Capítulo 23: Fome Antiga.
A trilha serpenteava como uma serpente moribunda entre as raízes retorcidas da Floresta Perdida. A vegetação parecia apertar ao nosso redor, como se a própria floresta não quisesse que saíssemos dali com vida. Mas não era isso que me incomodava. Não, não era a morte iminente que me deixava inquieto, era a companhia. A criatura à nossa frente caminhava com uma elegância macabra, como se tivesse sido moldada pelo próprio medo humano.
O Wendigo.
Seu corpo magro e alto rangia a cada passo. Pele esticada como couro velho, estalando em fendas onde o osso quase saía. E aquele crânio de cervo, um troféu grotesco preso por raízes ao que restava de seu rosto. Os chifres se retorciam como galhos amaldiçoados, e sua presença fundia-se tão bem com o cenário que eu quase esquecia que estávamos seguindo um monstro. Quase.
Seraline não disfarçava o desprezo. Andava com a katana pronta, olhos apertados, músculos tensos. Qualquer movimento suspeito e ela cortaria aquela aberração ao meio, ou ao menos tentaria. Mas eu? Eu… bom, eu gosto de conversar com demônios. Eles sempre têm boas histórias.
Acelerei o passo, sentindo a foice pesar nas costas enquanto emparelhei com o Wendigo. O cheiro era horrível, como carne velha misturada a folhas úmidas e sangue seco. Sorri, talvez mais por hábito do que por charme.
— Ei — falei casualmente — pode me contar um pouco sobre você?
A criatura hesitou. Até os galhos pareceram parar de se mover.
— Você já… ouviu antes — respondeu com uma voz rouca, feita de vento e ossos — nós somos canibais. O gosto da carne… o desejo insaciável… nos guia. Uma fome eterna. Um vazio que nunca se preenche.
Ah. Vazio.
Essa palavra sempre me acerta de um jeito estranho. Dei um risinho curto e olhei para frente, analisando a trilha escura que nos esperava. A fome. O vazio. A busca sem fim por algo que você nem sabe mais o que é.
— Um vazio… — repeti, mais pra mim mesmo do que pra ele.
Havia algo nessa entidade que não gritava apenas selvageria. Ela carregava cansaço. Como alguém condenado a repetir uma dança que não entende. Me virei de leve para encará-lo.
— E você? — perguntei com calma. — Como tenta preencher esse vazio?
Essa pegou ele de surpresa. O silêncio ficou pesado. Os chifres tremeram sutilmente, como se a pergunta tivesse sido lançada contra a alma, e não contra o corpo.
— Nós… comemos — respondeu ele, depois de um tempo. — Tentamos nos satisfazer. Mas… o gosto do sangue… não é prazeroso.
Toquei levemente o cabo da foice, como quem afaga um velho amigo.
— Você não come para viver — murmurei — você come para se soltar, pra tentar se libertar dessa fome que te corrói por dentro. Você não quer matar. Quer sentir o calor dos outros seres, talvez até… lembrar do que já foi um dia.
O Wendigo virou a cabeça lentamente, como se minhas palavras tivessem feito algo estalar lá dentro, mais forte que os ossos.
— Eu procuro… me libertar… desse ciclo — disse ele, quase como um lamento, quase como uma oração.
Sorri. Não de escárnio, mas de empatia. A floresta, afinal, estava cheia de monstros. Alguns deles apenas queriam paz. E outros, como eu… só queriam entender a dor dos outros monstros, pra não esquecer da própria.
E no fundo… eu sabia. O verdadeiro horror não era o Wendigo.
Era o que ainda vinha pela frente.
Eu andava com passos firmes, mas minha mente… ela flutuava. O som dos meus próprios passos se perdia na espessura da Floresta Perdida, abafado pelo manto de folhas úmidas e pelo silêncio inquietante que nos envolvia como uma segunda pele. A única coisa que se ouvia além do barulho das nossas botas eram os corvos. Sempre eles. Como se já soubessem.
Mas foi só quando me dei conta do silêncio dela… que meu corpo travou.
Parei de andar. Meus olhos voltaram para trás, como se o ar estivesse me empurrando a perceber o que faltava. E então… percebi. A Kumo. A minha Kumo. Ela não estava mais lá.
— Seraline… — chamei baixo, com a voz presa na garganta. — Você viu a Kumo por acaso? Ela… sumiu.
Ela girou nos calcanhares, olhos atentos como sempre, fazendo varredura com o olhar como uma guerreira pronta para pior. A tensão no ombro dela me disse tudo: nem ela tinha notado.
A Wendigo parou junto, abruptamente, como se meu instinto ativasse o dela. Aquela criatura imponente, deformada e ancestral, virou levemente a cabeça, como se farejasse a ausência.
— Ela não sairia por nada. — rosnou. Sua voz era quase um eco gutural. — Aquela aranha… é um dos Pesadelos mais perigosos desta floresta. Se desapareceu… não foi por vontade própria.
Meu corpo enrijeceu. Apertei o cabo da foice. A lâmina respondeu como se compartilhasse minha inquietação, emanando um brilho azul etéreo, vibrante, pulsando com a minha alma. Seraline puxou a katana, os músculos dela tensos, prontos. Até a floresta pareceu segurar o fôlego.
Nada se movia. Nem o vento.
Só os corvos… rindo.
— Você conhece essa floresta melhor do que ninguém — sussurrei, virando os olhos para a Wendigo. — Então… que outros Pesadelos vivem aqui? Que tipo de coisa conseguiria matar a Kumo sem fazermos sequer um som?
Como resposta, o universo me mandou uma ironia grotesca.
Ploc…
Um respingo quente caiu no meu rosto.
Ploc… Ploc…
Mais dois. Pingos. Mas aquilo não era chuva.
Toquei o rosto. Sangue. Cor errada. Roxo. Denso.
Meus olhos se arregalaram, e ao mesmo tempo, a Wendigo se virou com um faro ancestral. Algo estava em cima.
E quando levantei os olhos… o horror desceu como um balde de gelo espremido direto na minha espinha.
Entre galhos retorcidos, nas alturas sufocadas pelas sombras, vi o corpo… ou o que restava. Kumo. Pendurada. Estacada. Perfurada em dezenas de lugares, como um boneco dilacerado. O sangue escorria de suas feridas e chovia sobre nós. Sua forma antes imponente agora era um troféu grotesco pendurado por garras invisíveis.
— Isso… não… — minha voz morreu antes de terminar a frase.
Seraline sussurrou como se amaldiçoasse o próprio destino:
— Se ela era das mais perigosas… então que tipo de monstro fez isso… sem que notássemos?
Minhas mãos acertaram o cabo da foice com força. A lâmina reagiu com um brilho violento. Meus olhos queimavam. Raiva. Frustração. Medo? Talvez. Mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, eu ouvi.
A voz da Wendigo.
— RENIER!!!
Gritou meu nome de forma primal, quase como um aviso gutural vindo do âmago da floresta.
E antes que minha mente pudesse reagir, senti meu corpo ser atingido por uma força colossal. Algo me acertou, não vi o que, mas fui lançado como uma marionete de carne contra um tronco grosso. O impacto foi um estrondo seco, tirando o ar dos meus pulmões.
Seraline reagiu no mesmo instante, katana em guarda, os olhos nela, na Wendigo. Achou que ela nos traiu. Mas eu gritei, com a alma:
— Cuidado… Não foi ela!
Foi então que eu vi.
O Wendigo se ergueu entre nós e o vazio. Braços em guarda. Um segundo depois, algo a atingiu. Invisível. Mas real, brutal. O som foi como uma bala de ar sendo disparada contra uma parede de aço… BOOM, jogando a criatura metros para trás. Ela rolou, se arrastou e cambaleou de pé.
Ela me protegeu.
A Wendigo.
Não… ela lutou por mim.
O inimigo estava perto. O tempo todo.
E agora, ele resolveu brincar.
Continua…

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