Capítulo 1 - O Invasor Que Derrubou A Torre De Astaroth
Boyak estava disfarçado.
À sua frente, uma fila de escravos avançava lentamente até a barulhenta torre do maquinário, o coração podre da fortaleza de Astaroth.
— Foram massacrados.
Ele ouviu a voz dos maggs que supervisionavam a entrada da torre. Como de costume de sua raça, eles tinham corpos grandes e gordos, e pele marrom como o barro.
— A caravana quatro. Ninguém sobreviveu… exceto um.
Boyak puxou o capuz, manteve a cabeça baixa e resistiu ao gosto de carvão e poeira impregnado na garganta.
— Um homem — continuou o guarda. — Com uma mão que brilhava como cristal. Dizem que ele matou todos sozinho.
— Bah! Isso parece uma coisa inventada — retrucou o outro. — Nenhum ceifador tem coragem de chegar tão perto da fortaleza.
Boyak sorriu de canto enquanto passava pelos guardas e entrava na torre.
Deixando os guardas para trás, ele seguiu para dentro da torre. Ajeitou seu capuz velho e surrado para esconder o rosto. Por baixo do manto, ele visualizou uma grande máquina de metal ocupando metade do salão. Os escravos despejavam a pedra alaranjada na máquina e ela cuspia de volta um líquido cinzento.
O local estava cheio de fumaça exalada pelo equipamento, além do barulho excruciante. Boyak considerou aquele cenário perfeito para seu plano. Enxergou apenas um guarda lá dentro, ocupado estorvando uma bela escrava.
Boyak retirou um frasco de vidro de um dos bolsos da calça contendo um líquido azulado. Abriu o objeto e engoliu seu conteúdo num gole apenas. Ele saboreou o fluido, era gostoso como o cheiro de café pela manhã. Sentiu a energia percorrer seu corpo em um piscar de olhos e ficou mais certo de seu objetivo.
Uma mulher se afastou quando o viu tomando aquele líquido. Ela não queria ser acusada de cúmplice de uma revolta.
— Deixe sua força fluir através de mim — Boyak balbuciou.
Um pequeno facho de luz tão dourado quanto os raios de sol no crepúsculo começou a envolver sua mão. Ele se posicionou mirando um soco na direção da máquina.
Atraído pelo facho de luz, o magg distraído voltou sua atenção para o escravo. Primeiro, espantou-se por enxergar aquela luz naquele local. Depois, ficou estático por um momento sem saber exatamente o que deveria fazer. Em seus longos anos de vigia, nada como aquilo havia acontecido na torre. Que tipo de bruxaria era aquela?
Os escravos também se distraiam de suas tarefas admirados e assustados com o aumento da intensidade do brilho. Alguns começaram a murmurar e outros a se afastar. O guarda firmou a lança em sua mão e se aproximou gritando:
— Ei! O que pensa que está fazendo?!
Boyak se virou para os escravos e exclamou:
— Por que raios ainda estão parados aqui? Deem o fora!
A sua palavra pareceu ecoar em todos os ouvidos como uma ordem de urgência e acabou por iniciar o pandemônio. O magg tentou bradar outra ordem, mas a dispersão já estava iniciada e não havia ninguém capaz de parar tantos escravos correndo. Restava para ele, uma única alternativa: exterminar a raiz do problema.
Lá fora, os dois maggs que ainda conversavam sobre a caravana foram pegos de surpresa quando um bando de escravos saiu correndo porta afora como uma manada de zebras descontroladas.
Os outros escravos na fila para entrada, tão confusos quanto os guardas, porém, mais acostumados com desgraças do que eles, não esperaram e acompanharam seus companheiros na corrida. Quando os maggs conseguiram olhar para trás, viram a torre preenchida por luz.
O guarda dentro da torre ergueu o braço para proteger seus olhos enquanto se aproximava de Boyak. No entanto, o fulgor da luz era tamanho que mesmo seu braço era incapaz de protegê-lo do brilho. Ao mesmo tempo, ele sentiu sua lança ficando pesada e lutou para segurá-la.
Mais um passo.
A lança começou a ser arrastada. O magg fechou os olhos e concentrou toda a sua força no braço para firmar a arma.
Mais um passo.
O guarda suava. Suas pernas pesavam e estava ficando difícil de respirar. Ele ousou dar mais um passo com muita dificuldade. Enfim, sua mão se rendeu e a lança caiu no chão. Apalpou seus olhos sentindo suas órbitas consumidas por aquela luz. Estafados, os joelhos dele cederam.
Boyak viu-o se dobrando até o chão e sorriu.
— Seu tolo! — Boyak gritou para ele. — Agora você vai conhecer o poder do Deus Sem Face!
E então o magg ouviu o nome. Seu corpo inteiro foi arrebatado na exclamação daquela técnica. Era como se o nome ecoasse por todos os seus sentidos nervosos numa explosão de fogo e medo. Seus dentes rangiam machucando a boca, seu coração galopava em furor.
— PUNHO DE DEUS!
A exclamação ecoou como uma sentença.
Os guardas do lado de fora tiveram mais sorte. Tudo o que viram foi um de seus semelhantes ser expelido para fora antes da torre começar a desabar. Eles saíram correndo quando a explosão cuspiu pedras, líquido cinza e destroços para todos os lados, ferindo alguns.
O caos causado pela explosão da torre alcançou a fortaleza inteira e iniciou o maior pandemônio do lugar em décadas. Escravos fugiam por todos os lados e os soldados, sem entender exatamente o que tinha acontecido, levavam um tempo para reagir.
Na torre principal, no centro da fortaleza, ficava a sala do trono. Seis grandes colunas sustentavam o teto e um tapete marrom ocupava desde a entrada até a escadaria que levava ao trono. Várias tochas com fogo vermelho tinham o trabalho de iluminar o local junto com os grandes vitrais que retinham a luz acinzentada do dia.
Três generais estavam ajoelhados diante da escadaria que levava ao trono. Cabisbaixos, trajando armaduras reluzentes e chamativas, eles esperavam a oportunidade de explicar o que havia acontecido. Nenhum deles ousava olhar para aquele assentado no trono.
— Uz — uma voz suave e bondosa vinda do trono chamou. — Explique o que aconteceu na torre leste.
— Meu lorde, houve um… ataque — Uz explicou sem sequer levantar a cabeça raspada, ele se sentiu extremamente desconfortável dentro de sua armadura cinza como se ela estivesse muito apertada. — A torre leste foi destruída junto com a máquina de esmagar a rocha do verme.
— Como isso aconteceu?
Uz passou a mão pela cabeça careca. Percebeu que suava.
— Ainda não sabemos, mas a situação se alastrou mais rápido do que pudemos imaginar. Nossos soldados estão controlando os escravos.
— Olhe para mim.
Uz ergueu os olhos com hesitação. Acima dele, ossos de inúmeras raças e de tamanhos diversos formavam o trono, e dois chifres de dragão ocupavam os cantos superiores. Ali, sentado, havia uma criatura de compleição forte, imponente, de pele albina, cabelos longos e loiros, trajando túnicas púrpuras e escuras. Olhos como rubis azulados.
Uz sempre contemplava Astaroth com admiração e adoração. Em seu íntimo, ponderava não haver um ser tão belo e especial quanto seu lorde em toda a Gluran. Era uma honra poder apenas vislumbrá-lo e fazer parte de seu reinado.
O lorde voltou a falar com tamanha calma e frieza que Uz foi tomado por uma sensação de tranquilidade.
— Eu quero que você descubra quem é o responsável pela confusão na minha fortaleza — ele disse.
— Sim, farei isso.
Entretanto, naquele momento, um dos vitrais se estilhaçou quando um sujeito avançou janela adentro. Ele pousou ajoelhado com o corpo reluzindo com faíscas e a capa vermelha balançando ao vento.
— Não precisa mais procurar, Astaroth! — o sujeito bradou. — Já está aqui o causador de confusão!
Os três generais já estavam em pé fitando o estranho invasor. Auras cinzentas pairavam por todo o corpo deles como se fossem fumaças.
— Quem é você que ousa invadir a sala do trono?! — berrou Uz com fervor religioso.
— Ah tá! Não me apresentei ainda — o invasor disse arrumando uma faixa vermelha em sua testa e a cabeleira branca que media até o ombro. — Sou Boyak — E levantou o polegar para si — Um ceifador de aberração.
Uz e outro dos generais riu, mas o terceiro ficou em silêncio. De seu trono, Astaroth não esboçava nenhuma reação.
— Não me faça rir. Um ceifador? Na fortaleza de Astaroth? Eles não teriam essa audácia — Uz zombou.
— Eu não sabia que a temporada de visitas estava proibida — ironizou Boyak. — Além disso, quem mais poderia ter colocado sua torre no chão?
Uz não respondeu, fitou o sujeito com desprezo. Por debaixo da capa, ele usava uma camisa preta, calça, botas, bracelete de pano na mão direita e faixas brancas nos braços.
— Bom, o lugar é aconchegante, mas a recepção é péssima — resmungou Boyak. — E você, Astaroth? Os bardos realmente exageram nas suas canções. Belo e temível? Bah! Está mais para sonolento e tedioso.
— Basta! — Uz gritou. — Eu vou fazer você engolir essa blasfêmia agora mesmo!
O general sacou um frasco com líquido cinzento e bebeu rapidamente. Boyak cuspiu em forma de provocação. Uz sentiu a fúria efervescendo suas veias, difícil definir se era pelo efeito do fluido ou se por causa das afrontas do invasor.
Uz se preparou para avançar, porém, um raio passou por ele repentinamente. O general levou alguns instantes para perceber o que realmente havia acontecido. Astaroth disparara um raio cinzento parecido com uma seta contra o ceifador. No entanto, Uz ficou ainda mais surpreso ao ver o intruso bloquear o raio com as mãos.
Mas o raio não se desfez diante da defesa e começou a empurrar Boyak para trás, demonstrando que sua força estava falhando. Uz observava tudo estático e impressionado com a força do estranho invasor.
— Droga… — Boyak rangeu os dentes.
O raio venceu.
Boyak foi arremessado contra a parede que cedeu com um estrondo seco diante do choque. Seu corpo foi lançado para além da fortaleza.
Do lado de fora, alguns escravos jurariam depois ter visto uma estrela cruzando o céu.
Dentro da torre, as tochas se apagaram e as seis colunas estremeceram. Os generais olharam para trás, mas seu lorde permanecia sentado.
— Que sujeito irritante — resmungou Astaroth.
Uz estremeceu. O ataque foi tão rápido que eu não consegui sequer acompanhar. Eu não senti sua aura e nem seu movimento, pensou. Se fosse eu no lugar daquele estranho, teria sido atingido de primeira. Como aquele blasfemador conseguiu ver e se defender tão depressa?
— Acabem com essa confusão — ordenou Astaroth. — E tragam meus escravos de volta.
Os três generais se ajoelharam.
Dessa vez, não era apenas respeito.
Era medo.
***
A poucos metros da muralha da fortaleza, uma escrava fugitiva olhava para a torre principal pela última vez.

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