Notas de Aviso

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    Benk entalhou diversos cilindros de madeira experimentais com a intenção de testar até onde a mana conseguia moldar a realidade.

    Mesmo que perdesse alguns turnos ou até uma estação inteira, a leitura do grimório havia lhe proporcionado ideias que não conseguia mais controlar.

    O livro estava escondido, longe do conhecimento do amigo, principalmente porque ainda não  entendia ao certo como a magia funcionava. Sob essa convicção, colocar Pelk em risco estava fora de cogitação.

    Grimórios eram estruturas de suporte para conjuração de magias e funcionavam como um atenuante, uma válvula de segurança parcial caso a magia se rompesse. A forte conexão estabelecida com o conjurador auxiliava na estabilidade da conjuração, fornecendo oportunidades para guiar o fluxo de mana de maneira mais branda, externamente ao corpo do mago.

    Ao tocar com seus dedos dourados sobre as gravuras e palavras no grimório, Benk sentiu um leve choque, mas ignorou, acreditando ser apenas um efeito adverso da mana ali preservada. O sangue do mago conjurador era misturado com extratos vegetais, tal como a seiva da planta finsy para catalisar a energia nas palavras de poder manifestas no papel. Uma vez que a conjuração se iniciasse, o fluxo era distribuído entre o mago e o livro, estabilizando o ato e permitindo até mesmo deslizes como gaguejos ou pausas inadequadas. Dependendo da concentração do conjurador, até mesmo o direcionamento de uma conjuração falha poderia ser controlado, ou seja, o efeito aleatório não atingiria o mago.

    Benk, como ávido leitor, também sabia sobre o defeito da estrutura. Um grimório, uma vez confeccionado e adequadamente composto pelas palavras de poder, seus símbolos e ornamentos vocabulares ou gravuras, não podia mais ser desativado. Eles absorviam e estavam conectados, sugando mana do mundo ao redor, e ao contrário dos cristais, pareciam não apresentar um limite.

    Quanto mais antigos os grimórios, mais intensas e poderosas eram as suas conjurações. E, paradoxalmente, apenas o mago cujo sangue fora utilizado para compor a obra conseguiria extrair o efeito máximo da magia ali preservada, qualquer outro conjurador não obteria o mesmo resultado. O vínculo entre o livro e o escritor era um vínculo vivo.

    Movido pelas palavras de conjuração da obra e ávido por descobrir novas estruturas mágicas, Benk entalhou diversos cilindros e desenhou runas sobre papéis para desvendar as potencialidades da magia.

    Como sua próxima empreitada seria inserir na Casa da Moeda local documentos falsificados em nome de terceiros, requisitando a confecção do título de posse, ele elabprava em sua mente estratégias de como efetivaria essa etapa.

    — As requisições em si são fáceis — pensou Benk em voz alta.

    — É só transcrever um documento burocrático e falsificar a assinatura do despachante — comentou Pelk, sem saber se era necessário iniciar uma conversa, ou se o amigo estava apenas falando sozinho, como normalmente fazia.

    Sem precisar de qualquer outra sinalização que não o silêncio, o mago entendeu que era a segunda opção.

    Benk desenhava em papéis retangulares frases poéticas evocativas. Os grifos em contornos belos harmonizavam com os ideogramas e os números. Ele misturava linguagens como matemática e pilares ideogramáticos envoltos e coordenados por runas. — Espero que funcione — disse o escriba ao terminar de compor o selo mágico.

    — Pelk, preciso de mana! — chamou Benk, ao despertar de dentro da própria concentração.

    Ambos se apressaram para iniciar o experimento.

    — Tem certeza de que esse cilindro é o melhor? Os comandos são bem simples! — constatou o mago, colocando a mão sobre o cristal do conversor.

    — Hum… às vezes é melhor não complicar demais. Eu só preciso que converta a mana, o resto a configuração do selo deve dar conta! — afirmou Benk, com certa expectativa acelerando sua respiração.

    Energia vital que tece a amplitude do movimento, seja a força que transmite o resultado. Que preencha o enunciado manifesto.

    A mana percorreu o cilindro interno que estava exposto. As bordas rúnicas na madeira incandesceram enquanto o marrom vegetal carbonizava gradualmente. O cilindro quantitativo regulava a potência transmitida para o papel que, letra por letra, se iluminava em mana, mesmo que apenas Pelk enxergasse o selo se preenchendo de potencialidade.

    — Pronto! — avisou o mago, quando todas as runas do recipiente estavam cheias.

    Benk imediatamente puxou o papel e o ergueu na altura dos olhos. Verificou se faltava alguma palavra, ideograma ou numeral.

    Aproximou-se da porta do alojamento, verificou a lingueta e certificou-se de que estava trancada.

    — Afaste-se, Pelk — orientou o escriba.

    Com cuidado, lentamente colocou o selo sobre a estrutura metálica, recobrindo-a. E com ainda mais cautela, dobrou a diagonal inferior direita do papel, ponta essa que, com delicadeza, empurrou em direção a um pequeno ideograma de ignição na borda do selo.

    O toque entre as superfícies porosas foi mínimo, mas o suficiente. Com um estalido seco e um barulho vibrante de madeira lacerada, em um piscar de olhos, o que se apresentou foi uma porta em que a lingueta acoplada à fechadura penetrou pela estrutura cerca de dois dedos em direção ao lado oposto do batente.

    — O que aconteceu? — perguntou o mago, aproximando-se.

    Benk retirou o papel, puxou a maçaneta e observou o resultado.

    — Acho que exagerei na quantidade de força — disse o rapaz, rindo euforicamente.

    — O metal da fechadura se incrustou na madeira da porta… vamos precisar comprar uma fechadura nova, Pelk!

    O mago, parcialmente assustado, riu em resposta.

    — Você é quem vai pagar!

    Ciência é tentativa e erro, amigo. Pelk sabia que Benk estava certo, e apesar do humor volátil devido à meia dúzia de fechaduras danificadas, encontrar-se com Ling ao fim do expediente transformava sua irritação em empolgação, por mais que tentasse negar.

    De maneira semelhante, quando foi convidado a visitar Lorem novamente, Benk sentiu um certo impulso que o motivou a aceitar o convite.

    Dois turnos depois, lá estava ele, ao lado de Kabar e Moav, a caminho de mais um chá na casa da senhora Hord.

    O clima agora estava mais frio, e esfriaria ainda mais. Uma época do ano em que ser escriba era um martírio.

    Moav comentou sobre a possibilidade de serem instalados aquecedores no departamento. Kabar, que agora já não desempenhava o papel de escriba, mas que ainda se lembrava dos árduos invernos em que seus dedos sofreram, não podia concordar mais.

    Quando se aconchegaram na sala de Lorem, o aquecimento do cristal de dois palmos de circunferência, disposto ao lado, próximo à parede em suporte metálico, fez com que sentissem gratidão por terem tirado os casacos espessos.

    — É como se uma lareira crepitasse em plena intensidade — comentou Kabar.

    — É muito caro? — perguntou Moav, referindo-se ao aquecedor movido a mana.

    Lorem, ornada por um lindo xale cinza tricotado à mão, serviu chá de ervas bem quente para os convidados.

    A mulher era importunada por um pequeno gato malhado que se entrelaçava em suas pernas.

    — Infelizmente, sim. Hord me disse que custou o salário de meio ano de trabalho — respondeu a senhora, erguendo o felino e colocando-o em seu colo.

    Benk, cercado por outros dois felpudos, sentia pequenas unhas escalarem sua perna, causando um leve incômodo ao penetrarem o tecido de sua calça.

    — Cristais artificiais demandam muita energia para serem feitos — disse ele, retorcendo a expressão no rosto devido às agulhadas felinas.

    Lorem riu da situação.

    — Eles gostaram de você — afirmou a senhora.

    — Me passa essa fofura, por favor, Benk — requisitou Moav, com inveja do amigo, apontando para o cinzento espoleta cravado em sua perna.

    — Adotou três gatinhos lindos, dona Lorem — comentou a moça.

    Kabar, por sua vez, admirava o cristal pendurado na parede.

    — É muito cara a recarga? — perguntou ele, sem desviar o olhar da gema.

    Lorem sorveu um pouco de chá e terminou de engolir um pedaço de bolo.

    — Não muito. O comum é trocar o cristal inteiro por um já carregado. Em troca deixamos o vazio no lugar — explicou a viúva.

    — Dura bastante a carga? — perguntou Moav, sentindo prazer, enquanto seus dedos eram mordidos de leve pelas pequenas presas do jovem gato cinzento.

    Antes que Lorem pudesse responder, Benk, absorto em pensamentos, respondeu por reflexo.

    — Cerca de três turnos se o uso for intenso. E demora uma estação inteira para recarregar sozinho, caso não esteja em uso.

    Lorem sorriu para o escriba com complacência.

    — É isso mesmo — disse ela. — Conhece bem os cristais, meu jovem.

    Os olhos de Benk vagavam pelos gestos e expressões da senhora, tentando vislumbrar algum fragmento de desconfiança ou desconforto, mas ela não apresentava nenhum sinal ou comportamento adverso.

    — Ah, apenas li por curiosidade em algum livro — disse Benk, confessando a verdade.

    Kabar olhou ao redor e comentou com os presentes:

    — É muito conveniente. A lareira na nossa casa não chega nem perto desse resultado.

    — Mas como a senhora está? Conte as novidades desde a última vez que a visitamos — disse Moav, com entusiasmo.

    Com os olhos brilhando, a senhora Hord desatou a narrar as curiosidades do bairro. Comentou sobre o jovem bem-apessoado que, por coincidência, bateu à sua porta e possibilitou que ela adotasse os adoráveis gatinhos; sobre o mistério de suas coleiras e sobre as dificuldades de encontrar certos livros em sua casa.

    — Não sei onde foi parar — confessou ela. — Era um livro muito importante para Hord.

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