Capítulo 30: Portões de Mármore, Guardiões e um Jardim Devastado.
Um daqueles Pesadelos, dessas criaturas deformadas e famintas por tudo que respira, havia rompido as névoas da floresta em um disparo insano, a mandíbula aberta em um grito mudo.
Era magro, ossudo, parecia uma paródia de um esqueleto humano esculpido por algum escultor demente. Mas antes que seus pés afundassem na grama negra do caminho que seguíamos, Lah’Vyr ergueu a mão. Um sussurro, um frio antigo como a ausência de deuses.
O corpo da criatura foi engolido por um cristal de gelo, paralisado no meio do ar, como uma pintura quebrada da morte.
Não hesitei. A foice que carregava girou em minha mão, sua lâmina curva dançando num arco implacável. Quando acertou o peito congelado da criatura, ouvi o som delicado, quase poético, de vidro quebrando em mil pedaços. O monstro virou neve e estilhaços.
Suspirei. Era o décimo? Talvez o décimo quinto. A contagem já não importava.
Meus olhos correram o horizonte. Tudo era silêncio depois daquele instante. Um silêncio denso, pesado… como se até o tempo tivesse parado pra espiar o que faríamos a seguir.
— Eles estão ficando mais escassos — comentei, a voz rouca ecoando sob o céu encoberto.
Jade avançou um passo. A relva cedeu sob o seu peso. Ela era forte como uma montanha, mas naquele instante seu olhar estava mais contemplativo do que agressivo.
— Faz sentido — ela respondeu. — Os Pesadelos não se aproximam do Recinto do Selo. Quanto mais perto chegamos, mais eles se afastam.
— Mesmo eles sabem não provocar aquele lugar — murmurou Lah’Vyr, cruzando os braços, como quem já aprendeu na prática que tem coisas que até monstros preferem evitar.
Virei o rosto para Seraline, e para minha surpresa, ela já me olhava. Havia algo nos olhos dela… aquela dúvida muda, quase como se eu a tivesse pensado antes dela. Nossos pensamentos, de novo, sincronizados como ecos de algo maior.
— Mas por que vocês se referem ao Selo como um “lugar”? — ela questionou, finalmente dando voz à inquietação. — As lendas humanas falam que Alastre, o Demônio Profano, foi selado pela Rainha de Aurélia. Mas o selo… era só isso. Um selo. Um ato. Um feitiço. Não… um “lugar”.
A curiosidade dela perfurava mais fundo que a lâmina da minha foice.
Jade coçou a cabeça, visivelmente desconfortável.
— Eu nunca saí da floresta. Não entendo muito dessas histórias humanas… Mas sim, aquele lugar… tem estruturas. Construções. Feitas por mãos humanas, com certeza.
“Aquele lugar.” Repeti mentalmente. Minha mente conectava os fios.
— Então… — murmurei. — O selo… está numa ruína? Uma estrutura abandonada?
Lah’Vyr assentiu com a cabeça, os cabelos negros acizentados se movendo como sombras líquidas ao seu redor.
— Antigas ruínas. Da velha capital humana. Onde o selo foi deixado… E onde tudo começou a apodrecer.
Ela deu de ombros, como se estivesse falando de um conto entediante.
— Mas pra ser sincera… pouco me importa a história deles. Humanos fazem e desfazem seus próprios impérios como se fossem castelos de areia.
Fiquei em silêncio por um momento. Porque apesar de entender o desdém de Lah’Vyr… algo ali me incomodava. Uma ruína esquecida. Um selo profano. E um passado que ainda não se revelou por completo.
Se até os Pesadelos evitavam esse “Recinto”, havia mais do que poeira e pedra nos escombros de Aurélia.
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Depois de atravessar aquele mar sufocante de vegetação escura, finalmente paramos.
A frente, uma visão absurda. Um paredão colossal de mármore negro se erguia por mais de cem metros, como se os próprios deuses tivessem decidido construir um túmulo para a história esquecida da humanidade. E envolta dele… uma barreira. Não uma comum. Aquilo era energia etérea escura, pesada, com cheiro de eras passadas e poder lacrado.
— Chegamos. — murmurou Jade, parando ao meu lado com seu passo grave. — As ruínas da antiga capital do Reino Humano.
Lah’Vyr bufou, como se lembrar daquele lugar lhe causasse azia.
— Nunca conseguimos entrar. A barreira nos impede, mesmo com todo nosso poder. Nada quebra… nada entra. Nem sombra, nem luz.
— É a entrada principal da cidade — completou Jade, com os olhos afiados observando os arcos e pilares. — E foi selada. Não por mãos comuns.
Eu observei tudo em silêncio por alguns segundos. Algo naquela muralha… me incomodava. Não pela aparência, mas pela sensação. Aquilo pulsava como um coração gigante em coma.
— Então deve ter algum tipo de mecanismo. Um foco. Algo que possa… destrancar.
Apertei o cabo da minha foice com força.
— Se existe uma trava, existe uma chave. — falei. — E se a gente não tem a chave… vamos ver se a tranca reage à força bruta.
— Renier… — Seraline começou, mas era tarde.
— Afastem-se — avisei.
Jade não discutiu. Recuou com firmeza, posicionando-se atrás de Seraline. Suas asas se abriram como um escudo divino, protegendo ela do que sabia que viria. Lah-Vyr, por outro lado, apenas suspirou com tédio e ficou parada, deixando seu corpo se tornar translúcido como se dissesse: “Faz seu show, estrelinha”.
Concentrei a energia. Azul escuro, denso, cósmico. A lâmina da foice pulsou como se o próprio tecido do universo vibrasse com ela. Quando a atirei contra a barreira, a colisão foi… cataclísmica.
O impacto criou uma onda de choque que devastou a vegetação podre ao nosso redor. Árvores milenares voaram como gravetos. A terra gritou. E metade da floresta simplesmente… desapareceu. Reduzida a pó estelar e cinzas.
A barreira chiou, gritou, resistiu… e então, rendeu-se. Mas não completamente. Ela não quebrou. Recuou. Como se se abrisse apenas o suficiente para nos deixar ver.
Quando a poeira assentou, vi melhor.
Um grande portão de mármore escuro se revelava à nossa frente. Ornamentado em dourado, com inscrições em uma língua que minha alma reconhecia, mas minha mente ainda tentava decifrar. O estranho era: a barreira não tocava as portas em si. Estavam livres.
O problema? Elas eram colossais. Mesmo alguém com minha força… abrir aquilo seria como empurrar uma montanha.
— Da próxima vez… — Seraline disse, se recompondo enquanto afastava os cabelos do rosto. — Me avisa antes de quase explodir metade do mundo, tá?
— Desculpa. — respondi com um sorriso torto, me aproximando do portão.
Mas então, do nada… o chão se moveu.
Um borrão emergiu da água negra próxima. Um rugido úmido, grotesco.
Saltei para trás instintivamente quando uma criatura — parecida com um maldito tubarão abissal, com presas serrilhadas e olhos vazios — saltou do poço, tentando me morder como um peixe faminto em dia de festa.
— Tá vendo? Esse lugar é incrível. Tem vista panorâmica, segurança reforçada, e até… entretenimento surpresa. Um sonho!
Lah-Vyr apenas ergueu uma sobrancelha, exasperada.
— Só você acha isso, criatura cósmica.
Seraline riu baixo, ainda olhando para o portão.
— O jardim já foi podado — disse, sua voz carregando aquele sarcasmo gentil que só ela conseguia ter. — Agora só falta conseguirmos a chave da casa…
A chave. A porta. O selo.
Algo ali… nos esperava. Mas a pergunta que me corroía era outra:
Será que estávamos abrindo a porta para entrar… ou para deixar algo sair?
Continua…

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