Capítulo 161 - Consequências.
O portão leste de Cervalhion permanecia parcialmente aberto.
A carroça de Kael estava parada próxima da saída.
Coberta de poeira.
Marcas antigas de viagem riscavam a madeira escura enquanto os cavalos batiam os cascos inquietos pelo cheiro de fumaça espalhado pelo vento.
A cidade atrás deles ainda queimava.
O céu noturno tinha adquirido um tom acinzentado estranho, sufocado pelas colunas de fumaça que subiam do sul de Cervalhion. Cinzas atravessavam o ar em movimentos lentos, carregadas pelo vento quente dos incêndios.
Aisha surgiu correndo pela rua principal.
As roupas ainda molhadas do rio grudavam no corpo.
Lama seca cobria as botas.
Sangue escurecido marcava os braços, o rosto, parte do pescoço.
Ela reduziu o ritmo só ao alcançar a carroça.
A respiração pesada.
O peito queimando.
O movimento lá dentro cessou imediatamente.
Helena foi a primeira a aparecer.
A menina estava sentada entre cobertores velhos no fundo da carroça segurando um galho cheio de folhas contra o peito.
Os olhos arregalaram ao ver Aisha.
Focou no sangue.
Depois na espada.
Helena se encolheu automaticamente contra a madeira da carroça.
Não falou nada.
Só levantou devagar o galho na direção dela.
Como se estivesse oferecendo alguma coisa.
Aisha ficou olhando aquilo por meio segundo sem entender.
Lucas apareceu logo atrás da menina.
Sentado sobre a maca improvisada presa na lateral interna da carroça.
O único braço restante apoiado na madeira enquanto observava Aisha em silêncio.
O rosto endureceu imediatamente.
Os olhos percorreram o sangue.
As roupas destruídas.
As marcas de combate.
Ele percebeu rápido demais que aquilo não era sangue de ferimento superficial.
Aisha abriu a boca para falar alguma coisa.
Foi quando Kael surgiu carregando Ian nos braços.
O humor dentro da carroça morreu completamente.
Lucas travou.
Os olhos foram direto para Ian.
Para o braço queimado, as fissuras vermelhas espalhadas pela pele, o estado do corpo.
Até Helena ficou imóvel.
O galho escorregou parcialmente dos dedos dela.
Kael parou ao lado da carroça.
— Abre espaço.
A voz saiu seca.
Lucas reagiu na mesma hora.
Tentou se levantar rápido demais da maca improvisada.
A dor atravessou o corpo imediatamente.
O rosto contraiu enquanto o braço amputado permanecia preso ao torso por faixas grossas ainda manchadas de sangue seco.
Mesmo assim ele saiu da maca.
Usando o único braço para se apoiar na lateral da carroça enquanto liberava espaço.
— Coloca ele aqui.
Kael subiu primeiro.
As botas bateram forte na madeira.
Ian foi colocado devagar sobre a maca improvisada.
A estrutura rangeu baixo com o peso.
Helena observava sem desviar os olhos.
A pequena mão apertando cada vez mais forte o galho.
Lucas ficou olhando Ian por alguns segundos.
Tentando entender o que estava vendo.
Depois ergueu os olhos para Kael.
— Que inferno aconteceu dessa vez…?
Kael ignorou a pergunta.
Começou a ajustar as faixas próximas do braço queimado de Ian.
As mãos rápidas.
Precisas.
Sem hesitação.
Maelis surgiu logo atrás subindo na carroça.
O corpo inteiro pesado pelo esgotamento.
Uma das mãos pressionada contra a lateral do próprio abdômen enquanto tentava controlar a tontura.
Os olhos dela passaram rapidamente por Lucas.
Depois por Helena.
Cansada demais para perguntar qualquer coisa.
Lysvallis entrou logo depois.
Mais lenta.
A mão apoiada na lateral antes de se sentar próxima da entrada.
Até respirar parecia exigir esforço agora.
Os olhos passaram rapidamente pela criança.
Pelo rapaz amputado.
Depois voltaram para Ian.
Elenys permaneceu do lado de fora.
Parada por alguns segundos olhando Cervalhion.
As colunas de fumaça subindo acima dos telhados destruídos.
Os incêndios espalhados pelo sul da cidade.
Os sinos de emergência ainda tocando distantes.
Gritos.
Ordens.
Ela fechou os olhos por um instante antes de finalmente entrar também.
A carroça ficou apertada.
Desconfortável.
Silenciosa.
Só o ranger da madeira com a respiração irregular de Ian e os sons distantes de Cervalhion morrendo atrás das muralhas.
Helena olhava fixamente para Ian.
Depois para Kael.
Depois para Ian de novo.
Como se estivesse tentando montar sentido naquilo.
Ela puxou devagar a manga da roupa de Lucas.
— O tio tá machucado igual você tava?
Lucas desviou os olhos para a menina.
Depois olhou Ian outra vez.
A resposta demorou um pouco.
— Ta sim.
Helena ficou quieta.
Os dedos apertando o galho outra vez.
Ela observou o braço queimado de Ian mais alguns segundos antes de olhar para Kael.
— Ele vai perder o braço também?
A pergunta atravessou a carroça inteira.
Maelis desviou o rosto imediatamente.
Aisha apertou a mandíbula.
Lysvallis fechou os olhos por um segundo.
Kael continuou ajustando as faixas sem parar.
— Só se infeccionar.
A honestidade da resposta deixou o silêncio ainda mais pesado.
Helena abaixou os olhos devagar.
Depois olhou o próprio galho.
As folhas ainda verdes.
Ela saiu do canto da carroça lentamente.
Os pés descalços quase sem fazer som na madeira.
Parou ao lado da maca improvisada.
Olhou Ian por mais alguns segundos.
Então colocou o galho cuidadosamente sobre o peito dele.
Como se aquilo ajudasse.
Ninguém respondeu imediatamente.
Mas o silêncio dentro da carroça mudou de forma.
Kael olhou rapidamente para o galho sobre Ian.
Depois para Helena.
Os olhos vermelhos permaneceram nela por um segundo inteiro antes de ele voltar a mexer nas faixas.
Lucas soltou o ar devagar pelo nariz.
Cansado.
— Espero que não infeccione.
A voz saiu baixa quando percebeu os olhares do grupo.
Sem humor.
Kael terminou de prender uma das bolsas médicas na lateral interna da carroça.
Do lado de fora, o vento trouxe mais fumaça da cidade.
Um grupo de soldados passou correndo pela rua carregando baldes e tecidos molhados.
Os gritos continuavam distantes.
Helena voltou para o canto da carroça.
Mas os olhos não saíram mais de Ian.
A testa franzida.
— O tio tá vivo…?
Kael puxou uma manta parcialmente queimada cobrindo parte do peito de Ian.
— Tá.
A resposta saiu imediata.
Helena assentiu devagar.
Como se acreditasse completamente só porque Kael falou.
Aisha desviou os olhos.
O peito apertou de novo.
Ela se virou antes que aquilo piorasse.
— Eu vou buscar a comitiva.
Lysvallis assentiu cansada.
— Avise a comitiva de Altheria. Nós vamos sair agora.
Aisha assentiu.
Depois voltou a correr pela rua entre fumaça e cinzas.
O som dos passos desapareceu no caos distante da cidade.
Dentro da carroça, ninguém falou nada.
Lucas quebrou o silêncio primeiro.
Os olhos ainda presos em Ian.
— Nunca vi você carregar alguém assim.
Kael continuou organizando os frascos.
— Porque nunca precisei.
Lucas soltou uma risada curta pelo nariz.
Cansada.
Dolorida.
— Então é grave mesmo.
Kael fechou a bolsa médica.
— Sim.
Lucas observou Ian mais alguns segundos.
Depois olhou novamente para Kael.
— Você encontrou um jeito novo de arrumar problema, hein?
Kael nem reagiu.
Helena inclinou levemente a cabeça olhando Lucas.
— Ele sempre arruma problema?
Lucas olhou para ela.
— Você não faz ideia.
Pela primeira vez desde que chegaram, um canto pequeno de sorriso apareceu no rosto de Helena.
Desapareceu rápido.
Maelis ergueu os olhos levemente.
O olhar ainda preso no rosto de Ian.
No peito subindo e descendo de forma irregular.
As memórias vieram rápido demais.
As lembranças de Ian na antiga casa.
Treinando em frente a casa.
Rindo de forma leve.
Ela baixou os olhos imediatamente antes que aquilo escapasse no rosto.
Lysvallis observou Kael por alguns segundos antes de finalmente perguntar:
— Pra onde vamos?
Kael puxou uma das correias da bolsa médica ajustando ela no banco da frente.
— Sul das montanhas centrais.
A resposta saiu simples.
Direta.
— Existe uma casa antiga lá. Deve estar em condições de uso… espero.
Maelis sentiu o peito apertar.
Ela não falou nada.
Nem tinha energia para isso.
Do lado de fora começaram a surgir os primeiros sons da comitiva de Altheria se reorganizando.
Rodas.
Cavalos.
Soldados chamando uns aos outros.
Armaduras batendo.
Elenys observou aquilo em silêncio por alguns segundos.
Depois desviou os olhos.
— Eu não vou com vocês.
A frase cortou o interior da carroça sem aumentar o tom.
Lysvallis abriu os olhos completamente.
Maelis virou o rosto devagar.
Lucas também olhou para ela agora.
Até Helena pareceu perceber o peso da frase.
Elenys continuava olhando para frente.
A voz baixa.
— Eu vou voltar para Altheria.
O silêncio ficou ainda mais pesado.
Kael não reagiu.
Só continuou ajustando as bolsas médicas próximas da porta.
Elenys respirou fundo uma vez.
— As outras casas nobres vão voltar comigo.
Os dedos dela se fecharam lentamente sobre o tecido ainda manchado de sangue seco.
— Cervalhion acabou.
Os olhos finalmente se moveram.
Parando na direção de Ian.
Depois em Maelis.
Depois em Lysvallis.
— Alexia morreu aqui.
A voz falhou quase imperceptivelmente dessa vez.
Ela desviou os olhos antes que aquilo quebrasse completamente.
— Preciso ao menos dar um enterro digno a ela.
Lysvallis apoiou a cabeça contra a madeira da carroça por alguns segundos.
Os olhos fechados.
Cansados.
Depois abriu de novo.
— Vá.
A voz saiu calma.
Controlada.
— Mas não dê nenhuma declaração até eu resolver esse problema.
Os olhos azulados encontraram os de Elenys.
— Essa situação pode escalar para uma guerra se você agir por impulso.
Elenys virou o rosto imediatamente.
— Eles mataram Alexia.
A voz saiu mais fria agora.
Mais dura.
— Uma Matriarca.
A mão dela fechou mais forte sobre o próprio vestido.
— Isso vai ter resposta.
O ambiente da carroça endureceu imediatamente.
Lucas observou em silêncio.
Mesmo sem entender toda a política envolvida, até ele percebeu que aquilo era perigoso.
Lysvallis descruzou lentamente as pernas.
Os olhos fixos em Elenys.
— Vou ignorar isso agora porque você acabou de perder alguém importante.
A voz permaneceu calma.
O que deixava tudo pior.
— Mas não me desafie desse jeito na frente dos outros outra vez.
Elenys travou os lábios.
Virou o rosto.
Os olhos levemente marejados agora.
A respiração ficou presa por um segundo antes de voltar.
Do lado de fora, a comitiva de Altheria começou a se aproximar, com Aisha na frente das carruagens.
Lysvallis observou a movimentação.
Depois voltou os olhos para Elenys.
— Mas você tem razão.
O silêncio caiu outra vez.
— A morte de Alexia não passará em branco.
Os olhos dela desceram lentamente até Ian desacordado.
As fissuras vermelhas ainda espalhadas pelo braço queimado.
— Apenas confie na sua rainha um pouco mais.

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