Capítulo 14: Conversas na Fogueira.
A fogueira estalava devagar, lançando pequenos fragmentos de brasa no ar como vaga-lumes dançantes. Seraline estava em silêncio, mexendo com um graveto as brasas que ainda resistiam à noite fria. Havia algo no modo como ela olhava pra mim… um quê de curiosidade mal contida.
Por um tempo, ela manteve os olhos fixos na fogueira, mas eu sentia. Sabe quando alguém te observa demais, mas tenta disfarçar? Pois é. Ela estava me estudando.
Finalmente, quebrou o silêncio.
— Os olhos dos Primordiais… são tão belos quanto os de Tiamat.
Pisquei. Uma sobrancelha arqueou no reflexo.
— Você está falando dos Olhos das Revelações? Aqueles que Shuten Douji deu à minha família, o Clã Kanemoto?
Ela assentiu, com aquele gesto firme que sempre parece que ela sabe mais do que deixa transparecer.
— Sim… os Olhos das Revelações. Entre os Filhos Primordiais, os que nasceram do caos trazido por Tiamat… são os únicos que herdam esses olhos. — Ela fez uma pausa, tocando levemente o próprio rosto. — Eu sou apenas uma prole. Uma filha dos filhos. E por isso… meus olhos são carmesins.
Abaixei um pouco a cabeça, observando os dela à luz da fogueira. Vermelhos. Não só vermelhos. Eles tinham um brilho quente, mas ocultavam um peso. Como se carregassem guerras e desejos milenares.
— Bom… sejam de Primordial ou não… acho os seus olhos bem bonitos. — Falei sem pensar demais, mas com firmeza. Não era um elogio qualquer.
Ela congelou por um instante. O graveto parou. A tensão no ar mudou, sutil, mas presente. Um leve rubor subiu pelas bochechas dela, mas ela disfarçou com dignidade, ajustando a postura.
Ainda assim… um sorriso escapou. Pequeno. Verdadeiro.
— Hmph… e você sabe o que os olhos azuis significam, Guardião? — perguntou, como quem lança uma isca pra ver se o peixe morde.
Inclinei a cabeça, fingindo que pensava mais do que de fato pensava.
— Bom… pelo pouco que aprendi na Terra, os Olhos das Revelações… Podem ver emoções, sentimentos, identificar mentiras… e enxergar a verdadeira face de qualquer ser vivo. Não é isso?
Ela balançou a cabeça lentamente.
— Isso é só o básico. Uma casca fina diante da profundidade desses olhos.
Seraline se virou um pouco mais na minha direção. A fogueira refletia em seus olhos como sangue líquido.
— O ditado entre os seres sobrenaturais, especialmente os que descendem da Tiamat, é claro… — Ela falou com voz baixa, quase solene. — “Aqueles que nascem com olhos azuis não são os mais puros… são os mais próximos do abismo.”
Fiquei em silêncio, absorvendo.
— Não é pra colocar medo — continuou. — É porque quanto mais denso e puro for o tom de azul, mais íntima é a ligação com o plano sobrenatural. Com o abismo. Com os seres que vivem nas frestas entre os mundos. Inclusive… com a própria Tiamat, a Deusa Caída.
Meus olhos, meus malditos olhos, arderam por um instante, como se tivessem ouvido o nome. Como se o abismo piscasse de volta.
Seraline continuou me encarando, como se esperasse algo de mim. Talvez uma reação. Talvez só o reconhecimento de que eu sabia, mesmo que nunca tivesse dito, que esses olhos eram mais do que um dom. Eram um lembrete.
— Então… quanto mais azul… mais próxima é a alma do caos, do sobrenatural… e da própria Tiamat? — murmurei.
Ela assentiu.
— E os seus são azuis como gelo cósmico. Quase dói olhar pra eles de perto. Uma conexão… que vai além da linhagem.
Eu respirei fundo. A fogueira crepitou mais uma vez, lançando um brilho dourado sobre nós dois. Por um momento… só havia silêncio. E olhos.
Os dela, vermelhos como desejo e sangue antigo… Os meus, azuis como o vazio entre as estrelas.
Ahhh, agora sim… clima de fogueira, conversa afiada, provocação gostosa e uma química que grita em cada troca de frase. E cá entre nós, nada une dois seres místicos ancestrais como o ato sagrado de cozinhar no meio de uma floresta amaldiçoada, né?
Seraline se levantou com uma elegância quase casual, mas cada movimento dela parecia coreografado, como se até jogar um galho queimado tivesse propósito.
Ela esticou o braço e arremessou o graveto já reduzido a carvão para fora da clareira, onde as sombras logo o engoliram. Então, com uma mão na cintura e um olhar que misturava travessura e provocação, ela soltou:
— Você sabe cozinhar?
Meus olhos brilharam, literalmente. Era um daqueles reflexos dos Olhos das Revelações, mas juro que tive um quê de surpresa sincera ali.
— Essa veio do nada — murmurei, me erguendo devagar e alongando os ombros com um estalo satisfatório. — Mas sim… acampava quando era criança. Aprendi algumas coisas com meu avô. Ele dizia que quem não souber cuidar do próprio estômago, acaba devorado por outro.
Seraline soltou um sorriso sutil, só que com aquele tempero malicioso de quem estava tramando algo. Sempre está.
— Perfeito — disse ela, rindo baixinho. — Porque eu não sei cozinhar. Zero. Um desastre ambulante.
Cruzei os braços, arqueando uma sobrancelha com desconfiança legítima.
— E de onde exatamente veio essa súbita urgência por culinária, hein? Não me diga que trouxe ingredientes escondidos no kimono. E já te aviso: não vou sair sozinho por essa floresta demoníaca pra catar alecrim místico, não.
Ela deu uma risadinha enquanto puxava algo da cintura. Um pequeno saco de tecido escuro, com uma runa dourada pulsando em padrões suaves.
— Isso aqui tem espaço interno com runa de armazenamento. Coletei algumas coisinhas antes da viagem — disse, como se fosse a coisa mais comum do mundo. — Só que… como eu disse, não sou boa na cozinha. E você é o Guardião, né? Deve ter algum talento escondido aí.
Ela tirou alguns frascos: alho torrado, pimenta, até algo que parecia salsinha em pó. Os aromas despertaram uma memória adormecida, daquelas que vêm em flashes, minha infância, a fumaça da lenha, a panela de ferro rangendo sobre o fogo.
Mas o olhar dela… aquele olhar travesso e falsamente inocente…
Me fez estreitar os olhos.
— Olha só, você vai mesmo ficar usando meu título de Guardião pra me transformar no faz-tudo desse acampamento?
Ela abriu um sorriso mais largo, como se estivesse saboreando a própria audácia.
— Você prometeu ajudar. Era parte do trato, lembra? Apoiaremos um ao outro. — Fez um biquinho cínico. — E eu estou faminta, Renier.
Suspirei. Longo e teatral. Mas no fim, o sorriso escapou. Aquele meio sorriso de derrota resignada.
— Tá bom… tá bom. Eu cozinho. Mas que fique registrado no livro dos Primordiais: essa foi uma chantagem emocional velada.
Ela riu, sentando de volta como uma gata satisfeita. E eu me ajoelhei perto do fogo, analisando os ingredientes.
Fazer comida num mundo amaldiçoado, com temperos mágicos e companhia de uma descendência demoníaca…
Essa era a minha vida agora.
Continua…

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