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    O jovem Tenente, que estava prestes a afastá-la, parou, olhando para a garota de cabelos azuis de forma interrogativa. A mulher maluca que havia tentado arrancar um de seus olhos apenas por olhar seu busto quase inexistente, agora realmente estava implorando para ele fingir ser próximo dela?

    Vendo-a tão assustada, olhando para a saída e claramente evitando pousar seu olhar na área onde as duas pessoas das Salas VIPs estavam, imediatamente entendeu algo.

    “Qual dos dois?” indagou, com uma voz calma, mas gelada.

    Wendy, que estava em pânico, ficou confusa.

    “Do que você está falan-”

    “O homem, ou a mulher? Qual dos dois é seu inimigo?” sussurrou, em voz baixa.

    A garota finalmente ergueu seu rosto, surpresa, olhando para ele de forma estranha, mas o rapaz permaneceu calmo. Ela não sabia exatamente por quê, mas sua calma quase passiva era contagiante, fazendo-a desacelerar sua respiração e pensar.

    “O homem”, respondeu, após uma breve hesitação.

    Ela não sabia ao certo se podia confiar no rapaz, ainda mais após terem se desentendido tantas vezes, mas sentiu que não tinha escolhas. Se ela caísse nas mãos de Lehard, a morte seria a menor de suas preocupações.

    Ouvindo a resposta dela, Fernando assentiu.

    “Ele sabe quem você é?” perguntou, com uma voz séria.

    Mesmo que parecesse uma simples pergunta, era algo definitivo e imprescindível. O jovem Tenente sabia que, se essa pessoa a conhecesse, então simplesmente não haveria como ele não a notar. Se esse fosse o caso, não haveria nada que pudesse fazer. Mesmo que fosse algo cruel, ele não se arriscaria a se meter no conflito das Grandes Legiões, ainda mais por uma desconhecida como ela.

    Ele havia ouvido as pessoas dizerem que o homem pertencia a Karmalía, enquanto a mulher era da Falcon.

    Isso significa que Karmalía e a Torre Branca têm desavenças? perguntou-se, sem saber qual era a real situação entre essas Grandes Legiões.

    Wendy, apesar de hesitante, balançou a cabeça, em negação.

    “Ele não me conhece.”

    Ouvindo isso, o rapaz pálido assentiu, suspirando internamente. Se esse era o caso, ela ainda tinha alguma chance. Mesmo que ele não tivesse qualquer simpatia pela garota, não negaria ajuda se pudesse fazê-lo.

    “Você me ensinou algo útil, então também vou te ensinar uma coisa. Se não quer que alguém te note, não desvie o olhar quando ela te olhar, não mostre desconforto e muito menos foque sua atenção na saída. Fazer qualquer uma dessas coisas é como colocar uma enorme placa acima de sua cabeça dizendo ‘Ei, me note! Estou bem aqui.”

    Mesmo que nunca tivesse sido alguém muito sociável na Terra, Fernando sabia exatamente como e quando ser alguém pouco chamativo, já que esse havia sido ele por boa parte de sua vida. Desde que chegou a Avalon, apesar de não ter colocado muito disso em prática, o rapaz pálido aprendeu muitas coisas sobre o comportamento humano.

    Com a explicação de Fernando, Wendy congelou no lugar, finalmente percebendo que estava agindo fora do normal sem sequer perceber.

    “E-eu só…” Ela estava prestes a dizer algo, quando foi interrompida.

    “Se não consegue disfarçar, esqueça todo o resto e foque unicamente em mim.”

    A expressão de Wendy mudou levemente ao ouvir isso, quando seus olhos recaíram no rosto do rapaz pálido, que se mantinha calmo. Suas bochechas ficaram rubras por um momento.

    “Ok…”

    Nesse momento, o sujeito alto, com roupas cerimoniais, que esteve em silêncio esse tempo todo, avançou em meio à multidão. Assim que ele fez isso, muitas pessoas, que estavam receosas sobre cumprimentá-lo, avançaram a contragosto.

    “S-senhor Lehard, é um prazer conhec-” Um homem estava prestes a falar, mas o sujeito passou diretamente por ele, ignorando-o, parando em frente a uma velha senhora. Essa pessoa não era outra se não Magnólia, então a encarou com um sorriso tenebroso.

    Ao vê-lo, a velha respondeu com um semblante calmo, mas estava internamente nervosa.

    “E-ei, não se aproxime!” Eduardo interveio, com a voz trêmula. Mesmo ele sabia quem era esse monstro.

    Encarando o Capitão de cabelos longos e grisalhos, o sujeito apenas prestou atenção nele por um breve momento antes de focar-se na Protetora mais uma vez.

    “Onde está? O seu protegido da vez?” Lehard finalmente perguntou. “Eu gostaria de conhecê-lo.”

    A velha respirou fundo, encarando com as sobrancelhas juntas, seu corpo trêmulo.

    “Você realmente acha que eu traria alguém que protejo para esse fim de mundo? Coruja, me toma como uma tola?!”

    Em resposta a isso, Lehard apenas a encarou com o mesmo sorriso estático, seus olhos negros a observando como se pudesse ver e compreender o mais ínfimo de seus pensamentos.

    “Sabe, alguns animais, quando acuados por predadores ou animais mais fortes, imediatamente descartam seus filhotes. Dessa forma, o predador se distrai, se alimenta e a progenitora sobrevive, podendo dar à luz a uma nova prole no futuro. Por outro lado, há progenitoras que se sacrificam, se entregando deliberadamente ao predador e apostando que seu filhote sobreviverá sozinho. Na última vez, você sobreviveu e cá está, com um novo filhote. Me diga, qual dos dois tipos você será dessa vez?”

    Eduardo não pôde deixar de olhar para a velha com surpresa, ele nunca havia ouvido falar de uma falha de sua parte. Havia alguns boatos a respeito, mas ele sempre achou que eram coisas sem sentido.

    Esse desgraçado! Por que ele está aqui? Magnólia pensou, furiosa.

    Sabendo que, se ele fosse apenas um General normal, ela não teria medo de enfrentá-lo. Na verdade, não temia por sua própria segurança, mas pela de Wendy. A pessoa à sua frente não era um homem, mas algo mais próximo de um animal, um ser desprezível especializado em emboscadas, rastreamento e ataques surpresa. Sua imprevisibilidade tornava extremamente difícil proteger alguém mais fraco.

    Na verdade, o homem estava apenas tentando provocá-la. Ele a havia emboscado uma vez, mas saiu completamente derrotado e sem conseguir o que queria. No entanto, mesmo que ela tenha conseguido proteger o último gênio até o fim do seu período de crescimento, ela soube que o pobre rapaz desapareceu durante a sua primeira missão. Mesmo sabendo que não era sua culpa e que ele não era mais sua responsabilidade, sentiu-se culpada.

    A velha mulher tinha certeza de que esse homem estava envolvido e até havia conseguido o apoio do alto escalão para acusá-lo, mas sua legião apenas negou os fatos até o fim, encobrindo-o completamente.

    “Eu já disse que não trouxe ninguém, mas se quiser lutar até a morte, eu o farei com gosto! Karmalía te protegeu da última vez, mas eu não esqueci!”

    Ouvindo isso, o sorriso de Lehard se ampliou ainda mais.

    “Então está me dizendo que Magnólia, a Protetora, está sem um protegido?” O sujeito alto e magro perguntou, com uma voz intimidante, mas logo seus olhos se estreitaram. “Quem está tentando enganar, sua velha desgraçada? Apenas diga, quem é?”

    Ao falar até aí, Lehard varreu mais uma vez seu olhar sobre as pessoas da sala. Havia quase cem delas no local, dentre essas muitas eram jovens rapazes e garotas de tenra idade, então era difícil deduzir qual deles estava acompanhando a velha.

    “Eu vou descobrir, você sabe disso, então não dificulte. Além disso, eu só quero dar uma boa olhada, ainda não decidi se vou caçá-lo. Tudo vai depender do meu apetite”, falou, voltando seu olhar para a velha mais uma vez.

    Magnólia estava furiosa por dentro, mas tudo que podia fazer era engolir sua raiva e torcer para que esse monstro perdesse o interesse nela.

    Ela havia trazido poucos homens, então seria uma viagem difícil de volta para um dos territórios da Torre Branca. Ter esse monstro a seguindo seria extremamente problemático e não estava confiante. Sua idade avançada já não lhe permitia fazer tanto quanto antes, enquanto o monstro à sua frente estava no auge da sua força.

    Dando mais uma olhada ao redor, Lehard percebeu dois jovens, um rapaz e uma garota, de mãos dadas, aparentemente um casal.

    Seu olhar parou por um momento neles, inicialmente focando na garota, mas a atenção dela estava inteiramente focada no rapaz ao seu lado, parecendo uma jovem apaixonada. Logo, ele mudou seu foco para o jovem pálido, que o olhava de forma calma e composta.

    Vendo como o sujeito o encarava sem medo algum, seus olhos se estreitaram por um instante, mas logo desviou seu olhar para outras pessoas. Não havia como o protegido de Magnólia ficar tão calmo e sem medo ao vê-lo.

    O homem viu mais algumas pessoas que poderiam ser a que ele procurava, mas não chegou a nenhuma conclusão, o que o deixou irritado.

    Essa velha desagradável está claramente mentindo, mas tudo bem, isso torna as coisas mais divertidas.

    “Nos veremos novamente no fim do leilão, Magnólia. Huhuhu!” Lehard falou, com uma leve risada macabra, que lembrava os grunhidos de uma coruja.

    Vendo o sujeito se afastar, a velha mulher suspirou, ao mesmo tempo que apertou os punhos com força.

    Eu trouxe a senhorita aqui para ganhar alguma experiência e receber conquistas, mas quem diria que isso se tornaria um infortúnio… pensou, arrependida por ceder aos caprichos da garota. Se ela tivesse sido mais dura e se negado a trazê-la ali, nada disso aconteceria. Talvez eu esteja ficando velha demais para isso.

    Em meio à própria melancolia interna, olhou para o sujeito de cabelos grisalhos ao seu lado.

    “Assim que o leilão acabar, partiremos da cidade. Prepare uma substituta para a senhorita.”

    Ouvindo isso, Eduardo assentiu, entendendo os pensamentos da velha.

    “Tudo bem, não será difícil. Pegaremos algumas crianças das ruas para serem as iscas.”

    Contanto que pudessem proteger Wendy, tanto a velha como o Capitão não estavam preocupados se teriam que sacrificar algumas pessoas inocentes para isso. 

    Em outro ponto, Fernando, que observou o olhar do homem esquisito recair sobre eles por um momento, sentiu seu coração congelar por um instante, mas não se permitiu transparecer isso. Somente quando ele desviou seu olhar é que seus batimentos diminuíram.

    “Tudo bem, ele já fo-” Ao olhar para o lado, Fernando viu o rosto de Wendy desconfortavelmente próximo ao seu, com seus olhos azuis brilhantes o olhando diretamente em seus próprios olhos, fazendo-o congelar por um instante. “O que está fazendo?”

    “Você me disse para focar em você, é o que estou fazendo.”

    Ouvindo isso, o jovem Tenente franziu o cenho, quando colocou a mão no rosto da garota, afastando-a levemente.

    “Não precisa ficar tão próxima.”

    “Ah… é claro”, Wendy respondeu, ao finalmente notar que estava tão assustada que não notou sua proximidade excessiva, fazendo-a ficar envergonhada.

    Olhando para a menina, que entrou completamente em pânico com uma simples situação de perigo, Fernando não pôde evitar suspirar. Mesmo sendo muito mais forte que ele próprio, a garota parecia ter sido mantida sob proteção excessiva e não tinha qualquer experiência real.

    Sua situação parecia muito diferente da de Heitor, treinado na academia dos Leões Dourados. Mesmo que odiasse admitir, sentiu que aquele sujeito conseguiria se virar em praticamente qualquer tipo de ambiente, diferente de Wendy, que parecia um coelho assustado.

    Esse é o nível dos gênios das Grandes Legiões? perguntou-se, levemente decepcionado.

    No entanto, mesmo que pensasse isso, não pôde deixar de admitir que a situação dentro das Grandes Legiões não parecia nada agradável e era até mais brutal do que pensara.

    Para a garota ter ficado tão assustada, significava que gênios promissores como ela eram extremamente visados pelas demais Grandes Legiões. Eram como pequenos filhotes indefesos, que seriam no futuro grandes predadores. Sendo assim, os ‘adultos’ inimigos não hesitavam em matá-los para impedir a concorrência.

    Ser um gênio não parece nada fácil, pensou, suspirando.

    De repente, Fernando notou alguma umidade em sua palma, isso o fez lembrar que estava segurando a mão da garota. Sua palma macia era extremamente delicada, sem um único calejamento e estava extremamente quente. Além disso, devido à proximidade, ele também notou o perfume delicado dela, que lembrava flores silvestres.

    Isso fez seus batimentos cardíacos aumentarem levemente, principalmente ao olhar para seu rosto. Uma vontade latente de puxá-la para mais perto cresceu dentro de si.

    Merda, parece que ainda tem resquícios da Sopa Revitalizante em meu corpo… pensou, nervosamente.

    “O-o que foi?” Wendy perguntou, ao ver o rapaz pálido a encarando de forma estranha. Ela não sabia o porquê, mas sentiu uma leve sensação ameaçadora.

    “Nada”, o jovem Tenente respondeu, respirando fundo e tentando se acalmar, resistindo a qualquer impulso maluco.

    “O que está acontecendo aqui?”

    De repente, Lerona, que havia retornado e viu os dois de mãos dadas, perguntou, com uma expressão chocada.

    “I-isso…” Fernando falou, sem palavras. “Eu explico depois.”

    A Capitã ruiva tinha um olhar sério, seu rosto claramente mostrava que tinha muito a perguntar, mas assentiu.

    Wendy tinha um rosto envergonhado. Ela queria soltar a mão dele, mas primeiro olhou em volta, procurando Magnólia e, principalmente, onde estava aquele sujeito.

    “Que lindo casal”, uma voz soou de não muito longe, fazendo Wendy e mesmo Fernando congelarem no lugar. Quando o jovem Tenente virou seu rosto, viu um homem alto, com roupas largas e olhos escuros, os observando com um sorriso sinistro.

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