Capítulo 22: O Pesadelo Insaciável.
Observei enquanto ela recobrava a consciência, enroscada como uma marionete quebrada nas teias prateadas da Kumo, sim, já chamei assim, e vai continuar sendo. O nome caiu como uma luva naquela aranha demoníaca que quase virou pet.
As teias, densas e lustrosas, cintilavam como fios de prata sob a pouca luz que filtrava pelas copas. Resistentes como aço, enroscavam o corpo do monstro como se a própria floresta tivesse decidido engolir ele e nunca mais o deixar sair.
Eu estava ali, de braços cruzados, sorriso estampado no rosto. Nada como começar o dia com um interrogatório amarrado e sem chances de fuga.
— Boa noite… ou bom dia? — provoquei, inclinando a cabeça de leve.
A criatura rosnou. Clássico.
Ela tentou me atingir, se lançando contra mim como se pudesse atravessar aquela prisão de seda demoníaca. Que gracinha. As correntes de energia mal vibraram.
— Ah, isso não vai funcionar — disse com um tom leve, quase entediado. Dei um passo à frente, me abaixando um pouco. — Essas teias não se rompem, meu chapa. Só se a dona delas deixar… ou se eu deixar você virar jantar da Kumo.
Seraline, atrás de mim, bufou com diversão.
— Kumo? Esse vai ser o nome da aranha?
Olhei de canto de olho, aquele sorriso ainda dançando nos lábios.
— Combina com ela. Tem presença, é direto… e tem estilo.
Ela deu de ombros, desinteressada.
— Você que lide com isso, então. — E se aproximou, lâmina em punho. Sua katana deslizou da bainha como um sussurro mortal e pousou no pescoço do prisioneiro. A ponta pressionava devagar, mas firme. Dava pra ouvir a lâmina roçando a pele e arranhando o osso. Um beijo de aço.
— Caso você não colabore… — ela murmurou, os olhos brilhando com aquele tom de ameaça que não precisava ser alto pra ser letal — …existe outra opção. E eu garanto, não vai gostar.
A criatura parou. O instinto ainda chiava nos olhos dela, mas o corpo entendeu. Nada de fuga. Nada de vitória. Só o medo, a dúvida… e a nossa vontade.
Me abaixei, ficando na altura dela. Encostei os cotovelos nos joelhos e encarei o rosto deformado que me observava com ódio. Olhos profundos, estranhos, mas… atentos.
— Você entende. — Minha voz saiu firme, porém calma, quase como uma isca. — Eu vejo nos seus olhos. Você sabe o que estou dizendo. Então vamos acabar com isso. Fale. Mostre que é mais do que carne e dentes. Diga alguma coisa… ou a próxima coisa que vai rolar por essa floresta vai ser a sua cabeça.
Silêncio.
Por um segundo, achei que seria mais um rosnado. Mais um berro vazio.
Mas não.
— Eu o entendo… — a voz saiu suave. Feminina. Irritantemente calma.
Pisquei.
Seraline arqueou uma sobrancelha, mas não tirou a lâmina do lugar.
— Mesmo neste lugar onde todos os monstros são brutais… — continuou a criatura — …nenhum de nós é irracional.
O impacto foi seco e silencioso. Como se cada palavra tivesse sido arrancada à força de um lugar onde a linguagem não deveria existir.
Seraline se virou pra mim, com aquela cara de quem acabou de ouvir um gato falando francês.
— Você realmente tem um dom pra fazer Pesadelos falarem contigo, Guardião…
— Talvez eu só saiba cutucar a ferida certa. — retruquei com um sorriso torto.
Mas algo me coçava na mente.
Me aproximei mais, quase nariz com nariz com o monstro, e falei num tom mais introspectivo:
— Essa voz… é mesmo sua? Ou está imitando alguém?
Ela me encarava. Aqueles olhos opacos pareciam analisar, julgar, pesar minha alma. Não respondeu de imediato.
Seraline, por via das dúvidas, pressionou a lâmina. Um filete de sangue escorreu, só pra mostrar que a conversa ainda estava nas mãos dela.
E eu? Eu estava ali, naquele ponto exato entre fascínio… e desconforto.
Porque aquela coisa sabia demais, a primeira coisa que senti foi a tensão no ar.
Densa… Quase sólida. Como se cada palavra da criatura diante de nós cortasse mais fundo que a lâmina de Seraline.
Eu finalmente decidi usar os dons dos meus olhos. Aquela habilidade peculiar que carrego como uma maldição disfarçada de bênção: enxergar a mentira.
Mas, por mais que me esforçasse, não havia engano em suas palavras. Nenhuma hesitação forjada. Nenhuma intenção oculta. O que quer que aquela coisa fosse… falava a verdade.
— Então que tipo de Pesadelo você está se disfarçando? — Seraline foi direta, lâmina na mão, olhos tão frios quanto o vento que cortava entre as árvores.
A criatura respirou fundo, ou fingiu respirar, vai saber. Sua voz estava seca como galhos quebrando.
— Não temos muitos nomes… em muitas culturas… mas somos a união de um espírito coletor de almas… insaciável. Sempre famintos. Sempre vazios. Somos chamados de Wendigo…
Ela ergueu a cabeça, tentando me encarar com o que deveria ser os olhos. Dois buracos negros num crânio que parecia mais uma máscara de ossos rachados. Elegante. Nojento. Fascinante.
— Wendigo? — Seraline murmurou, claramente sem referência alguma.
Me levantei devagar, os olhos fixos naquela figura pálida e distorcida.
— Em meu mundo, Wendigos são espíritos antigos, ligados ao inverno, à fome, ao canibalismo. Seres nascidos da quebra de tabus, geralmente depois de alguém devorar carne humana. Uma forma de punição viva. Ou morta. Dependendo do ponto de vista.
Ela me ouviu com atenção. E com um toque de… orgulho? Ou fome?
— Você tem conhecimento. Os outros só gritam “monstro” quando nos veem.
— É mais do que folclore. É simbologia. Ganância. Perda da moralidade. Fome que nunca termina. Você representa o que acontece quando alguém devora mais do que devia… — falei, me aproximando um pouco. — Mas aqui está você. Falando. Pensando. Consciente. Isso me intriga.
— Eu sou… diferente… — ela respondeu, e foi aí que Seraline apertou o cabo da espada.
— Diferente ou não, você continua um Pesadelo. Então por que consegue conversar como se fosse uma humana? — perguntou ela.
Eu estendi a mão, indicando para que ela abaixasse a lâmina. Ela hesitou, claro. Mas me ouviu.
— Não estamos aqui pra estudar comportamento de aberrações — comecei, firme. — Estamos aqui por respostas. Três, pra ser exato. Nos der o que queremos, e você caminha livre.
O Wendigo inclinou levemente a cabeça, a respiração quente escapando como neblina entre os dentes.
— Que tipo de informações?
— O Selo do Demônio. A entidade que vive nesta floresta. Os que mantêm este lugar… escondido. — acrescentei.
Ela ficou em silêncio por um tempo. Longo o suficiente pra eu quase me arrepender de ter libertado a língua.
— Procurá-lo é suicídio… — ela disse, num tom que mais parecia um aviso. — O que faz pensar que podem enfrentá-lo?
— Isso não é da sua conta — rosnou Seraline, com a espada de volta no pescoço da criatura. — Fale logo ou será menos uma boca faminta nesse mundo.
— Isso é… lógico… — o Wendigo respondeu, desviando o olhar pra mim. — Mas como saberei que não me matarão após receberem o que desejam?
Antes que eu respondesse, Seraline entrou no jogo.
— Como saberemos que você não nos guiará para uma emboscada?
Eu suspirei. Clássico impasse.
— Temos um problema aqui — murmurei, olhando para as duas. Seraline, pura intensidade. Ela, pura dúvida. E eu? Eu era o estranho no ninho, a variável imprevisível.
Mas não pude deixar de sentir… curiosidade.
Não tenho medo. Não repulsa. Mas o tipo de atração que alguém sente por um abismo. Um desejo de ver o que há do outro lado, mesmo sabendo que não devia.
— Trato feito — falei, batendo os dedos com um estalo seco. — Você será nosso guia.
Kumo entendeu o sinal. Com uma pata só, partiu às teias que aprisionavam o Wendigo. Corte limpo. Quase elegante, para uma aranha assassina.
A criatura se levantou, surpresa. Seraline estava pasma. Não a culpo. Eu também achei ousando até pra mim.
— Escute bem, Wendigo — disse, deixando meu olhar brilhar num azul cortante. — Eu vejo através da mentira. Está nos meus olhos. Qualquer sinal de traição e Seraline… cuida do resto. — Sorri. Um sorriso sincero. Talvez o primeiro da noite. — Dito isso… seja uma boa garota e nos mostre o caminho, sim?
Ela hesitou. Claramente não acostumada a tanta… casualidade.
— C-certo… vou ser uma boa… garota… — respondeu, ainda tentando entender por que diabos minha autoridade parecia maior que a fome dela.
Seraline soltou um suspiro e balançou a cabeça, admirada. — Parece que um Guardião tem seus próprios métodos…
— Melhor mais gente na festa pra limpar tudo mais rápido, não acha? — respondi com uma piscadela.
Ela riu de leve. E, por um momento, até a floresta pareceu respirar com menos tensão.
Mas no fundo, eu sabia: estávamos indo em direção ao coração do pesadelo. E agora tínhamos um deles ao nosso lado.
A diversão estava só começando.
Continua…

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