Capítulo 56: A Dança com o Vazio Parte 3.
O Jeep avançava pela estrada esburacada, os pneus rasgando o chão coberto de poeira e cinzas. Já estavam a quilômetros de distância do epicentro, mas o som, aquele estrondo ensurdecedor que parecia o próprio Armageddon rugindo, ainda ecoava, fazendo o vidro blindado do automóvel vibrar e rachar em pequenas teias.
No teto do veículo, Seraline e Kirara observavam o horizonte. O vento cortava seus rostos, carregando o cheiro metálico de destruição. À distância, a cidade caída tremia sob a colisão de dois titãs.
No céu, trovões púrpura e azul se entrelaçavam como serpentes cósmicas, rasgando as nuvens negras. Cada toque entre eles formava raios vermelhos, como se o próprio tecido da realidade rejeitasse a existência daquilo.
Kirara, sentada sobre o banco com uma arma pesada apoiada no ombro, mantinha o olhar fixo naquilo, olhos vermelhos de vampira refletindo as luzes do caos.
— Aquilo… — murmurou ela, apertando o gatilho como se o toque lhe desse segurança — …é a forma cósmica de um dragão?
Seraline, em pé sobre a lataria, o cabelo branco chicoteando ao vento, não se moveu um centímetro. A fixação firme de suas botas no aço denunciava seu equilíbrio sobrenatural.
— Eu achei que já tinha visto de tudo neste mundo… — disse ela, voz serena, mas com admiração perceptível. — Mas ver Renier… assim… — seus olhos se estreitaram — …faz até o caos parecer pequeno.
Kirara mordeu o lábio, inquieta. — E Soraya? Ela foi com ele… Será que está no meio daquilo?
Seraline desviou o olhar, a expressão permanecendo calma, quase fria. — Se eu conheço o Renier, ela está viva. Ele não escolheria alguém para acompanhá-lo numa missão dessas… se já estivesse condenada.
Kirara virou o rosto para ela, olhos brilhando em dúvida. — Ou talvez ele tenha te escolhido só pra não deixar ninguém detectar vida naquela cidade, não é?
Seraline não respondeu. Apenas o brilho profundo — um relance carmesim nas íris demoníacas — foi suficiente. A verdade não precisava ser dita.
Lá embaixo, dentro do Jeep, Alice e Lilly observavam tudo pela pequena escotilha lateral, fascinadas.
— O herói é um dragão! — exclamou Alice, olhos arregalados.
Lilly sorriu largo, batendo palmas. — Será que ele deixaria a gente voar nas costas dele um dia?
No banco da frente, Katherine suspirou profundamente, os dedos trêmulos no volante. — Meninas, ajeitem-se direito, por favor… — disse com um tom entre nervoso e maternal. O olhar dela refletia o pavor e a incredulidade. — Como é que uma noite tranquila num castelo virou… isso?
Ao lado dela, Chris digitava freneticamente no computador portátil, cabos conectados ao painel do veículo. — Estamos quase chegando à Cidadela, só mais alguns quilômetros — informou, sem erguer os olhos.
No banco de trás, Aura soltou um palavrão abafado. — A Cidadela? Sério? Que merda a Cidadela vai fazer contra aquilo?! — apontou para o horizonte, onde os dois colossos cósmicos continuavam sua dança de destruição.
Nora suspirou novamente, sem desviar o olhar da estrada. — Aura… linguagem. Tem crianças aqui.
Aura revirou os olhos, mas se calou. O Jeep avançava, o motor rugindo contra o vento apocalíptico, enquanto atrás deles o mundo parecia desabar.
E acima de tudo, lá no céu partido, dois deuses lutavam — o dragão cósmico e a fera do vazio.
O destino de todos, talvez até do próprio mundo, dependia daquele confronto.
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Sob a cidade que se arrastava rumo à destruição, o chão tremia como se o próprio coração do mundo pulsasse em colapso. Cada passo sobre os escombros fazia o metal e o concreto cederem, a sustentação da metrópole desabando pouco a pouco sob o peso do cataclismo.
Entre os destroços e a fumaça, um brilho negro rompeu a escuridão. As fendas nas visuaras rachadas refletiram um par de olhos carmesins, e logo asas negras com veios vermelhos se abriram em meio à poeira. Era Soraya, coberta de sujeira, sangue seco e fragmentos de pedra — uma visão infernal e, ainda assim, imponente.
— Tsk… ser ignorada e deixada aqui? — resmungou, o tom sarcástico carregado de indignação. — Irritante. Completamente irritante.
Mas a irritação se dissipou quando ela ergueu o olhar. O ar tremia. O céu parecia prestes a se rasgar. E lá estavam eles.
Dois monstros colossais duelavam, mordendo, arranhando, esmagando tudo ao redor. O Dragão Cósmico, envolto em energia azul estelar, mergulhava contra a Sombra Dracônica, uma fera negra e pulsante, cada golpe deles sacudindo a cidade como um terremoto. Um prédio inteiro cedeu sob o impacto — uma montanha de aço e concreto desabando sobre os dois titãs.
Soraya, observando a cena, abriu um sorriso quase… apaixonado.
— Esse é o verdadeiro vislumbre do cosmos… — murmurou, extasiada. — Nem os idiotas dos anjos, nem os deuses arrogantes, jamais viram algo assim de tão perto.
Ela respirou fundo, retomando a seriedade. — Preciso sair daqui… Se eu ficar, só vou atrapalhar o Renier.
Mas então, o som das rachaduras abaixo de seus pés a fez parar. O solo cedeu, se partindo em linhas que se estendiam até os alicerces da cidade.
Soraya reagiu no último instante — as asas se abriram num golpe poderoso, levantando poeira e destroços. A queda revelou o que havia nas profundezas: uma massa grotesca de Sombras Inferiores, criaturas deformadas, movendo-se como zumbis famintos nas trevas.
Ela olhou para eles com indiferença. — Tch. Humanidade ou demônios… tudo tão descartável.
Mas então, um som distinto ecoou — disparos, seguidos de uma voz fraca. Alguém estava lutando lá embaixo.
Intrigada, Soraya abriu a mão. Uma foice negra surgiu, vibrando em energia carmesim. Com um único corte, uma fenda se abriu no ar, e um olho vermelho colossal surgiu no centro, encarando as criaturas. Num instante, o vácuo puxou todas elas — ossos, carne e gritos — sendo despedaçadas e engolidas pela fenda, deixando apenas o silêncio e o eco distante do poder da Seraphim.
Soraya pousou entre os destroços, os olhos fixos em algo à frente: uma porta metálica, arranhada, torta, coberta de marcas de garras. Ela se aproximou lentamente.
— Tem alguém aí dentro? — perguntou, voz calma e firme.
Do outro lado, uma respiração fraca respondeu:
— Elas… já foram? As criaturas?
— Já — disse Soraya, inclinando a cabeça. — E você também deveria ir.
A porta se abriu com esforço, revelando uma figura cambaleante. Orelhas de lobo, pele pálida, ferimentos por todo o corpo. Era Noelle.
— Exatamente como Rose a havia descrito. — Soraya arqueou uma sobrancelha e soltou um riso baixo.
— Só o Renier mesmo pra fazer um milagre desses em meio ao fim do mundo.
Noelle pressionava as mãos contra o abdômen ensanguentado. Seus olhos, apesar da dor, se iluminaram ao ouvir o nome familiar.
— Rose… ela… está viva?
— Está — confirmou Soraya, ajustando a foice nas costas. — Foi ela quem ajudou a te encontrar.
A expressão de Noelle se suavizou, um lampejo de esperança surgindo em meio ao desespero.
Mas um estrondo colossal de cima fez o chão estremecer novamente. A poeira caiu como chuva. Soraya ergueu os olhos, vendo o brilho das duas bestas celestiais acima delas.
— Essa cidade vai afundar junto com eles — murmurou. — Precisamos sair agora.
Ela estendeu a mão para Noelle.
— Segure firme.
Assim que o fez, as asas de Soraya se abriram com um estrondo sônico, o vento cortante levantando uma nuvem de cinzas. As duas subiram rapidamente, o chão desmoronando logo abaixo.
Noelle apertava o braço de Soraya com o que restava de força, enquanto o cenário ao redor se distorcia — os dentes colossais de Renier passavam a poucos metros delas, mordendo o pescoço da Sombra, num espetáculo de destruição que fazia o ar vibrar.
Para Soraya, o tempo parecia desacelerar. Cada batida de asa, cada impacto no céu… deixava claro o abismo que existia entre ela e o ser que Renier havia se tornado.
Noelle tentou falar algo, mas Soraya cortou o ar com firmeza:
— As perguntas ficam pra depois.
E sem olhar para trás, ela voou na direção da Cidadela, seguindo a mesma rota onde Seraline e o grupo avançavam pelo deserto de ruínas, rumo ao que restava do futuro.
Continua…

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