Capítulo 72: Interrogatório.
Os saltos firmes de Dra. Jennifer ecoavam pelo corredor metálico como pequenos avisos de que algo grandioso — e perigosamente errado — a esperava adiante. O ar era frio demais, o silêncio denso demais… até mesmo as cobras em seu cabelo, sempre altivas e elegantes, moviam-se inquietas, como se farejarem o que a mente humana tentava racionalizar.
Ela parou diante da porta.
Aquela porta.
Imensa, quase orgânica, pulsava com energia crua. Três camadas de selos a protegiam: runas douradas que serpenteavam como circuitos místicos, sistemas tecnológicos que piscavam em padrões indecifráveis, e — o mais assustador — sensores multiversais analisando cada partícula, cada variação de energia, cada respiração no ambiente.
Tudo isso para conter uma única presença.
O Guardião Negro.
Jennifer sentiu o coração bater forte, como se quisesse atravessar a caixa torácica e fugir dali antes dela mesma ter tempo de reconsiderar. Suas mãos tremiam, denunciando aquilo que o rosto tentava esconder. Ela respirou fundo, forçando um pouco de compostura.
— Respire, Jennifer… É só mais um trabalho. — disse baixinho, tentando enganar o próprio cérebro.
O rádio na parede chiou.
— Dra. Jennifer — chamou a Administradora, aquela voz suave que sempre parecia saber mais do que devia. — Você está mais nervosa do que deveria. Ele não morde, sabe? A menos que tenha motivo.
A risadinha maliciosa veio logo depois, tão elegante quanto irritante.
Jennifer rolou os olhos, mesmo sabendo que ela não podia ver.
— Administradora, com todo respeito… eu estou prestes a entrar numa sala com uma entidade que esmagou um Primordial e desintegrou uma Sombra verdadeira como se estivesse brincando. A senhora deveria agradecer que eu ainda estou em pé.
Do outro lado, o silêncio durou apenas o suficiente para parecer calculado.
— Ele veio sem lutar, Dra. Jennifer. Não ofereceu resistência alguma. Ele quis estar aqui. Isso diz algo importante. — A voz da Administradora baixou, quase divertida. — Seja você mesma. Talvez ele até goste de cobras.
Jennifer bufou, mas a verdade é que a frase mexeu com ela.
Porque se o Guardião Negro realmente quisesse sair dali… nem vinte universos inteiros impediriam.
Ela olhou uma última vez para as runas vivas. Estendeu a mão para o painel. As cobras em seu cabelo recuaram, tensionadas como cordas prestes a se romperem.
O trinco se ativou.
A porta começou a deslizar, lenta, pesada, revelando um interior tomado por energia bruta. Um vento que não deveria existir naquele nível subterrâneo soprou em seu rosto, arrepiando sua pele. A sala parecia respirar com ela, reagir à sua presença.
E então a abertura completou seu curso.
No centro, sentado como alguém que estava ali por opção — não por contenção — estava ele.
O Guardião Negro.
A figura envolta em escuridão viva, como se o próprio vazio tivesse decidido vestir uma forma humana apenas para observar o mundo a partir de dentro. Os olhos azuis brilhavam como estrelas antigas, e a energia em torno dele parecia dobrar as leis conhecidas. Ele não parecia ameaçado. Não parecia preso.
Parecia… esperando.
Jennifer sentiu o ar abandonar seus pulmões por um instante, esmagada pela sensação de encarar algo que existia antes da linguagem ter palavras para descrevê-lo.
E, mesmo assim, ela entrou. Porque era o trabalho dela.
A porta se fechou lentamente atrás dela.
E o Guardião Negro finalmente ergueu os olhos para encontrá-la.
ᛖ 𒁂 ⟐ 𒁂 ᛖ
Eu me ajeito na cadeira branca como se estivesse sentando em um trono desconfortável demais pra minha paciência. Esse lugar é tão brilhante que parece que alguém decidiu esfregar candeeiro cósmico nas paredes. As runas douradas pulsando pelos pilares dão uma vibe de “prisão chique”, e a mesa de metal no centro reflete minha própria expressão entediada de volta pra mim. Belo cenário… se eu estivesse prestes a fazer uma sessão de terapia, talvez.
Deito os braços sobre a mesa e deixo o peso da cabeça cair neles. Estou aqui porque decidi estar, mas isso não quer dizer que eu precise parecer animado com isso. Meus cabelos escuros caem no rosto, cobrindo meus olhos… mas consigo ver tudo perfeitamente. Nada escapa de alguém como eu. Nada nunca escapa.
A porta desliza e eu não preciso erguer a cabeça pra sentir quem entrou. O ar muda. A energia treme. A ansiedade dela lateja como um holofote.
Dra. Jennifer.
Ela fica parada na entrada por alguns segundos, observando. Posso sentir o olhar percorrendo cada detalhe meu, tentando conciliar tudo que ela estudou com… bem, eu. Sempre acho engraçado quando tentam me encaixar em teorias, relatórios, níveis de ameaça. Pessoas adoram colocar nomes em tempestades, como se isso as tornasse menos mortais.
Ela finalmente entra, o salto ecoa num ritmo apressado demais pra alguém tentando parecer calma. Coloca um caderninho na mesa — tão frágil perto de mim que parece até irônico — e então abre a boca.
— Boa tarde, Anomalia-013.
Aí sim. A primeira provocação do dia.
Levanto a cabeça devagar, deixando meus olhos azuis encararem diretamente os dela. Não uso nenhum poder, mas o peso da minha presença basta. Ela congela por um segundo. Curioso como eles sempre congelam.
— Se tentar me reduzir a um número na sua tabela, doutora… vai se arrepender.
A reação dela é sutil, mas deliciosa. Uma piscada rápida, o músculo do maxilar contraindo. A compostura desmoronando por dentro, mas ainda lutando pra se sustentar do lado de fora.
— Não quis desmerecê-lo, Guardião. São apenas normas da Organização dos Seres da Noite. Todas as… anomalias precisam ser classificadas.
Me reclino na cadeira e apoio o queixo na mão. A palavra “anomalia” reverbera entre nós, quase como uma piada interna que só eu entendo.
— Eu entendo, doutora. Vocês têm suas normas. Mas não se engane… eu não sou uma de suas “anomalias”.
Ela cora, irritada. É fascinante assistir alguém tão inteligente tentando lidar com algo que simplesmente não cabe no quadro mental dela.
— Estamos aqui para garantir o equilíbrio natural entre os seres vivos, Guardião. Impedimos que ameaças malignas destruam o multiverso. Você deveria agradecer à Organização por fazer o trabalho que você abandonou enquanto estava… sumido.
Aí eu rio. Um riso curto, suave… e venenoso.
— Sumido? Você fala como se eu tivesse tirado férias. Se eu desapareci, foi por algo que nenhum de vocês seria capaz de entender.
Ela abre a boca, pronta pra responder, mas a voz desaparece antes de sair. Posso senti-la tentando encontrar lógica no que digo, tentando se agarrar a uma borda de segurança num mar onde eu sou o centro gravitacional.
— Vocês são fascinantes — continuo, girando o olhar pra câmera no canto da sala. — Acham que dominam magia, tecnologia, energia cósmica. Mas vocês são só uma pedrinha no caminho de seres maiores.
Ela estreita os olhos.
— “Pedra no caminho”? É isso que acha da Organização?
— Acredito que o termo é… gentil.
Meu tom muda quando inclino o corpo pra frente. Ela sente. A temperatura na sala cai. As cobras em seu cabelo se retraem. Meus olhos brilham como dois buracos azuis devorando tudo.
— Eu sou o Guardião Negro. Eu sou o equilíbrio. E o caos que vocês temem.
A tensão na sala branca tinha gosto metálico. Parecia que o ar inteiro segurava a respiração, esperando eu piscar para desabar. Jennifer estava ali parada, toda cheia de postura, tentando fingir que não tremia.
Coitada. A mulher tinha cobras no cabelo, lentes frias nos olhos… e, ainda assim, era eu quem fazia a coluna dela ameaçar derreter.
Ela se inclinou na minha direção com aquele ar de “eu mando aqui”.
— Então talvez seja hora de provar que ainda merece esse título. Afinal, o que você fez nos últimos anos além de desaparecer?
Eu deixei a pergunta escorregar por mim como água gelada na pele. Inclinei-me para trás, cruzando os braços. Relaxado. Confortável. Intocável.
— “Provar”? — repeti, saboreando cada sílaba. — Não preciso provar nada para você ou para a sua Organização.
Meus olhos brilharam. Eu senti. Sempre sinto quando alguém percebe que está diante de algo que não consegue controlar. A sala esfriou. Até as cobrinhas no cabelo dela deram meia volta, espertas.
— Eu sou o Guardião Negro. — Minha voz pesou, como se estivesse puxando sombras pelas paredes. — Não existe nada que você, sua Organização dos Seres da Noite ou qualquer forma de vida possa fazer para me contrariar.
Jennifer respirou fundo. Tentou. A coluna dela deu uma vacilada, mas a mulher era teimosa: sentou direito, segurou a caneta… como se aquilo fosse um escudo.
— Muito bem, Guardião. Vamos continuar com o interrogatório.
Interrogatório. A palavra me divertia. Sorri.
— Ótimo. Faça suas perguntas.
Ela anotou algo. O papel quase rasgou de tanta força.
— Você foi classificado como “Classe Calamidade” pela O.S.N., com o título de Guardião Negro. Para registro, preciso do seu nome completo e idade.
— Renier Kanemoto. Dezesseis anos. — Dei uma pausa, ergui o canto dos lábios. — Mas meu peso… ah, esse você vai ter que imaginar, doutora.
A sobrancelha dela subiu com um veneno delicioso.
— Dezesseis anos… uma criança com esse nível de poder e arrogância. Parece uma piada cósmica.
Deixe-a falar. Palavras não cortam dragões.
Inclinei a cabeça. Algo chamou minha atenção atrás dela… uma vibração, um rumor do outro lado do vidro. Eu ergui a mão, casual, quase como um convite.
— Posso fazer uma pergunta?
Ela suspirou.
— Não estamos em uma escola, Guardião. Você não precisa pedir permissão.
— Mesmo assim — murmurei, sorrindo. — Por que fui classificado como “Calamidade”? O que isso significa, exatamente?
Ela ficou séria. De um jeito acadêmico, ensaiado, tentando recobrar o controle.
— Nossa classificação determina o nível de ameaça de uma anomalia. “Terrestres” destroem cidades. “Planetárias” devastam planetas. E assim por diante.
— Então “Calamidade” é… o quê? — perguntei, embora eu já tivesse uma ideia saborosa do porquê.
— Além disso — disse ela. — Seres capazes de afetar universos. Você matou uma Sombra, matou um Demônio Primordial e ainda carrega o título de Guardião Negro. A Organização não está preparada para… lidar com você.
Eu dei um sorriso. Não largo dele nesses momentos; é quase uma assinatura. Lancei um olhar preguiçoso para a câmera no canto da sala. Eles estavam lá, bebendo cada segundo.
— Interessante. Mas mesmo sendo essa “Calamidade”, aqui estou eu… preso pela sua Organização.
Foi aí que ela perdeu a compostura por um segundo. Os olhos apertaram.
— Você pode até ter um rosto bonito e o encanto de um garoto jovem, mas não me engana. — A voz dela ficou mais afiada. — Você tem um motivo para estar aqui. Alguém como você não seria capturado por acaso.
Encostar no nervo dela foi fácil. Eu apenas deixei o silêncio se derramar entre nós. E então sorri, de novo — mas dessa vez, com algo mais profundo. Algo que nem a câmera, nem ela, nem as cobrinhas ousariam interpretar.
— Talvez você tenha razão, doutora. — Inclinei-me para frente, apoiando os cotovelos na mesa. — Mas isso… — deixei o ar entre nós vibrar — …é algo que nem mesmo você está pronta para saber.
Ela empalideceu. De leve, mas empalideceu.
E eu? Apenas esperei. Sempre espero. Porque nesse joguinho aqui… quem tá no comando sou eu.
Continua…

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