Dia 8

    Sol forte. Areia fina. Suor pesado. Ethos emburrado. Durak arrependido.

    — Velho tarado, você sabe mesmo o caminho, né? — disse Ethos, sem sequer olhar para Durak. 

    — Pirralho… — Durak soltou um longo suspiro. — Como eu já expliquei, mesmo fora da rota, é fácil se localizar pelas estrelas. Foi assim que descobri o caminho ontem, enquanto você dormia. 

    Tsc… — o garoto estalou a língua — De quem é a culpa por sairmos da rota?

    Durak sentiu uma pontada no peito e seguiu cabisbaixo, em silêncio.

    Enquanto Ethos continuava resmungando e lançando pequenos insultos, Durak tentava manter a paciência. No fundo, sabia que o garoto tinha razão.

    — Pirralho, sei que você tá irritado, mas preparei uma surpresa que vai fazer você me perdoar. Você vai amar o que tem logo ali na frente. 

    — Não mude de assunto, velho tarado — respondeu Ethos, ainda se recusando a olhar para Durak.

    — Não, é sério. Passando esse barranco… — disse Durak, já no topo de uma grande duna.

    — Hum… sei.

    Desconfiado, Ethos subiu a duna. Assim que alcançou o topo, seus olhos se arregalaram.

    — MEU DEUS! Que porra é essa!? — gritou.

    Durak abriu um largo sorriso e alisou a barba.

    — Hahahá! Eu falei que você ia gostar. Quem sabe agora você me perdoa.

    Ethos deu alguns pulos de empolgação e encarou Durak com os olhos brilhando.

    — Que negócio enorme é esse!?

    — Isso, pirralho… se chama Ciclope.

    Durak apontou para a criatura gigantesca. Mesmo a uma distância absurda, ainda era possível enxergá-la com nitidez. 

    — Dizem… — continuou Durak —que ela já caminhava por este mundo muito antes de existir qualquer registro da história.

    Ethos escutava com tanta atenção que mal piscava. 

    Ótimo… Com isso ele vai esquecer aquela história dos Arenitas, hehehe…, pensou Durak, mantendo um sorriso largo no rosto.

    Ela se move tão lentamente — seguia falando Durak. — que achavam que era uma estátua.

    A gigantesca criatura se assemelhava a um humano, mas gigante. Passava fácil dos trinta metros de altura e possuía apenas um olho bem no meio da testa. Sua pele era escura e, naquele instante, permanecia apoiada sobre uma única perna, enquanto a outra pairava alguns centímetros acima do solo.

    Então, o sorriso no rosto de Durak desapareceu e ele se virou para trás.

    — Pirralho, se proteja! — gritou.

    — Que? — Ethos se virou, confuso.

    De repente, um arrepio percorreu sua nuca. 

    Seus olhos se arregalaram e ele entendeu o que estava vindo. 

    Num único movimento, arrancou uma das garrafas d’água da mochila e a explodiu contra o chão, encharcando a areia. No mesmo instante, levantou um muro inclinado, fazendo uma espécie de barreira protegendo os dois.

    E então…

    BOOOOMMM!

    O pé colossal do Ciclope finalmente tocou o chão.

    O estrondo foi seguido por uma muralha de areia e vento que varreu o deserto, como se a própria terra tivesse explodido.

    Mesmo àquela distância, a pressão era absurda. Ethos precisou usar toda a força para sustentar a barreira de terra que havia erguido. Por alguns instantes, tudo o que existia era o rugido do vento contra o muro. 

    Aos poucos, porém, a tempestade começou a enfraquecer… até desaparecer por completo.

    Ethos caiu no chão, exausto. 

    Já Durak… começou a gargalhar alto.

    — Hahahahahá!

    — Meu Deus! — esbravejou Ethos. — Por que você não ajudou? Isso foi insano!

    — Hahahá. — Durak mal conseguia responder entre uma risada e outra. — Achei que era uma boa oportunidade pra você treinar. 

    Ele apontou para a barreira rachada.

    — Jogar água pra fortalecer a areia… — Durak balançou a cabeça de leve — foi uma ótima idéia, pirralho. E fazer a barreira inclinada também. Assim o impacto escorrega, em vez de bater de frente.

    Ethos levantou novamente e voltou a encarar a criatura, que agora mantinha os dois pés apoiados no chão. 

    — Tá, tá, tá… —  respondeu, impaciente.

    A curiosidade já havia tomado conta dele outra vez.

    — O que é essa coisa? — perguntou, sacudindo a areia da roupa. 

    Durak cruzou os braços e voltou o olhar para o Ciclope, ainda com um sorriso no rosto.

    — Não sei muito sobre ele. Só sei que está por aqui há, pelo menos, duzentos anos. Se move tão devagar que dá um único passo a cada dois anos. 

    Durak deu meio passo para frente e começou a alisar a barba.

    — Já passei por esse deserto várias vezes — continuou. — Vi esse grandalhão algumas delas… mas essa é só a segunda vez que tenho a sorte de ver um passo terminar.

    Ethos apoiou a mão no queixo e ficou alguns instantes encarando o Ciclope. 

    — Não faz sentido… Mesmo que ele fosse lento, quando o pé começa a cair, deveria descer de uma vez só.

    Durak deu de ombros

    — Você está pensando demais, pirralho.

    Ethos nem pareceu ouvi-lo.

    — E outra… o pé dele estava muito próximo do chão. Como um movimento tão pequeno pode gerar tanto impacto? 

    Ele estreitou os olhos para o gigante.

    Não parece que ele seja lento…

    Ele fez uma breve pausa.

    — Parece até que… o tempo passa mais devagar pra ele.

    Durak bufou, se irritando com o monólogo do garoto.

    — Ei, pirralho! Com quem você está falando? Eu não entendo nada disso, mas é uma loucura, né?

    — Sim! — Os olhos de Ethos brilharam de empolgação — Queria muito poder perguntar ao professor Leo… Ele não é perigoso?

    — É… — Durak voltou a cruzar os braços. — Odeio admitir, mas aquele chato sabe das coisas. Dizem que ele nunca atacou ninguém. E duvido muito que exista algum maluco disposto a atacar um bicho desses.

    Ethos assentiu.

    — Você sabe mais alguma coisa dele? — perguntou.

    — Sei que muita gente já tentou investigar. O grande mistério é de onde ele veio e pra onde ele tá indo.

    — Incrível. — Ethos abriu um largo sorriso. — Tá bom, você tá perdoado.

    Durak abriu um sorriso vitorioso e deu um leve tapa nas costas do garoto.

    — Você não consegue ficar com raiva de mim, né, pirralho?

    Ethos lançou um olhar de canto e esboçou um sorriso torto.

    — Na próxima eu te deixo sem comida!

    — Hahahá — gargalhou Durak. — Não precisa ser tão maldoso. Vamos, ainda tem outra surpresa.

    E os dois seguiram viagem. 

    Dia 9

    As pegadas na areia eram rapidamente apagadas pelo vento seco que soprava pelo deserto. O amarelo das dunas se misturava com o alaranjado do céu de fim de tarde. Exaustos, Ethos e Durak seguiam caminhando.

    — Pirralho — chamou Durak, com a voz arrastada.

    Ethos soltou um longo suspiro.

    — O quê?

    — Você tá muito quieto. Tá tudo bem?

    Ele enxugou o suor da testa com o antebraço.

    — Sim — respirou fundo. — So… não tem fim…

    Durak caminhou mais alguns passos.

    — Devemos chegar logo.

    Ao ouvir aquilo, Ethos levantou as sobrancelhas e sorriu.

    — Sério? Finalmente! Tô tão empolgado.

    Alguns metros à frente, Durak parou no topo de uma pequena duna e abriu um sorriso.

    —  Vem logo. Já dá pra ver daqui.

    Ethos acelerou os passos para alcançá-lo.

    Assim que chegou ao topo…

    — Uau…

    Seus olhos brilharam com o que via.

    Durak sorriu satisfeito

    — Eu sabia que ia gostar, pirralho.

    À frente, uma imensa floresta se estendia pelo horizonte. Mas, diferente de qualquer outra, suas árvores tinham enormes copas tingidas em tons de amarelo e marrom 

    Ethos partiu correndo na frente.

    — A FLORESTA DE COGUMELOS!! — gritou Ethos, disparando morro abaixo. — Vamos, Durak!

    Durak bufou e começou a segui-lo.

    — Calma, pirralho… De onde saiu essa energia toda?

    Alguns minutos depois, Ethos alcançou a entrada da floresta. Durak chegou em seguida.

    Ethos já dava seu primeiro passo para entrar ao local quando sentiu a mão de Durak em seu ombro.

    — Espera, pirralho.

    O garoto se virou rapidamente.

    — O que foi? Aqui é perigoso?

    Durak lançou um olhar para a floresta antes de responder. .

    — Não costuma ser. Na verdade… isso aqui é um santuário.

    Ethos franziu a testa.

    — Um santuário?

    — Aqui, é proibido qualquer tipo de luta. Na menor das intenções de batalha, todos os animais vão te atacar juntos. Por isso, permaneça tranquilo.

    Ethos piscou algumas vezes e engoliu seco.

    — …Claro.

    Os dois adentraram a incrível floresta.

    Cogumelos gigantes se erguiam por todos os lados, formando um verdadeiro bosque de troncos grossos e cúpulas imensas. O clima era fresco, e o solo firme contrastava com a areia fofa do deserto. As copas dos fungos projetavam uma sombra ampla e agradável.

    Pequenas manchas coloridas espalhadas pelas cúpulas brilhavam suavemente, pulsando como se respirassem e iluminando a trilha por onde caminhavam. Animais de diferentes espécies cruzavam o caminho sem demonstrar o menor sinal de medo.

    Ethos observava tudo quase sem piscar.

    — Aqui os animais têm tamanho normal, né, Durak?

    — Sim, pirralho. Por algum motivo, o veneno do solo não afeta os animais daqui.

    — Que incrível!

    Durak assentiu.

    — Ouvi dizer que esses cogumelos puxam o excesso de magia do solo… e liberam ela por essas pequenas luzes.

    — Então essa luz não é perigosa? — perguntou Ethos um pouco apreensivo.

    — Hahahá! Até hoje nunca fez mal a ninguém.

    — Entendi… — Ethos voltou a observar os cogumelos. — Nunca imaginei que cogumelos poderiam ser tão bonitos. Agora entendo porque isso é chamado de santuário. É realmente incrível.

    Durak assentiu e seguiram caminhando. Quanto mais caminhavam, mais Ethos ficava deslumbrado com a paisagem. Durak, por outro lado, parecia desconfortável com algo.

    Em um certo momento, Ethos percebeu a inquietude de Durak.

    — Tá tudo bem? — perguntou.

    Durak demorou um instante para responder.

    — Acho que sim… Mas esse caminho parece um pouco… diferente — ele olhou ao redor. — Já era para termos chegado ao lago.

    Ethos se empolgou por um instante.

    — Como assim? Aqui tem um lago?

    — Tem, com a melhor água que eu já provei.

    A resposta, porém, não veio acompanhada do entusiasmo habitual de Durak. 

    — Mas… — ele franziu a testa — o caminho não era assim.

    O sorriso de Ethos desapareceu. Pela primeira vez desde que entraram na floresta, ele passou a observar os arredores com atenção.

    De repente…

    Um leve farfalhar rompeu o silêncio da floresta. 

    Durak estreitou os olhos.

    — Pirralho, fica em alerta. Mas sem demonstrar intenção de luta.

    As pernas de Ethos senrijeceram.

    — Aconteceu algo?

    — Shh…

    Durak não desviava os olhos dos cogumelos. 

    Respirou fundo.

    — Os cogumelos…

    Ethos acompanhou seu olhar.

    Por um instante, não percebeu nada. 

    Então…

    Uma das enormes cúpulas girou lentamente.

    Outra se inclinou centímetros.

    Depois outra.

    Como se a floresta estivesse viva.

    Ethos sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

    — Eles… estão se mexendo.

    Durak assentiu lentamente.

    — Parece que estão nos guiando para algum lugar.

    Sem dizer mais nada, os dois seguiram pelo caminho que se abria diante deles.

    Depois de caminhar por algum tempo, eles começaram a ouvir o som de água corrente.

    O caminho terminou quando o último cogumelo lentamente se afastou, revelando um enorme campo aberto.

    Ethos parou por um instante.

    Um tapete de grama verde cobria toda a clareira. Uma brisa fresca balançava a vegetação, contrastando com o calor implacável do deserto logo além da floresta. 

    No centro da clareira erguia-se a ruína de uma antiga construção. De seu interior brotava um pequeno curso d’água cristalino, que serpenteava suavemente floresta adentro. 

    O coração de Durak apertou.

    Ao seu lado, Ethos mal conseguia piscar.

    — Durak, que lugar é esse?

    — Eu não tenho a menor ideia, pirralho — respondeu Durak, com uma expressão levemente triste. — Mas… pelo visto, é daqui que nasce a água que forma o lago.

    Ethos voltou o olhar para a antiga construção.

    — Essa água… vem daquela estátua quebrada? O que será isso?

    Os dois se aproximaram lentamente. 

    A estrutura era extremamente antiga. A pedra acinzentada estava marcada por manchas avermelhadas e inúmeras rachaduras. Símbolos gravados em uma língua desconhecida cobriam parte da superfície. 

    Durak passou a mão pela barba. 

    — Parece um tipo de monumento — disse. — Provavelmente um santuário de um dos Deuses sem nome.

    Ethos apertou levemente os olhos.

    — Deuses sem nome?

    — Sim. Lugares como este são cheios de mistério. Dizem que carregam um pouco do poder dos deuses antigos.

    Ethos permaneceu em silêncio por um instante. 

    — Você diz os que perderam o nome na guerra contra o deus do medo?

    Durak assentiu.

    Depois de algum tempo, Durak se sentou na grama.

    — Vem cá, senta aqui. Vou te contar algo. Isso é um segredo, ok? 

    Ethos levou a mão ao peito e respondeu imediatamente.

    — Eu te dou a minha palavra!

    — Palavra, é…? Por um segundo pude ver seu pai em você. — Durak sorriu meio sem graça. — Sei que posso confiar em você.

    O garoto se sentou ao lado dele.

    E Durak começou a falar.

    — Durante a guerra… pra vencer, nós… fizemos um sacrifício.

    — É, você comentou algo naquele dia — Respondeu Ethos, fitando o chão.

    Durak respirou fundo.

    — O problema é… que eu não me lembro do que aconteceu. 

    Ethos se virou para Durak e franziu a testa.

    — Como assim?

    Durak permaneceu em silêncio por alguns segundos.

    — Na verdade… ninguém que participou daquela guerra se lembra. 

    Os olhos de Ethos se arregalaram. Ele queria fazer dezenas de perguntas, mas a expressão de Durak o fez hesitar. 

    O anão permaneceu olhando para o horizonte, como se tentasse enxergar um passado que não conseguia alcançar. 

    — Eu lembro de chegar ao território inimigo… Lembro de um castelo… de tudo estar escuro… de uma chuva negra… 

    Ele fechou os olhos por um instante. 

    — Mas é tudo muito… vago. 

    Ele respirou profundamente outra vez.

    — A única coisa de que tenho certeza é que… algum tempo depois… nós acordamos deitados em outra parte do continente. 

    Ele baixou o olhar.

    — Sem lembrança alguma. 

    Ethos o encarou por alguns segundos, tentando encontrar palavras.

    — Isso é… muito estranho — disse, finalmente. — Como pode ninguém lembrar de nada?

    Durak encarou o céu outra vez e tomou mais um pouco de ar.

    — Não foi só isso. O mais estranho é que muita coisa do que aconteceu antes da guerra também sumiu.

    Ethos ficou imóvel. 

    Durak passou a mão lentamente sobre a barba. 

    — Não só da nossa memória… mas da memória do mundo. 

    O silêncio voltou a tomar conta da clareira.

    — É como se todos tivessem esquecido alguma coisa… 

    Ethos levantou as sobrancelhas.

    — O mundo todo se esqueceu?

    Durak continuou encarando o céu. 

    — O que mais me incomoda… é que ninguém parece se importar.

    Durak fechou a mão, arrancando uns fios de grama do chão.

    — Tipo os nomes dos Deuses? — perguntou Ethos.

    Durak baixou o olhar outra vez.

    — Eu acho que foi muito mais do que apenas nomes…

    Ele fez uma breve pausa.

    — Mas eu não faço ideia do quê.

    Durak tinha uma expressão muito grande de tristeza no olhar. Ethos apoiou a mão no ombro dele.

    — Durak…

    O anão se virou para Ethos e forçou um sorriso.

    — Bem… depois de discutir sobre o que faríamos, decidimos guardar segredo e tentar entender o que aconteceu. 

    Ele fez uma breve pausa, mudando de assunto para aliviar o clima. 

    — Quando chegamos  à capital do império— seguiu. — Fomos recebidos com uma grande festa por termos vencido a guerra.

    Ethos franziu a testa.

    — Mas como sabiam que a guerra tinha acabado?

    — Porque os monstros simplesmente desapareceram. Ou, pelo menos, quase todos.  Alguns resquícios restaram, mas não era nada demais. 

    Então, Durak voltou a encarar o chão mais uma vez e arrancou mais alguns fios de grama.

    — Mas, ultimamente monstros cada vez maiores começaram a aparecer por todo o mundo. 

    Ele hesitou por um instante.

    Igual…àquele dia.

    Ethos baixou os olhos.

    — Na floresta…

    Durak assentiu e um momento de silêncio voltou a pairar entre eles.

    — Você descobriu algo? — perguntou Ethos, quebrando o silêncio.

    Durak soltou um longo suspiro.

    — Passei a vida inteira viajando pelo mundo atrás dessas respostas. Estudando as guerras… os deuses… os monstros… 

    Ethos sorriu de leve.

    — Então é por isso que você sabe tanta coisa. 

    Durak coçou a cabeça e ssorriu de lado. 

    — É… eu tento. hahahá!

    A risada morreu rapidamente. 

    Ele voltou a baixar o olhar, e a tristeza retornou aos seus olhos. 

    — O pior de tudo… 

    Ele fez uma longa pausa.

    — …É que, desde que a guerra acabou… eu sinto que perdi muito mais do que minhas memórias. 

    Durak apertou a grama entre os dedos.

    — Sinto que perdi algo muito importante… e nem me lembro o que era.

    Ethos arregalou os olhos em espanto.

    — Isso é horrível!

    — Hahá! — Durak tentou disfarçar uma risada. — Não dá pra sentir saudade do que não lembra, né?

    Ethos percebia que Durak estava se contradizendo. Ele estava se abrindo de uma forma que o garoto nunca tinha visto. Dá pra sentir saudade do que não se lembra?, pensava. Nitidamente Durak sentia.

    Ethos tomou uns segundos para pensar.

    — Sabe, Durak, eu sinto falta do meu pai 

    Ethos passou os dedos pela grama.

    — Mas as lembranças dele…

    Sorriu de leve.

    —  …Me fazem companhia nos momentos difíceis. 

    Durak se virou para o garoto e escutou com atenção.

    Ethos deu um sorriso leve enquanto olhava para baixo e seguia acariciando a grama.

    — O que você tá passando é… cruel… 

    Ethos parou por um momento e olhou para Durak.

    — Você não tem nem as memórias para te fazer companhia. Deve ser… solitário.

    Durak abaixou a cabeça novamente e permaneceu em silêncio. As palavras de Ethos chegaram fundo nele.

    — Pirralho…

    Ele deu as costas para o garoto.

    Ethos apenas sorriu e continuou acariciando a grama.

    — Você realmente é especial — a voz de Durak falhou por um instante enquanto ele tentava esconder as próprias lágrimas. 

    De repente…

    Uma fraca luz vermelha brilhou dentro do pingente de Ethos.

    Ela pulsou uma vez.

    Depois outra.

    Ethos se levantou num salto.

    — O que é isso?

    Durak também ficou de pé e se aproximou rapidamente.

    — Eu não faço ideia…

    O cristal voltou a pulsar.

    Então a luz desapareceu.

    Os dois permaneceram imóveis.

    Ethos baixou lentamente o olhar para o pingente.

    O cristal, antes branco, agora estava completamente avermelhado.

    Seus olhos se arregalaram.

    — O que foi isso?

    Durak observou o colar por um momento.

    — Sei lá — ele franziu a testa. — Quando encontrar sua mãe, pergunta pra ela.

    Fez uma breve pausa.

    — Você tá se sentindo bem?

    Ethos olhou para as próprias mãos.

    Respirou fundo.

    — Sim… tô ótimo.

    Os dois permaneceram em silêncio por alguns minutos. 

    Ethos andava de um lado para o outro pela clareira. De vez em quando olhava para Durak, mas, sempre que o anão retribuía o olhar, ele desviava rapidamente. 

    Durak percebeu que o garoto queria dizer alguma coisa, mas resolveu esperar.

    Por fim, Ethos respirou fundo e tomou coragem para quebrar o silêncio.

    — Durak… eu queria te perguntar isso há um tempo.

    Durak fechou os olhos por um instante.

    Ethos seguiu.

    — Você sempre fala da minha mãe e do meu pai…

    — Pirralho! — Durak interrompeu. — Por favor… não me faça essa pergunta.

    Ethos ficou imóvel.

    O silêncio voltou a cair entre os dois.

    — Mas…

    Durak balançou a cabeça.

    — Você é muito inteligente — um sorriso surgiu em seu rosto. — Eu sei o que quer perguntar.

    Ele fez uma breve pausa.

    — Mas não cabe a mim te responder — completou. — Você vai encontrar suas respostas na capital.

    — Entendo… Tudo bem.

    O assunto morreu ali.

    Permaneceram ali por mais algumas horas. Descansaram, encheram os cantis com a água cristalina da nascente e, quando o sol começou a se pôr, deixaram o santuário para trás e retomaram a viagem pelo deserto. 

    Dia 10

    Depois de muitas horas caminhando sob o sol do deserto, a paisagem começou, enfim, a mudar. 

    Cactos, arbustos e tufos de capim apareciam cada vez com mais frequência. O vento, antes seco e escaldante, agora trazia um leve cheiro de umidade. A areia dava lugar a um solo mais firme a cada passo. 

    Durak sorriu

    — Pirralho, olha… chegamos.

    Quando Ethos ergueu a cabeça, seus olhos se arregalaram.

    À frente, cercada por uma vasta planície, erguia-se uma muralha colossal de pedra, tão alta que seu topo desaparecia entre as nuvens. 

    Um verdadeiro mar de gente passava pelos enormes portões. Carroças rangiam sob o peso das mercadorias, cavalos relinchavam, comerciantes gritavam suas ofertas e viajantes entravam e saíam sem parar. 

    — Que lugar é esse? — perguntou Ethos, sem conseguir esconder o espanto.

    Durak abriu um grande sorriso.

    — Esse? Apenas uma cidade grande. Bem-vindo à Cidade Portuária das Pradarias.

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