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    Após o ocorrido na pequena praça, Kamito e Akane já não tinham mais condições de voltar para a escola. Embora não soubesse o motivo, Kamito havia manifestado um estranho poder na forma de chamas azuis, enquanto sua amiga Akane possuía um tipo de poder regenerativo, algo como um escudo.

    A sensação que os cercava era tão assustadora que, mesmo depois de duas horas pensando no que fariam, ainda não encontravam nenhuma solução. Perdidos, decidiram voltar para casa e tentar esquecer o que tinha acontecido. Porém, até mesmo o rotineiro caminho para casa estava mais longo; a paisagem já não possuía as mesmas cores vibrantes de antes, estava morta e envolta em profundo silêncio. Nem Akane, nem Kamito tinham coragem de tocar no assunto relacionado ao ocorrido.

    — Ei, Akane… — disse Kamito, tomando a iniciativa. — Eu sei que você não quer tocar no assunto, mas acho que nós precisamos descobrir o que está acontecendo, descobrir por que temos esses poderes. Não acha isso estranho? Por que justo nós?

    Assustada com as perguntas de Kamito e ainda mais abalada pelo que haviam enfrentado, Akane se afastou. Preocupado com a garota, Kamito sentiu o peito apertar com aquela reação defensiva e optou por deixar o assunto de lado.

    — Não precisa ser agora, é claro… Deixa isso para lá. Me desculpa por tocar no assunto, isso não vai mais acontecer. — respondeu tentando tranquilizar a situação.

    Akane parou de caminhar e encarou Kamito com os olhos cheios de lágrimas, fitando-o diretamente.

    — Eu estou com muito medo, Kamito… Você quase morreu, e agora temos esses poderes estranhos. Eu realmente estou assustada — disse ela.

    A voz de Akane traduziu seus medos. A qualquer momento, ela poderia desabar em um turbilhão de sentimentos, mas antes que isso acontecesse, Kamito a abraçou com força. Ela pousou o rosto no peito dele, escondendo-o, e começou a chorar. Naquele momento, Kamito apenas a acolheu em seus braços, disposto a esperar o tempo que fosse necessário para que ela se acalmasse.

    — Não se preocupe. Eu estou aqui, e não deixarei que nada aconteça. Eu prometo que vou cuidar de você, Akane. — tranquilizou enquanto acariciava os cabelos dela.

    O céu ainda aparentava estar morto, sem cor, e Kamito precisava pensar em algo que a acalmasse. Continuou acariciando os cabelos dela até que se lembrou de algo.

    — Isso me traz lembranças da nossa infância… De quando você se machucava ou estava com medo. Você sempre fazia isso, e eu te acalmava assim. — comentou sorrindo.

    Ela correspondeu com um pequeno sorriso.

    Akane e Kamito haviam se conhecido ainda crianças, quando ele se mudou para a casa ao lado. Desde aquele dia, tornaram-se quase inseparáveis. Ao contrário de Akane, que tinha duas irmãs, Kamito era filho único.

    Apesar de sua aparência, as irmãs de Akane o acolheram e sempre o trataram bem. Ainda assim, por terem a mesma idade, ele acabou se aproximando mais de Akane, e com o tempo, a proximidade era tanta que suas irmãs passaram a acreditar que os dois eram, na verdade, um casal.

    Com a garota já recuperada de sua crise de choro, caminharam por longos minutos até finalmente chegarem em suas casas. Mais uma vez, Kamito a abraçou.

    — Vai ficar tudo bem, eu prometo. — sussurrou para ela. — Não importa o que aconteça, eu vou te proteger com a minha vida.

     Akane se afastou e o encarou surpresa. Kamito apenas sorriu e acariciou seu rosto. Logo se despediram, ele ficou do lado de fora do portão, esperando a garota entrar, garantindo sua segurança.

    Após deixá-la em casa, Kamito seguiu tranquilamente para a sua, mas, ao encostar na maçaneta e se preparar para destrancar a porta, sentiu uma presença forte atrás de si, observando-o atentamente. Assustado, ficou paralisado, uma gota de suor escorreu da sua testa, suas mãos tremulavam.

    — Quem está aí?! — Perguntou, com medo.

    Rapidamente, virou-se para olhar sua retaguarda e viu um homem encostado na pilastra da varanda. Era alto e um pouco magro. Seu rosto era afilado, sem expressão, tinha longos cabelos loiros e olhos verdes como esmeralda. Aparentava ter cerca de trinta e sete anos, possuía uma aparência suspeita e suas intenções eram misteriosas.

    — Oh, então conseguiu me notar. Meus parabéns. Mas, se eu fosse seu inimigo, você já estaria morto. Eu te vi lutar naquela praça… — comentou o homem. — Se é que podemos dizer que foi uma luta. Mas fique tranquilo, não sou um inimigo. Ou será que sou?

    Ele encarou Kamito nos olhos e se afastou da pilastra. Kamito, por sua vez, permaneceu imóvel. O olhar do estranho era vazio e sem expressão — algo assustador. O homem caminhou lentamente em direção ao jovem, como se quisesse algo. Kamito não sabia o que fazer, nem como reagir.

    — Prazer em te conhecer, Kamito Takeda. Eu me chamo Raishi Kurogane. Imagino que tenha muitas perguntas sobre o acontecido. Principalmente sobre a chama azul que você despertou… E também sobre o poder da sua amiga.

    Raishi sorriu sem mostrar os dentes, mantendo o olhar misterioso, e fez uma reverência após se apresentar.

    Quem seria aquele homem? Como sabia o nome seu? E por que parecia ter tantas respostas? Tais perguntas inundaram os pensamentos do garoto.

    Raishi se endireitou e voltou a olhar Kamito com o mesmo sorriso.

    — Creio que a senhorita Akane também deveria se juntar a essa conversa, assim não precisarei explicar duas vezes. Por favor, você poderia chamá-la para se juntar a nós? Ela também merece respostas sobre o que aconteceu. — pediu Raishi com gentileza.

    — Por que eu deveria acreditar em você? Nada garante que você também não esteja planejando nos atacar, igual aquele outro! — gritou Kamito, tentando confrontá-lo.

    Ele sabia que não podia confiar em um estranho, ainda mais depois do que havia acontecido. Mesmo que demonstrasse ser confiável, o nível de energia que Raishi exalava o tornava assustador — o que deixava Kamito cada vez mais apreensivo.

    — Já disse que não sou uma ameaça. Se eu quisesse te matar, já teria feito. Tive várias oportunidades. Por que você não acredita em mim? — insistiu Raishi parando de sorrir.

    Num piscar de olhos, ele desapareceu do campo de visão de Kamito, que se assustou e recuou. Em uma velocidade inimaginável, Kamito sentiu o braço de Raishi pousar sobre seu ombro. Ao olhar para o lado, lá estava o homem, apoiando-se nele.

    — Viu? Não quero fazer nenhum mal a vocês. Se quisesse te matar, já teria feito. Agora, poderia chamar a senhorita Akane? Rápido, Kamito. — ele sorriu.

    — Mesmo assim, eu não tenho garantia. Você pode muito bem esperar que eu a chame para nos matar ao mesmo tempo. Talvez seja esse o seu plano.

    Kamito estava em pânico. Se segurava para não tremer de medo. Não fazia ideia do que Raishi era capaz, e isso o aterrorizava — especialmente após ele demonstrar que podia fazer o que quisesse em questão de segundos. Mesmo assim, Kamito sabia que não podia envolver Akane sem ter certeza.

    — Você é mesmo um rapaz bem desconfiado. Realmente se importa com o bem-estar da garota… Isso é muito bom. Não se preocupe, tem a minha palavra de que não farei nada a ela nem a você. — garantiu Raishi, ainda sorrindo enquanto olhava para a rua.

    Kamito não podia fazer nada. Se aquele homem era realmente tão poderoso e, mesmo assim, não tentou matá-lo, só restava acreditar em suas palavras. Desistiu de confrontá-lo. Tirou o braço de Raishi de seu ombro, respirou fundo e caminhou até o portão.

    Ele tentava se recompor enquanto pensava bem antes de fazer qualquer coisa, pois não podia envolvê-la em uma possível luta. Precisava de um plano, mas seus pensamentos foram interrompidos quando ouviu Raishi dizer para não demorar.

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