Índice de Capítulo

    A carroça mal tinha parado e eu já sentia o cheiro da cidade — ferro quente, especiarias jogadas no ar e aquela energia viva de gente demais respirando ao mesmo tempo. Muros enormes, torres de vigia, bandeiras tremulando… parecia uma cidade, mas era uma fortaleza usando roupa casual.

    Quando desci, Priscila já estava distribuindo ordens como quem respira. Um soldado se aproximou para levar Lívia até a igreja, e eu dei uma última olhada para ela. A garota ainda estava com aquela atadura improvisada no joelho, mas o olhar… aquele seguia brilhando como se estivesse tentando esconder algo.

    Fiz questão de sorrir, só pra deixar tudo leve.

    — Bom que vão cuidar de você direito.

    Lívia segurou meu olhar com um rubor que não combinava nada com uma maga-cavaleira treinada.

    — Depois que tudo isso acabar… — ela hesitou, mordendo o lábio — eu vou agradecer você pessoalmente. Por me salvar.

    Tentei minimizar, claro.

    — Não precisa disso. Tá tudo bem.

    Mas ela se aproximou mais, desafiando qualquer tentativa minha de tirar o peso do momento.

    — Quero agradecer. Então não desapareça. Eu vou fazer isso, Renier!

    E lá foi ela, toda determinada, mancando levemente ao ser guiada pelo soldado.

    Fiquei parado por um instante, vendo-a sumir entre o movimento da rua. O sorriso escapou antes que eu conseguisse segurar.

    Priscila não perdeu tempo.

    — É raro ver a Lívia desse jeito.

    Virei para ela.

    — Desse jeito como?

    Ela cruzou os braços, com aquele sorriso sagaz que ela insiste em esconder.

    — Agindo como uma garota envergonhada perto de um garoto. Isso praticamente nunca acontece.

    Meu sorriso cresceu. Não por ego, mas porque eu sabia que ela estava certa… e porque era divertido ver a disciplinada Priscila comentando esse tipo de coisa.

    Mas, como sempre, ela foi rápida em mudar o foco.

    — Vamos. Preciso te levar até Otto. Ele vai resolver seus documentos e garantir sua permissão para ficar na cidade.

    A palavra “permissão” ficou girando na minha cabeça. Cidade bonita, mas cheia de regras, pelo visto.

    Ainda assim, decidi não perguntar — não por submissão, mas porque o jogo era mais divertido quando eu não mostrava minhas cartas tão cedo.

    Seguimos pela rua. Gente gritando ofertas, mercadores empurrando carrinhos, crianças correndo… tudo vivo demais. Aquele caos organizado que só cidades humanas conseguem produzir.

    Priscila puxou assunto no meio do caminho.

    — O que você fez lá atrás… — ela disse, olhando de lado — não é algo que mercadores fazem. Como derrubou o Wivery com um único golpe?

    Aquele tom dela… curiosidade misturada com desconfiança.

    Soltei um sorriso.

    — Todo mundo tem seus segredos. Eu prefiro falar só o necessário. O importante é que eu matei o Wivery, salvei seus soldados… e ainda trouxe o diário de Morales pra você.

    Ela me lançou um olhar afiado, daqueles que parecem atravessar a pele, mas logo os lábios dela se curvaram.

    — Eu gosto desse seu jeito ousado. — A postura dela relaxou, só um pouco. — Você não fez nada de errado, então acho justo eu não te pressionar. Mercador.

    O jeito que ela disse “mercador” parecia uma cutucada com a ponta da espada.

    E, mesmo assim…

    Eu não pude deixar de sorrir.

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    A rua era um mosaico vivo: cheiro de pão quente misturado com suor de soldado, gritos de mercadores tentando vender desde peixe fresco até bugigangas encantadas, e aquele clima de “cidade grande tentando fingir que é pacífica”. Caminhei ao lado de Priscila enquanto absorvia tudo, como alguém que chega num palco novo e tenta entender qual papel vai interpretar.

    Entramos num prédio que parecia meio escritório, meio quartel, meio bagunça organizada. Priscila abriu a porta como se fosse dona do lugar.

    — Otto está por aqui?

    Um sujeito magro, cabelo esverdeado e óculos tortos, emergiu de trás de um monte de papéis. Tinha cara de quem dormia tão pouco quanto um morcego ansioso.

    — Estou, estou… Mas precisa gritar assim?

    Priscila ignorou totalmente e me empurrou um pouco pra frente, como quem apresenta um produto novo.

    — Esse jovem mercador perdeu seus documentos. Preciso que você faça novos.

    “Mercador.” O jeito que ela insistia nisso era quase cômico.

    Otto me avaliou com um olhar afiado, calculista.

    — Dois bronze pelos documentos. E uma prata grande se quiser permissão de permanência por dez dias.

    Antes que eu abrisse a boca, Priscila cruzou os braços.

    — Ele está sob os cuidados do exército do Barão. Ele não vai pagar nada.

    Otto deu uma risadinha.

    — Sortudo, hein?

    Sortudo seria se eu tivesse um mapa completo desse mundo na cabeça e moedas infinitas. Mas deixei quieto e fui seguindo o sujeito.

    Priscila completou:

    — Ele salvou a filha de um conde e matou um Wivery sozinho.

    — Então é capaz mesmo — Otto comentou.

    Entramos numa sala iluminada por uma esfera de luz flutuante. Parecia um artefato mágico e sofisticado… daqueles que eu esperava que explodissem só pra me contrariar.

    — Mão no orbe — Otto pediu.

    — Isso explod—

    — Não. Só registra suas informações. A não ser que você tenha crimes escondidos. Aí o espelho mostra.

    Sorri.

    — Nada que eu lembre.

    Coloquei a mão no orbe. A luz tomou conta da sala e, no espelho, meu “status” surgiu como se eu fosse um personagem sendo analisado por um narrador entediado.

    Nome: Renier Kanemoto

    Idade: 16 anos

    Classe: Guardião Negro (Principal) / Mercador (Secundária)

    Habilidades: Combate com espadas e lanças; Magias de fogo, água, terra, vento, luz e escuridão.

    Raça: Desconhecida…

    A sobrancelha de Otto praticamente pulou.

    — Você é um arsenal ambulante.

    Priscila olhou o espelho com uma expressão estranhamente satisfeita.

    — Então você é mesmo um mercador… mas o que é “Guardião Negro”?

    — Só um título besta que eu ganhei. — Dei de ombros. — Nada demais.

    Otto não insistiu. Retirei a mão do orbe e ele me entregou uma plaqueta de bronze, com minhas informações entalhadas nela — algo entre documento de identidade e amuleto de boa fé.

    Depois, colocou na minha mão uma barra de ferro.

    — Seu passe de estadia. Dez dias. Quando o encantamento acabar, ela enferruja. Depois disso, se um soldado te pegar sem pagar a multa…

    Priscila completou com a delicadeza de um martelo:

    — Você vira escravo.

    Olhei para a barra por um momento.

    — Tá. Simples o suficiente.

    Guardei o metal. Era só mais um prazo. E prazos sempre têm brechas.

    Otto finalizou:

    — Bem-vindo ao território da Família Morales.

    O sobrenome soou como uma nuvem pairando sobre minha cabeça. Ainda tinha o diário do General Morales… e aquilo provavelmente iria causar barulho. Mais cedo ou mais tarde.

    Priscila agradeceu Otto com um aceno e saímos do prédio.

    A cidade estava ainda mais viva agora, como se o mundo tivesse decidido mostrar toda sua energia de uma vez. Carroças passavam rápido, pessoas se amontoavam em bancas, perfumes, cheiros ruins, ferro, magia… tudo misturado.

    Ela parou alguns metros depois.

    — Tenho deveres no quartel-general. Relatórios, essas coisas. Vai ficar bem sozinho?

    — Vou sobreviver.

    Ela riu, desviando um pouco o olhar.

    — Lívia vai te procurar quando estiver melhor. Fica atento.

    — Ela parece bem determinada.

    — E é — Priscila respondeu com um sorriso que dizia muito mais do que ela admitiria.

    — Conhece alguma estalagem? — perguntei.

    Ela apontou um prédio de dois andares, com flores penduradas na entrada.

    — Ali. Caro, mas vale cada moeda.

    — Perfeito.

    Nos despedimos e eu segui pela rua de pedra, deixando a multidão me engolir aos poucos.

    Agora era só eu, meu novo “documento”, uma barra de ferro com prazo de validade…

    …e toda uma cidade que não fazia ideia de quem eu realmente era.

    Isso tornava tudo muito mais divertido.

    Continua…

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