Notas de Aviso

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    A Casa da Moeda ficava a uma boa distância de onde moravam. Gastando mais uma de suas preciosas folgas, Benk, que já conhecia o local desde que tinha cinco anos, durante o seu treinamento no ofício de escriba, precisava revisitar a estrutura e refletir sobre como abordaria o novo desafio.

    Ele levantou-se cedo e arrumou-se. Desceu até o refeitório para comer junto aos companheiros órfãos do alojamento. A mesma rotina, sua única rotina durante toda a vida. Mais sete estações e atingiria a maioridade, aos dezoito anos. Quando a idade chega, já preparado para a vida adulta, o acolhido tem que rumar para outra morada, conquistando a independência. Mas a troca de um teto por outro implica apenas isso; nada muda.

    Cruzou a cidade em duas ampulhetas, uma parte a pé, outra via carro de fogo. Vislumbrou à distância a fachada de seu objetivo. A Casa da Moeda localizava-se ao lado do vasto palácio governamental, um conglomerado de estruturas administrativas construídas de pedras milenares ornadas, individualmente, pelo temido e respeitado brasão real do Rei Dragão. Ali se encontrava o centro político da capital Om, ou mesmo do estado de Palard como um todo.

    No mesmo local, na ala oeste, as torres espiraladas da subsede do secto dos magos se aprumavam, imponentes.

    Percebeu que a segurança na região era rigorosa. Soldados vestidos com placas metálicas sobre couro firme e elmos reluzentes, armados com lanças curtas e espadas, patrulhavam as ruas de paralelepípedos; outros estavam em prontidão em pontos estratégicos ao lado da entrada do palácio e nas esquinas. Arqueiros também zelavam pelos arredores do topo das torres de vigia que ladeavam os muros palacianos por todo o perímetro.

    Com o olhar atento, o escriba calculava o campo de visão angular das posições armadas. Atravessou a rua e seguiu pelo pavimento lateral, passando em frente ao Museu Nacional de Palard. Tratava-se de um prédio de grande envergadura, cultuado como a mais bela arquitetura do período secular médio, marco da gloriosa reforma que aboliu definitivamente a escravidão há sete mil anos. E apesar de oficialmente chamarem de reforma, muitos Estados do Reino Antigo ainda enxergam o período como o massacre do Rei Vermelho — a última guerra geral que unificou definitivamente o continente sob o comando do Rei Mago Palard.

    Benk sentia o peso da história do mundo que entusiasmava sua intensa curiosidade e imaginação, mas não era uma visita contemplativa; sua prioridade atual era investigar as vielas laterais do esplendoroso local adjacente à casa monetária onde os registros do tempo escravocrata eram preservados.

    As estátuas dos doze Cavaleiros-Dragão originários, blocos de mármore imponentes do triplo de sua altura, guarneciam os ângulos externos do museu. Suas cores intensas e vívidas reluziam mesmo nas sombras do prédio histórico. Já o prédio ao lado, em sua extensão paralela, apresentava apenas uma sólida e longa parede de sustentação, sem qualquer brecha aparente, ou ao menos era o que uma pessoa normal pensaria.

    Ele contornou lentamente o local, parcialmente fingindo apreciar as esculturas e, por mais que resistisse, elas realmente o fascinavam. Enquanto os olhos vagavam por todos os detalhes ao seu redor, sondou os fundos da estrutura predial. Em sua mente traçou a imagem e o alinhamento do contorno urbano onde se encontrava. Primeiro a entrada do Palácio Real, do outro lado da rua, à esquerda a Casa da Moeda, e ao lado desta, o magistral prédio histórico de memória milenar. Seguindo pela viela que separava os prédios, podia acessar a rua dos fundos, onde guardas mantinham-se em prontidão próximos ao portão de carga e descarga da estrutura monetária.

    A Casa da Moeda possuía quatro andares, enquanto o museu, um pouco mais modesto, possuía apenas três. Pelo que conseguiu compreender, além da entrada principal, só existiam o portão metálico de carga e descarga no fundo da estrutura e, ao seu lado, uma porta de serviços.

    Deu a volta circundando a rua e observando também os muros reais do outro lado, e retornou à fachada principal de pedras sobrepostas por argamassa e acabamento em tinta bege. A entrada estava aberta, permitindo que enxergasse o átrio interior.

    Benk entrou no recinto que cheirava a tinta úmida e pó metálico. À sua frente, encontrava-se a recepção, e por mais que anos tivessem passado, tudo continuava exatamente como conseguia se lembrar.

    Ao fundo, ele bem sabia que uma escada dava acesso ao subsolo onde ficavam o cofre e o departamento de forja dos lingotes, com suas pesadas máquinas e habilidosos mestres da cunhagem. Requisitar serviços de armazenamento e proteção de bens direcionava o cliente para lá. Quem desejava registrar seus recursos ou requisitar serviços financeiros, dependendo de qual fosse sua demanda, era atendido no primeiro ou segundo andar. Sobre o terceiro e o quarto, Benk nada sabia, mas imaginava que fossem setores burocráticos, de gerência ou organização do sistema financeiro governamental.

    Ao se aproximar de um balcão de atendimento, foi recebido pelo sorriso de um rapaz bem vestido, pouco mais velho que ele.

    — Em que posso ajudá-lo? — disse ele, educadamente.

    — Gostaria de me informar sobre como abrir uma conta para registrar minhas posses — respondeu Benk, alinhando uma expressão simpática ao rosto.

    O atendente passou os olhos de cima a baixo pelo escriba e imediatamente calibrou a voz.

    — Certamente, e qual seria a soma que gostaria de registrar em nossa custódia? — indagou, agora com um timbre um pouco mais seco nas palavras.

    A boa e velha barreira entre os pesos de ouro e os pesos de bronze. Deduziu mentalmente, Benk. Ele bem sabia que para abrir uma conta, era necessário um aporte mínimo de cem moedas de ouro, e tudo o que ele tinha guardado no decorrer da vida não chegava nem perto disso.

    Mas não existia dicionário algum no mundo que o impedisse de mentir.

    — Trezentas moedas de ouro, um cavalo e um terreno de duzentos pés quadrados.

    O atendente manteve a placidez, mas nem todos os músculos de sua face sincronizavam com a polidez necessária. Precisava treinar mais.

    — Perfeito! — assentiu o jovem à sua frente. — E qual seria o seu n…

    — Mas tenho dúvidas! — cortou Benk, antes que ele pudesse prosseguir com o atendimento.

    — Pois não? — respondeu o rapaz.

    — Não confio na segurança, tem certeza de que a Casa da Moeda protege as minhas posses? — questionou Benk, em total sinceridade.

    Talvez pela brevidade de sua atuação, ou peculiaridade da pergunta, o atendente hesitou, surpreso.

    — Absolutamente. Uma vez registrado no sistema, sua propriedade é inviolável. E mesmo que por alguma extraordinariedade mágica, algo aconteça, o reino deve ressarci-lo prontamente — afirmou o rapaz, sem um único fio sequer de dúvida.

    — E se acontecer algo duplamente extraordinário? — perguntou o escriba, dobrando a ansiedade.

    — O reino jamais deixa de cumprir com suas obrigações — defendeu o atendente, quase se esquecendo por um instante de que estava em seu posto de trabalho.

    Benk entendeu. E temos aqui um grande e fiel súdito.

    — E como é o procedimento que garante toda essa segurança? — pressionou um pouco mais o escriba.

    — Bem… — começou o rapaz.

    — Como posso confiar? Qual o seu nome, rapaz? — perguntou Benk, entrecruzando questões completamente distintas.

    — Olgap, senhor — respondeu, ainda tentando elaborar a outra resposta.

    Por mais que o escriba não apresentasse qualquer sinal de autoridade, suas perguntas cortantes surtiram efeito sobre o atendente. Senhor é?

    — Muito prazer, Olgap — disse Benk, estendendo a mão enluvada ao jovem, que a apertou em respeito bem cultivado.

    E, antes que ele pudesse retomar a clareza, o escriba insistiu:

    — Como funcionam os procedimentos para abrir uma conta? Tem certeza de que são seguros?

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