Capítulo 61: O que Restou para Salvar.
Quando dei por mim, já estava sentado à mesa com as cinco rainhas. Um lugar onde, honestamente, eu não achava que deveria estar.
O salão era amplo, reluzente, com paredes translúcidas que pareciam pulsar levemente, como se a estrutura respirasse.
No centro, uma mesa oval polida refletia nossas imagens. Eu sentava no meio, e não fazia ideia de quem teve essa brilhante ideia.
À minha direita, Seraline, impecável, como sempre. Mesmo longe de seu império, ela mantinha aquela aura soberana. A mão dela repousava próxima da minha, uma presença silenciosa, mas firme.
Eu sabia que ela só estava ali porque Katherine insistiu que a diplomacia entre os reinos devia ser mantida… ainda que estivéssemos, tecnicamente, em ruínas.
Katherine estava do outro lado, usando um vestido branco adornado com ouro, o tipo de roupa que fazia jus a uma rainha de verdade. Parecia cansada, mas o olhar era sereno, o de quem finalmente podia respirar após anos de guerra.
Dagon, sentada próxima a ela, era o completo oposto. A mulher não precisava de joias pra provar nada, sua coroa era o próprio elmo, de um vermelho escuro, e a armadura cerimonial rangia a cada movimento. Os cabelos, de um loiro queimado, refletiam a luz ambiente, e os olhos… rubis vivos, intensos o bastante pra atravessar qualquer um. Ela me lembrava o tipo de pessoa que prefere resolver reuniões com uma espada na mesa.
Do outro lado, Vitra, impossível não notá-la. Aqueles óculos com brilho interno denunciavam que havia muito mais por trás. Eu percebi de imediato: não era uma simples lente corretiva, era uma interface integrada. Cada vez que ela olhava pra mim, dava pra sentir que estava me analisando, como um experimento em andamento.
E, por fim, Ranni. A mais velha, mais centrada. O olhar dela… calmo, profundo, como se ela visse além das palavras. Quando ela respirava, era o tipo de presença que fazia até o ar parecer respeitá-la.
Foi ela quem começou a reunião, com uma voz que parecia carregar séculos de história.
— Sou Ranni — disse, colocando uma mão sobre o peito. — E hoje, nomes e sobrenomes perderam valor. Nossos reis e amantes estão mortos. Tudo o que resta são nossos reinos… e nós.
Ela inclinou levemente a cabeça na minha direção. — Agradecemos, Guardião Negro, por lutar em nome deste mundo.
O som metálico do elmo de Dagon veio logo em seguida, os braços dela se cruzando num gesto de aprovação.
— Eu nunca vi uma luta tão brutal quanto a sua contra aquela aberração. — Ela sorriu, com um ar de quem respeita apenas a força. — Foi digno de um verdadeiro guerreiro.
Levantei uma sobrancelha, intrigado.
— Então… vocês estavam observando tudo?
Vitra respondeu sem tirar os olhos das telas holográficas que surgiram quando ela tocou o bracelete. As imagens tremulantes mostravam o caos — dois dragões colossais lutando numa cidade que agora não passava de uma cicatriz no solo.
— Governantes sempre observam possíveis ameaças — ela comentou, com aquela frieza quase científica.
— Então é assim que vocês me veem? — perguntei, apoiando o cotovelo na mesa. — Uma ameaça?
Katherine negou com um sorriso tranquilo.
— Pelo contrário, Renier. Todos na Cidadela o veem como esperança.
Dagon soltou uma risada curta. — Especialmente depois que seus amigos ajudaram a espalhar que o novo Guardião Negro derrotou o Dragão que devastava nossos reinos. Foi uma ótima propaganda.
Eu apenas assenti, meio sem saber o que responder.
Mas Ranni tomou a palavra de novo, e a atmosfera ficou mais densa.
— Você não está aqui apenas por isso. Seu feito foi extraordinário, mas há algo maior em jogo.
Seraline me olhou com aquele sorrisinho de canto — o tipo de olhar de quem guarda um segredo e tem orgulho dele.
— Afinal, você também é um Imperador, querido.
Ranni inclinou o rosto. — Ouvi falar sobre o sangue que carrega… o da antiga Rainha Aurélia, de trezentos anos atrás.
Vitra confirmou, ajustando o óculos.
— E sobre o Demônio Primordial derrotado na Floresta Perdida. — Ela fez um gesto e projetou a imagem da espada que eu havia tomado. — Autêntica. Pertencia ao Deus Demônio.
Ela me encarou. — Renier Kanemoto, você está aqui como um governante entre governantes.
Cruzei os braços, suspirando. — Governante… isso soa pesado demais. Mesmo com a Sombra derrotada, esse mundo está desabando.
Ranni assentiu, o olhar grave. — Sabemos. Katherine nos informou. A energia do Vazio contaminou o solo. Este mundo está morrendo, Renier. Nada poderá reverter isso.
Fiquei em silêncio por um tempo, encarando meu reflexo na superfície lisa da mesa.
— Então por que ainda me chamam de esperança, se tudo já está condenado?
Seraline pousou a mão sobre a minha, firme.
— Porque contei a elas sobre Yggdrasil… e sobre quem você realmente é.
Ah. Claro.
Não pude nem culpar ninguém. Elas tinham o direito de saber.
Katherine, ainda com aquele ar calmo, se inclinou levemente para frente.
— Há alguma forma de salvar o que resta? Alguma chance de preservar a vida?
Fechei os olhos por um momento, entrelaçando os dedos sobre a mesa. A energia dentro de mim vibrava, quente, viva — um lembrete de que eu ainda podia fazer algo. Quando abri os olhos novamente, vi o reflexo azulado deles brilhar no tampo espelhado.
Então a ideia me veio como um estalo.
— A Cidadela. — Olhei para Vitra. — Ela é uma estrutura móvel, certo? Pode ser desacoplada do solo?
Ela assentiu, curiosa. — Sim. Foi projetada assim para evacuação em guerras civis.
Dagon completou: — Criamos a Cidadela como refúgio, caso os monstros de Seraline atacassem.
Um leve sorriso surgiu em meu rosto.
— Então… talvez eu não possa salvar este mundo. Ele já está condenado. Mas posso salvar a Cidadela. Todos vocês, e quem ainda estiver dentro dela.
O silêncio que se seguiu foi pesado, o tipo de silêncio em que o impossível parece, por um instante, se tornar possível.
E naquele momento, olhando o reflexo das cinco rainhas e o meu próprio, percebi que talvez o verdadeiro papel de um Guardião não fosse impedir o fim… mas guiar quem sobrasse através dele.
Fechei minha mão lentamente, e naquele simples gesto o cosmos pareceu reagir, uma pequena explosão se formou dentro dela, vibrando como se o próprio tecido da realidade respondesse ao meu toque.
Quando abri a palma, o silêncio tomou conta da sala.
Ali, flutuando acima da minha pele, estava uma esfera. Dentro dela… um universo. Estrelas, planetas, galáxias inteiras girando em harmonia, como se eu tivesse capturado a imensidão em miniatura.
Katharine foi a primeira a quebrar o silêncio, com os olhos arregalados:
— O que é isso…?
Sorri de canto, sem pressa, e respondi calmamente:
— Um universo compacto… ou, se preferirem, um micro universo.
Vitra ajustou os óculos, descrente, as pupilas refletindo a luz da pequena criação.
— Você… acabou de criar um universo… como se fosse a coisa mais simples do mundo? — ela perguntou, tentando manter a compostura enquanto suas mãos tremiam levemente.
A esfera pulsava com uma energia densa, viva, uma presença que parecia respirar.
Sorri com orgulho, mas também com uma certa serenidade arrogante, o tipo de confiança que vem de quem sabe exatamente o que é.
— Eu sou o que mantém a Existência sendo o que é. Criar isso… é como brincar de massinha de modelar.
Todas prenderam a respiração. O ar na sala pesou, a tensão era natural, afinal, o que viram foi um ser criando vida, espaço e tempo diante dos próprios olhos.
Ranni, sempre a mais ponderada, foi quem retomou o controle:
— Esse é o seu plano, então?
Assenti.
— A nave acoplada à Cidadela… será enviada para dentro desse universo compacto.
Katharine, ainda com aquele olhar entre o espanto e a esperança, perguntou:
— Isso é seguro?
— Do lado de dentro, sim — respondi. — Haverá dias, sol, lua, estações… planetas férteis e abundância de recursos. Será como viver normalmente, apenas… em um novo mundo.
Do lado de fora, a Cidadela será apenas um pingente, protegido de tudo — até mesmo do Vazio. Nenhuma força conseguirá corrompê-lo.
Dagon, cruzando os braços com seu habitual tom prático, acenou afirmando:
— É a melhor opção que temos. A Cidadela tem menos de mil habitantes… se for pra salvar o que resta, que seja assim.
Vitra também concordou, embora ainda tentasse compreender a lógica de algo tão colossal.
— É viável. Se o mundo vai morrer, então salvar o que resta é o único caminho racional.
Ranni se levantou, a voz firme, quase solene:
— Então, Renier Kanemoto… como Imperador do Império Aurélia, caberá a você liderar essa travessia. Quanto tempo precisa para tornar isso possível?
Pensei por um momento, olhando para a pequena esfera que girava lentamente sobre minha mão.
— Não muito. Mas antes quero caminhar pela Cidadela, observar o que restou, encontrar meu grupo… antes de executar isso.
Katharine sorriu, gentil, talvez pela primeira vez desde a batalha.
— Você é quem mais merece descanso, Guardião.
Seraline, sentada ao meu lado, tocou minha mão e completou com um brilho de ternura no olhar:
— Soraya voltou há pouco… com a amiga de Rose.
Meu peito se aliviou imediatamente. Não disse nada — apenas deixei que o sorriso escapasse, discreto.
Depois de tudo, saber que ainda havia vida… ainda havia reencontros possíveis… era uma pequena vitória dentro do caos.
Olhei para a esfera em minha mão — um novo universo, um refúgio.
E pensei… talvez fosse isso que eu sempre deveria ser: não o fim das coisas, mas a chance de um novo começo.
Continua…

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