Índice de Capítulo

    A escuridão engolia as lâminas dos soldados de Nova Arcádia. Theo desferiu um golpe horizontal com sua espada. O aço atravessou o peito de uma sombra e encontrou apenas o ar frio. A sombra parou por um instante, o buraco em seu peito remexeu e então retornou ao que era antes. O capitão recuou dois passos para desviar de uma lança etérea que rasgou a lateral de seu escudo.

    — Fechem a linha! — Theo ordenou.

    Calixto puxou a corda de seu arco e soltou três flechas em rápida sucessão. Os projéteis de madeira perfuraram a neblina e cravaram na terra sem causar nenhum dano aos inimigos amorfos. As fileiras de soldados cediam a cada investida das trevas. O cansaço pesava nos ombros dos guerreiros e o desespero silencioso tomava conta da praça.

    — Fecha o centro! — Theo gritou de algum ponto à sua direita. — Não deixa eles entrarem pelo centro!

    Calixto virou o olhar. O centro da linha havia cedido enquanto ela cobria o flanco. Três sombras já estavam dentro, baixas e rentes ao chão. Os soldados ao redor golpeavam no escuro.

    O braço direito de Calixto ardeu quando ela puxou a próxima flecha. Havia uma ferida no bíceps que ela havia parado de sentir minutos atrás. Ignorou o ardor e tensionou a corda.

    — CALIXTO!

    Theo estava no chão. Levantou com os joelhos antes de estar de pé. Tinha sangue na sobrancelha esquerda. A espada ainda estava na mão.

    — Estou bem! — gritou, mais para os soldados ao redor do que para ela.

    — Você está sangrando.

    — Todo mundo está sangrando! — Theo avançou de volta para o centro. — Isso não é novidade!

    Calixto quase sorriu, mas não era o momento. Voltou os olhos para o campo.

    Um estrondo de madeira partida chamou a atenção da linha de frente. Uma luz insurgiu como reflexo no chão.

    Era azul, difusa, que vinha de baixo e de múltiplos pontos ao mesmo tempo. Calixto franziu o olhar. No meio do campo de batalha, entre soldados e sombras e centauros, as flores caíam.

    Os olhares se ergueram do campo de batalha.

    Lycomedes despontou no alto de uma barricada destroçada. A respiração do administrador do assentamento falhava, e seu corpo exibia cortes recentes. Ele carregava um bornal farto pendurado no ombro do braço amputado.

    A mão com seis dedos lançava punhados de erva-da-lua ao campo. As flores atingiam o chão e o brilho azul se espalhava ao redor de cada pétala.

    Pétalas luminescentes caíram sobre a terra manchada de sangue. Uma luz pálida e prateada irradiou pelas pedras da praça. A claridade expulsou as trevas absolutas e conferiu contornos sólidos às sombras inimigas.  Iluminava o suficiente para ver os contornos a dois metros, para saber de onde vinha o próximo golpe.

    O brilho prateado refletiu nos olhos dos escudeiros. Eles ergueram os braços com vigor renovado e bateram as espadas contra o bronze. O moral das tropas inflou em um grito de guerra uníssono. A batalha recomeçou com vantagem para a luz.

    Os soldados viram.

    Houve uma mudança na linha, uma verticalização dos ombros, uma firmeza nas posições. Um soldado que havia recuado três passos avançou dois. Outro ergueu o escudo mais alto do que havia feito pelo resto da noite.

    Lycomedes avançou e arremessou as flores brilhantes em todos os cantos do campo de batalha, sempre a evitar passar no centro do confronto. Theo fazia frente e impedia que qualquer coisa chegasse nele.

    — Isso! — Theo gritou, com voz trêmula que traia a firmeza nas ordens anteriores. Alívio. — Agora! Ombro a ombro! Não cedam mais um metro!

    Calixto alcançou Lycomedes pelo braço quando ele passou por ela.

    — De onde veio isso?

    — Do jardim de Sophia. — sua respiração estava pesada. — Imaginei que pudesse ajudar.

    — Ajuda. — Calixto soltou o braço dele. — Agora sai da linha antes que alguma coisa te mate.

    — Estou bem onde estou.

    Ela abriu a boca. Fechou. Não havia tempo para aquela conversa.

    — Não fique no caminho velhote.

    Ele sorriu e assentiu.

    Logo, a névoa das sombras se condensou no ângulo entre o muro sul do assentamento e os restos da portaria. O ponto mais escuro do campo, onde a noite de Nix encontrara aliança com a noite natural. Mnemósine surgiu com a espada bastarda em mãos.

    Nesso virou a cabeça na direção da deusa. Ficou imóvel enquanto ela atravessava o campo destruído, as pedras quebradas, as tendas caídas, os corpos que a batalha havia deixado.

    — Eis aqui. — Mines chegou ao alcance dele e ergueu a espada bastarda entre os dois. — A Lâmina Negra de Hefesto. Hefos. — olhou para o campo de batalha ao redor. — Partamos. Nosso trabalho aqui está feito.

    Nesso se aproximou e pegou a espada com uma mão.

    Examinou. Girou o pulso devagar, sentiu o peso. A lâmina era comprida demais para um mortal comum, mas Nesso tinha proporção monstruosa; o tronco sobre o corpo equino carregava braços com alcance que poucos artefatos haviam sido forjados para aproveitar. Equilibrou a espada. Pesava de um jeito diferente das armas que havia usado. Um sorriso lento e gradual se formou em seu rosto.

    — Perfeito… 

    — Nesso. — Mines apertou os olhos em direção ao companheiro. — Precisamos partir.

    — Eu ouvi você. — Nesso continuou olhando para a lâmina.

    — A missão.

    — A missão do mestre. — Nesso repetiu as palavras calmamente, saboreando cada sílaba. — A tarefa que nos foi atribuída. O objetivo para o qual fomos enviados como ferramentas bem cuidadas. — virou os olhos vermelhos para Mines pela primeira vez desde que ela havia chegado. — E se eu não quiser mais?

    Mines ficou em silêncio por um segundo.

    — O que está dizendo?

    — Estou dizendo que Nova Arcádia ainda está de pé. — Nesso ergueu a espada e apontou para o campo de batalha ao redor com naturalidade. — Estou dizendo que temos três centauros, um exército de sombras e uma arma capaz de derrubar deuses com um único golpe bem dado. — A espada baixou. — Nós mal sujamos os cascos com a carne dessa escória.

    — O mestre precisa da espada.

    — O mestre vai receber a espada. — Nesso mostrou suas presas em um sorriso bestial. — Bem no meio do peito.

    — Planeja trair nosso mestre? — Mines recuou um passo com cuidado.

    — Um homem que carrega uma arma capaz de matar deuses não possui mestre algum.— Nesso testou o arco do movimento com a espada, a lâmina cortou o ar em diagonal. — Esse é o princípio básico de qualquer hierarquia de poder, Mnemósine. Você, de todos os seres que já existiram, deveria entender isso.

    A deusa da memória franziu o nariz.

    — Será executado por isso.

    — Talvez. — Ele encolheu os ombros. — Se alguém for capaz de tal feito. — Virou a cabeça para os centauros restantes no campo e a voz de comando saiu.  — Terminem a chacina. Que não reste pedra sobre pedra neste lugar imundo.

    Os centauros avançaram.

    — Você idiota. — A frieza deu lugar à raiva na voz de Mnemósine. — Você não entende o que está destruindo. O mestre tem planos que você…

    — Vá embora, Mnemósine. É o que posso fazer por me trazer isto. — Nesso já não a olhava. Olhava para a linha de defesa à frente, para os soldados, para o que restava de Nova Arcádia dentro dos muros. — Antes que eu mude de ideia sobre deixar você ir.

    O silêncio durou três segundos.

    As sombras ao redor de Mines se condensaram e ela desapareceu nelas.

    Nesso caminhou para a linha de defesa com a espada bastarda na mão e os olhos vermelhos nos soldados que seguravam o que restava da posição.

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