Índice de Capítulo

    O médico saiu sem fazer barulho.

    Aura observou a porta fechar e ficou parada ao lado da parede, o pano ainda nas mãos, os olhos em Eldrik que havia ficado quieto demais no centro do quarto desde que o tratamento havia terminado.

    Aedin estava sentado na cadeira ao lado da cama.

    Não olhava para o filho.

    Olhava para as próprias mãos.

    Aura havia chegado tarde demais para ver a morte de Dan, Mas cedo o suficiente para ver o que a morte dele tinha feito com os dois homens nesse quarto.

    Aedin com aquela expressão que ela não conseguia classificar completamente — não era luto, não era culpa, era algo mais fundo que os dois.

    Eldrik era mais legível.

    Semanas observando ele como alvo deixavam marcas — ela sabia onde ele tensionava o ombro quando estava contendo alguma coisa, sabia como a mandíbula fechava quando estava escolhendo não dizer o que estava pensando.

    Estava fazendo os dois.

    — Você pode sair — disse ele.

    Não para ela.

    Para Aedin.

    O rei levantou os olhos devagar.

    — Eldrik—

    — Por favor.

    A palavra saiu com uma contenção que custou.

    Aedin ficou parado por um momento.

    Depois se levantou.

    Passou por Aura sem olhar.

    A porta fechou outra vez.

    O quarto ficou quieto com um peso diferente. Antes havia três pessoas e uma tensão triangular que nenhuma das três estava nomeando. Agora havia dois e o espaço que Aedin havia deixado, que era considerável.

    Eldrik ficou onde estava.

    Os olhos no chão.

    A mandíbula ainda fechada.

    — Você não precisa ficar — disse ele.

    — Eu sei.

    A varanda superior ficava no lado leste do castelo.

    Aura havia mapeado no primeiro dia por hábito — linha de visão para o portão principal, ângulo para o distrito sul, acesso por duas escadarias diferentes. Informação tática registrada e arquivada. Agora ela a usava para seguir Eldrik até lá sem precisar perguntar o caminho.

    O vento chegou antes que chegassem ao batente.

    Cervalhion queimava em pontos no setor sul. Não toda a cidade, mas o suficiente para o cheiro de fumaça ser constante.

    Eldrik apoiou os dois braços no parapeito.

    Ficou olhando para a cidade.

    Aura ficou um passo atrás e à esquerda.

    A posição que havia assumido por semanas — próxima o suficiente para ser útil, distante o suficiente para não parecer monitoramento. Era mentira, claro. Havia estado monitorando cada movimento dele desde que chegou em Cervalhion.

    Só que agora estava avaliando coisas diferentes.

    Não rotas de saída ou janelas de vulnerabilidade.

    Estava avaliando quanto tempo Elandor tinha antes de não conseguir mais pagá-la.

    A resposta era desconfortável.

    A Guardiã Rum’brath havia derrubado duas fortalezas. As rotas de seiva refinada estavam comprometidas. O Administrador do Leste entendia o padrão dos ataques, mas os nobres estavam em pânico — e nobres em pânico sabotavam qualquer contenção eficiente. Ela havia visto isso antes em outros contextos. A estrutura que poderia salvar o sistema era destruída pelas mesmas pessoas que dependiam do sistema.

    Varyn havia mandado ela para Cervalhion com uma ordem simples.

    Eliminar Eldrik.

    A ordem havia feito sentido quando foi dada.

    Fazia menos sentido agora.

    Um herdeiro morto encerrava possibilidades.
    Um herdeiro pressionado por culpa criava outras.

    — Dan estava com ele há trinta anos — disse Eldrik.

    Não estava olhando para ela.

    Olhava para os telhados do distrito sul onde o fogo havia pegado mais cedo.

    — Desde antes de eu nascer. — Uma pausa. — Ele era a única pessoa no castelo que nunca me tratou como símbolo de alguma coisa.

    Aura ficou quieta.

    Quando alguém começa a falar assim não é para receber resposta. É para ouvir o próprio pensamento em voz alta antes que endureça em algo mais difícil de carregar.

    — Eu sabia que tinha algo errado com meu pai.

    A mandíbula havia afrouxado. O que vinha agora era diferente do que havia estado contido no quarto.

    — Não a causa. Não sabia que estava sendo manipulado. Mas o padrão estava errado. As decisões não soavam como as vindas dele — muito rápidas, muito certas, sem o processo que eu conheço desde criança.

    Ele virou levemente a cabeça.

    Não para ela.

    Para o horizonte do outro lado.

    — E eu fui mesmo assim.

    Havia algo específico nessa frase que Aura reconhecia.

    Não arrependimento simples.

    A variante mais difícil. O arrependimento de quem sabia que estava fazendo algo errado enquanto fazia e fez mesmo assim.

    Ela conhecia esse peso.

    Guardava o próprio em lugares que não abria com frequência.

    — Quantas pessoas morreram? — perguntou.

    Era pergunta prática. O tipo que ela fazia naturalmente porque era como processava situações. Servia também para manter ele falando.

    — Soldados da Unidade Negra. — A voz saiu plana. — Cavaleiros da guarda. Magos. — Uma pausa. — Dan.

    O último nome chegou diferente dos outros.

    — Ian saiu vivo.

    — Eu sei.

    — E havia outro Guardião dentro de Cervalhion.

    Eldrik finalmente virou para ela completamente.

    Os olhos castanhos com linhas negras que ela havia catalogado como característica da linhagem Valcor.

    — Kael Seok. — O nome saiu com peso físico. — O Guardião das Cinzas… Dan morreu lutando contra ele.

    Aura ficou em silêncio.

    Dois Guardiões em Cervalhion.

    Se Aedin tivesse conseguido matar Ian — se o plano tivesse funcionado completamente — Kael Seok ainda estaria aqui.

    — Se tivessem matado Ian — disse ela com cuidado —, o que você acha que Kael teria feito?

    Eldrik olhou para ela por um segundo.

    — A mesma coisa que fez com Dan. — A resposta saiu sem hesitação. — Só que para todo o exército de Cervalhion.

    Ficou em silêncio.

    — Dan era forte — A voz saiu mais baixa agora. — E mesmo assim nem houve uma luta — Uma pausa. — Ele simplesmente foi reduzido a cinzas como se não fosse nada.

    Aura entendeu isso.

    — O que vai acontecer agora? — perguntou ela.

    — Com o quê?

    — Com Cervalhion. Com Altheria. Com a relação entre os dois.

    Ele ficou olhando para a cidade por um momento.

    — Não sei.

    Disse isso como se ainda estivesse processando o significado.

    — Se Lysvallis quiser, ela poderia declarar guerra, e atacar Cervalhion com tudo o que tem, afinal matamos uma de suas matriarcas aparentemente. — Ele respirou fundo concertando a postura. — Mas pelo que sei dela… se quisesse esse caminho já teria anunciado hoje mesmo.

    — O que isso significa?

    — Que ela ainda quer evitar guerra. — Uma pausa. — O que significa que ainda existe janela para isso. Pequena. Mas existe.

    Janela para evitar guerra entre Altheria e Cervalhion.

    Kael Seok ainda em Cervalhion ou próximo.

    Ian vivo mas fora de combate por tempo indeterminado.

    Elandor economicamente destruído e politicamente em colapso.

    Varyn sem recursos para pagá-la por muito mais tempo.

    E Eldrik , na varanda, contando tudo isso a ela

    Aura havia chegado em Cervalhion com uma ordem.

    Ordens eram instrumentos.

    Instrumentos serviam a objetivos.

    Objetivos podiam mudar quando as circunstâncias mudavam o suficiente.

    E as circunstâncias haviam mudado consideravelmente.

    Eldrik estava olhando para o horizonte de novo.

    O perfil dele contra a fumaça de Cervalhion e o céu que estava começando a clarear nas bordas.

    Não estava pensando nela.

    Estava pensando em Dan. Em Aedin. Em Lysvallis que havia ficado quando poderia ter ido.

    Em tudo que havia acontecido hoje e no peso específico de ter participado de algo que sabia que estava errado.

    Aura estava pensando em estrutura.

    Em o que conseguia construir aqui que não conseguia construir executando uma ordem que havia ficado obsoleta.

    Em o que Eldrik representava — não como alvo, mas como uma variável diferente.

    Ela ficou parada ao lado dele na varanda enquanto Cervalhion queimava em pontos no setor sul e o vento trazia fumaça e o cheiro de pedra aquecida.

    Observando.

    Ainda não havia decidido nada.

    Mas já não pensando na ordem da mesma forma que havia pensado quando chegou.


    O terceiro brinde da noite aconteceu antes mesmo do primeiro prato terminar de circular.

    — À estabilidade de Elandor! — anunciou um comerciante gordo demais para o próprio casaco enquanto erguia a taça.

    Algumas pessoas repetiram o gesto.
    Outras apenas beberam.

    Os músicos retomaram a melodia logo depois, abafando o resto da frase.

    O Salão de Vidro estava quente.

    Calor de gente demais tentando ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Seda roçando em seda. Perfume forte escondendo cheiro de vinho derramado e cera derretida. Criados atravessando o salão em fluxo constante enquanto nobres fingiam não observar quantos empregados haviam sido substituídos por temporários.

    Mael observava tudo do piso superior.

    Uma dama riu alto perto das colunas centrais.
    Artificial.
    Três segundos depois o marido dela começou uma discussão sobre rotas comerciais como se não tivesse passado a última semana vendendo patrimônio para cobrir prejuízo.

    — O norte perdeu mais duas caravanas ontem — dizia ele para um grupo pequeno ao redor. — Se continuarmos esperando resposta da guarda central vamos começar a escoltar o que sobrou da mercadoria por conta própria.

    — Isso seria ilegal.

    — Isso seria necessário.

    Outro homem tentou cortar a tensão antes que escalasse.

    — Pelo menos ainda temos vinho suficiente para discutir o fim do reino com dignidade.

    Risadas atravessaram o grupo.
    Curtas.
    Aliviadas demais.

    Mael desviou os olhos antes do final da conversa.

    Previsível.

    À esquerda do salão, um casal começou a dançar antes da música alcançar o refrão correto. A mulher tropeçou levemente no primeiro giro, rindo da própria falha enquanto o parceiro aproveitava para aproximar o rosto do ouvido dela e dizer alguma coisa que fez os dois diminuírem o sorriso logo depois.

    Negociações.

    Até as danças eram negociações agora.

    Dois criados passaram por baixo da sacada carregando bandejas novas. Um deles quase esbarrou em um comerciante distraído, mas outro garçom surgiu do lado oposto ajustando o trajeto antes da colisão acontecer.

    Movimento limpo.

    Natural.

    Mael acompanhou o rapaz por alguns segundos enquanto ele atravessava o salão entre vestidos e cadeiras sem interromper uma única conversa.

    Nem hesitação.
    Nem atraso.
    Nem tentativa exagerada de parecer util.

    Estranho.

    Empregados temporários sempre quebravam o ritmo da equipe em algum momento. Especialmente em eventos grandes, tentando chamar a atenção de algum nobre.

    Mas o fluxo daquela ala estava funcionando melhor que o normal.

    O garçom parou perto de um grupo de damas mais jovens.

    — Mais vinho, senhoritas?

    — Finalmente alguém útil nessa noite — respondeu uma delas arrancando risadas das outras.

    O rapaz sorriu de volta sem abaixar demais a cabeça.

    — Tento sobreviver ao meu turno com alguma honra.

    A mais nova das moças riu alto o suficiente para chamar atenção de duas mesas próximas.

    Boa voz.
    Boa leitura social.

    Mael observou mais um instante.

    Então descartou a hipótese.

    Se fosse um infiltrado recente, já teria errado alguma coisa até agora.

    Voltou a atenção para o centro do salão quando Lorde Seridan ergueu a voz perto demais dos músicos.

    — Varyn ficou tempo demais em Cervalhion.

    Dessa vez algumas pessoas realmente ficaram quietas.

    Uma mulher parou de girar no meio da dança.
    Um comerciante fingiu interesse repentino no próprio copo.
    Até os músicos pareceram reduzir o volume por instinto.

    — Rei Varyn meu amigo, não deixe a bebida levar a sua cabeça — completou outro homem. — Mas não discordo de você.

    Pequenos risos atravessaram o salão.
    Cuidadosos.

    Ninguém ali queria traição.

    Só queriam garantias de que não afundariam junto com o reino.

    A música mudou de ritmo perto das colunas do lado oeste.

    Mais rápida agora.

    Alguns casais deixaram o centro do salão enquanto outros entravam quase imediatamente no lugar, como se a troca tivesse sido ensaiada antes da noite começar.

    Talvez tivesse.

    Em Elandor quase tudo socialmente importante acabava ensaiado em algum nível.

    Mael começou a caminhada quando um movimento abrupto chamou a atenção.

    Um leque se fechou contra o ombro de Lady Mirelle

    — Você está olhando para as portas de novo.

    A jovem virou os olhos imediatamente.

    — Porque elas continuam abrindo.

    — É um baile.

    — E eu busco uma evacuação elegante.

    As amigas riram baixo.

    Elas estavam sentadas próximas das janelas altas do salão, o grupo ocupava uma das áreas laterais menos congestionadas, longe o suficiente dos comerciantes para evitar conversa política direta e perto o bastante da música para ignorar perguntas inconvenientes.

    Ou pelo menos fingir ignorar.

    — Meu pai dispensou metade dos empregados da propriedade ontem — comentou uma das moças enquanto girava vinho na taça. — E ainda insiste que estamos “administrando perdas temporárias”.

    — O meu começou a esconder documentos quando eu entro no escritório.

    — Isso significa falência ou traição?

    — Estamos em Elandor… claro que os dois.

    Mais risos.

    Mais sinceros dessa vez.

    Lady Mirelle apoiou o rosto na mão observando os casais dançando.

    — Acho impressionante como os homens conseguem fingir normalidade enquanto o reino desmorona.

    — Mas Você também está aqui.

    — Sim, mas eu ao menos admito que estou preocupada.

    Uma criada passou recolhendo pratos vazios.
    Atrás dela, outro garçom surgiu equilibrando uma bandeja de vinho entre dois nobres discutindo rotas marítimas alto demais para quem queria discrição.

    Movimento limpo.

    Silencioso.

    — Finalmente — disse uma das jovens estendendo a taça. — Achei que tinham abandonado nossa mesa.

    — Jamais faria algo tão cruel, senhorita.

    A resposta arrancou pequenos sorrisos quase imediatos.

    O rapaz era novo.
    Ou pelo menos não fazia parte da equipe fixa do palácio.

    Lady Mirelle teria lembrado dele.

    Cabelos e pele escura.
    Postura relaxada demais para um empregado comum.
    E olhos atentos em excesso para alguém servindo vinho.

    — Nome? — perguntou ela antes de beber.

    — Maek.

    Ela o analisou dos pés a cabeça.

    — Você é novo.

    — Temporário.

    — Péssima noite para aceitar trabalho no palácio.

    — Discordo. Tem comida melhor que nas tavernas.

    Dessa vez até Mirelle riu.

    Boa resposta.

    — Então, Maek — uma das garotas apoiou o rosto na mão enquanto ele servia vinho — você já decidiu qual de nós vai arruinar financeiramente primeiro?

    — Depende — respondeu ele sem perder o movimento da garrafa. — Qual de vocês custa menos para manter?

    As três riram quase ao mesmo tempo.

    — Insolente.

    — Realista — corrigiu ele.

    — Isso é uma pena… se minha casa não estivesse em crise no momento adoraria te contratar, sua sinceridade é algo raro.

    — Especialmente nesse salão — completou outra olhando discretamente para os nobres próximos. — Acho que aquele homem acabou de prometer uma frota que claramente não possui.

    Maek acompanhou o olhar dela rapidamente.

    — O de azul?

    — Você aprende rápido.

    — Ele gesticula como alguém tentando vender algo invisível.

    Lady Mirelle soltou uma risada curta antes de beber.

    Boa leitura.

    — E você? — perguntou ela observando ele por cima da taça. — Também vende coisas invisíveis?

    — Hoje? Só vinho.

    — Mentira. — Uma das amigas apontou para ele com a taça. — Você definitivamente vende problemas.

    — Problemas custam caro demais. Não cabem no orçamento de um garçom temporário.

    Mais risos.

    Um casal passou perto da mesa naquele momento discutindo baixo demais para entender claramente, mas alto o suficiente para arrancar olhares desconfortáveis quando a palavra “falência” escapou entre as músicas.

    Maek desviou para abrir espaço entre eles.

    Lady Mirelle percebeu isso antes das outras.

    Ele não parecia intimidado.

    Nem impressionado.

    Só… adaptável.

    Curioso.

    Como alguém acostumado a mudar de ambiente rápido demais.

    Um grupo maior de comerciantes passou perto da mesa nesse momento, abafando parte da música enquanto atravessava o salão discutindo aumento de tarifas.

    — Se abrirmos as rotas pelo sul, seremos os primeiros.

    — O rei deveria vetar logo a venda do estoque restante.

    — E matar o comércio restante?

    — Melhor isso do que outra fortaleza perdida ou perdermos o armazém.

    Maek desviou automaticamente.

    Lady Mirelle acompanhou aquilo por um segundo a mais do que pretendia.

    Então percebeu tarde demais que uma das amigas havia puxado ela para outra discussão.

    Quando voltou os olhos, o garçom já estava atravessando o salão novamente entre nobres, músicos e criados como se sempre tivesse pertencido ali.

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