Índice de Capítulo

    O elevador subia devagar demais. As engrenagens rangiam dentro das paredes como alguma coisa metálica tentando continuar viva por pura insistência, e cada pequeno tranco da estrutura fazia a lâmpada amarelada acima da cabine oscilar por uns segundos. Brigitte manteve os braços cruzados enquanto observava os tijolos passando na grade de metal à frente, ainda decidindo a melhor abordagem.

    O terno escuro que usava ainda parecia errado de alguma maneira Não pelo tamanho — surpreendentemente servia muito bem — mas pela sensação. O tecido apertava os ombros de um jeito desconfortável, limitando pequenos movimentos que normalmente nem percebia fazer. A gravata escura incomodava no pescoço. O cabelo preso atrás da cabeça por um único elástico incomodava mais do que esperava, já estava acostumada com duas, aquele novo estilo de cabelo parecia uma espécie de “traição” com o antigo.

    Ela parecia responsável… E aquilo era profundamente desconfortável. A Trupe dos Cervídeos tinha passado tempo demais discutindo como entrariam naquele prédio sem transformar o sindicato inteiro em um problema. A sede ficava em um dos bairros mais movimentados de Daurlúcia, cercada por prédios empresariais, comércio e departamentos de polícia.

    Invadir pela força seria estúpido. Chamaria atenção rápido e o que não faltaria seria testemunhas. E, pior ainda, faria qualquer documento comprometedor desaparecer antes deles chegarem perto.

    Então precisavam entrar de outro jeito. “Vampiricamente”, como ela tinha chamado na hora. Entrar como convidados. Deixar os próprios dirigentes abrirem a porta, oferecerem cadeiras, xícaras de chá e entregarem informação acreditando que estavam ajudando alguém importante.

    A parte difícil tinha sido decidir quem faria aquilo. Evelyn imediatamente descartou a ideia de entrarem em grupo. Gente demais era muito. Então decidiram mandar só uma pessoa. Niko e Evelyn não poderiam ir, não falavam a língua local, e Gwendolyn se negou a ir por “problemas pessoais”.

    Então só sobrou Brigitte. Ela falava luminárico fluente sem sotaque forte — mesmo nascendo e vivendo no interior — e não tinha histórico ruim com o sindicato. O único defeito é que não sabia muito sobre etiqueta institucional, mas nada que uma boa atuação resolvesse.

    Brigitte ainda questionou se era a escolha certa, mas Gwen respondeu afirmando que era a pessoa ideal. O mesmo não se podia dizer da esotérica, já que, nas palavras dela: “Eu sou persona non grata em praticamente qualquer organização trabalhista da cidade”. Brigitte ainda suspeitava que aquilo fosse exagero… Provavelmente… Talvez.

    Brigitte soltou o ar devagar pelo nariz enquanto ajustava outra vez a manga do blazer. A iluminação fraca do elevador destacava parcialmente a faixa envolvendo o braço direito sob o tecido. Pelo menos aquilo ajudava no personagem. Uma funcionária burocrática cansada parecia exatamente o tipo de pessoa que quebraria um braço caindo de uma escada enquanto carregava papel demais para a mesa chefe impaciente.

    A história que criou na própria mente fez ela rir sozinha. Mesmo assim, a tensão continuava apertando no fundo do estômago. Não era uma tensão de luta. Aquilo ela conhecia bem e mal sentia. Era outro tipo de nervosismo. Mais irritante. O tipo de ansiedade que vinha de precisar convencer pessoas em vez de derrotá-las. Uma espada resolvia problema muito mais rápido do que conversa formal. Porém, infelizmente, esfaquear dirigentes sindicais provavelmente complicaria um pouco a investigação.

    As portas de grade do elevador vibraram baixo antes de começarem a abrir lentamente. O corredor do nono andar surgiu aos poucos diante dela. O chão era feito de madeira escura e as paredes eram feitas de um padrão de flores brancas e fundo azul. As luminárias fracas espalharam luz sobre todos os cantos, brilhando forte no chão envernizado.

    Um cheiro nítido de papel, cigarro barato e café requentado formavam um aroma específico daquele andar. Até parecia que o sindicato não escondia uma operação criminosa gigantesca.

    Brigitte saiu do elevador tentando não andar rápido demais. Gwen tinha dito algo irritantemente específico antes dela entrar no prédio: “Olha, o tipo de funcionário que você vai imitar anda como se já estivesse atrasado.” Ela odiava o fato de aquilo fazer sentido.

    Então ajustou a postura e continuou pelo corredor em uma velocidade calculadamente irritada, segurando uma pasta grossa contra o corpo enquanto os saltos baixos ecoavam suavemente pelo piso antigo. A cada porta fechada que passava, mais o prédio parecia afundar em uma sensação opressiva.

    No final do corredor, virando à esquerda, somente viu uma placa metálica, anunciando: DIRETORIA OPERACIONAL — SINDICATO DOS FERROVIÁRIOS DE DAURLÚCIA

    Brigitte respirou fundo uma única vez. Depois bateu na porta. Houve um silêncio nos primeiros segundos, depois um movimento do outro lado. Conseguiu ouvir o som de papel sendo empurrado e uma cadeira arrastando no chão. Depois, passos pesados correndo em direção a porta.

    A porta abriu parcialmente logo em seguida. O homem que apareceu primeiro parecia exatamente o tipo de pessoa que passava tempo demais sentado atrás de mesa. Era meio barrigudo, tinha a barba mal feita, usava camisa social e suspensórios firmes. O cheiro de cigarro escapou junto dele para o corredor. Os olhos cansados percorreram Brigitte de cima abaixo imediatamente.

    O segundo homem apareceu logo atrás, mais magro, mais velho — parecia estar na casa dos cinquenta anos — e muito mais atento. Diferente do outro, ele não olhou para o rosto dela primeiro. Primeiro olhou para a pasta, depois para o terno e finalmente para o braço enfaixado parcialmente escondido sob o blazer. Aquilo parecia dizer bastante sobre ele.

    — Posso ajudar? — perguntou o primeiro homem.

    Brigitte abriu a pasta com movimentos controlados, quase automáticos. Por um instante, ela realmente sentiu como se tivesse feito aquilo a vida inteira.

    — Brigitte Aster. — respondeu calmamente. — Sou do Departamento de Auditoria Sindical, trabalho no Setor de Fiscalização. 

    O nome do departamento tinha sido escolha da Gwen. Niko passou quase quarenta minutos pesquisando órgãos regulatórios nos registros públicos da cidade até encontrar exatamente o tipo de divisão burocrática que funcionasse para essa parte da investigação.

    — Estou aqui para uma verificação extraordinária de conformidade operacional referente aos registros ferroviários do último trimestre. Preciso verificar informações relacionadas a inconsistências de jornada e compensação de turno extraordinário vinculadas à operação noturna da malha ferroviária. 

    A luminar havia decorado essa fala praticamente o caminho todo até ali. Quando disse tudo do jeito que ensaiou, uma silenciosa faísca de orgulho surgiu nos olhos.

    Silêncio. Os dois homens trocaram um olhar imediato. Não de pânico, mas de irritação. Aquilo tranquilizou Brigitte um pouco. Pessoas inocentes geralmente reagem à esse tipo de situação exatamente daquele jeito.

    — Essa hora da noite? — perguntou o homem mais velho.

    Brigitte abriu uma expressão levemente cansada. Não exagerada. Só profissionalmente cansada, atuando com maestria.

    — Infelizmente irregularidades administrativas não costumam respeitar horário comercial, senhor.

    A frase saiu tão naturalmente que ela quase ficou impressionada consigo mesma. O homem gordo pareceu genuinamente sofrer dano psicológico ao ouvir aquilo.

    — Certo… — murmurou ele. — Tem a documentação?

    Brigitte puxou o mandato da pasta que carregava consigo e entregou sem hesitar. O papel parecia realmente oficial.

    Evelyn tinha feito aquilo em menos de vinte minutos usando uma tinta barata, carimbo feito de gelo e algum tipo de habilidade artística verdadeiramente impressionante. Ela sabia que Evelyn era uma artista incrível, mas nunca havia visto todo o seu potencial. Até o desgaste das bordas parecia natural. Havia assinatura, selo, número de protocolo e até pequenas marcas de dobra como se o documento tivesse passado por três departamentos diferentes antes de chegar ali. Era até melhor do que muitos documentos reais que ela já tinha visto.

    Os dois homens analisaram o papel em silêncio. O mais velho estreitou os olhos em alguns pontos específicos, provavelmente procurando inconsistências. O outro claramente só queria que aquilo acabasse rápido.

    O relógio pendurado na parede atrás deles marcava quase meia-noite. Nenhum dos dois parecia emocionalmente preparado para lidar com fiscalização surpresa naquele horário.

    Depois de alguns segundos longos demais, o homem mais velho devolveu o documento lentamente em direção a garota.

    — Certo… — repetiu ele. — Pode entrar.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota