Capítulo 98 - Ceifadores Não Fogem!
Uma onda de choque ergueu poeira e fumaça, lançou uma ventania poderosa ao redor deles e até mesmo estremeceu a ponte. Anayê arregalou os olhos sentindo a corrente soprando seus cabelos; Fenrir protegeu os olhos com o braço; e Heitor voltou a se apoiar com as mãos nos joelhos.
Mas o momento seguinte foi uma cena de horror para Anayê e Fenrir.
Uma sombra disparou da fumaça em uma velocidade impressionante e se posicionou na frente do ceifador esbaforido. E era Kelsin. O rosto estava machucado, o lábio tinha um hematoma, metade da túnica havia rasgado. Mesmo assim, de pé.
Heitor não conseguia se mover, nenhum membro do corpo respondia e todo o esforço se convertia em dor.
Imediatamente, o Kelsin cuspiu contra Heitor aquela energia púrpura engolida instantes atrás, mas ao sair da boca do feiticeiro, a energia se parecia com uma gosma roxa e assim que o poder tocou os trajes do ceifador, se expandiu cobrindo o corpo dele e se transformou em uma espécie de rede de pesca lilás.
Quase ao mesmo tempo, Kelsin invocou mais energia na mão e a modelou em uma adaga.
— Que luta entediante — o feiticeiro falou.
E a mão avançou na direção da cabeça abaixada de Heitor.
— NÃOOO!!
O grito rasgou o campo, a terra sob os pés de Anayê explodiu e a adaga surgiu em suas mãos. Disparou contra o feiticeiro apossada de uma poderosa fúria e atacou com a rajada de vento cortante. Kelsin ergueu a sobrancelha sendo atingido diretamente e arremessado para trás, despencando no chão e batendo as costas com um baque barulhento e violento que fez um punhado de sangue sair da sua boca.
Heitor levantou a cabeça sentindo todo o seu mundo girando em círculos, mas conseguiu ver a ceifadora parada de costas para ele.
— Anayê, fuja! — ele tentou dizer. — Pegue o Fenrir e fuja!
Ela não olhou para trás. Heitor viu o relance do brilho da adaga nas mãos dela e soube que a garota não recuaria.
Fenrir mal tinha percebido o que acontecera, pois, diferente de sua companheira de viagem, estava tomado por um medo absurdo e perverso. Só conseguia pensar no quanto era covarde.
— Você precisa… fugir — Heitor pediu com dificuldade.
— Ceifadores não fogem — ela recitou.
E se lançou para a batalha.
Kelsin nem havia se recuperado quando outra vez a técnica da ceifadora investiu em sua direção. Uma potente onda de vento causou um rastro no chão de terra enquanto se chocava contra um escudo translúcido roxo invocado no último instante pelo feiticeiro.
No momento seguinte, Anayê apareceu nas costas dele como se tivesse sido teletransportada e, mais uma vez, usou a rajada. O feiticeiro agiu rápido. Com uma das mãos deteve a técnica e, mais ainda, desviou o vento para o lado, e quase imediatamente sua outra mão se atirou na direção do pescoço da rival como o bote de uma serpente. Os dedos se fecharam em torno da garganta com poderosa veemência e lançaram o corpo dela contra o chão com ímpeto que racharam a terra ao redor. O impacto roubou todo o ar dos pulmões e uma dor brutal explodiu em seu peito e percorreu o corpo inteiro.
— Você é muito ousada! — Kelsin riu; o olhar possuído por insanidade. — Pensa em matar, menina?
Heitor cerrou os dentes e moveu o braço bem devagar. Precisava ajudar, precisava se esforçar mesmo se quebrasse todos os ossos. Todavia, a gaiola se fechou em torno dele, apertando seu braço, suas pernas e seu rosto.
Fenrir assistiu, horrorizado. Sabia que esse acontecimento era inevitável. Eles estavam mortos, todos derrotados e enterrados. Primeiro, Anayê, depois Heitor e por último, ele. Essa conclusão retirou a força de suas pernas e o fez cair de joelhos.
Kelsin moveu o braço que levantou o corpo da ceifadora como se fosse uma boneca. Anayê lutava para respirar com os dedos fortes fechando sua traquéia, levou as duas mãos contra o pesado braço do inimigo. Porém, foi inútil porque no momento seguinte, o feiticeiro arremessou a ceifadora para o abismo que existia do outro lado.
Heitor franziu o cenho sendo devorado por uma sensação terrível e familiar, a sensação de perder alguém por quem tinha estima. Tentou se mover de novo e a gaiola apertou mais, comprimindo os braços contra o corpo.
O tempo parou para Fenrir. Ele ouviu a galopada insana do coração e se lembrou de quando se jogara na frente da ceifadora. Desejou ter a coragem daquele momento outra vez, mas foi apossado por um bilhão de pensamentos. Você vai morrer se fizer isso. Você não morreu na batalha contra Elchor por pura sorte e pode não ter essa sorte dessa vez.
Anayê sentiu o chão sumir debaixo dos pés, vislumbrou o abismo escuro onde despencaria e cogitou a possibilidade de ser o fim. O fim da jornada desde a fortaleza de Astaroth até as colinas verdes. Porém, seu coração se apegou a uma frágil esperança de que vencera os obstáculos, um por um, confiando na força dos Três, nas amizades e na perseverança. E então, uma ideia apareceu em sua mente.
Invocou sua adaga, apontou para baixo e usou a sua técnica. A onda de vento a impulsionou para cima, afastando o abismo de si. Em seguida, outra rajada para o lado a lançou de volta em terra. O peito subia e descia, as mãos e ombros pesavam um pouco e uma dor pequena açoitou suas costas. Ela ergueu os olhos determinados para Kelsin que sorriu.
— Ora, ora — ele aplaudiu. — Pelo visto, eu te subestimei.
Heitor observava, incrédulo, mas aliviado. Eu também te subestimei, amora. Você é ainda mais forte do que pensei.
Ajoelhado e desesperado, Fenrir também sentiu o peito acalmar um pouco como ser atingido por uma brisa fria num dia de muito calor.
— Espero que não caía como o velho caolho — Kelsin comentou, provocativo.
Anayê ficou em silêncio. Já havia aprendido sua lição referente a subestimar inimigos. Mas também reparou que, quando o feiticeiro balançava os braços, um relance de dor passava por seu semblante. A chuva de fogo de Heitor machucou ele… pra valer. Talvez existisse uma forma de vencê-lo, se usasse suas habilidades com sabedoria e estratégia.
No momento seguinte, Anayê e Kelsin invocaram suas técnicas. A rajada de vento cortante se chocou contra a lança de energia, levantaram poeira e fizeram até mesmo a ponte que cruzava o grande abismo balançar. Os cavalos relincharam, nervosos.
A ceifadora pegou um frasco com fluido do bolso, destampou e tomou o conteúdo num gole. Kelsin fez a energia roxa surgir em ambas as mãos e se tornar em duas lanças.
Anayê disparou na direção dele. Esquivou da primeira lança, girou no ar e levantou a adaga, imaginando que o feiticeiro arremessaria a outra arma. Porém, seus olhos se arregalaram ao perceber que Kelsin havia reconfigurado sua energia outra vez e a tinha engolido da mesma maneira que fizera minutos atrás.
A ceifadora usou a rajada de vento com uma potência menor e o feiticeiro desviou, não tão veloz como na luta com Heitor, mas o suficiente para escapar.
Anayê se preparou para o movimento seguinte dele. Pensou que Kelsin cuspiria a gosma roxa e, portanto, planejou um contra-ataque assim que pousou na frente dele.
Mas não foi o acontecido.
Kelsin mantivera uma das mãos nas costas e, tão logo a revelou, Anayê viu uma lança lilás que disparou em sua direção. Ela ergueu a adaga por instinto. O golpe colidiu com sua lâmina emitindo faíscas para todos os lados ao mesmo tempo em que ela moveu os calcanhares e girou para o lado.
Dois fatos se sucederam, simultaneamente.
Kelsin cuspiu a gosma que voou para o rosto da ceifadora.
Uma rajada de vento cortante incompleta se atirou da adaga de Anayê.
Quando ambas as técnicas se encontraram, elas se anularam.
Entretanto, o feiticeiro ainda cuspiu mais uma vez.
Os olhos da ceifadora se arregalaram. Ele guardou parte da energia! Seu peito se encheu de preocupação. Não havia tempo para invocar uma rajada e era perto demais para esquivar.
Então, tudo o que pôde fazer foi se proteger com a sua adaga suspensa.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.