Capítulo 38: O Selo Quebrado.
A Espada do Deus Demônio… eu pensava enquanto a observava, aquela massa escura que fervia em volta da lâmina era sufocante, pesada. A energia que ela exalava era corrosiva, como se cada respiração minha fosse uma aposta contra a própria sanidade.
Mas… chamar isso de “Deus Demônio”? Nem de longe. Já vi coisas lá fora, sombras, o Vazio, que fariam essa espada parecer uma simples faísca num oceano de trevas. Eu mesmo… por mais que tenha me tornado o ser que deveria estar acima de tudo, ainda sou um aprendiz diante desse tabuleiro de horrores que existe em Yggdrasil, dentro e fora dela.
A voz de Kirara me arrancou dos meus devaneios.
— Você está bem? — perguntou ela, olhos fixos em mim. — Está faz tempo nesse silêncio, só olhando a espada…
Pisquei, retomando o ar.
— Tô bem… só um pouco pensativo.
Dei um passo à frente, firme sobre a raiz colossal da árvore, e ergui a voz:
— Vocês, deem alguns passos pra trás. Quando o selo for rompido… a energia pode atingir vocês. Principalmente você, Seraline… e até você, Soraya.
Soraya, sempre ela, sorriu com aquela ironia venenosa, levando a mão ao rosto.
— Fico feliz em ver que se preocupa comigo, querido.
Eu só respirei fundo. Essa Seraphim era tão imprevisível… mas decidi não ir mais fundo nessa discussão agora.
Kirara levantou a mão, sangue fluindo em símbolos que formaram uma barreira entre elas e eu.
— Se concentre, Renier. Pode lidar com isso sem se preocupar conosco.
Assenti. Então voltei meu olhar para o cabo da katana. Meus olhos azuis brilharam intensamente quando toquei na arma. A vibração era como um rugido abafado contra o ar, e por um instante senti o mundo inteiro querer se encolher.
Inspirei fundo. Coloquei as duas mãos no cabo. A espada tentou sugar minha energia vital no mesmo instante, senti a drenagem, o vazio mordendo minha alma, mas para mim aquilo era irrelevante. Eu não era humano comum.
Puxei a katana com força. O impacto ecoou como trovão. Uma onda de energia escura explodiu, e o ar ao meu redor ficou tão pesado que parecia que a gravidade havia se multiplicado. Meus ombros sentiram o peso do mundo.
O chão tremeu. A Catedral inteira rangeu, o pó caindo como chuva fina. A árvore se partiu em duas, e uma fissura colossal correu pelo solo, passando por debaixo de mim até atingir a parede.
A aura escura se espalhou como fumaça viva, serpenteando em volta de tudo. Aquilo não era só poder, era presença. Um Demônio Primordial estava prestes a respirar de novo, e não havia nada de belo nisso.
Segurei firme a espada que minha avó usou contra Alaster.
— Para essa ocasião, vai servir — murmurei, mais para mim mesmo.
As rachaduras pelo chão começaram a se juntar, formando um pentagrama gigantesco. Toda energia que antes havia explodido agora era sugada de volta para o centro, num redemoinho voraz.
O vento ficou brutal, rasgando a catedral, batendo contra meu corpo. Olhei para aquele fenômeno com atenção redobrada. Então… o brilho. Um vermelho vivo, incandescente, como lava de um vulcão recém-nascido, acendeu-se no selo. O cheiro de enxofre tomou o ar. Era sufocante, queimava as narinas e impregnava a garganta.
Algo estava vindo. Algo que não queria apenas sair. Queria o mundo inteiro.
O círculo queimava no chão, um pentagrama vivo devorando tudo ao redor. Não era só energia, até o som era sugado. O silêncio se tornou ensurdecedor, e justamente por isso era aterrorizante. O ar vibrava como se o próprio mundo fosse rachar em duas metades.
O vermelho incandescente que havia tomado o altar se tornou um negro flamejante. Era como se o inferno tivesse perdido o controle das próprias rédeas, cuspindo sua essência através daquela fissura.
O espaço ao meu redor começou a distorcer. As colunas da Catedral dobravam como reflexos numa água instável. A gravidade falhava, meu corpo oscilava como se eu estivesse submerso. Os vitrais não estouraram de imediato: eles rachavam em ondas, como se fossem cristal vivo tentando resistir.
Então veio a primeira marca da besta. Uma mão colossal atravessou o pentagrama, rompendo a realidade como se fosse vidro. Negra, retorcida, garras maiores que espadas. A pele não parecia pele, parecia um campo de batalha: cicatrizes vivas se abrindo e se fechando, como bocas famintas respirando dor.
Quando ele puxou o resto do corpo, até o espaço rangeu. Eu senti o peso, como se estivesse segurando o próprio planeta nos ombros.
E então, ele surgiu.
Alaster não gritou, não uivou, não anunciou sua volta. Ele apenas respirou. Cada expiração era um terremoto; o chão rachava como se o ar tivesse ficado denso demais para existir.
O corpo dele ainda não estava completo, parecia disforme, uma massa muscular mutante que ainda não se estabilizava. Mas isso só deixava a visão mais grotesca, mais abominável.
Os olhos… dois faróis brancos. Nada de pupilas, nada de alma. Só uma fome ardente, cega, como se tudo diante dele fosse presa.
Quando ergueu a cabeça, percebi de imediato: não havia razão ali. Nenhuma palavra, nenhuma identidade. Apenas fome. Uma besta absoluta, um Berserker arrancado de séculos de confinamento, entregue à fúria.
E então veio o rugido.
Não havia som. Não foi só barulho. Foi impacto. O ar se partiu, meu peito tremeu, o chão quase cedeu sob meus pés. Era como se aquele rugido fosse uma ordem direta para que o mundo se curvasse, e por um segundo, quase pareceu que ele obedeceu.
Eu apertei a lâmina da minha avó nas mãos.
A guerra havia começado.
Eu não aguentei e soltei uma risada curta.
— Realmente… uma entrada digna de um final boss.
Alaster não falava. Ele rugia.
E o rugido não era som. Era impacto. O suficiente pra arrastar meus pés pelo chão, me empurrando para trás mesmo quando eu cravava a lâmina no mármore negro para resistir.
Olhei nos faróis brancos que ele tinha no lugar dos olhos e murmurei:
— Parece que não tem ninguém em casa… só instinto. Irracional.
Segurei firme a espada. E foi então que o primeiro movimento da besta veio.
Ele não atacou. Ele simplesmente se arremessou contra mim. Não havia técnica, não havia cálculo, só brutalidade.
Quando seu punho colossal bateu contra minha lâmina, o estrondo foi tão absurdo que o som se quebrou. O impacto soltou um pulso que atravessou toda a catedral, explodindo os vitrais em mil cacos de luz e poeira.
O peso percorreu meu corpo inteiro, esmagando cada músculo — mas eu resisti. E era a hora de ver do que essa espada era capaz.
“Espada Demoníaca…” pensei, sentindo ela vibrar. “Então que seja com energia demoníaca.”
A lâmina se incendiou numa aura densa e púrpura, e meus olhos arderam, ficando vermelhos, brilhando como brasas vivas.
Alaster avançou com outro soco. Dessa vez, minha resposta foi cortar. A lâmina atravessou o braço dele sem esforço, o corpo dele se partiu em uma carne negra e fervente.
Meu sorriso mal nasceu, porque logo vi o braço voltando. Ossos estalando, carne fervendo, músculos costurando-se em uma velocidade doentia.
Ele rugiu de novo, e dessa vez o impacto me jogou como se eu fosse um projétil. Cruzei a parede da catedral, rasgando colunas até abrir uma cratera colossal no chão.
Levantei tossindo pó de mármore, e vi a sombra dele vindo de cima. Alaster caiu em direção a mim, e eu rolei para trás no último instante. O impacto do corpo dele abriu uma cratera nova, o chão se despedaçou em uma explosão de poeira.
Saltei de volta, os pés rachando mas mármore. Respirei fundo, o suor e o calor me queimando.
— Agora eu entendi… — falei entre dentes cerrados. — O motivo da antiga Guardiã, da minha avó, não ter conseguido vencê-lo.
Ele não era só forte. Ele era imortal.
Cada golpe, cada pedaço de carne arrancado, se fechava em segundos. Carne fervendo, ossos recolocando-se no lugar.
Ela ficava mais fraca. E ele, mais forte.
Uma luta fútil.
Energia desperdiçada.
Um ciclo impossível.
Mas comigo era diferente.
Eu sorri.
Porque se tinha algo que eu sempre tive de sobra… era poder.
Continua…

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