Ao redor, os outros alunos saíam das cápsulas segurando documentos preenchidos. Alguns escondiam rapidamente os resultados. Outros liam repetidas vezes a mesma linha, incapazes de acreditar no que viam. Houve até um garoto que abriu um sorriso tão grande que precisou se controlar para não comemorar. 

    Todos tinham alguma coisa. 

    Vance tinha traços. 

    A folha estalou levemente quando seus dedos apertaram o papel sem perceber. 

    — Isso não parece certo. 

    A voz veio ao lado dele. 

    Blaidd. 

    Pela primeira vez desde que se conheceram, não havia humor no tom dele. 

    Vance entregou o documento. 

    Blaidd pegou. 

    Leu. 

    Piscou. 

    Leu de novo. 

    Então virou a folha. 

    Depois virou de volta. 

    — Tá de brincadeira. 

    — Eu também achei. 

    — Não, sério. 

    Blaidd aproximou o papel do rosto. 

    — Nem uma observação? 

    — Nem uma. 

    — Nem “resultado inconclusivo”? 

    — Nada. 

    Ele devolveu a folha. 

    — Blaidd Vaedrin. — O professor chamou. 

    — Ah, claro — murmurou. — O universo não podia esperar cinco segundos 

    O comentário veio acompanhado de um suspiro exagerado, mas não teve o efeito habitual. Nem ele parecia particularmente disposto a sustentar a piada. Ainda assim, guardou as mãos nos bolsos e começou a caminhar em direção à cápsula como alguém indo para um compromisso inevitável. Antes de entrar, lançou um último olhar para Vance. 

    — Se eu não voltar, quero que me enterre e plante uma arvore. 

    — Você vai entrar numa máquina de diagnóstico. 

    — Exatamente. Nunca se sabe. 

    Vance observou por alguns instantes, mas sua atenção logo retornou ao papel em suas mãos. Os dedos deslizaram pela dobra da folha sem que ele percebesse. Pela terceira vez, seus olhos desceram pelas mesmas linhas vazias. 

    O documento parecia menos um resultado e mais um formulário que alguém havia esquecido de preencher. Mas aquilo não fazia sentido. Ele tinha passado pelas plataformas. Tinha feito os testes físicos. Tinha visto os painéis registrarem leituras. As máquinas haviam funcionado para todos os outros alunos. 

    Então por que não para ele? 

    O pensamento voltava sempre ao mesmo ponto. 

    Se o resultado fosse ruim, ainda seria um resultado. 

    Se tivesse falhado em tudo, haveria números baixos. 

    Se existisse algum defeito em seu Fluxor, o relatório deveria apontá-lo. 

    Mas aquilo não era uma resposta negativa. 

    Era simplesmente… nada. 

    — Será mesmo que eu tenho um Fluxor…? — Ele murmurou. 

    O som da cápsula se abrindo trouxe sua atenção de volta. 

    Blaidd saiu alguns segundos depois. À primeira vista, parecia exatamente igual. Não havia brilho ao redor dele, nem qualquer reação dramática que denunciasse um resultado extraordinário. Apenas caminhou até o funcionário que o aguardava e recebeu o papel dobrado. 

    Então ele abriu e leu. 

    A mudança foi pequena. 

    Tão pequena que provavelmente passaria despercebida para qualquer outra pessoa. 

    Mas Vance percebeu. 

    Foi apenas uma fração de segundo em que os olhos de Blaidd permaneceram presos em algo específico do documento. Depois ele piscou, releu o conteúdo e dobrou a folha imediatamente, rápido demais para alguém que normalmente fazia piada com tudo. 

    Quando começou a voltar, seus olhos passaram brevemente por Marcus Mori. 

    O professor estava diante de uma tela conectada ao sistema central de avaliações, acompanhando os resultados conforme eram registrados. Algo naquele momento fez Marcus erguer os olhos. 

    Não para Blaidd. 

    Mas para Vance. 

    O olhar durou pouco. 

    Mas não pouco o suficiente. 

    E então desapareceu, como se jamais tivesse acontecido. 

    Blaidd chegou ao lado dele poucos segundos depois. 

    — Então? — perguntou Vance. 

    Blaidd guardou o papel no bolso antes mesmo de responder. 

    — Estou ferrado. 

    A resposta veio tão seca que Vance levou um instante para processá-la. Não havia exagero dramático, nem o tom brincalhão que Blaidd costumava usar para transformar qualquer situação em uma piada. 

    Vance observou o amigo por alguns segundos antes de perguntar: 

    — O que aconteceu? 

    Blaidd soltou o ar devagar pelo nariz. A expressão dele não era exatamente de tristeza ou raiva. 

    Por alguns instantes ele não respondeu. Apenas acompanhou com os olhos o movimento dos funcionários recolhendo equipamentos e encerrando os últimos registros dos testes. Quando finalmente falou, sua voz saiu mais baixa do que o habitual. 

    — Minha família inteira é composta por Destruidores. 

    Vance permaneceu em silêncio. 

    — Sejam Destruidores Construtores, Destruidores Supressores, qualquer tipo, mas sempre Destruidores. 

    Ele lembrava da explicação de Marcus Mori. Os caminhos não eram apenas especializações. Para muitas famílias, eles eram praticamente heranças. Linhagens inteiras construíam reputações, técnicas e tradições ao redor deles. Um caminho não definia uma pessoa, mas certamente definia muitas expectativas. 

    Blaidd apoiou as mãos nos bolsos e inclinou levemente a cabeça para trás. 

    — Quando digo inteira, quero dizer inteira mesmo. 

    A maneira como falou deixou claro que não estava exagerando. Não era um comentário casual. Era um fato. 

    — Meu pai, minha mãe, meus avós, meus tios, meus primos. Todos. 

    O silêncio que se seguiu foi suficiente para Vance entender o resto antes mesmo de ouvir. 

    Ele não era um Destruidor. 

    Blaidd soltou uma pequena risada sem humor ao perceber a conclusão estampada no rosto dele. 

    — Exatamente. 

    Por um momento, o olhar dele se perdeu entre os grupos de alunos espalhados pelo salão. Alguns já discutiam seus resultados com entusiasmo. Outros comparavam caminhos e capacidades. Pareciam pessoas que tinham acabado de encontrar seu lugar no mundo. 

    Blaidd parecia alguém que tinha acabado de descobrir que o lugar reservado para ele nunca existiu. 

    — Recebi o caminho de Construtor. 

    A frase ficou suspensa entre eles. 

    Vance não sabia muito sobre os caminhos além do que ouvira durante a aula. Mas sabia o suficiente para entender o problema. Não era um caminho ruim. Longe disso. Construtores eram respeitados. Essenciais, até. 

    — Sou um Construtor Alterador 

    Blaidd passou a mão pelos cabelos. 

    — Séculos. 

    Vance ergueu uma sobrancelha. 

    — O quê? 

    — Séculos sem aparecer alguém diferente. 

    Ele deu uma risada curta. 

    — Em algum lugar da história dos Vaedrin existe um ancestral olhando para mim agora e balançando a cabeça em desaprovação. 

    Aquilo arrancou um sorriso involuntário de Vance. 

    —  Pelo menos você tem alguma coisa. 

    As palavras saíram antes que Vance pudesse pensar muito nelas. 

    No instante seguinte, ele percebeu que talvez tivesse sido mais honesto do que pretendia. 

    Blaidd ficou em silêncio. 

    Apenas observou o amigo por alguns segundos enquanto o movimento do salão continuava ao redor deles. Funcionários recolhiam equipamentos. Alunos se agrupavam naturalmente em pequenos círculos, comparando resultados, discutindo afinidades e tentando descobrir quais caminhos eram considerados mais raros ou mais valiosos. 

    Todos pareciam ter recebido uma peça do quebra-cabeça sobre si mesmos. 

    Todos, menos um. 

    O olhar de Blaidd desceu para o bolso onde Vance havia guardado o documento. 

    Quando voltou a falar, sua voz tinha perdido quase toda a ironia habitual. 

    — Eu acho que você é a única pessoa aqui que não percebeu o quão estranho isso é. 

    Mesmo agora, depois de vários minutos, Vance ainda não conseguia decidir se deveria interpretar o documento como uma falha do sistema ou como uma resposta legítima. 

    Nenhuma das duas opções parecia fazer sentido. 

    — Talvez a máquina tenha quebrado. 

    A sugestão soou fraca até para ele. 

    Blaidd soltou uma pequena risada. 

    — E agora? Deveríamos perguntar ao professor? 

    — É isso.

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