega.
Silvo puxou uma flecha da aljava e tensionou a corda do arco. Mirou o peito de um dos centauros menores. A vontade de disparar e aliviar a pressão sobre seus comandantes queimou em seu peito.
A sombra de Letônio ergueu o braço e tocou a madeira do arco. O frio da aparição enrijeceu os dedos de Silvo.
— Pare. — Letônio interveio. — Nossa tarefa importa mais.
Silvo rangeu os dentes e abaixou a arma. Ele sabia a verdade. Guardou a flecha e recuou um passo.
Eles desceram da plataforma e tomaram posição atrás de um muro baixo, com a visão desimpedida para a praça. O local oferecia o ponto de emboscada perfeito. Aguardaram em silêncio.
No centro do salão, a deusa Ártemis deu um passo à frente. A luz do luar, que passava pelo teto desabado, tocou sua silhueta delgada. Ela ergueu o arco de prata e fixou os olhos frios em Licaão. O monarca permanecia de joelhos, com as mãos espalmadas sobre o mármore sujo de restos de comida e sangue de cão.
— Você desafiou a mesa dos deuses com sua carne imunda — a voz de Zeus ecoou, gélida. — Sua punição será rastejar pela terra na forma da fera que habita sua alma.
O rei dos deuses deu um olhar para sua filha que foi acolhido com um aceno compreensivo.
Com mais um passo, a deusa fechou a distância com licaão em silêncio, abaixou ao lado do homem ajoelhado até nivelar sua boca com a orelha dele. Então, sussurrou.
Licaão arregalou os olhos. Veios negros com bordas esverdeadas começaram a se expandir, vindos de trás de suas orelhas, em direção ao pescoço, ao peito, ao resto do corpo. Ele tentou escapar, mas a deusa o segurou no lugar com um aperto firme no ombro. Seus olhos reviraram, seus dentes se fecharam nos lábios e abriram fissuras com a mordida violenta.
Então, ela o soltou.
Um estalo seco reverberou pelas paredes de pedra quando a coluna vertebral do monarca se curvou para cima de maneira forçada. Ele soltou um urro gutural, um som que começou humano e terminou em um ganido agudo de pura agonia. Seus ossos moveram-se sob a carne e músculos como se quisessem escapar. Os braços esticaram-se, e as articulações dos cotovelos romperam-se para trás com um ruído úmido de cartilagem esmagada.
Teseu tentou avançar, mas seus pés afundaram no chão que se tornara subitamente denso como piche. A magia de Mnemósine o manteve preso no lugar. Ao seu lado, Plutarco e Sophia também se enrijeceram sob o efeito da paralisia. Puderam apenas observar o trauma da carne.
— Deuses… — Sophia gaguejou. — Que horror…
— Ele passou por tudo isso… — Plutarco tinha uma voz firme, mas ainda compassiva com a garota. — Se ele passou por isso, o mínimo que podemos fazer é testemunhar. Talvez precisemos disso para sair daqui.
Sophia sentiu seus ombros ficarem mais tensos, os dedos rígidos, mas apertou o olhar. Forçou-se a assistir aquela cena horrenda.
A pele de Licaão esticou-se até sangrar nas juntas, e logo uma pelagem negra, grossa e eriçada rompeu os poros com violência. As mãos humanas achataram-se contra o mármore, e os dedos se fundiram em patas pesadas, com garras escuras que riscaram a rocha. O crânio deformou-se; os ossos da face estenderam-se para a frente em um focinho proeminente, e suas orelhas esticaram, subiram para o topo da cabeça. Os lábios repuxaram-se com violência, e revelaram dentes humanos que caíam no chão para dar lugar a presas afiadas e amareladas.
A transformação terminou com um último espasmo que jogou o colosso de pelos para a frente. O Rei da Arcádia sumiu, e deu lugar a uma besta lupina colossal.
O Licantropo ergueu a cabeça e soltou um uivo que fez o resto do teto desabar em poeira. Seus olhos, antes escuros, agora ardiam com um brilho carmesim, desprovidos de qualquer centelha de razão.
As portas do salão se abriram com estrondo. Um esquadrão de guardas reais e servos entrou com tochas e lanças na mão, atraídos pelos trovões e pelos gritos de dor de seu mestre. Eles pararam em choque diante da criatura.
A besta saltou com uma velocidade devastadora sobre o primeiro soldado. Suas mandíbulas fecharam-se ao redor do pescoço do homem, e o som de ossos esmagados precedeu o jorro de sangue que batizou a criatura. O corpo inerte caiu no chão, e o lobo já estava em movimento, cravando as garras no peito de uma serva que tentava fugir. Ela foi arremessada contra uma coluna, e sua espinha partiu-se com o impacto.
Teseu forçou os músculos contra a barreira invisível, os calcanhares ardiam pelo esforço de se libertar, mas a paralisia era absoluta.
— Licaão, pare! — o grito sumiu no barulho da carnificina.
Do alto de uma plataforma destruída que dava para o pátio, os deuses assistiam. Zeus mantinha os braços cruzados, a barba branca iluminada pelas faíscas de seus raios latentes. Ao seu lado, Hermes, com seu quíton imaculado, observava o massacre com um olhar distante. Para as divindades, o extermínio daquele reino era apenas a conclusão estética de uma sentença.
O lobo continuou seu avanço implacável pelo palácio. Um guarda tentou cravar uma lança em seu flanco, mas a ponta de bronze ricochetou na pelagem espessa. Licaão girou o corpo e, com uma patada patibular, arrancou o braço inteiro do soldado, deixando-o a jorrar sangue antes de ser decapitado por uma mordida final.
As ruas da cidade transformaram-se em um matadouro. Pessoas que haviam jurado fidelidade ao rei eram agora carne sob suas garras. Licaão trucidou o próprio reino, destruindo o que amava em um banquete de sangue e fúria cega.
Saciada a sede inicial de destruição, a besta saltou pelos telhados quebrados, cruzou o pátio repleto de cadáveres e sumiu entre as sombras das florestas profundas da Arcádia. O rastro de morte e dor ficou para trás, uma cicatriz indelével na história da Hélade.
O grupo encarava a morte e o reino destruído com um vazio no peito.
Foi quando a névoa da ilusão oscilou, e Mnemósine materializou-se novamente no centro das ruínas em meio aos outros deuses na memória. Ela buscou a espada de Hefesto que jazia jogada no chão, a lâmina escura emitia pequenos estalos com a proximidade da deusa.
— Mines… — Sophia chamou, mas seu olhar compassivo foi enfrentado com o mais profundo desprezo.
— Tolos — Mnemósine zombou, melodiosa e cruel. — Buscaram o que jamais conseguiriam alcançar, e me trouxeram exatamente aquilo que planejavam evitar
— A espada! — Teseu gritou.
Plutarco pareceu entender no exato momento.
— Ela queria a espada íntegra da memória…
Mnemósine gargalhou. Teseu rangeu os dentes e deu um solavanco para frente. Travado.
— Permanecerão presos aqui enquanto durar a culpa do Rei da Arcádia. Ele traiu, matou e abandonou seu próprio povo. A mente dele é a sua própria jaula, e agora é a de vocês também.
Sophia tentou um passo à frente, a paralisia a prendeu na intensidade de sua indignação.
— Nós não pertenceremos ao seu jogo, deusa — a garota afirmou, o cenho crivado de raiva.
Mnemósine sorriu com escárnio e ergueu a mão esquerda. O ar diante do grupo distorceu-se, e uma janela translúcida abriu-se no espaço. A visão revelou a realidade atual nos portões de Nova Arcádia.
Massacre total. Centauros sob o comando de Nesso avançavam com brutalidade, suas patas esmagavam os escudos dos soldados do assentamento. Bestas sombrias trespassavam as linhas de lanças e dilaceravam os guerreiros de Nova Arcádia. Soldados caíam um após o outro na lama vermelha, e seus gritos de agonia pareciam cruzar a barreira da ilusão.
Sophia levou as mãos à boca, seus olhos se abriram em choque. Calixto estava no ajoelhada, o corpo coberto em sangue. Ela ainda lutava para puxar a corda do arco.
— Vejam o fim de sua utopia — Mnemósine sussurrou. — Enquanto vocês buscam um monstro no passado, os poucos que restaram morrem no presente.
Recuou um passo e desapareceu na névoa espessa, levando a espada consigo. A janela ilusória fechou-se com um estalo, e deixou o grupo dentro do cenário em ruínas.
No instante em que ela sumiu, todos sentiram seus movimentos livres. Tropeçaram para frente, desacostumados à liberdade de moção. Entreolharam-se, surpresos.
Entretanto, o feitiço manteve o ambiente suspenso, ativo, e a figura de Licaão ressurgiu no centro do pátio destroçado. Estava em sua forma humana, mas os fantasmas espectrais do lobo ensanguentado ainda orbitavam seu corpo, relembrando-o de seus crimes a cada segundo. O homem caiu ajoelhado sobre as pedras manchadas, cobriu o rosto com as mãos calejadas e soltou um urro de dor selvagem.
Chorava em agonia, seus ombros carregavam o peso de um mundo destruído pelas próprias mãos.
Teseu tentou correr na direção dele, mas uma barreira invisível o repeliu com força, jogando-o de volta para junto de Plutarco.
Sophia conseguiu avançar. Sua apatia habitual desapareceu por completo, substituída por um compadecimento genuíno pelo povo que vira morrer na janela de Mnemósine. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, mas sua postura permaneceu firme quando parou a poucos metros do monarca de joelhos.
— Você é um rei covarde, Licaão! — Sophia gritou, sua voz incerta ecoando pelo pátio silencioso. — Você chora ajoelhado quando seu povo se ergue e precisa de sua força!
Licaão não ergueu os olhos, continuou o choro trágico.
— Grite com suas memórias o quanto quiser, mas escute a verdade! — ela continuou, dando mais um passo. — O seu povo ainda vive! Eles não morreram naquela noite! Eles retornaram e estão nos portões de Nova Arcádia agora, morrendo por sua terra e aguardando o retorno de seu verdadeiro rei!
Plutarco aproximou-se dela, o rosto mostrava preocupação. Ele parou ao lado e fixou os olhos inteligentes no monarca.
— Lembre-se de sua própria história, Licaão — disse o escriba, com firmeza na voz. — O Rei Lobo, cuja força residia nas próprias mãos, que foi capaz de desafiar e resistir à vontade dos próprios deuses do Olimpo. Em sua lenda não reside submissão, mas sim resistência.
Teseu rangeu os dentes, empurrou a barreira invisível, até sentí-la se quebrar como vidro. Uniu-se a eles, rompeu a última resistência do feitiço com sua própria determinação.

Colocou a mão sobre o ombro trêmulo do monarca.
— Eu percebo agora, meu amigo — Teseu disse, o centro das sobrancelhas erguidas, o olhar compadecido. — Você não é o monstro canibal das histórias. É um homem ferido, um amigo que carrega uma dor imensa. Mas você não precisa carregar esse fardo sozinho. Nós estamos aqui. Nós lutaremos com você.
O rei começou a tremer, seu choro diminuiu, até parar. Ele ergueu o rosto, e seus olhos escuros encontraram os rostos dos três companheiros. A lucidez retornou ao seu olhar, afastando as sombras carmesim da besta. Com os olhos fundos, as feridas no corpo, respirou fundo e firmou os pés nas pedras.
Então, a realidade pareceu quebrar com um estrondo ensurdecedor, como se milhares de fragmentos de vidro caíssem ao mesmo tempo ao redor deles.
O grupo acordou de imediato no interior do cofre de pedra. O ar úmido e o cheiro de poeira antiga substituíram o aroma de sangue e fogo do palácio. O pedestal de pedra estava vazio; a espada de Hefesto havia sumido com Mnemósine.
Licaão já estava de pé, sua postura ereta e imponente denunciava que o discurso de Sophia e dos outros o trouxera de volta antes mesmo que ele desabasse na realidade. Os sons da batalha lá fora mudaram de forma drástica. Os gritos e os choques de metal estavam mais próximos, mais graves, indicando que as defesas principais haviam cedido. Eles estavam avançando na luta dentro da cidade.
O Rei da Arcádia virou-se para Teseu com o maxilar travado e uma determinação de aço nos olhos.
— Rompa o selo — Licaão ordenou.

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