Índice de Capítulo

    Estou revisando, refazendo e remodelando todos os capítulos iniciais de “O que eu deixei para trás?”. Então, já peço desculpas caso vocês percebam uma mudança drástica de qualidade entre os primeiros capítulos e os que virão em seguida.

    Quero trazer a melhor versão possível da obra para o Volume 1 físico, que sairá em breve. Por isso, vou tentar concluir toda essa melhoria o quanto antes e peço a compreensão e paciência de vocês durante esse processo.

    Muito obrigado pelo apoio de sempre. Vocês são o que me motiva a continuar escrevendo todos os dias!

    CAPÍTULO ANTERIOR:

    “Por que estou tão preocupado com alguém que conheço há apenas algumas horas? Isso sequer faz sentido?”

    Fechou as pálpebras.

    “Não. Não é nisso que tenho que pensar agora. Só… espero que você fique bem, Akun.”

    No instante seguinte, os três partiram ao mesmo tempo, desaparecendo entre as ruínas.

    Restaram apenas Akun, Leirgrim e a monstruosa coruja pálida, que circulava silenciosamente pelos céus.

    Akun soltou um suspiro longo. Em seguida, ergueu o rosto e voltou-se para o colosso.

    — Vamos logo com isso.

    O deboche não havia desaparecido. Porém, seus olhos, agora frios, encaravam Leirgrim.

    — Já tem confusão demais por culpa de vocês. Então vou só passar por cima de ti rapidamente.

    O gigante explodiu em uma gargalhada grave.

    — Não diga algo que não é capaz de fazer. — Deu um passo à frente, afundando o terreno sob seu peso. — Ou vai me dizer que já se esqueceu o que aconteceu vinte anos atrá—

    CRASH!

    O chão rompeu-se sob os pés de Akun e, junto com sua presença, ele desapareceu.

    — Dá pra ficar quieto?

    A voz surgiu à frente de Leirgrim, interrompendo sua frase. A centímetros de seu queixo, um punho já vinha armado.

    BAAAM!

    O soco atingiu em cheio a face do Jötnar, fazendo sua cabeça barrenta virar para o lado e seu enorme corpo tombar após perder o equilíbrio.

    — Sua voz é irritante pra caralho.

    Sem lhe dar tempo de cair, girou o próprio corpo e atingiu a lateral de seu tórax com o calcanhar, afundando a carapaça de barro.

    O gigante foi lançado através das ruínas, atravessando diversas construções antes de desaparecer ao longe.

    Só então o vento alcançou o golpe, carregando o estrondo até Akun e agitando seus cabelos.

    Levou a mão à orelha, massageou-a sem pressa e estalou a língua.

    — É só isso? — Estava claramente desapontado. — Tanta falação pra booosta nenhuma.

    Até que, sem aviso, algo fisgou seu tornozelo, fazendo-o baixar o olhar e deparar-se com uma mão de neve agarrando sua perna com força.

    Mas não parou por aí. Logo outra e mais outra, surgiram, formando dezenas de braços que o imobilizaram.

    Sem lhe dar respiro, humanoides começaram a emergir do solo. Com feições inexpressivas e torsos robustos, todos ultrapassavam os dois metros de altura, moldados inteiramente de neve compactada.

    Quando Akun repousou as pálpebras, os seres avançaram simultaneamente em sua direção, empilhando-se uns sobre os outros até soterrá-lo sob um enorme manto branco.

    O silêncio durou pouco. Assim que abriu os olhos, pronunciou uma mentira prestes a se tornar realidade:

    Estou em combustão.

    Uma névoa ciana tomou conta do ambiente, e—

    BOOOOOOOOOOOM!!

    Uma explosão irrompeu do centro da prisão, revelando uma coluna de fogo que se estendeu até os céus e devorou tudo ao redor, fazendo a cidade tremer.

    Os humanoides desapareceram, derretidos e despedaçados pelo calor, que reduziu a superfície a uma vasta cratera fumegante.

    No centro dela, estava ele, de pé. Fios de fumaça serpenteavam por seu corpo, agora envolto em trapos chamuscados.

    — Ahhhhh, cara… que saco. Essa roupa era novinha… — Deu um passo, ajeitando o manto rasgado e queimado que agora lhe servia de veste. — Tudo por causa desse teu truque de merda. Vai ter que comprar uma nova.

    Mais adiante, Leirgrim caminhava calmamente em sua direção.

    — Nem se preocupa. Você não vai precisar de roupa depois daqui. — Sua voz soava confiante. — Afinal, vai estar morto.

    Ao redor dele, novas figuras continuavam nascendo, como se a própria paisagem sustentasse suas vidas.

    No entanto, algo havia mudado na aparência do grandão. Um enorme buraco deformava a máscara de barro que cobria seu rosto, enquanto outra abertura rasgava a lateral de seu tórax.

    Sem interromper a caminhada, o brutamontes passou ao lado de um dos gigantes, levantou a mão e estapeou a cabeça da criatura, desfazendo-a e espalhando neve pelo ar.

    Mas, em vez de cair, ela foi sugada para as lacunas, deslizando pela armadura até preencher todas as partes destruídas.

    Quando a regeneração terminou, a região reconstruída exibia uma coloração esbranquiçada, em contraste com o tom terroso do restante da carapaça.

    Ele sorriu.

    — Muito melhor.

    Akun pendeu a cabeça para o lado.

    — Leirgrim, o tão aclamado Rei do Mineral dos Sexvetr. — Cutucou a própria bochecha em deboche. — Acho que “Rei do Esterco” combina muito mais contigo.

    Os dentes do Jötnar se fecharam.

    — Falou bonito para quem, no máximo, amassou meu casco. — Ergueu a mão. — Vamos ver o quanto sua língua acompanha suas habilidades!

    Stlik.

    O estalar de dedos ecoou pelo campo de batalha e, na mesma hora, dezenas de mãos pularam da terra, envolvendo as pernas do guardião.

    — Isso de novo? — Lá estava ele, novamente decepcionado. — Parece um disco riscado que só sabe repetir o mesmo golpe.

    Leirgrim reagiu à provocação com uma curta risada.

    — Seu erro, Akun Veritas, é a soberba. — Havia prazer em cada sílaba que deixava escapar. — Acreditou mesmo que, entre os Seis Reis do Inverno, eu viria enfrentar um guardião apenas com a minha montaria?

    As pupilas do loiro dilataram.

    “…espera.”

    A compreensão veio tarde demais. Antes que pudesse reagir, algo colossal rasgou os céus e, como um trem desgovernado atravessando o espaço, um falcão mergulhou, agarrando-o com as garras.

    A pressão esmagou seu corpo, fazendo sangue escapar pelas frestas entre seus dentes.

    — Ghk…! — Seu olhar subiu até o pássaro. — “Merda! Esse é…”

    — Fuglrim, o Rei das Aves! — bradou Leirgrim, observando o soberano dos ares ganhar altitude junto do guardião.

    Ainda em voo, o gigante de rapina abriu as garras, largando o homem em queda livre.

    Mas, antes que tivesse a oportunidade de se estabilizar, a monstruosa coruja branca — que até então apenas sobrevoava a região — disparou em sua direção.

    Alcançou-o em um piscar de olhos e o cravou contra o solo, desencadeando um impacto que fez rachaduras se propagarem por quilômetros.

    Como resposta, uma densa cortina de entulhos elevou-se aos céus, tornando-se visível até mesmo para aqueles do outro lado da cidade.

    Momentos antes:

    Louie estava correndo. Fazia apenas alguns segundos desde que haviam deixado Akun, Leirgrim e a medonha coruja pálida para trás.

    Agora, guiado por Eirik e Vidar, avançava rumo à verdadeira guerra que assolava as terras de Vallheim Vestrak.

    — Virem na próxima esquerda.

    Os três mudaram de direção ao mesmo tempo, atravessando uma rua destruída.

    Pouco depois, enfim pôde contemplar o cenário da batalha.

    Fossem os gritos de dor provocados pelo choque entre jötnar e conselheiros, o ranger agudo do solo ruindo ou o fedor de sangue que emanava da neve, outrora branca, agora tingida pelo sangue dos cadáveres…

    Por toda a extensão de sua visão, desumanidade e brutalidade eram tudo o que havia, o bastante para fazer seu estômago se revirar.

    “Isso… é o inferno…?”

    — Conselheiro-chefe! — A voz veio de alguns metros de distância.

    Um conselheiro de cabelo caramelo correu até eles. Seu corpo — parcialmente transformado — mostrava uma espessa pelagem branca que percorria seu braço direito até terminar em enormes garras. Mesmo oculta pela máscara, sua mandíbula se alargava, revelando pequenas presas.

    Assim que parou diante do grupo, inclinou sutilmente a cabeça em sinal de respeito.

    — Não temos tempo para formalidades agora. — Eirik não hesitou. — Me dê um resumo da situação, Iskar.

    — Sim, senhor. — Confirmou com um aceno. — Eles iniciaram o ataque pela ala de Jötunheim e atravessaram rapidamente a muralha Hliðskjálf. Mas, ao invés de mirarem nossas bases militares no Anel Pálpebra, avançaram diretamente para a Esclera e o Limbo Escleral.

    Seu tom não conseguia disfarçar a dúvida em relação às ações dos oponentes.

    — Ainda não entendemos o motivo dessa decisão. Mas, agora, estão espalhados por todo o quarto e quinto Anel. Mesmo que não pareçam querer seguir em direção à Íris Externa.

    O Conselheiro-chefe levou a mão ao queixo, tentando refletir mesmo em meio ao caos antes de tomar a próxima ação.

    — Isso é estranho… por que estão evitando chegar aos distritos intermediários? — Nenhuma resposta lhe veio à mente. — Certo. Penso nisso depois. E a evacuação?

    — Os demais conselheiros estavam concentrados nisso. Porém, a aparição deles mudou completamente o rumo da batalha.

    Louie franziu a testa, custando a acompanhar a conversa.

    — Deles?

    Eirik não precisou tirar a atenção de Iskar para responder.

    — Os Sexvetr. Os Seis Reis do Inverno. — Como uma lembrança distorcida, seis silhuetas indistintas afloraram à sua memória. — Aquele que ficou com Akun também é um deles.

    — Entendi… — suspirou o garoto, enquanto a imagem de Akun sorrindo diante do colosso voltava a inquietá-lo.

    — Quantos Sexvetr são, e onde estão?

    — Perdi o contato com o esquadrão, então não sei os detalhes. Mas suponho que sejam, no mínimo, dois. A emboscada aconteceu na direção de Midgard.

    O Conselheiro-chefe assentiu.

    — Então, seguiremos para Midgard.

    Assim que terminou a frase, um gigantesco machado de gelo despencou sobre eles. Iskar surgiu como um borrão e interceptou a trajetória da arma.

    CLAAANG!!

    Seu braço, coberto por uma espessa pelagem branca, resistiu ao corte sem sofrer um único ferimento.

    Do outro lado do machado, um Jötnar rugia enquanto pressionava a lâmina para baixo. Iskar, porém, não cedeu sequer um centímetro. Sem desviar o foco do inimigo, falou com firmeza:

    — Eu cuido daqui. — Forçou contra, obrigando o gigante a recuar. — Por favor… tomem cuidado.

    Vidar e Eirik assentiram e, em um salto rápido, voltaram a correr entre as estradas destruídas, sendo seguidos por Louie.

    A cada impulso, atravessavam quarteirões inteiros sob os constantes ruídos da guerra.

    À frente, o mascarado escondia a expressão impassível por trás da máscara gélida; seus cabelos azuis balançavam ao vento, e as palavras de Iskar não fugiam de seus pensamentos.

    “Ainda não entendemos o motivo dessa decisão. Mas, agora, eles estão espalhados por todo o quarto e quinto Anel, embora não pareçam querer seguir em direção à Íris Externa.”

    Sua mente tornou-se mais pesada conforme tentava raciocinar uma resposta.

    “Jötnar… o que vocês estão planejando?”

    O motivo não veio, por mais que tentassem encontrá-lo. Sem outra opção, mantiveram o foco e seguiram em direção ao local onde os supostos Reis do Inverno estariam.

    No meio do caminho, o chão tremeu. Vallheim Vestrak foi sacudida por uma poderosa onda sísmica, fazendo as construções da cidade estremecerem.

    Os três interromperam a corrida e se voltaram para trás. Ao longe, uma alta coluna de poeira e fumaça dominava o horizonte.

    Vidar cerrou os punhos, denunciando, ainda que discretamente, o nervosismo que tentava conter.

    — Pelo visto, as coisas esquentaram lá com o Akun. — A voz serena do Conselheiro-chefe contrastava com a tensão. — Nós também não podemos perder tempo. Agora que estamos próximos, Vidar, concentre-se em encontrar o esquadrão de conselheiros.

    — Certo. — Aceitou, estabilizando o corpo enquanto desligava, conscientemente, quatro de seus cinco sentidos. O mundo ao redor desapareceu, permitindo que sua audição alcançasse um novo patamar.

    Escutava tudo: o vento, os gritos e as explosões. Ainda assim, reduzia cada um daqueles sons a meros ruídos descartáveis, filtrando apenas o que realmente buscava.

    Enfim, seus olhos tornaram a se abrir.

    — Doze mil, trezentos e quarenta e oito metros à direita. Escuto algumas respirações fracas e dolorosas. Suponho que sejam eles.

    Louie recuou um passo. O espanto fez o suor escorrer por sua testa.

    “Ele conseguiu localizá-los dessa distância, mesmo com todo esse barulho?” Engoliu em seco. “Esse cara… não séria um exagero colocá-lo em um patamar próximo ao do Kael…”

    Eirik virou-se imediatamente na direção indicada.

    — Vamos.

    Em um lapso, os três desapareceram. O cenário por onde passavam reduziu-se a um mísero borrão. Ruínas, casas e cadáveres eram engolidos pela velocidade com que se moviam.

    Por fim, menos de um segundo após a disparada, já haviam percorrido toda a distância.

    O terror revelou-se de imediato.

    O caos ficara para trás. Não havia explosões, gritos ou o estrondo da batalha. Apenas um cenário muito mais assombroso os aguardava.

    Afinal, diante deles, um quadro digno do próprio inferno estendia-se.

    Dezenas de corpos mutilados e desfigurados jaziam espalhados pelo terreno.

    Braços retorcidos, com ossos expostos; pernas pisoteadas e esmagadas, com a carne moída; e troncos esburacados, mostrando órgãos rasgados, encontravam-se separados, formando uma pintura grotesca. Vísceras escorriam pela neve tingida de vermelho, enquanto cabeças decepadas, com glóbulos oculares arranhados e crânios esmagados, compunham um novo piso.

    Mas o que mais pesava naquela visão era a identidade dos mortos.

    Todos, sem exceção, eram conselheiros.

    Louie parou. Seu coração disparou. O suor escorreu por seu pescoço à medida que suas pupilas varriam aquele massacre, incapazes de acreditar no que viam.

    “…Q-que cruel…”

    Seu estômago revirou, e a ânsia alcançou sua garganta.

    Eirik caminhou em passos lentos, mantendo completo silêncio.

    À sua frente, um conselheiro de face desfigurada e pele viva respirava com dificuldade. Seu corpo, despedaçado, tinha apenas o tronco ligado à cabeça. Do tórax, com as costelas abertas, o fígado pendia, sustentado por poucos tecidos. Ainda assim, seus olhos permaneciam abertos, úmidos pelas últimas lágrimas que ainda poderia derramar antes da morte.

    Mesmo sem forças, tentou falar, mas falhou. Nenhum som percorria sua traqueia, por mais que se esforçasse, apenas a agonia lhe escapava. Ainda assim, seu desejo transbordava em um pedido simples e silencioso: que tudo enfim terminasse.

    Sem dizer uma palavra, o conselheiro-chefe pousou a mão sobre sua testa. Então, em um único movimento firme, pôs fim ao sofrimento do aliado, cravando os dedos envoltos pelas luvas negras em seu pescoço.

    Tchk.

    O homem esboçou um último sorriso, enquanto seu olhar brilhou em agradecimento pelo fim.

    Eirik, com cuidado, fechou-lhe as pálpebras e deitou-o no chão. Em seguida, uniu as palmas das mãos diante do peito e curvou levemente a cabeça em sinal de respeito.

    — Que Odin guie sua alma até os salões de Valhalla, onde sua bravura será lembrada por toda a eternidade.

    Com um único salto, ele se levantou. Seu semblante, outrora sereno, já não conseguia esconder a fúria que o consumia.

    — Malditos desgraçados… — murmurou. — Não se contentaram em matar. Fizeram questão de fazê-los sofrer até os últimos segundos de vida.

    Seu olhar deslizou lentamente pelos restos das construções ao redor.

    — Já chega. Saiam logo da toca, seus covardes de merda.

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