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    A garota passou pela porta, e os dois homens fecharam-na logo depois, o som seco da madeira encaixando no batente pareceu mais alto do que realmente foi.

    A primeira coisa que Brigitte percebeu foi que a sala não parecia um escritório, parecia mais com uma sala de estar. O ambiente principal era bem mais aconchegante do que esperava. Estantes de madeira ocupavam parte das paredes, cheias de livros antigos, pastas grossas e pequenas decorações entre os espaços vazios. Havia uma mesa baixa no centro da sala cercada por duas poltronas e um sofá comprido, com um tapete florido debaixo dos móveis.

    Era o tipo de lugar onde trabalhadores cansados passavam horas reclamando da própria vida depois do expediente.

    Bem em frente à entrada havia um balcão comprido de madeira escura cheio de papéis organizados em montes. Ao lado, um corredor estreito atravessava o resto do andar, conectando várias portas alinhadas lado a lado. Oito salas, talvez mais. Algumas tinham luz escapando por baixo da porta. Outras estavam completamente escuras.

    Brigitte manteve a postura reta enquanto observava discretamente o ambiente. Sem curiosidade demais. Sem atenção demais. Funcionários de fiscalização não olhavam para lugares como se estivessem infiltrados, então precisava se manter no papel.

    Os dois dirigentes passaram por ela em direção ao balcão. O gordo se sentou na cadeira enquanto o mais velho permanecia em pé. Agora, sob a iluminação mais forte da sala principal, Brigitte conseguiu observar melhor os dois homens.

    O mais gordo parecia ter pouco mais de trinta anos. Tinha o rosto largo e meio avermelhado, talvez pelo cigarro, talvez pelo estresse, ou pelos dois. Ele tinha costeletas visíveis sob a barba e o cabelo curto começava a recuar perto da testa.

    O outro era mais velho. Magro de um jeito quase rígido, como alguém sustentado puramente por café. O cabelo grisalho estava penteado para trás com cuidado e os óculos pequenos deslizavam constantemente pelo nariz fino enquanto analisava Brigitte com atenção silenciosa demais para ser confortável.

    — Então… — começou o homem mais velho enquanto ajustava os óculos novamente. — que tipo de inconsistência exatamente gerou essa revisão?

    A pergunta foi casual, mas não inocente. Brigitte percebeu isso imediatamente. Eles ainda estavam tentando descobrir o quanto ela realmente sabia e se aquela era realmente uma visita padrão da prefeitura.

    Ela colocou a pasta no balcão enquanto organizava mentalmente as frases absurdamente específicas que tinha decorado antes da missão. Ainda não fazia ideia do que metade daqueles termos realmente significava, mas aquele papel consistia principalmente em usar palavras longas até ninguém querer continuar a conversa.

    — Foram registradas divergências entre compensações de turno extraordinário e homologação de jornada operacional vinculadas à malha leste ferroviária. — respondeu.

    Um silêncio se instalou na sala por alguns segundos. O homem gordo piscou uma vez, enquanto o mais velho estreitou levemente os olhos. Brigitte quase conseguiu ver o instante exato em que os dois decidiram não perguntar o que aquilo significava.

    Perfeito! Eles caíram direitinho!”, comemorou mentalmente.

    — Ah… certo. — respondeu o primeiro homem depois de alguns segundos.

    Ela continuou antes que eles recuperassem coragem suficiente para aprofundar o assunto e desmontassem a sua narrativa.

    — O departamento vem revisando possíveis inconsistências em operações durante o período de festival. Principalmente divergências de escala associadas a compensação trabalhista irregular. — disse, já enganchando na justificativa. — Minha vinda visa garantir que operadores vinculados à malha ferroviária estejam recebendo compensação compatível com as jornadas oficialmente registradas e tributadas. 

    Aquilo também não significava quase nada. Nem ela, nem os homens entendiam direito as palavras que ecoaram na sala. Mas soava profundamente irritante. Era mais que perfeito.

    O homem mais velho soltou um pequeno suspiro cansado, já saindo do balcão, indo para o lado de Brigitte e puxando uma das poltronas, esticando a mão em seguida.

    — Pode sentar então, senhorita Aster.

    Brigitte assentiu educadamente antes de se acomodar na poltrona. O braço enfaixado incomodou imediatamente quando apoiou o cotovelo no apoio lateral, e ela precisou esconder uma pequena dor aguda antes que chamasse atenção… Não funcionou.

    — Acidente de trabalho? — perguntou o dirigente mais gordo, apontando discretamente para o braço dela.

    Brigitte travou por meio segundo. A pergunta tinha vindo tão naturalmente que pegou ela desprevenida, quase fazendo ela falar a verdade.

    — Foi a… escadaria. — respondeu logo depois. — Cai da escada enquanto carregava a papelada para o meu chefe.

    A vergonha automática na própria voz acabou deixando a mentira mais convincente do que qualquer preparação anterior.

    O dirigente mais gordo soltou um som abafado pelo nariz enquanto balançava lentamente a cabeça, quase solidário.

    — Clássico. — murmurou. — Chefia adora mandar os outros carregarem peso enquanto eles ficam sentados todos confortáveis assinando formulários. Não dão conta nem da metade do que a gente passa e ainda se sentem superiores.

    O mais velho imediatamente apontou um dedo na direção dele sem nem levantar o rosto dos papéis.

    — Robert.

    — O quê? Eu tô errado? — respondeu o homem, abrindo levemente os braços. — Quero ver algum diretor ferroviário aguentar dez minutos batendo dormente sob o sol do meio-dia. Aposto que na primeira gota de suor no terno de linho eles pediam demissão. 

    Brigitte precisou fazer esforço físico real para não rir. A conversa tinha mudado de tom rápido demais. Poucos minutos antes aqueles homens estavam desconfiados. Agora reclamavam casualmente da própria administração na frente dela.

    O dirigente mais velho soltou um pequeno suspiro pelo nariz antes de dar alguns passos, ficando na frente de Brigitte.

    — Vamos pegar os registros do período do festival. — disse, ajustando os óculos outra vez. — Se a inconsistência veio da operação noturna, provavelmente vai estar nos arquivos operacionais da última semana.

    O mais velho andou até o extenso corredor, em paralelo o homem gordo — Roberto — se levantou logo depois com um pequeno som de esforço vindo das costas.

    — Deve ter alguma coisa na sala três ou quatro. — comentou. — A gente reorganizou os turnos por causa do aumento ferroviário do festival.

    Brigitte permaneceu sentada enquanto os dois caminhavam pelo corredor lateral atrás do balcão principal. As luzes amareladas do sindicato acompanhavam parcialmente o movimento deles pelo piso de madeira escura até desaparecerem logo após uma porta se bater ao fundo. Então a sala ficou silenciosa outra vez.

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