— Estou de volta. — Vance disse ao pisar em casa. 

    A porta se fechou atrás dele com um estalo leve. 

    Por um instante, ninguém respondeu. 

    Então passos surgiram do outro cômodo. Lentos, reconhecíveis antes mesmo de aparecerem. 

    — Você voltou cedo. 

    A voz da mãe veio antes dela entrar no campo de visão. 

    Ela apareceu no corredor com um pano de prato nas mãos, como se tivesse interrompido algo. Os olhos passaram por Vance de cima a baixo, sem invasão, apenas aquele tipo de leitura silenciosa que mães fazem. 

    Vance abriu a boca, mas não saiu nada imediato. 

    Ele ainda estava meio preso naquele outro lugar. 

    — Acabou mais rápido do que eu esperava. 

    A resposta soou neutra demais até para ele. 

    A mãe assentiu devagar, como se aceitasse a frase sem precisar acreditar nela completamente. 

    — E como foi? 

    Vance desviou o olhar por um segundo. 

    O chão parecia mais interessante do que deveria ser. 

    — Foi… estranho. 

    Ele engoliu seco. 

    — Eles fizeram vários testes. 

    A mãe encostou de leve na parede do corredor, ainda observando, sem interromper. 

    — E? 

    Vance demorou um pouco antes de responder. A palavra seguinte parecia mais difícil do que qualquer prova que ele tinha feito no dia. 

    — Eu não apareci direito nos resultados. 

    O silêncio que veio depois foi para tentar compreender. 

    A mãe piscou devagar. 

    — Como assim “não apareceu”? 

    Ele respirou fundo. 

    E dessa vez não conseguiu evitar. 

    — Eles disseram que meu Fluxor não pode ser lido. 

    Agora sim, a expressão dela mudou. 

    Não de forma dramática. 

    Mas o suficiente para deixar claro que aquilo não era uma resposta comum. 

    Ela deu um passo mais perto. 

    — Não pode ser lido? 

    Vance assentiu. 

    — Acho que sou fraco. 

    A última frase saiu mais baixa. 

    Como se falar em voz alta tornasse aquilo mais real do que ele queria. 

    A mãe ficou em silêncio por alguns segundos. Os olhos dela não estavam nele exatamente, mas também não estavam longe. Era aquele olhar de alguém reorganizando o mundo em tempo real. 

    Então ela soltou o ar devagar. 

    — Vance… 

    Ele esperou. 

    Ela não terminou a frase imediatamente. 

    Quando continuou, a voz estava mais cuidadosa. 

    — Você está cansado. 

    Ele quase respondeu que não era isso. 

    Mas não conseguiu sustentar. 

    O cansaço não era físico. Não era do tipo que se resolve dormindo. Era outro, mais espalhado, mais confuso, como se algo dentro dele tivesse sido reorganizado sem permissão. 

    — Não dá. 

    Vance apertou levemente os dedos, como se estivesse tentando segurar algo que não tinha forma. 

    — Se eu for assim… 

    Ele hesitou, o olhar fixo em algum ponto entre o chão e a parede, sem realmente ver nenhum dos dois. 

    — Eu não vou conseguir… 

    Silêncio. 

    — Eu prometi para ela… 

    Agora a voz veio mais baixa, mas mais firme também, como se algo dentro dele tivesse encontrado uma linha que não podia mais ser ignorada. 

    A mãe não reagiu de imediato. 

    E Vance continuou, como se parar fosse mais difícil do que falar. 

    — Eu ainda não sei o que fazer, eu juro.  

    A mãe continuou em silêncio. 

    Não parecia surpresa com a direção que aquilo estava tomando. Apenas escutava. 

    Ela soltou o ar devagar e desviou o olhar por um instante, como se organizasse pensamentos antigos. 

    Quando voltou a falar, a voz veio baixa, firme, sem suavizar demais. 

    — Vance… 

    Ela deu um passo pequeno para o lado, encostando de leve na parede do corredor, não como alguém que está se afastando, mas como alguém que sabe que aquilo não vai ser uma conversa curta. 

    — Nem tudo o que a gente quer consegue ficar com a gente. 

    Ele não respondeu. 

    A frase ficou no ar por um momento, pesada, sem pressa de se resolver. 

    Ela continuou. 

    — Algumas coisas a gente tem que deixar ir. 

    Vance franziu levemente o cenho, mas não interrompeu. 

    Ela não levantou a voz, não endureceu o tom. Só seguiu, como quem fala de algo que já viveu tempo demais. 

    — Não porque deixou de importar. 

    Ela fez uma pausa breve. 

    — No final de tudo, ainda somos apenas humanos. 

    O corredor pareceu mais quieto do que antes, como se até a casa tivesse entendido o peso daquilo. 

    Vance apertou os dedos de leve, sem perceber. 

    — Eu não posso só… deixar passar. 

    A mãe assentiu devagar, como se já esperasse essa resposta. 

    — Pode. 

    A palavra veio simples demais para o que ela carregava. 

    Ela respirou fundo. 

    — O tempo pode curar tudo. Só não vai ser fácil. 

    Vance não respondeu. 

    A frase ficou entre os dois como algo que não precisava de mais explicação, mas que também não cabia ser ignorado. Ele ficou alguns segundos parado, olhando para um ponto qualquer do corredor, como se tentasse encontrar uma resposta que não vinha nem do pensamento, nem da vontade. 

    A mãe não insistiu. 

    Só ficou ali. 

    Presente. 

    E isso, de alguma forma, tornava tudo ainda mais difícil de fugir. 

    Vance soltou o ar devagar pelo nariz e passou a mão pelo rosto, num gesto curto, quase automático, como se estivesse tentando reorganizar algo dentro de si que não obedecia. 

    — Eu vou… deitar. 

    — Tá bom — a mãe assentiu sem acrescentar nada. 

    Vance subiu as escadas e então abriu a porta. O quarto parecia o mesmo de sempre quando ele entrou. 

    Ele largou a mochila no chão e caminhou até a cama. Sentou primeiro, sem deitar de imediato, os cotovelos apoiados nos joelhos, o olhar perdido em algum ponto do quarto que não tinha importância real. 

    Elena ainda estava lá, em algum lugar. Nos céus, em algum continente desconhecido, ou sabe-se lá onde. Assim como sua mãe sentia que seu pai estava vivo, ele também poderia afirmar, Elena ainda se mantinha bem. 

    E então o quarto ficou quieto de verdade. 

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota