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    Desfazer minha forma cósmica foi simples. Um instante depois, já estávamos no Território dos Monstros, e a realidade pareceu pesar sobre nós. A colina à frente se erguia imponente, uma fortaleza carmesim com detalhes em mármore negro e dourado queimado, destacando-se como uma cicatriz em meio ao horizonte sombrio.

    Seraline andava entre o vilarejo em ruínas, seus dedos tocando os escombros com uma delicadeza contida. Não havia muito o que salvar. Cinzas espalhadas pelo chão, casas destruídas, e corpos — tantos corpos — marcados pelo sadismo de quem havia feito aquilo. Alguns pendurados de cabeça para baixo, esfolados, como se fossem meros objetos para diversão cruel.

    Eu observava. A dor dela era visível nos olhos azuis, mas a expressão permanecia firme, rígida, controlada como a de uma Rainha que não se permite ceder. Eu sabia, porém, que ela sentia tudo. Cada morte, cada crueldade.

    Aproximei-me dela e a abracei por trás. Ela não disse nada, apenas segurou minhas mãos com firmeza. O silêncio entre nós dizia mais do que qualquer palavra.

    — O cheiro… — murmurei, observando a devastação ao redor. — Não há mais nada vivo aqui.

    Minha voz mudou, assumiu um tom diferente, mais meu do que do Guardião.

    — Mas hoje… não lutarei como Guardião. Meu poder agora é seu para usar, como prometi.

    Seraline assentiu, a decisão firme no olhar.

    — Então sigamos até o Palácio Carmesim. — disse, erguendo a cabeça, pronta para encarar o que viesse.

    Soraya, ainda absorvendo o cenário, passou a mão pelas cinzas que caíam do céu escurecido.

    — Qual seria o objetivo de alguém tomar seu trono para simplesmente queimar tudo? — perguntou, a voz carregada de indignação.

    — Muitos não precisam de motivos para matar — respondi, meu olhar percorrendo a destruição. — Isso não é apenas um massacre sem sentido. É uma provocação.

    Seraline cerrou os punhos, a raiva contida queimando por baixo da superfície.

    — Então… ela matou todo o povo só para me provocar?

    Assenti lentamente, consciente do peso da situação.

    — Não há mais nada neste mundo para salvar. Parece que a Kitsune sabe disso. Por isso, não se importa em destruir este território… ela só adiantou o inevitável.

    O silêncio caiu sobre nós enquanto seguimos adiante. Cada passo entre as ruínas ecoava a gravidade da decisão que estava por vir. E eu sabia que, desta vez, a batalha não seria minha, seria dela.

    Meu papel era ser a força que ela precisaria, nada mais.

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    A subida pelas escadarias carmesins parecia não ter fim. Cada degrau vibrava com uma energia antiga, quase como se o sangue de mil batalhas ainda pulsasse sob nossos pés. O som dos passos ecoava pelas muralhas, e o vento, abafado, trazia o cheiro metálico da ferrugem e da morte.

    Quando chegamos ao topo, um portão colossal se ergueu diante de nós, um monólito de aço e ossos, coberto por inscrições antigas. Cruzei os braços, fitando as portas e, por instinto, olhei para trás, observando a colina que havíamos escalado. Tudo parecia pequeno lá embaixo, até mesmo a coragem.

    — Essa estética… foi ideia sua, Seraline? — perguntei, arqueando uma sobrancelha.

    Ela cruzou os braços, sua expressão tomada por lembranças amargas. — Onis não erguem palácios. Eles erguem monumentos de vitória. A cada luta, o sangue derramado se torna parte da estrutura.

    Soraya olhou para os próprios pés, franzindo o cenho. — Então… isso onde estamos pisando… é sangue seco?

    Seraline sorriu. Um sorriso frio, sem remorso. — Cada bloco dessa fortaleza foi moldado com o sangue dos guerreiros que me desafiaram.

    Soraya desviou o olhar, enojada. Eu, por outro lado, só pude soltar um leve riso. — A cultura dos Onis nunca decepciona.

    Me aproximei do portão, colocando a mão no centro das portas. A energia reverberou sob minha pele.

    — O que vai fazer? — Soraya perguntou, hesitante.

    Não respondi. A energia acumulada em mim se expandiu em um único pulso devastador. As portas explodiram para dentro, caindo como gigantes mortos, abrindo o caminho entre poeira e ruínas.

    Seraline e Soraya me olhavam boquiabertas. Dei de ombros. — Discrição é um luxo que já deixamos para trás. E sinceramente, prefiro anunciar nossa chegada… à tal Kitsune.

    Seraline suspirou. — Não tem problema. Esse reino já está condenado mesmo.

    Ela avançou na frente, a silhueta dela cortando a névoa. Soraya e eu a seguimos. Por um instante, olhei para trás, para o deserto que nos trouxe até aqui, e me perguntei se tudo isso realmente valeria a pena…

    Seguimos até o portão principal, o da sala do trono. E foi ali que o ar começou a mudar. Seraline parou bruscamente.

    Eu também vi.

    O portão exibia a cabeça de um dois onis com chifres vermelhos. Só que… não era uma escultura. Era real. O sangue escorria pelos olhos, pingando em estacas no chão.

    Soraya fechou os olhos, mas consegui sentir uma hesitação. Seraline fechou o punho, tremendo.

    — Ela está tentando te desestabilizar — comentei, firme. — Não caia no jogo dela.

    Soraya colocou a mão no ombro de Seraline. — Se lutar com raiva, vai perder.

    Assenti, pousando minha mão sobre a dela. — Respira… e se controla… raiva e ódio são fáceis de prever. Se ela conseguir te ler, irá perder antes de começar.

    Ela respirou fundo algumas vezes, até a tensão nos ombros aliviar. — Você está certo… Não posso deixar que ela tire isso de mim.

    Soraya se posicionou atrás de nós, suas asas negras se abrindo enquanto uma aura vermelha iluminava o corredor. Eu ergui minha foice. A lâmina brilhou em azul etéreo, como se reagisse à presença da raposa.

    Empurramos o portão juntos. A luz atravessou as frestas até que o salão inteiro se revelou diante de nós.

    Um trono. Pilares de mármore negro. Tapetes carmesins. E lá, no centro de tudo, ela.

    A Kitsune.

    O kimono escuro moldava sua silhueta com elegância. As nove caudas se moviam em ondas suaves, como serpentes de fumaça. Seu olhar rubro se fixou em mim, ignorando completamente Seraline.

    — Hm… demorou um pouco, mas finalmente posso vê-lo de perto. Guardião Negro~, o herói que derrotou um demônio e uma sombra. Que poético… — o sorriso dela era venenoso. — É quase romântico, não acha?

    — Herói? — dei um meio sorriso. — Não pareço um. E não quero ser. Mas se isso te ajuda a dormir, então tá valendo. É você o “chefão final” desse mundo prestes a desabar?

    Ela riu. Uma risada doce, irritante. — Divertido. Pensei que seria entediante… Meu nome é Siryus. Grave bem, querido Ren~

    A forma como ela dizia meu nome… “Ren”. Me deu calafrios.

    Soraya rosnou, com as asas abertas. — Como ousa chamar ele de Ren?!

    Siryus a ignorou. Pura provocação.

    — Pensei em descer para recebê-los, mas fiquei com preguiça — provocou. — Deixar uma moça como eu esperando tanto tempo é cruel. Sua Oni e sua anjinha não te ensinaram boas maneiras? Talvez eu devesse ensinar… pessoalmente.

    — Chega de palhaçadas! — rugiu Seraline. — Você está profanando o que não te pertence!

    Siryus arqueou uma sobrancelha, entediada. — Ora, querida Seraline… ainda lembra da nossa última dança? Cinco anos e você continua se levando a sério.

    Seraline tremeu de raiva, os olhos marejados de ódio. Eu a encarei, e entendi. Essa mulher não provocava por diversão. Ela destruía mentes.

    — Raposa — minha voz ecoou, fria —, poderia parar de brincar com minha esposa?

    — Oh, então ela é sua esposa? — ela riu. — Que adorável. Ela foi um brinquedo interessante de quebrar, confesso. Ainda lembro de esmagá-la no chão, ver o sangue dela cobrir o trono… ah, bons tempos.

    Seraline perdeu o controle. — Cala a boca!

    Ela avançou. A katana cortou o ar com um rugido metálico. Siryus desviou com graça, e o contragolpe veio rápido: um soco seco no abdômen.

    O impacto fez o ar vibrar.

    Seraline caiu de joelhos, cuspindo sangue.

    — Continua fogosa… mas continua fraca. — O sorriso da Kitsune era puro escárnio.

    Avancei, posicionando-me à frente de Seraline. — Consegue ficar de pé?

    Ela limpou o sangue dos lábios. — Sempre.

    — Então levanta. Ainda nem começou.

    Siryus me observava, encantada. — Hah… agora sim. Mostre o poder pelo qual se apaixonaram, Guardião.

    Assumi posição. Foice firme. Olhos fixos.

    Mas havia algo errado. Os Olhos das Revelações…. Eu não conseguia ler a alma dela. Nada. Nenhuma emoção, nenhuma intenção. Apenas o vazio.

    Essa raposa não tem essência… É uma página em branco.

    — Vamos brincar, então — ela sussurrou, com um sorriso letal. — Me mostre o quanto você consegue proteger aqueles que ama, antes que eu os quebre… de novo.

    E naquele instante, o salão tremeu. As nove caudas se abriram como véus de sombra, e o ar se partiu entre nós.

    O jogo dela havia começado.

    Continua…

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