Índice de Capítulo

    O jovem ainda a observava.

    — Me diga, garota… você quer aprender magia?

    Maelis abriu a boca para responder.

    Mas o mundo tremeu.

    Não como um terremoto.

    Como uma página sendo puxada com violência.

    A imagem dos livros ao redor vibraram.

    A chama azul da luminária se alongou em um risco de luz.

    A poeira no ar congelou.

    Maelis sentiu o estômago afundar.

    — Não…

    A voz dela saiu num sussurro.

    A lembrança estava sendo forçada adiante.

    O chão pareceu deslizar sob seus pés enquanto as paredes da casa se desfaziam em faixas borradas de cor.

    Pergaminhos se empilharam e desapareceram.

    Frascos mudaram de lugar.

    As marcas de poeira sobre a mesa sumiram.

    Novas pilhas de livros surgiram.

    O cheiro de tinta envelheceu.

    As sombras mudaram de posição.

    O corpo dela também.

    Os braços alongaram.

    Os ombros ficaram mais firmes.

    A fome constante daquela época já não estava ali.

    O tecido das roupas mudou sobre a pele.

    A mana dentro dela parecia mais funda.

    Mais obediente.

    Dois anos passaram em um único estremecimento.

    O mundo estabilizou de novo.

    A panela suspensa sobre a chama azul borbulhava no centro do cômodo.

    O cheiro de especiarias preencheu o ar.

    A Maelis da memora voltou a cozinhar.

    A percepção da Maelis real entendeu antes da memória.

    Ele está avançando.

    Não por conhecer a lembrança.

    Mas por sacudir a estrutura dela até alcançar períodos de maior relevância.

    Uma forma bruta de procurar pontos de peso.

    De acelerar a destruição.

    Ao fundo, espalhada pelas paredes como um pensamento frio demais para ser voz, veio a presença do Andarilho:

    — Vamos economizar tempo.

    A frase saiu seca.

    Sem provocação.

    Sem humor.

    — Se eu tiver que procurar cada fase inútil da sua vida, isso vai ficar insuportavelmente longo.

    A casa silenciou.

    A Maelis de dezesseis anos mexia a panela sobre o fogo como se os dois anos jamais tivessem sido arrancados do caminho.

    Mas a consciência real dela permaneceu alerta.

    Ele tinha parado de esperar.

    Como se respondesse ao pensamento o ambiente tremeu novamente revelando agra um ambiente que ela jamais esqueceria.

    Os corredores do palácio.

    Eram frios. Pedra lisa.

    Ar perfumado com incenso.

    Cada passo ecoava entre pilares altos cobertos por entalhes dourados que narravam antigas rotas do deserto.

    Maelis caminhava um passo atrás do mentor.

    O tecido claro das roupas de aprendiz roçava nos tornozelos enquanto ela observava tudo em silêncio.

    Mesmo dois anos depois, aquele lugar ainda parecia grande demais.

    O mentor falou sem virar o rosto:

    — Quando estivermos diante dele, fale apenas se ele perguntar.

    A voz saiu baixa.

    Controlada.

    Maelis franziu o cenho.

    — Ele é tão perigoso assim?

    O homem demorou um segundo antes de responder.

    — Perigoso não.

    A mão dele apertou de leve o próprio cajado.

    — Acostumado a ser obedecido desde jovem.

    A resposta disse mais do que parecia.

    Eles atravessaram a última cortina de seda e entraram no salão principal.

    O xeique os aguardava reclinado sobre almofadas elevadas em uma plataforma semicircular.

    Quarenta anos, talvez mais.

    O rosto bem cuidado.

    Os dedos pesados de anéis.

    Os olhos escuros atentos demais.

    Ao redor, guardas permaneciam imóveis como estátuas.

    A água do oásis corria por pequenos canais rasos ao redor da sala, mantendo o ambiente fresco.

    O olhar do xeique caiu primeiro sobre o mentor.

    Depois deslizou lentamente até Maelis.

    E permaneceu nela.

    — Então esta é a garota.

    A voz dele era calma.

    Quase agradável.

    O mentor inclinou a cabeça.

    — Minha aprendiz, Majestade.

    O xeique ergueu a mão.

    — Demonstre.

    Maelis sentiu o corpo enrijecer.

    O mentor lançou um olhar rápido para ela.

    Autorização silenciosa.

    Ela respirou fundo e ergueu a mão.

    A mana respondeu imediatamente.

    Uma espiral de fogo se formou acima da palma, condensando-se em runas instáveis antes de se fixar em forma perfeita.

    Depois uma segunda.

    E uma terceira.

    Controle múltiplo.

    Silêncio absoluto no salão.

    O xeique sorriu.

    — Extraordinário.

    A chama se apagou.

    Maelis abaixou a mão.

    O xeique se inclinou um pouco à frente.

    — Quantos anos?

    — Dezesseis.

    O sorriso dele cresceu.

    — E já superou seu mestre.

    O silêncio ficou pesado.

    Maelis sentiu o mentor endurecer ao lado dela.

    O xeique voltou os olhos para ele.

    — Você fez um bom trabalho.

    Uma pausa.

    A próxima frase veio como sentença.

    — Não precisarei mais dos seus serviços.

    O ar pareceu desaparecer do salão.

    Maelis virou o rosto para o mentor.

    Ele não demonstrou surpresa.

    Só uma quietude estranha.

    Como se já soubesse que aquilo aconteceria cedo ou tarde.

    — Majestade… — Maelis começou.

    O mentor a interrompeu com um gesto mínimo da mão.

    Não fale.

    O xeique continuou, sem olhar para nenhum dos dois.

    — A partir desta noite, ela será a maga de Al-Zafir.

    Os dedos dele tocaram a almofada ao lado.

    — E permanecerá no palácio e obedecerá as minhas ordens… fui claro?

    A palavra permanecerá soou como corrente.

    Maelis sentiu o frio subir pela espinha.

    Não era honra.

    Era posse.

    O mentor fez uma reverência lenta.

    — Como desejar.

    Mas quando se ergueu, os olhos dele tocaram os dela por um único segundo.

    E naquele olhar havia urgência.

    E uma decisão já tomada.

    A Maelis real sentiu no mesmo instante.

    A mesma adrenalina que sentiu na época.

    A noite chegou rápido sobre Al-Zafir.

    Do lado de fora do palácio, o oásis brilhava sob filetes de luz refletidos na água central.

    Mas dentro dos aposentos designados a Maelis, o ar parecia apertado.

    Pesado.

    Ela ainda conseguia sentir o olhar do xeique sobre si.

    A porta deslizou sem aviso.

    O mentor entrou rápido, fechando-a atrás de si.

    Sem a postura calma habitual.

    Sem qualquer traço do homem sereno que a ensinara por dois anos.

    — Nós vamos sair. Agora.

    A voz veio baixa.

    Tensa.

    Maelis se levantou no mesmo instante.

    — O que aconteceu?

    Ele foi até a janela, afastando a cortina só o suficiente para observar os guardas do lado externo.

    — Ele não vai me deixar vivo até o amanhecer.

    A frase caiu seca.

    Sem dramatização.

    Como um fato.

    Maelis sentiu o corpo gelar.

    — Não…

    Ele virou o rosto.

    — Escute com atenção.

    A aproximação foi rápida.

    As mãos dele seguraram os ombros dela com firmeza.

    — Existe uma rota antiga para fora do oásis. Túneis de manutenção sob os canais de água. Se formos agora, conseguimos alcançar as ruínas antes do nascer do sol.

    Ruínas.

    A palavra bateu na consciência da Maelis real como um sino.

    A segunda âncora.

    Estava chegando.

    Dentro da lembrança, a Maelis jovem ainda tremia.

    — E depois?

    O olhar dele suavizou pela primeira vez.

    — Depois eu continuo te ensinando. Só que longe daqui.

    A frase foi simples.

    Maelis assentiu entre os tremores.

    Os dois saíram pela passagem lateral do aposento e mergulharam nos corredores subterrâneos.

    A água corria em canais estreitos ao lado do caminho de pedra.

    O som abafado dos passos ecoava entre as paredes úmidas.

    Acima deles, Al-Zafir dormia sem saber que uma de suas peças mais valiosas estava escapando.

    A fuga durou horas.

    Oásis.

    Dunas.

    Noite fria.

    Lua alta.

    Até que as ruínas surgiram.

    Colunas quebradas emergindo da areia como ossos de um gigante enterrado.

    Arcos partidos.

    Paredes antigas quase engolidas pelas dunas.

    O coração da Maelis real disparou.

    Ali.

    A segunda âncora.

    Ela lançou a mana antes mesmo dos pés tocarem a pedra.

    A energia correu pelas colunas partidas, pelas inscrições apagadas pelo tempo, buscando o ponto de maior peso.

    Ao lado, pela primeira vez desde o início daquela memória, a presença do Andarilho se moveu de forma clara.

    Mana cinza.

    Rápida.

    Violenta.

    Ele também havia entendido.

    A disputa começou no mesmo instante.

    A mana dos dois colidiu no centro das ruínas.

    O ar vibrou.

    A memória inteira pareceu tremer.

    A areia subiu em espirais.

    O mentor, dentro da lembrança, puxou Maelis para trás ao ouvir vozes de guardas se aproximando ao longe.

    Mas a consciência real dela estava presa na âncora.

    Empurrando.

    Forçando.

    Segurando cada fragmento da ruína.

    Por um segundo, pareceu possível.

    Então a presença do Andarilho mudou.

    A mana dele deixou de seguir a lógica física da memória.

    Ela atravessou paredes.

    Subiu pelas colunas em múltiplas direções.

    Dividiu-se em dezenas de fluxos simultâneos.

    Como fumaça viva ocupando tudo ao mesmo tempo.

    Maelis sentiu o choque.

    Mesmo dentro da mente dela, ele tinha mais liberdade.

    Mais intimidade com aquele tipo de espaço.

    Mais brutalidade.

    A mana cinza se consolidou no centro da ruína.

    A segunda âncora foi dominada.

    O Andarilho falou pela primeira vez desde o salto temporal.

    A voz não tinha irritação.

    Nem sarcasmo.

    — Certo.

    Uma pausa curta.

    Fria.

    — Já perdi tempo demais com essa.

    O mundo partiu.

    Não houve apagamento lento como na memória do pai.

    Não houve mutilação gradual.

    A lembrança inteira rasgou de uma vez.

    As colunas se dividiram em linhas de fumaça.

    O céu noturno abriu rachaduras negras.

    A areia foi puxada para cima como se o próprio chão estivesse sendo arrancado.

    O mentor virou o rosto para ela, a mão ainda estendida.

    E então até ele foi despedaçado em fragmentos de luz e poeira.

    A memória inteira foi violentamente dilacerada.
    O mentor ainda estendia a mão quando a imagem dele foi rasgada ao meio e desfeita em poeira luminosa.

    O impacto acertou Maelis como uma pancada dentro do crânio.

    Ela cambaleou no vazio entre lembranças, a mão indo direto à cabeça.
    A respiração falhou.
    O estômago virou.

    — Não… não, não…

    A voz saiu entrecortada enquanto ela forçava a memória de volta.

    O rosto dele.
    A voz dele.
    O cheiro da casa.
    As noites estudando magia.

    Tudo vinha em pedaços tortos.
    Solto.
    Incompleto.
    Como se alguém tivesse arrancado páginas inteiras e deixado só frases perdidas.

    Maelis apertou os dedos contra a própria testa, quase com raiva.

    — Sua magia é nojenta…

    A presença do Andarilho deslizou no vazio ao redor dela.

    — Nojenta?

    A resposta veio fria. Sem pressa.

    — Isso é sobrevivência.

    A fumaça cinza girou mais perto, sufocando o espaço entre uma memória e outra.

    — Cada lembrança que eu arranco muda você um pouco, não muda?

    A respiração dela travou.

    Porque ele estava certo.

    Já havia coisas que pareciam distantes demais.
    Sensações que não encaixavam mais.
    Partes inteiras da própria vida começando a parecer história de outra pessoa.

    A voz dele veio mais baixa.

    — Em uma luta até a morte, Maelis, não importa o quão feia a magia seja.

    Uma pausa.

    — Só importa quem sobra no final.

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