Capítulo 213 - Sindicato III
Os dois homens demoraram mais do que Brigitte esperava para voltar. O relógio pequeno pendurado perto da estante marcou quase sete minutos inteiros enquanto ela permanecia sentada na poltrona, observando distraidamente as sombras das luminárias correndo pelas paredes floridas da sala. O tecido áspero do estofado arranhava levemente a palma da mão direita enquanto ela mantinha os dedos apoiados no braço da poltrona para esconder a ansiedade.
Em algum lugar do corredor, uma porta abriu e fechou duas vezes. Ouviu o som de papel deslizar e uma tosse seca. Então os passos retornaram no corredor. O dirigente mais velho apareceu primeiro carregando três pastas grossas de couro escuro apertadas contra o peito. Robert vinha logo atrás com mais duas empilhadas nos braços e uma expressão de sofrimento físico genuíno.
— Não basta fazer isso o dia todo, ainda tenho que fazer isso de madrugada. — resmungou enquanto largava as pastas sobre a mesinha central com um baque pesado.
Brigitte pegou a primeira pasta imediatamente, sem perder tempo para folheá-la. Escalas. Turnos. Tabelas. Impostos. Compensações. Pagamentos. Operadores… Tudo em um período de uma semana. Tudo organizado de maneira quase irritantemente limpa. Nenhuma rasura séria. Nenhuma assinatura torta feita às pressas. Nenhum campo faltando. Até os carimbos pareciam alinhados demais dentro das páginas.
Quanto mais Brigitte folheava os documentos, mais aquilo começava a parecer menos uma pilha de registros administrativos e mais uma encenação cuidadosamente montada para passar despercebida a inspeções superficiais.
“…SINDICATO DOS FERROVIÁRIOS DE DAURLÚCIA | REPARTIÇÃO DE TRÁFEGO
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REGISTRO DE TURNO EXTRAORDINÁRIO – MALHA LESTE (FESTIVAL)
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DATA: 17 de Lubvi | PERÍODO: 22h00 às 06h00 | REF: Vol. IV / ANEXO B [C]
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[CÓD. OPERACIONAL: ML-04] — LINHA DE CARGA GERAL
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MATRÍCULA | OPERADOR | FUNÇÃO | ESCALA | SITUAÇÃO
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F-8120-M | T. Henderson | Maquinista | Regular | PRESENTE
F-3401-A | P. Vance | Manobrador | Extra | PRESENTE
F-9912-K | J. Sterling | Auxiliar | Regular | LICENÇA MÉDICA*
F-5541-X | M. Rostov | Aux. (Subst) | Extra | PRESENTE
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* Justificativa: Cópia de Atestado AMT anexada (Módulo de Faltas, Vol. I).
* Retenções fiscais, IRRF e descontos sindicais consolidados no Vol. IX.
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[DEMONSTRATIVO FINANCEIRO DO TRECHO]:
– Custos de Tração Extraordinária: …………………… ₳ 1.420,00
– Adicional de Periculosidade Homologado (CCT Art. 42): …. ₳ 480,00
– Fundo de Previdência Categoria (Retenção 8%): ……….. ₳ 152,00
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[REGISTRO DE OCORRÊNCIAS]: Nenhuma anormalidade registrada no trecho…”
Ela começou a folhear as páginas mantendo a expressão neutra enquanto os olhos analisavam cada linha rapidamente. Nome após nome passava diante dela acompanhado de assinatura, horário, setor ferroviário e código operacional.
Trabalhadores faltando. Trabalhadores substituídos. Horas extras. Licença médica… Mas nada além disso. Nenhuma inconsistência. Nenhum grupo de operadores ausente do trabalho com justificativas convenientes. Aquilo estava limpo demais.
A sensação surgiu quase instantaneamente no fundo da mente dela. Não tinha como provar, mas aquilo fazia parte do seu instinto. O tipo de desconforto pequeno que aparecia quando alguma coisa parecia não se encaixar no que deveria.
Brigitte folheou outra página. Depois outra. Ainda nada. “Com certeza essa papelada toda é fraudada…”, pensou Brigitte, olhando de relance para os homens.
Os dirigentes observavam em silêncio do outro lado do balcão. Robert tinha começado a mexer em uma pequena pilha de papel solta enquanto o homem mais velho tomava café frio sem parecer minimamente preocupado… Tranquilos demais.
Nenhum dos dois demonstrava qualquer tipo de tensão. Eles pareciam até mesmo que esqueceram que a garota existia… E aquilo incomodava Brigitte mais do que nervosismo teria incomodado.
— Não pode ser… — Brigitte pensou alto, fechando parcialmente a pasta. — Tem alguma coisa de errado aqui.
Os dois homens ergueram os olhos quase ao mesmo tempo.
— Como assim “errado”? — perguntou o mais velho imediatamente.
A pergunta saiu rápida e Brigitte percebeu o próprio erro no mesmo instante. Pensou alto demais. A frase tinha saído mais como investigadora do que funcionária pública.
Ela sentiu o pequeno vazio mental surgir por meio segundo enquanto reorganizava desesperadamente a narrativa dentro da própria cabeça. Começou a suar frio. Precisava reconstruir o personagem antes que eles percebessem a rachadura.
— A-a inconsistência não bate com os registros compensatórios enviados pro departamento central. — explicou enquanto abria outra vez a pasta como se estivesse conferindo algo técnico. — Se os dados estão corretos aqui, então provavelmente o problema veio do arquivamento bruto operacional.
Ela apontou casualmente para uma das tabelas, mostrando-a para os homens, quase desesperada.
— Isso acontece às vezes quando atualização preliminar é registrada antes da compensação definitiva de turno.
Silêncio. O homem mais velho estreitou levemente os olhos outra vez. Brigitte continuou antes que ele pudesse pensar demais.
— Eu preciso verificar os arquivos operacionais originais pra confirmar onde a divergência começou. Só isso.
A última frase foi importante. “Só isso.” Pequena e irritantemente comum. Robert soltou um pequeno suspiro cansado antes mesmo do outro homem responder.
— Ah, ótimo… — murmurou ele. — Mais arquivo.
O dirigente mais velho permaneceu em silêncio por alguns segundos. Pensando. Então assentiu lentamente.
— Certo. — respondeu por fim. — Mas os registros brutos ficam organizados na sala de arquivamento interno. Você pode conferir o que quiser, mas não pode tirar nenhum papel de lá.
Brigitte abriu levemente a boca, já pronta para responder, mas o homem continuou antes:
— Nem mesmo fazer cópias.
A frase veio automática, parcialmente agressiva. Aquilo fez alguma coisa pequena se mover dentro da cabeça dela. Brigitte sustentou a expressão profissional por mais um segundo antes de assentir calmamente.
— Entendido.
Ela se levantou, pegou as pastas sobre a mesinha e sobre o balcão enquanto os dois homens começavam a atravessar o corredor estreito ao lado da recepção.
As luminárias amareladas projetavam sombras compridas sobre o chão de madeira escura conforme avançavam pelas portas alinhadas da sede. O prédio inteiro parecia mais silencioso naquela parte do centro, como se o barulho do restante da cidade tivesse parado alguns metros antes dali.
O dirigente mais velho destrancou a porta no final do corredor usando um molho pesado de chaves metálicas preso ao cinto. A sala de arquivamento surgiu logo depois. O lugar era longo e estreito, dominado por fileiras paralelas de armários de aço que subiam quase até o teto, interrompidas apenas por uma pequena mesa de madeira no centro.
Diferente do corredor lá fora, ali não havia cheiro de cigarro ou café, o ar era frio e carregado pelo odor seco de papel envelhecido e cera de vela. O que surpreendeu Brigitte é que não havia poeira acumulada sobre as superfícies ou teias de aranha nos cantos. Aquele parecia ser um lugar bem cuidado, porém profundamente esquecido.
Brigitte entrou devagar enquanto os olhos percorriam o ambiente quase automaticamente. Montanhas e montanhas de papel.
— Os registros do período do festival desse ano ficam naquela seção. — explicou o dirigente mais velho, apontando para o lado esquerdo da sala.
— Ah, entendido. — respondeu a garota.

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