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Capítulo 31. Dedos Dourados 9
Pelk relatou ao amigo com entusiasmo as suas aventuras na torre norte: o êxito fortuito de sua empreitada e, por contraste, o sutil vínculo estabelecido com a aprendiz do sexto andar.
O companheiro de quarto estava orgulhoso:
— Que bom que deu tudo certo! — elogiou Benk, satisfeito pelo resultado.
Pelk desenhou sobre um pedaço de papel as runas ocultas no cilindro interno do conversor de mana utilizado para ativar os títulos de posse. Energia vital que dança nos nervos, corra, propague e acompanhe, escale a memória e revele o presente que teu irmão oferta; receba em troca o equivalente e proteja o segredo que por teu sangue circula. Que se faça eterna em vida e herdeira inclusa. Númere.
— Complexo — constatou Benk, refletindo sobre as palavras da fórmula.
— Como transcrevemos as runas? — perguntou Pelk, e continuou: — Papel comum funciona, mas não é o suficiente. Papel especial de mana é melhor, mas também não aguentou. A tinta dourada parece ajudar. Escrevemos com ela na madeira? Ou entalhamos?
A ansiedade percorria com intensidade as expectativas do rapaz, uma euforia que encobria alguma coisa.
— Você está bem? Aconteceu alguma coisa, Pelk?
Benk conhecia bem o amigo: quando este transbordava sentimentos, era certo que algo havia acontecido. Não que ele precisasse lhe contar tudo, mas era melhor se controlar um pouco.
— Sim, não aconteceu nada… — começou o mago. O constrangimento fez com que o rapaz evitasse contato visual com Benk, mas, antes que conseguisse conter a língua, confessou:
— Ela me pediu para ir lá de novo.
Benk franziu a testa e ajeitou os óculos.
— Não precisa da minha permissão para ter amigos, Pelk — disse, com um meio sorriso que transmitia surpresa e um leve receio.
O mago permaneceu em silêncio e não aprofundou esse assunto, mas compreendeu a mensagem subliminar do amigo: Apenas tome cuidado.
Mas o que importava agora era o que fariam com aquela descoberta. Depois de algumas ampulhetas de debate sobre os prós e contras, decidiram que a melhor abordagem era utilizar madeira. Ambos eram escribas, mas isso não significava que podiam transferir suas habilidades manuais de uma arte para outra. Entalhar com precisão tantas runas em um pequeno cilindro de madeira exigiria esforço, paciência e perseverança.
— Temos que controlar os ânimos, Pelk — disse Benk.
E por mais que estivessem ansiosos, um turno e dois dias haviam se passado antes que Benk conseguisse, com bastante dificuldade, acertar o entalhe sobre o cilindro. Quando terminou, exausto, mas satisfeito, proclamou:
— Agora finalmente podemos sentir o cheiro da liberdade.
…
Compor os documentos era a sua profissão. Pelk relatou o que Ling lhe ensinara e, embora já soubesse quase tudo o que a mulher dissera, uma coisa lhe chamou a atenção.
A runa de quantificação era propositalmente ambígua.
Como assim: Que a soma seja sempre o provimento justo da matéria que de valor determina a parte e da outra parte a troca pelo justo preço que deve favor ao reino e a ele oferece o que de respeito merece pelo amparo em um centésimo do todo diante da autoridade mágica.
— Quem exatamente é esse reino? — perguntou o mago, enquanto debatiam o significado das runas.
Benk coçou o queixo, intrigado.
— Ele não especifica. E esse trecho está abrindo um precedente: um centésimo do todo diante da autoridade mágica. Mas não define quem é essa autoridade. O reino, um indivíduo, um grupo?
— Quando disse que existia evasão de recursos, era porque os números não batem?
Pelk estava inclinado sobre o esboço de documento de posse que havia feito.
— Sim. Quando perdem a carta de posse e enviam uma requisição para elaboração de uma nova, percebi que, entre os registros de impostos, a cobrança não era completa. Um centésimo do total coletado, ou seja, um centésimo de um centésimo, não constava no montante arrecadado. Onde foi parar esse valor? — questionou Benk com a voz levemente alterada.
— E essa outra, Benk? — disse o amigo, apontando para outra elaboração.
A margem contorna e atua em conversão que dobra o valor diante da moeda soberana para em tua língua contar os númeres e nas bordas ajustar as somas.
— Essa runa indica o câmbio, quando o estado tem uma moeda de valor diferente da moeda real de Palard. A cotação sempre é convertida no valor da moeda oficial da capital, mas bem lembrado, essa parte também é estranha, como assim dobra o valor? — disse Benk, movendo as pernas sem perceber.
— Olhe aqui, Pelk. A palavra “dobra” volta a aparecer. Ajustada a transação que dá dobra mágica, ampara o resultado que se faça firme o pacto que merece determinação.
— Isso tudo é muito bagunçado, não é à toa que ninguém entende esse documento — reclamou Pelk e, com impaciência, ergueu o documento no ar.
— Tem certeza de que conseguimos burlar essas runas? — perguntou o mago, balançando o esboço documental na frente de Benk.
O escriba ajeitou os óculos e levantou-se. Caminhou alguns passos em direção à janela e observou a torre norte. O “privilégio angular” do quarto de alojamento onde dormiam — essa era a piada entre eles.
— Temos que inserir o documento pronto e ativado entre os papéis de um dos andares da torre. De preferência no andar do estado de Norgta.
Com seriedade recobrindo o rosto, Benk encarou o amigo.
— Está pronto para se tornar um filho bastardo da família real deste estado, Pelk?
…
Bontek, esse era o nome do célebre. Um príncipe Cavaleiro-Dragão do estado monárquico de Norgta. Terceiro na linha sucessória ao trono. Ele, propositalmente, é claro, extrapolou a poligamia a um nível que muitos achavam indigno.
Norgta situava-se ao extremo oeste do Reino Antigo, uma terra de tradições, costumes e linguagem preservados através dos ciclos do mundo.
A família real, que governava há gerações, também propagava, por milênios, o advento da herança dracônica. Bontek era o quadragésimo sexto cavaleiro dragão do estado. Foi aceito por seu parceiro, o Dragão Dourado, senhor das montanhas ao norte do estado, quando ainda era apenas um bebê. E, como escolhido, recebeu de seu avô de segundo grau por parte de pai a honraria máxima de sucedê-lo nessa posição de estima única e vitalícia.
Mas Bontek não nutria muito apreço pela vida palaciana, e nem era particularmente capacitado para assuntos militares. O que ele gostava de verdade era de Bolt, um vinho típico de alto teor alcoólico e alucinógeno, popular em tavernas e bares nas periferias do grande Reino. Movido pela aventura, não demorou para que descobrisse sua segunda maior paixão na vida: o corpo macio das mulheres.
Um homem alto, bonito, com conversa aveludada e bom de cama. Não apenas herdeiro, mas destinatário exclusivo da exploração mineral da montanha de seu bom e fiel companheiro dracônico, possuía dinheiro demais e razão de menos.
Todos os seus casos geravam duas consequências inevitáveis: um bastardo e a prosperidade financeira da mãe do rebento.
Quantos filhos concebera? Ninguém sabia ao certo! A estimativa mais conservadora declarava que já passava da casa dos trezentos, ou, ao menos, esses podiam ser catalogados por sangue, pois possuíam títulos de posse em seus nomes, recebendo do progenitor uma soma generosa para enfrentar o destino. E mesmo que nunca viessem a conhecer o pai, por lei e por caráter, dele recebiam o justo.
Por outro lado, muitos oportunistas tentavam apresentar seus filhos como herdeiros do infame homem do oeste e, por todo o continente, o seu sobrenome cravava a identidade de inocentes crianças. Algumas por mérito, outras por status. Norgout eclodiu, já há algumas dezenas de anos, como o sobrenome mais popular em todo o reino.
— Ei, Pelk, se tudo der certo, seremos irmãos. Benk e Pelkdoc Norgout — o que acha? — zombou o escriba, sabendo da confusão que Bontek gerava no Reino.

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