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    A Cidadela se erguia como um farol no fim do mundo, uma fortaleza colossal, meio nave, meio templo arcano.

    Para olhos desavisados, parecia apenas uma estrutura metálica fincada no solo, mas para quem sentia o pulsar das energias do planeta, era muito mais: uma fusão perfeita entre tecnologia avançada e magia ancestral.

    A superfície dourada e branca refletia a luz moribunda do céu, enquanto uma redoma translúcida envolvia o centro da construção, irradiando um brilho constante.

    Em volta dela, a barreira de energia vibrava num ritmo cadenciado, o escudo que mantinha viva a última esperança de um mundo em colapso.

    No coração dessa barreira, três forças se entrelaçavam: Dagon, Ranni e Vitra.

    Três rainhas de origens distintas, agora unidas como as últimas âncoras de poder do planeta.

    Suas energias alimentavam o campo de contenção, mantendo seguros os poucos sobreviventes, menos de mil vidas, num espaço projetado para abrigar cem mil.

    Dentro da torre central, o som suave dos painéis e projeções ecoava.

    Vitra estava sentada diante de uma parede de telas, os olhos protegidos por óculos de lentes azuis que refletiam os códigos flutuantes do sistema. Seus dedos dançavam sobre uma interface luminosa, cada toque revelando novos dados, novas leituras… e novos desastres.

    O que ela via agora, porém, ultrapassava qualquer lógica.

    — Não pode ser… — murmurou, ajeitando os óculos, a voz carregada de incredulidade.

    Dagon, em pé logo atrás dela, cruzou os braços. A armadura avermelhada reluzia sob a luz fria do painel, e os chifres de seu elmo projetavam uma silhueta quase demoníaca. Os cabelos loiros escapavam pelas laterais da armadura, sujos de poeira e suor.

    — Outra daquelas aberrações? — perguntou, com a voz grave e ríspida.

    Ranni, sentada à mesa circular ao centro da sala, manteve-se em silêncio por um instante. Sua expressão era calma, mas o cansaço em seus olhos denunciavam o peso de dias sem descanso.

    — Não é igual às outras — respondeu ela, finalmente. — Essa… não parece hostil.

    Na tela principal, a imagem ampliada mostrava um dragão colossal, suas asas como véus cósmicos salpicados de luz estelar. Ele se erguia diante de outro monstro, uma sombra dracônica negra e púrpura. O confronto era apocalíptico, dois deuses esquecidos colidindo no centro de uma cidade moribunda.

    Vitra analisava os dados, sua voz firme mesmo diante da loucura.

    — Altura estimada… cento e sessenta metros. Escamas de composição desconhecida. Energia cósmica com padrões gravitacionais… — ela fez uma pausa, franzindo o cenho. — Esse não é o mesmo que destruiu as nações.

    Ranni assentiu lentamente. — Então ele está enfrentando o Dragão Negro.

    Dagon arqueou uma sobrancelha, cética. — E se ele vencer, o que impede que vire o próximo inimigo?

    Vitra cruzou as mãos diante do rosto, pensativa. — Se derrotar aquela coisa, já será uma ajuda inestimável… porém…

    — Porém não sabemos o que ele é. — completou Ranni, sua voz soando fria como o luar. — E se não for um aliado… teremos que erradicá-lo.

    O silêncio que se seguiu foi quase palpável. Nenhuma delas precisou dizer em voz alta o que já sabiam: o mundo estava nas últimas, e cada decisão errada podia ser a última.

    Após longos segundos, Ranni quebrou o silêncio:

    — Alguma notícia de Katharine?

    Vitra tirou os óculos, revelando olhos azuis cansados e sinceros.

    — Enviei um drone há dois dias. A nação dela está… só ruínas. E aquelas criaturas deformadas por toda parte. Nenhum sinal de vida.

    Dagon apoiou o punho fechado sobre a mesa. — Se ela escapou, deve ter usado a rota do leste… e isso a colocaria justamente na cidade onde esses dois dragões estão se enfrentando.

    Ranni baixou o olhar, o coração pesando com a pergunta que já sabia a resposta. — As chances delas estarem vivas…?

    O silêncio de Vitra, e o modo como ela desviou o olhar, disseram mais do que qualquer palavra.

    Mas antes que a melancolia tomasse conta da sala, um alarme suave ecoou.

    O sensor de aproximação acendeu em vermelho, piscando com urgência.

    Vitra girou a cadeira, voltando a digitar.

    — Provavelmente mais uma aberração. — murmurou, ativando as câmeras externas.

    A imagem apareceu, tremida pela poeira do deserto.

    Uma estrada árida… e, cortando-a como um risco de esperança, um Jeep avançava em alta velocidade, levantando nuvens de areia atrás de si.

    Vitra arregalou os olhos, surpresa. — Isso é… impossível.

    O painel apitou, exibindo uma mensagem recebida. Um pequeno ícone piscava:

    Mensagem de Chris — Reino de Katharine.

    “Socorro. Abram o portão.”

    Dagon soltou uma risada curta, aliviada. — Elas sobreviveram!

    Ranni suspirou profundamente, um raro sorriso suavizando seu semblante.

    Vitra, com a voz firme e o coração acelerado, começou a digitar uma nova sequência de comandos.

    — Abrindo a barreira parcialmente para entrada autorizada. Ativando a ala médica. Preparem a base central… tragam Katherine direto pra nós.

    O escudo da Cidadela se abriu, e o brilho dourado se espalhou como o nascer de um novo sol, um lampejo de esperança em meio ao fim dos tempos.

    ᛖ 𒁂 ⟐ 𒁂 ᛖ

    As portas da torre central se abriram com um leve rangido metálico, ecoando por entre as paredes douradas e os painéis luminosos.

    Katharine adentrou o salão, exausta, coberta por marcas de viagem e poeira, mas viva.

    Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Ranni atravessou o espaço num impulso, envolvendo-a num abraço apertado. As lágrimas escorreram silenciosas pelo rosto pálido da feiticeira, um raro rompimento de sua postura fria e contida.

    — Você está viva… — sussurrou Ranni, a voz embargada pela emoção.

    Katharine tentou conter o choro, mas o peso de tudo que suportou desabou de uma vez. As duas se abraçaram mais forte, e o ar na sala pareceu ficar mais leve, como se a tempestade que pairava sobre todas ali finalmente começasse a se dissipar.

    Seraline e Kirara mantinham-se um pouco afastadas, observando com respeito aquele reencontro. Nora, de olhar doce, segurava nos braços a pequena Aoi, a bebê que dormia serenamente, alheia ao caos que reinava do lado de fora.

    Dagon, com sua presença imponente e armadura avermelhada reluzindo à luz dos painéis, aproximou-se com um sorriso largo.

    Seus olhos dourados se fixaram nas pequenas Alice e Lilly, que se escondiam atrás das saias de Katharine, curiosas e tímidas.

    — Ora, ora… — disse Dagon, abaixando-se e estendendo os braços — as guerreiras vieram juntas?

    Antes mesmo de receber resposta, ela as ergueu com facilidade, fazendo as duas rirem alto. A diferença de tamanho era absurda — Dagon, com quase dois metros, parecia uma muralha viva.

    — Foram corajosas como verdadeiras guerreiras durante todo esse tempo? — perguntou ela, num tom brincalhão.

    Alice acenou animada, sorrindo de orelha a orelha.

    — O herói dragão salvou a gente! — disse a pequena, com a convicção típica das crianças.

    Aquele comentário fez o salão silenciar por um instante.

    Os olhos de Vitra, ainda por trás dos óculos translúcidos, desviaram para a tela principal, onde o colossal Dragão Cósmico travava uma batalha titânica contra a criatura negra que devastou o continente.

    — Está me dizendo… — começou ela, ajustando os óculos — que esse dragão aí é o tal herói?

    Katharine respirou fundo, firme.

    — Renier não é um monstro. — Sua voz soou com uma serenidade que calou qualquer dúvida. — Ele nos salvou. A mim, às meninas… e à pequena Aoi.

    Ranni recostou-se, repetindo o nome quase em um sussurro.

    — Renier…

    Seraline então deu um passo à frente, o tom de sua voz suave, mas com a autoridade de quem carrega um juramento antigo.

    — Ele foi enviado a este mundo para enfrentar  especificamente essa ameaça.

    Dagon, no entanto, franziu o cenho, os chifres sob o elmo projetando uma sombra imponente sobre o chão reconhecendo a presença de Seraline.

    — Então por que trouxe uma inimiga de guerra até aqui, Katharine? — perguntou, apontando de leve o queixo em direção a Seraline.

    O olhar de Katharine encontrou o de Dagon, firme como o aço.

    — Porque ela é a Rainha do Território dos Monstros. E ela não é nossa ameaça, neste momento, a linha entre inimigo e aliado não existe mais. — Ela deu um passo à frente, segurando o pingente em seu pescoço. — No momento certo, eu explicarei tudo. Mas agora… só confiem nele.

    Silêncio. Apenas o som distante das máquinas e o eco de uma batalha colossal nas telas.

    Todas então voltaram o olhar para o monitor, onde o Dragão Cósmico, envolto em luz e energia cósmica, travava um duelo contra o horror estelar que ameaçava engolir o mundo.

    E, por um breve instante, mesmo as rainhas sentiram algo que há muito não experimentavam:

    esperança.

    Continua…

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