Capítulo 52: O Vazio e a Existência.
“O conceito de gerar medo na incompreensão dos mortais…” pensei, os olhos presos em Aura, ainda caída no chão, os lábios tremendo. “Isso vai além do poder comum. É algo que existe entre o ser e o não ser… como se tivesse consciência da própria ausência.”
A ideia me arrepiou a espinha. Se eu estivesse certo, então aquela Sombra — não, aquela coisa — era um fragmento de algo que transcende a própria existência.
— Por que você fez Soraya sentir medo…? — perguntei, minha voz soando quase como um rugido contido. — Se tem o poder de destruir a mente dela com um piscar de olhos, por que escolher atormentá-la? Só porque não compreende o que ela é?
A Sombra apenas riu. Uma risada seca, rouca, que parecia vibrar dentro da minha cabeça em vez de no ar.
— Nossa… ela estava certa sobre você. — disse, com uma suavidade debochada. — Mesmo sem entender tudo, você enxerga mais longe do que a maioria. Impressionante.
“Ela estava certa sobre você.”
O pronome me incomodou como uma farpa. Ela… quem? Alguém a havia instruído sobre mim? Ou eu estava sendo observado há mais tempo do que imaginava?
O modo como ela falava comigo… aquela familiaridade maldita. Era como se me conhecesse há eras.
— Não matei sua amiga por um motivo simples… — ela continuou, e cada palavra saía como um fio de veneno — o anjinho caído é irrelevante. Você é o que eu vim buscar. Matá-la seria um desperdício. Eu gosto de que tudo tenha propósito. E você entende bem isso, não é mesmo?
Ela estava certa. Maldita, mas certa.
Propósito… a palavra pesava no meu peito. Tudo que eu fazia — cada movimento, cada ferida, cada sacrifício — era por um sentido maior. Agir sem propósito era como negar minha própria essência.
Me ergui lentamente. Senti o sangue pulsar nas veias como um trovão subterrâneo.
Minha foice já estava em minhas mãos, pulsando com um brilho azul profundo, enquanto os Olhos das Revelações despertavam, irradiando luz por todos os cantos da ruína. O ar ao nosso redor começou a se comprimir, a se contorcer como se a própria realidade estivesse tentando fugir.
— Quem é você? — rosnei, mantendo o olhar fixo nela. — Até hoje, toda Sombra que encontrei só trouxe destruição e silêncio. Mas você… fala demais. Tem ambição. Age como se me conhecesse. Como se… fôssemos próximos. Você não é uma Sombra. É algo além disso. Então, responda — quem é você?!
A risada dela cresceu — cheia, vibrante, quase orgásmica. O som reverberou dentro da minha mente, me fazendo ranger os dentes. Ela me olhou como quem saboreia o caos.
— Ahh… você percebeu rápido. — murmurou com um sorriso satisfeito. — Você sempre foi bom em perceber o que não devia. — Deu um passo à frente, e o chão pareceu ceder sob seus pés, como se o mundo não suportasse sua presença. — É uma honra finalmente conhecer o filho da Criação. Embora, na verdade… eu já o conhecesse.
Meu coração falhou por um segundo.
— Sempre o senti… — continuou ela, os olhos brilhando como dois buracos no tecido do tempo. — Sempre o vi. Sempre soube quem você é, Renier Kanemoto. Não tinha como eu não saber… afinal, ela o conhecia.
Meu corpo inteiro tensionou. A frustração ferveu dentro de mim até explodir.
Meu grito ecoou pelo vazio como o rugido de uma fera que finalmente perde o controle. Senti o calor subir pela espinha, o coração pulsando em sincronia com o ódio que queimava dentro de mim.
— Eu não tenho paciência para enigmas e joguinhos de palavras! — rugi, minha voz reverberando como trovão entre ruínas e ecos distorcidos. — Quem é essa “ela” que você tanto menciona?!
Os lábios da Sombra se curvaram num sorriso que me fez querer arrancar-lhe o rosto. Ela parecia saborear o momento, cada segundo da minha fúria, como se eu fosse um prato servido especialmente para ela.
E então… ela disse.
Tão simples.
Tão fria.
Tão cruel.
— Kyouka.
O nome atravessou meu peito como uma lâmina.
Por um instante, tudo parou.
O som.
O ar.
O tempo.
E então veio o impacto.
Senti algo dentro de mim ruir, algo que eu jurava ter enterrado há eras. A foice em minha mão vibrou, reagindo ao descontrole que me tomava, e antes que eu pudesse pensar, eu já havia me movido.
O golpe foi puro instinto, brutal, cego. A lâmina cortou o ar com uma força desumana, rasgando parte da realidade ao redor. O impacto no chão abriu uma fenda que se estendia por metros, rachando o solo como se o mundo tivesse decidido sangrar junto comigo.
A Sombra apenas desviou — e sorriu.
Kyouka.
Minha amada.
A mulher que me ensinou o que era amar… e o que era morrer.
A lembrança veio como um pesadelo lúcido. O vento frio no terraço da escola. As luzes da cidade ao longe. O olhar vazio dela antes que suas mãos atravessassem meu peito. O sangue. O desespero.
E o silêncio.
Aquele maldito silêncio que veio depois — o mesmo que me acompanha até hoje.
Ela me matou. E mesmo assim, parte de mim ainda a amava.
Era isso que me destruía.
Agora, a Sombra ousava pronunciar o nome dela, com aquele tom insolente, quase… íntimo.
— Querido… — disse ela, descendo lentamente de onde estava, a voz carregada de veneno disfarçado de doçura. — A Kyouka que você conheceu… a que sempre esteve ao seu lado na Terra… sempre foi uma de nós. Uma criação do Vazio.
Minha visão embaçou por um instante. Eu não sabia se era raiva, choque ou dor — talvez tudo ao mesmo tempo.
— Uma morte trágica, não é mesmo? — ela continuou, com uma risadinha cínica que me fez ranger os dentes. — Mas foi necessária. Foi por causa dessa morte que nasceu o Guardião Negro. Você.
Cada palavra era um golpe. Cada sílaba, uma lâmina girando dentro de mim.
— Era o único jeito, afinal. — ela disse, aproximando-se mais. — Você precisava morrer… pra se tornar o que é. Mas diga, Renier… — sua voz caiu para um sussurro sedutor, cruel — ainda sente isso dentro de você? Esse calor vazio? Essa chama que dói, mas te mantém vivo?
Ela sabia.
Maldita, ela sabia.
Eu queria gritar, queria arrancar sua garganta e esmagar aquele sorriso da face. Mas não conseguia.
As lembranças estavam lá, pulsando, me prendendo.
O toque dela. O olhar. O beijo.
E o sangue escorrendo por meus dedos enquanto eu caía.
O amor.
A dor.
A morte.
Tudo em um só instante.
E agora… essa Sombra cuspia o nome dela como se fosse um brinquedo, um troféu arrancado da minha alma.
— Cale… a boca… — murmurei entre os dentes, sentindo as veias no pescoço pulsarem. A foice tremia em minha mão, e os Olhos das Revelações começaram a brilhar, reagindo à tempestade dentro de mim. — Cale a maldita boca antes que eu te apague da existência.
Ela apenas riu, como se meu ódio fosse poesia.
A Sombra se aproximava, e eu mal percebia.
Não era medo — era… entorpecimento. Como se cada pensamento que eu tentasse segurar escorresse pelos meus dedos como areia.
Minha mente era um caos.
As vozes do passado, o eco da dor, tudo se misturava.
Morrer na Terra não tinha sido o bastante. Encontrar minha mãe, apenas para perdê-la logo em seguida… e agora isso.
Kyouka.
— Kyouka… era uma Sombra… — sussurrei, a voz falhando. As palavras doíam mais do que ferimentos físicos.
As peças sempre estiveram ali, eu é que não quis ver.
Aqueles olhos dela… roxos, frios, imóveis. Um olhar que nem meus próprios Olhos das Revelações conseguiram decifrar.
Ela nunca foi humana. Nunca foi… minha.
— Coitadinho… — a Sombra murmurou, com uma ternura falsa que me fez estremecer.
Sua mão gelada tocou meu rosto, me forçando a encará-la.
Olhos roxos. O mesmo tom. A mesma sensação sufocante.
Eu senti meu coração parar por um segundo.
— Ela o amou, mas quando não conseguiu compreendê-lo… o descartou, não foi? — ela sussurrou, doce como veneno derramado em seda. — É doloroso, não é, Renier? Sentir o vazio por dentro. Esse buraco que você tenta preencher, mas ele só cresce, não importa o que faça. Eu sei. Eu entendo como você se sente.
Eu vacilei.
Por um instante, minha raiva cedeu.
A voz dela… soava real.
Soava humana.
E isso me apavorou.
“Ela me entende?”, pensei, confuso, tentando afastar a ideia, mas não conseguia. Era como uma corrente envolvendo minha mente, me puxando para um abismo conhecido.
A Sombra sorriu, inclinando levemente a cabeça.
— Nós sabemos como é, Renier. Ser incompreendido. Ser algo único, isolado, um erro do universo. Esse vazio nos consome. E no fim, tudo o que podemos fazer é consumir e destruir, porque é isso que somos.
Aquelas palavras eram um espelho.
Cruel.
Perfeito.
Eu… entendi.
Eu sabia o que ela queria dizer. E isso me destruiu ainda mais.
Ela continuou, e sua voz… parecia sussurrar dentro da minha mente.
— Mas você é diferente. Você é… cheio. Tão cheio que a própria existência se curva ao seu redor. Mas o que vemos… é alguém vazio e solitário.
Fechei os punhos, tentando conter o tremor que me percorria.
Não queria ceder.
Mas cada palavra dela me desmontava.
— Nós não desejamos sua queda, Renier. — disse, e seus lábios se curvaram num sorriso enigmático. — Queremos uma união.
Meu coração falhou uma batida.
— União? — perguntei, rouco, sem força.
— O Vazio ama você. — disse ela, e por um instante, seus olhos brilharam com algo que parecia… sincero. — Nós o amamos, porque você nos completa. Você é o elo perdido que sempre buscamos. Mas há uma barreira… — ela se inclinou mais, e senti o frio de sua respiração roçar meu rosto. — Você precisa nos deixar entrar.
Cada palavra era uma lâmina de seda cortando minha sanidade.
— Se fizer isso… nunca mais estará sozinho. — ela sussurrou. — Nunca mais será incompreendido. Nós estaremos com você. Para sempre.
A voz dela ecoou dentro da minha cabeça, emoldurada por promessas impossíveis.
“Nunca mais sozinho.”
As palavras que eu mais quis ouvir em toda a minha existência.
Mas ao mesmo tempo… o som delas era errado.
Era doce demais.
Como um cântico de sereia para alguém que já está se afogando.
E, ainda assim, parte de mim… quis acreditar…
Continua…

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