Capítulo 98: Caminho das Profundezas (8)
Nona Região. Palácio do Senhor das Trevas.
Laika mal conseguiu terminar seu relatório. Então veio uma voz baixa e calma.
— Entendo… então foi isso que aconteceu.
Laika estremeceu com aquela voz. Ele até pensou em fugir em vez de se reportar pessoalmente. A derrota tinha sido severa naquele nível. Eles perderam três Generais Superiores e dez Generais Inferiores. Era algo grande demais para ser ignorado. Além disso, Sameng Garam era apenas um General Superior, mas tinha poder equivalente ao de um Comandante. E ainda assim, ele morreu no <Caos>. Como isso aconteceu?
— Então… Garam morreu.
Laika abaixou a cabeça com medo. O homem à sua frente era o braço direito do Senhor das Trevas. Ele era mencionado por seu título.
Estrategista das Trevas.
Havia muitos estrategistas e conselheiros, mas quando mencionado nas <Grandes Terras>, geralmente se referia a este homem.
Sameng Hoon.
Ele era o Segundo Comandante da nona região e o Príncipe da Família Sameng. Também era o irmão mais velho de Sameng Garam.
— Eu sempre achei que ele seguiria em frente assim.
— …
— Como foi seu último momento? Ele ficou satisfeito?
— … S-sim, senhor — respondeu Laika. Este homem era mais temido não por sua força bruta, mas por seus métodos cruéis e conhecimento profundo.
— Olhe para cima.
Laika olhou para cima. Ele não queria encarar os olhos do homem, mas não tinha escolha.
‘Por favor, não me mate’, pensou Laika. Ele não conseguia compreender o que Sameng Hoon estava pensando. Laika abaixou lentamente a cabeça. Não suportava olhar nos olhos aparentemente oniscientes de Sameng Hoon.
— Alguns dias atrás, fiz uma viagem até as <Raízes>. Queria tomar um ar fresco.
… Raízes? Para que direção essa história estava indo?
— Era um mundo escondido por aqueles [Pesadelos], então eu estava ansioso. E realmente era. Eu não sabia que um mundo assim existia.
Laika pensou rapidamente. Do que ele estava falando? Estava tentando mandá-lo para uma missão de reconhecimento em terras remotas? Não, não era isso. Então, Laika ficou esperançoso.
‘Ele está me perdoando?’
Talvez este homem estivesse pensando em perdoá-lo por alguma razão desconhecida.
‘Quer dizer, eu não pude fazer absolutamente nada.’
Quem imaginaria que um [Produto] poderia ser tão forte?
— E eu trouxe isso como lembrança.
Sameng Hoon apontou para um canto da sala. Havia uma imagem que Laika nunca tinha visto antes.
‘O que é aquilo?’
Era um desenho com um fundo bege, com a figura escura e distorcida no centro. Na parte inferior, estava escrito [Ceci n’est pas une pipe], algo que ele não compreendia. Não eram palavras usadas nas <Grandes Terras>.
— Não é ótimo?
— Realmente é, senhor!
Laika concordou rapidamente. Ele não sabia nada sobre aquilo, e Sameng Hoon havia trazido de volta.
— Aquele desenho, o que você acha que é?
Laika olhou novamente. Ele não sabia.
— É… um cachimbo?
Felizmente, parecia que a resposta estava perto de ser a correta.
— Sim. É um objeto que PARECE um cachimbo.
Laika sentiu uma certa inquietação com aquela ênfase.
— Laika, então, você pode ler a frase abaixo?
— Desculpe, senhor. Eu não compreendo o idioma…
Sameng Hoon então acenou com a mão, e a frase foi traduzida no espaço acima.
Ceci n’est pas une pipe.
Isto não é um cachimbo.
Laika olhou para aquilo estupefato. Era o desenho de um cachimbo, mas as palavras diziam que não era. O que era aquilo? Sameng Hoon então falou de forma surpreendente.
— Não é ótimo?
— Hã? S-sim…
— Desenhou um cachimbo, mas negou esse fato. Como o criador pensou nisso?
Laika não conseguia nem compreender mais do que ele estava falando.
— Laika, você realmente acha que isso é um cachimbo?
— S-sim… parece…
— Não, não é um cachimbo.
Laika não pôde continuar.
— No entanto, ainda o chamamos de cachimbo. Ele não tem o tato de um cachimbo, nem um lugar onde possamos colocar fumo para acendê-lo. É apenas um desenho, afinal. Mas ainda o chamamos de cachimbo. Não é estranho?
Aquilo era correto. Aquilo era, afinal, apenas um desenho de um cachimbo. Não o cachimbo em si. Laika assentiu.
— S-sim! Isso mesmo, senhor!
— Sim, mas é o mesmo com todo o resto. Existem muitos cachimbos, todos com aparências diferentes. Mas ainda os chamamos de cachimbos. Isso não é… estranho?
— S-sim, é, senhor!
— Então, depois de pensar um pouco, chegamos a esta pergunta. O que é, então, um ‘cachimbo real’? Existe tal coisa?
Laika olhou para o cachimbo novamente. Era um cachimbo, mas não era ao mesmo tempo. Ele compreendeu o que Sameng Hoon estava dizendo, mas ficou desconfortável ao mesmo tempo.
Isso era realmente sobre o cachimbo?
— É uma obra de arte incrível. É difícil pensar dessa forma quando se é um Adaptado vivendo dentro de um sistema.
Laika assentiu, mas não conseguia entender. Ele compreendia que tipo de pergunta a imagem propunha. Mas o que havia de tão importante nisso para se pensar?
— Você vê por que é importante agora?
— Sim, senhor. É uma obra de arte impressionante.
Sameng Hoon assentiu.
— Você entende de arte.
— O-obrigado, senhor.
— Então, cabe a você responder agora.
— S-sim?
Laika estremeceu. Algo não estava certo.
— Eu tive uma pergunta quando vi o desenho.
— …
— O que é um ‘General’?
Sameng Hoon olhou para Laika.
— É… é um ser, poderoso e digno, entre todos nesta terra.
— É? Realmente?
— Sim, senhor.
— Entendo. Mas, então…
O silêncio caiu.
— A quem isso se refere?
— … C-como?
— Refere-se a Bargas ali?
Sameng Hoon apontou para Bargas, o Gélido, que estava parado em um canto da sala.
— Ou Masiha?
Ele então apontou para Masiha, o Branco, no outro canto.
— Ou eu?
Finalmente, apontou para si mesmo. Laika não tinha certeza do que estava acontecendo, mas sabia que não era a seu favor.
— S-s-sim, senhor…
— Entendo. Então, isso é um General. — Sameng Hoon sorriu — Então, o que é você?
Laika sentiu seu coração afundar.
— VOCÊ é um General?
Como ele deveria responder? Laika não conseguiu encontrar uma resposta para aquilo.
— Você falhou em destruir um [Produto] e perdeu todos os seus camaradas… e ainda assim voltou vivo. Você ainda é um General, um ser poderoso e digno?
— Is-isso…
Ele não conseguia responder. Se afirmasse que era, significaria que era uma desgraça para todos os Generais. E, no entanto, se dissesse que não era, estaria desonrando seu posto como General. Havia apenas uma resposta para essa pergunta, afinal.
Laika percebeu.
‘… Entendo.’
Seu destino foi decidido no momento em que ele entrou naquela sala.
Laika fechou os olhos silenciosamente.
Sameng Hoon olhou para Laika, preso a uma tela com a cabeça cortada, e esfregou o queixo.
— Hmph. Vamos chamar isto de [Isto não é um General]. O que você acha?
— É maravilhoso, senhor.
Bargas, o Gélido, abaixou a cabeça. Parecia que ele não estava nem um pouco incomodado com o que aconteceu, como se já tivesse visto isso muitas vezes. Sameng Hoon riu e perguntou: — Onde eles estão agora?
— Perdemos o acesso à [Porta Estreita], então não temos certeza, mas estamos supondo que ele já chegou à [Fábrica do Abismo].
— Então, eles estão bem ao lado das [Profundezas].
Sameng Hoon assentiu.
— Preparem-se para partir. Convoquem o quinto e o sexto Comandantes.
— Precisaremos da aprovação do Senhor para convocar Comandantes. Como devemos proceder, senhor?
— O Senhor está ocupado no momento. Não o incomode com questões insignificantes como esta.
— Sim, senhor.
Os Generais saíram da sala, e Sameng Hoon observou sua coleção. Eram lembranças que ele colecionou do Mundo 294. Havia desenhos, cartuns e até consoles de jogos. Ele então parou em frente ao último item. Foi por causa desta peça que ele viajou ao Mundo 294.
Um corpo vivo. Pálido e frágil. Parecia que estava dormindo há muito tempo, por isso estava desnutrido. Este era o verdadeiro corpo do [Produto] que estava causando estragos dentro do <Caos>. Era o corpo de Jaehwan que Sameng Hoon mal conseguira adquirir através de muitos subornos aos [Pesadelos] da União.
— Coragem para me matar? Palavras ousadas. — Sameng Hoon sorriu — Vamos ver se você tem essa coragem também.
Então, a porta da sala se abriu.
— Comandante!
Sameng Hoon foi incomodado durante seu ‘Tempo a Sós’.
— O que foi? Eu disse para não me incomodar quando estou sozinho.
— D-desculpe, Comandante. Mas tenho uma pergunta.
— O que é?
— Não temos mais a [Porta Estreita]. Como entraremos no <Caos> agora?
Sameng Hoon zombou:
— Ele já não disse? Para ir atrás dele se tivermos a coragem de nos matar.
— Hã?
Bargas ficou chocado com o que acabara de perceber.
— Não quer dizer…
— Sim, faremos o que ele quer que façamos.
Sameng Hoon falou enquanto conjurava poder em sua mão. O crime de incomodá-lo durante seu tempo a sós era imperdoável.
— Você é o primeiro.

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