Índice de Capítulo

    Finalmente.

    Observei enquanto ela recobrava a consciência, enroscada como uma marionete quebrada nas teias prateadas da Kumo, sim, já chamei assim, e vai continuar sendo. O nome caiu como uma luva naquela aranha demoníaca que quase virou pet.

    As teias, densas e lustrosas, cintilavam como fios de prata sob a pouca luz que filtrava pelas copas. Resistentes como aço, enroscavam o corpo do monstro como se a própria floresta tivesse decidido engolir ele e nunca mais o deixar sair.

    Eu estava ali, de braços cruzados, sorriso estampado no rosto. Nada como começar o dia com um interrogatório amarrado e sem chances de fuga.

    — Boa noite… ou bom dia? — provoquei, inclinando a cabeça de leve.

    A criatura rosnou. Clássico.

    Ela tentou me atingir, se lançando contra mim como se pudesse atravessar aquela prisão de seda demoníaca. Que gracinha. As correntes de energia mal vibraram.

    — Ah, isso não vai funcionar — disse com um tom leve, quase entediado. Dei um passo à frente, me abaixando um pouco. — Essas teias não se rompem, meu chapa. Só se a dona delas deixar… ou se eu deixar você virar jantar da Kumo.

    Seraline, atrás de mim, bufou com diversão.

    — Kumo? Esse vai ser o nome da aranha?

    Olhei de canto de olho, aquele sorriso ainda dançando nos lábios.

    — Combina com ela. Tem presença, é direto… e tem estilo.

    Ela deu de ombros, desinteressada.

    — Você que lide com isso, então. — E se aproximou, lâmina em punho. Sua katana deslizou da bainha como um sussurro mortal e pousou no pescoço do prisioneiro. A ponta pressionava devagar, mas firme. Dava pra ouvir a lâmina roçando a pele e arranhando o osso. Um beijo de aço.

    — Caso você não colabore… — ela murmurou, os olhos brilhando com aquele tom de ameaça que não precisava ser alto pra ser letal — …existe outra opção. E eu garanto, não vai gostar.

    A criatura parou. O instinto ainda chiava nos olhos dela, mas o corpo entendeu. Nada de fuga. Nada de vitória. Só o medo, a dúvida… e a nossa vontade.

    Me abaixei, ficando na altura dela. Encostei os cotovelos nos joelhos e encarei o rosto deformado que me observava com ódio. Olhos profundos, estranhos, mas… atentos.

    — Você entende. — Minha voz saiu firme, porém calma, quase como uma isca. — Eu vejo nos seus olhos. Você sabe o que estou dizendo. Então vamos acabar com isso. Fale. Mostre que é mais do que carne e dentes. Diga alguma coisa… ou a próxima coisa que vai rolar por essa floresta vai ser a sua cabeça.

    Silêncio.

    Por um segundo, achei que seria mais um rosnado. Mais um berro vazio.

    Mas não.

    — Eu o entendo… — a voz saiu suave. Feminina. Irritantemente calma.

    Pisquei.

    Seraline arqueou uma sobrancelha, mas não tirou a lâmina do lugar.

    — Mesmo neste lugar onde todos os monstros são brutais… — continuou a criatura — …nenhum de nós é irracional.

    O impacto foi seco e silencioso. Como se cada palavra tivesse sido arrancada à força de um lugar onde a linguagem não deveria existir.

    Seraline se virou pra mim, com aquela cara de quem acabou de ouvir um gato falando francês.

    — Você realmente tem um dom pra fazer Pesadelos falarem contigo, Guardião…

    — Talvez eu só saiba cutucar a ferida certa. — retruquei com um sorriso torto.

    Mas algo me coçava na mente.

    Me aproximei mais, quase nariz com nariz com o monstro, e falei num tom mais introspectivo:

    — Essa voz… é mesmo sua? Ou está imitando alguém?

    Ela me encarava. Aqueles olhos opacos pareciam analisar, julgar, pesar minha alma. Não respondeu de imediato.

    Seraline, por via das dúvidas, pressionou a lâmina. Um filete de sangue escorreu, só pra mostrar que a conversa ainda estava nas mãos dela.

    E eu? Eu estava ali, naquele ponto exato entre fascínio… e desconforto.

    Porque aquela coisa sabia demais, a primeira coisa que senti foi a tensão no ar.

    Densa… Quase sólida. Como se cada palavra da criatura diante de nós cortasse mais fundo que a lâmina de Seraline.

    Eu finalmente decidi usar os dons dos meus olhos. Aquela habilidade peculiar que carrego como uma maldição disfarçada de bênção: enxergar a mentira.

    Mas, por mais que me esforçasse, não havia engano em suas palavras. Nenhuma hesitação forjada. Nenhuma intenção oculta. O que quer que aquela coisa fosse… falava a verdade.

    — Então que tipo de Pesadelo você está se disfarçando? — Seraline foi direta, lâmina na mão, olhos tão frios quanto o vento que cortava entre as árvores.

    A criatura respirou fundo, ou fingiu respirar, vai saber. Sua voz estava seca como galhos quebrando.

    — Não temos muitos nomes… em muitas culturas… mas somos a união de um espírito coletor de almas… insaciável. Sempre famintos. Sempre vazios. Somos chamados de Wendigo…

    Ela ergueu a cabeça, tentando me encarar com o que deveria ser os olhos. Dois buracos negros num crânio que parecia mais uma máscara de ossos rachados. Elegante. Nojento. Fascinante.

    — Wendigo? — Seraline murmurou, claramente sem referência alguma.

    Me levantei devagar, os olhos fixos naquela figura pálida e distorcida.

    — Em meu mundo, Wendigos são espíritos antigos, ligados ao inverno, à fome, ao canibalismo. Seres nascidos da quebra de tabus, geralmente depois de alguém devorar carne humana. Uma forma de punição viva. Ou morta. Dependendo do ponto de vista.

    Ela me ouviu com atenção. E com um toque de… orgulho? Ou fome?

    — Você tem conhecimento. Os outros só gritam “monstro” quando nos veem.

    — É mais do que folclore. É simbologia. Ganância. Perda da moralidade. Fome que nunca termina. Você representa o que acontece quando alguém devora mais do que devia… — falei, me aproximando um pouco. — Mas aqui está você. Falando. Pensando. Consciente. Isso me intriga.

    — Eu sou… diferente… — ela respondeu, e foi aí que Seraline apertou o cabo da espada.

    — Diferente ou não, você continua um Pesadelo. Então por que consegue conversar como se fosse uma humana? — perguntou ela.

    Eu estendi a mão, indicando para que ela abaixasse a lâmina. Ela hesitou, claro. Mas me ouviu.

    — Não estamos aqui pra estudar comportamento de aberrações — comecei, firme. — Estamos aqui por respostas. Três, pra ser exato. Nos der o que queremos, e você caminha livre.

    O Wendigo inclinou levemente a cabeça, a respiração quente escapando como neblina entre os dentes.

    — Que tipo de informações?

    — O Selo do Demônio. A entidade que vive nesta floresta. Os que mantêm este lugar… escondido. — acrescentei.

    Ela ficou em silêncio por um tempo. Longo o suficiente pra eu quase me arrepender de ter libertado a língua.

    — Procurá-lo é suicídio… — ela disse, num tom que mais parecia um aviso. — O que faz pensar que podem enfrentá-lo?

    — Isso não é da sua conta — rosnou Seraline, com a espada de volta no pescoço da criatura. — Fale logo ou será menos uma boca faminta nesse mundo.

    — Isso é… lógico… — o Wendigo respondeu, desviando o olhar pra mim. — Mas como saberei que não me matarão após receberem o que desejam?

    Antes que eu respondesse, Seraline entrou no jogo.

    — Como saberemos que você não nos guiará para uma emboscada?

    Eu suspirei. Clássico impasse.

    — Temos um problema aqui — murmurei, olhando para as duas. Seraline, pura intensidade. Ela, pura dúvida. E eu? Eu era o estranho no ninho, a variável imprevisível.

    Mas não pude deixar de sentir… curiosidade.

    Não tenho medo. Não repulsa. Mas o tipo de atração que alguém sente por um abismo. Um desejo de ver o que há do outro lado, mesmo sabendo que não devia.

    — Trato feito — falei, batendo os dedos com um estalo seco. — Você será nosso guia.

    Kumo entendeu o sinal. Com uma pata só, partiu às teias que aprisionavam o Wendigo. Corte limpo. Quase elegante, para uma aranha assassina.

    A criatura se levantou, surpresa. Seraline estava pasma. Não a culpo. Eu também achei ousando até pra mim.

    — Escute bem, Wendigo — disse, deixando meu olhar brilhar num azul cortante. — Eu vejo através da mentira. Está nos meus olhos. Qualquer sinal de traição e Seraline… cuida do resto. — Sorri. Um sorriso sincero. Talvez o primeiro da noite. — Dito isso… seja uma boa garota e nos mostre o caminho, sim?

    Ela hesitou. Claramente não acostumada a tanta… casualidade.

    — C-certo… vou ser uma boa… garota… — respondeu, ainda tentando entender por que diabos minha autoridade parecia maior que a fome dela.

    Seraline soltou um suspiro e balançou a cabeça, admirada. — Parece que um Guardião tem seus próprios métodos…

    — Melhor mais gente na festa pra limpar tudo mais rápido, não acha? — respondi com uma piscadela.

    Ela riu de leve. E, por um momento, até a floresta pareceu respirar com menos tensão.

    Mas no fundo, eu sabia: estávamos indo em direção ao coração do pesadelo. E agora tínhamos um deles ao nosso lado.

    A diversão estava só começando.

    Continua…

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota