Capítulo 89: O Labirinto Parte 2.
A parede fria do labirinto era quase aconchegante comparada ao resto daquele lugar. Sentei ali, deixando as pedras ásperas encostarem nas minhas costas enquanto observava Mila e Luna como quem analisa peças de um tabuleiro que insiste em se mexer sozinha. Aquele labirinto vivo era quase um organismo consciente, cheio de dentes escondidos. E, no fundo dele, caminhava o mais desagradável dos habitantes: o “Pesadelo”. Uma criatura que não deveria existir… mas existia, porque o mundo sempre gosta de contrariar o bom senso.
E pior: a coisa toda estava montada como uma máquina de sacrifício. Um altar ambulante. Uma fábrica de Calamidade prestes a nascer. Não ia deixar isso acontecer nem por cima do meu cadáver. Aliás… principalmente não por cima do meu cadáver.
Soltei um suspiro, empurrando-me da parede até ficar de pé. Meu olhar caiu sobre elas — Mila, encolhida, e Luna, imóvel como uma estátua respirante.
— Além de mim, alguma de vocês tem habilidades úteis no momento? — fui direto. Sem floreios.
Luna tocou as próprias orelhas com um gesto tímido.
— Eu consigo ouvir e sentir cheiros bem melhor que humanos… mas não sei se isso ajuda muito.
Ergui uma sobrancelha, quase sorrindo.
— Ajuda sim. Aqui embaixo, qualquer coisa que nos dê vantagem já vale mais que ouro. — Minha cabeça já estava correndo à frente, traçando rotas, possibilidades, rotinas de sobrevivência. Um faro aguçado poderia nos salvar mais vezes do que ela imaginava.
Tirei a espada azul da bainha. A lâmina fez aquele som fino, limpo, quase elegante demais praquele buraco. Sem cerimônia nenhuma, coloquei a espada nas mãos de Mila.
Ela a segurou como quem segura um filhote de dragão cuspindo fogo.
— O que espera que eu faça com isso? — perguntou, já entrando em pânico.
Dei de ombros.
— Você tem classe de suporte. Ótimo. Não quer dizer que precisa ser uma vítima ambulante. Aqui dentro você vai treinar. Vai aprender a lutar. Vai descobrir que não é de vidro.
Mila engoliu em seco, olhos arregalados, dedos tremendo no cabo da espada.
— Eu… não posso. Eu não consigo lutar. É impossível pra mim!
Cruzei os braços, encostando o peso do meu olhar nela.
— Se quiser ficar no fundo desse labirinto esperando a morte bater na porta, fique. Não vou arrastar alguém que não quer se salvar. — O tom foi duro, mas não tinha veneno. Era apenas verdade nua. Sobrevivência não aceita covardia.
Ela abaixou a cabeça, mordendo o lábio — dá pra ver quando alguém está brigando com a própria sombra interna.
Abaixei o tom, firme sem ser cruel.
— Mas… se quiser provar que consegue mudar seu próprio destino, que não é só o que o status te disse que você seria… então pegue essa espada e venha comigo até a superfície.
O silêncio caiu pesado entre nós. O tipo de silêncio que decide caminhos.
Quando percebi que ela precisava de um minuto com os próprios medos, virei o olhar para Luna.
A pequena já estava totalmente curada — meu trabalho foi impecável, modéstia à parte. Mas havia algo nela… uma coisa que não dá pra medir com magia nem com experiência. Não era só uma kitsune comum. Era um brilho estranho no fundo dos olhos, uma quietude que lembrava espíritos antigos tentando fingir que são crianças.
Siryus passou pela minha mente — a Deusa Caída que eu conheci tempos atrás. O tipo de ser que faz qualquer um repensar o conceito de divindade. Luna podia ser algo assim? Um espírito em forma infantil? Uma fera sagrada? Alguma criatura que nem sabe o que é?
Não dava pra saber ainda.
E não ia pressioná-la. Não naquele momento. Criança ou deusa escondida, tanto faz: mais urgente do que respondê-la era impedir que o labirinto engolisse alguém vivo.
Eu apenas inspirei fundo, sentindo o ar do lugar vibrar.
O jogo estava começando pra valer. E eu estava mais do que pronto para virar o tabuleiro.
Respirei fundo, deixando o ar pesado daquele corredor estreito escorrer pelos meus pulmões como fumaça fria. O silêncio era tão denso que dava para sentir o peso dele no topo da cabeça. Olhei para os dois lados do caminho — pedra, escuridão, e aquela sensação irritante de que o labirinto estava respirando comigo.
— Muito bem… vamos nos mover. Quanto mais tempo ficarmos parados, pior. E lembrem-se: a única direção possível é para cima.
Mila assentiu, mas o olhar dela estava grudado na lâmina azul como se a espada fosse um enigma indecifrável.
— E-eu… vou tentar… — murmurou, e soou mais como alguém tentando se convencer do que como uma declaração de coragem.
Saímos da câmara inicial e entramos em um corredor longo, quase claustrofóbico. A luz era fraca, proveniente de tochas espaçadas exatamente quatro metros entre si — estrutura meticulosamente artificial demais para meu gosto. Acima de nós, apenas um teto negro que sugeria uma promessa desagradável: se algo caísse de cima, não teríamos como prever.
Virei para Mila e Luna com um sorriso que era puro deboche.
— Ótimo. Parece que vai ser fácil.
Era humor, claro. Ironia fina. Fácil? Nesse lugar? Nem em sonho.
— Luna — falei — você vai ser nossos olhos e ouvidos. Qualquer som, cheiro, vibração… qualquer coisa fora do normal, você anuncia imediatamente.
— Sim, senhor… — respondeu a pequena kitsune, suas nove caudas escuras deslizando como sombras vivas pelo chão imundo. As orelhas dela trabalhavam sem parar, rodando, retraindo, erguendo — um radar perfeito.
Enquanto andávamos, minha mente trabalhava mais rápido que meus passos.
Labirinto. Corredores estreitos. Duas pessoas perto demais de mim.
A foice… não. Minha amada foice era linda, prática, poética — mas colocar um alcance absurdo perto de duas pescoçudas indefesas? Não. Não iria fazer um sashimi acidental de ninguém ali. Até eu tenho limites.
Levei a mão ao queixo, pensando. Era hora de usar algo… menos dramático.
Olhei para as duas e fiz minha melhor cara de “estou prestes a aprontar algo”.
— Posso pedir um favor para vocês duas?
Mila inclinou a cabeça, desconfiada.
— Acho que sim… qual seria?
Abri um sorriso travesso que iluminou mais que as tochas.
— O que acontecer dentro do labirinto… permanece no labirinto.
Deixei que a energia cósmica fluísse pelo traje e descesse pelos meus dedos. A luz azul se condensou, girando, encaixando-se em formas precisas até que o metal branco hi-tech surgiu na palma da minha mão — uma pistola compacta, com filetes luminosos de energia correndo pelas juntas até o cano.
O choque delas foi lindo.
As duas arregalaram os olhos como se eu tivesse acabado de tirar um dragão de dentro da manga.
Mila apontou imediatamente.
— O que foi ISSO? Como você fez isso?!
— Só um truquezinho meu… — respondi, saboreando o impacto. — Mas conto com vocês. Nada do que eu fizer aqui dentro vai ser repetido lá fora. Nenhuma palavrinha sequer.
— Essa resposta não foi nem um pouco convincente… — ela resmungou. — Mas se você não quer contar, não vou forçar. Não digo nada.
A pequena Luna puxou minha roupa.
Olhei para baixo e encontrei aquele olhar sério demais para alguém tão pequena.
— Eu também não vou contar pra ninguém. Prometo.
Um tipo de peso naquela promessa — como se a menininha soubesse exatamente o que estava guardando. Passei a mão nos cabelos dela, sentindo-os macios como seda.
— Perfeito. Agora vamos terminar esse labirinto e encontrar a Lívia e a Priscila… se estiverem vivas.
Dei um passo à frente, arma em punho, enquanto elas me seguiam pela retaguarda. O corredor parecia um cenário de jogo, e por um instante eu quase ri da ironia. Um labirinto mortal tratado como se fosse diversão.
Mas a pergunta ficou martelando no fundo da minha mente:
Seria esse labirinto apenas um jogo… ou o jogo de alguém decidido a devorar todos nós?
O tipo de dúvida que deixa o coração atento e o dedo no gatilho.
ᛖ 𒁂 ⟐ 𒁂 ᛖ
A Capital Real parecia prender a respiração inteira enquanto os sinos da catedral repercutiam pelos telhados dourados. Cada badalada era um aviso, ou uma ameaça, de que algo maior que o próprio Império estava prestes a acontecer. O caos da Deusa Maligna havia se espalhado tão rápido quanto fogo em palha seca, e os Forjanos já estavam no limite entre a fé e o desespero.
No coração da Catedral, o ar parecia mais denso, como se até as partículas de poeira respeitassem o ritual. A Sacerdotisa permanecia ajoelhada no centro do vasto círculo de invocação entalhado no mármore branco. Seu manto fluía como água ao redor do corpo e seus cabelos prateados capturavam a luz das velas, tornando-a quase etérea. A cada verso do cântico, seu poder se estendia pelas runas, pelas paredes… por toda a cidade.
As runas começaram a vibrar. Primeiro, com suavidade. Depois, como se estivessem sendo tocadas por um trovão.
— Pela graça da Deusa da Luz — declarou a Sacerdotisa, sua voz firme mesmo com o coração acelerado — que a Guardiã seja convocada! Que sua lâmina brilhe contra a escuridão, e que seu poder nos guie em nossa hora de necessidade!
A resposta veio do céu.
Literalmente.
Um feixe divino rompeu as nuvens, descendo como um pilar celestial diretamente sobre a Catedral. A luz se espalhou pelas vidraças, transformando sombras em prata líquida. A cidade inteira viu — e se ajoelhou, por impulso, por medo, por esperança.
Dentro do templo, o ar se tornou calor, depois energia, depois algo impossível de descrever. Os vitrais tremeram, o mármore vibrou, e o círculo mágico explodiu em clarões que se dobravam sobre si mesmos. A Sacerdotisa sentiu sua magia sendo puxada, conectada a algo infinitamente maior, como se estivesse oferecendo seu próprio espírito para abrir uma porta entre mundos.
Quando a luz finalmente começou a baixar, o silêncio tomou o santuário. Um silêncio que soava menos como ausência de som e mais como expectativa pura.
A Sacerdotisa abriu os olhos, ainda ofegante.
E viu uma silhueta.
Primeiro, apenas o contorno — feminino, elegante, firme. Depois, os detalhes foram surgindo como se o próprio universo estivesse pintando sua forma. Raios crepitavam ao redor da figura recém-invocada, dobrando o espaço num espetáculo de poder indomável.
Então a Guardiã se revelou por completo.
Uma jovem de cabelos dourados que pareciam refletir o próprio sol. Olhos prateados que não pertenciam àquele mundo, brilhando com uma profundidade estelar. Sua armadura… aquilo não deveria existir ali. Era avançada, suave e agressiva ao mesmo tempo, com linhas limpas, luzes suaves e resistência impossível de medir.
À sua cintura, repousava uma espada branca, luminosa como um fragmento de aurora capturado à força.
Ela não parecia deste mundo.
Ela definitivamente não era deste mundo.
A Sacerdotisa ficou imóvel, entre maravilhada e confusa. Aquela aparência… aquela energia… aquilo ultrapassava qualquer Guardiã que os registros religiosos mencionavam.
Mas em algum lugar, em algum ponto distante, intocável, e ainda assim conectado a tudo, havia alguém que reconheceria aquela presença. Alguém que entenderia o significado daquela invocação, daquela forma… daquela anomalia divina.
O Guardião Negro.
E, do jeito que o destino costuma fazer suas jogadas mais ousadas, a chegada daquela jovem seria o primeiro passo de um reencontro inevitável.
Um reencontro capaz de estremecer mundos inteiros. A narrativa continua abrindo caminhos para encontros perigosos e alianças improváveis.
Continua…

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