Capítulo 96: Caminho das Profundezas (6)
Já fazia uma semana desde que Sirwen conheceu o pequeno Jaehwan. Ela pôde observá-lo dormindo nos esgotos e roubando comida de lojas de bebidas. Depois, ele ia para terrenos mais altos para captar o sinal do Wi-Fi público.
— Quando uma passagem se abre, o sinal fica instável.
E quando uma passagem se abria, ele ia procurar partículas para recuperar.
Sirwen se compadeceu do garoto. Mesmo sabendo que este mundo não era real e era apenas parte da imaginação dele, ela ainda precisava perguntar.
— …Você está bem?
Com esta vida? Ela não conseguiu acrescentar a última parte.
— …O que tem? — perguntou o pequeno Jaehwan. Para ele, este era o modo de vida normal. Não havia mais nada de que precisasse.
— Você faz mais alguma coisa? Além de enviar essas memórias de volta.
— Hmm…
O garoto parecia nunca ter sequer pensado no assunto. Sirwen achou que cometeu um erro ao perguntar aquilo. Parecia cruel dar esperança a alguém que não conhecia a esperança. Então o garoto falou.
— Eu vejo memórias.
— Memórias?
— Sim.
O garoto tirou algo do bolso. Eram pedras brancas.
— Eu não envio todas as memórias de volta.
Sirwen percebeu que eram partículas de memórias. Ela perguntou: — Você pode fazer isso? Não vai causar problemas?
Jaehwan balançou a cabeça.
— Deve ficar tudo bem. Não são tão importantes.
— Como você sabe disso?
— Por causa da cor.
De acordo com ele, as memórias se diferenciavam nas cores branca, verde, azul e vermelha, nessa ordem de importância. Memórias brancas não eram muito importantes. Enquanto o garoto acariciava a pedra, as memórias se projetaram como uma imagem holográfica.
Era a memória da mãe de Jaehwan o segurando no colo quando ele era pequeno.
[Vou ler este livro para você hoje.]
Era um livro famoso que até Sirwen conhecia. Estava incluído nos [200 livros recomendados para criar uma boa torre].
‘Era… algo… com um príncipe, eu acho…’
Ela então começou a se concentrar na mãe.
[Então, o Pequeno Príncipe foi para a Terra?]1
[Sim, foi.]
Era sobre um príncipe. Um Pequeno Príncipe que vivia no asteroide B612 veio para a Terra.
[…Então, o Pequeno Príncipe disse. “Só se vê bem com o coração; o essencial é invisível aos olhos.”2]
O Pequeno Príncipe acreditava no poder da imaginação, ou no poder de olhar para as coisas importantes escondidas à vista de todos. Mas Sirwen conhecia o fim da história.
Não havia como o Pequeno Príncipe continuar vivendo sem aceitar o que estava diante dele. Então, para terminar a história, o Pequeno Príncipe precisava morrer. A única maneira de manter sua inocência era através da morte.
[Mas o que acontece com o mundo depois que o Pequeno Príncipe vai embora?] perguntou o garoto.
[Huh?]
A mãe dele ficou surpresa. Era uma pergunta que nunca havia sido feita em um mundo onde as pessoas não se importavam.
[O mundo que o Pequeno Príncipe deixou para trás.]
[Isso é…]
[Quem salva aquele mundo então?]
Sirwen ficou em silêncio.
[Aquele mundo é…]
A jovem mãe ponderou. Qual seria a melhor maneira de evitar que a criança se machucasse?
[Claro, o Pequeno Príncipe vai salvá-lo.]
[Mas ele está morto.]
[Não, ele não está morto.]
Então, a história surgiu. Uma mentira inventada por um adulto para o bem da criança.
[Ele vive na Terra.]
Ela afirmou que o Pequeno Príncipe não havia morrido e ainda vivia para salvar o planeta. Era uma mentira, uma história falsa. Mas a jovem criança ouviu atentamente, como se realmente acreditasse naquilo.
Sirwen então percebeu que aquela história era o alicerce da vida dele.
No momento seguinte, ela sentiu seu coração afundar.
Por que essa memória era de cor ‘branca’? Por que essa memória era ‘sem importância’?
Este homem… até que ponto ele havia desistido da vida?
Naquele instante, um receptor de Wi-Fi à distância começou a fazer barulho. O pequeno Jaehwan se levantou imediatamente.
— Encontramos.
— Huh?
— A saída para você.
No topo de um arranha-céu havia um buraco estranho. O pequeno Jaehwan e Sirwen olharam para o buraco, e então ele falou. — Eu chamo aquele lugar de ‘porta de cachorro’.
— Porta de cachorro?
Era um nome estranho, mas de certa forma compreensível. Uma porta de cachorro era pequena demais para adultos normais passarem. Sirwen se sentiu um pouco mal por ter que deixar o lugar. Era estranho, porque ela odiava tanto quando foi aprisionada ali pela primeira vez.
— Eu teria ficado mais tempo com você se tivesse mais tempo.
— Eu não preciso disso.
Sirwen então perguntou novamente: — Mas você gostou de me ter por perto, não é?
Ele não respondeu. No entanto, Sirwen gostou do silêncio. Era a melhor resposta positiva que o garoto podia dar.
— Temos que subir até lá. Acho que precisamos chegar ao telhado.
Ambos então começaram a subir as escadas do arranha-céu. A ‘porta de cachorro’ não ficaria aberta por muito tempo. Sirwen ofegava enquanto corria escada acima.
— Você é rápido para alguém tão jovem.
— Não sou jovem.
— Quantos anos você tem então?
— Eu esqueci.
Sirwen então perguntou novamente.
— Quantos anos você acha que eu tenho?
— Uns 2000.
Era meio irritante de ouvir, mesmo sendo verdade.
— Todas as pessoas lá fora vivem tanto tempo assim?
— …Nem todas.
— Mas elas se tornam adultas, certo?
Sirwen não conseguiu responder; ela queria negar. Queria dizer que havia alguns que se tornavam adultos por fora, mas permaneciam jovens por dentro.

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