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    Caminhei sem pressa, deixando a multidão me engolir como mais um rosto anônimo entre vendedores barulhentos, soldados envergonhando espadas contra o ar e crianças correndo com a energia infinita dos irresponsáveis. Dez dias. Era o tempo que a cidade me dava antes de começar a me cobrar. Tempo suficiente… provavelmente. Desde que nada explodisse antes — e, considerando meu histórico, essa era uma aposta ousada.

    O que realmente me incomodava não era o prazo. Era o silêncio.

    Nada da Administradora. Nada da Jennifer. Nenhuma bronca, nenhuma ordem, nenhum “Renier, pelo amor do cosmos, não destrua mais nada”. O tipo de silêncio que não era calmaria… era a tempestade segurando o fôlego.

    E olhando pra trás, até que eu tinha dado motivo. Atravessar para outra realidade pelas raízes? Check. Destruir um exército de Lizardmans vermelhos? Check. Cruzar uma barreira protegida como se fosse uma cortina de fumaça? Check. Encontrar um forte que virou ruína e poeira? Check.

    Eu estava colecionando problemas como quem coleciona cartas raras.

    O diário do General Morales. A criatura descrita ali… algo estranho. Algo que mexia com mentes, corrompia, manipulava. O tipo de coisa que transforma monstros em fantoches. E quanto mais eu pensava, mas parecia que o buraco era bem mais fundo do que eu imaginava.

    Meus pensamentos foram arrancados da espiral quando senti um braço se enroscar no meu. Reflexos prestes a reagir… até perceber que o “ataque surpresa” era, na verdade, uma garota.

    E não uma qualquer. A menina tinha aquele sorriso despreocupado que só quem nunca viu um desastre cósmico é capaz de carregar. Cabelos castanhos balançando, olhos de avelã brilhando, roupas simples que, honestamente, caíam muito bem nela.

    — Você veio da entrada da cidade? — ela perguntou, como se isso fosse o início de uma conversa casual entre velhos amigos.

    — Sim — respondi, seco, esperando que ela soltasse meu braço.

    Mas não. Ela apertou ainda mais, me puxando para perto — o suficiente para o peito dela encostar no meu. Um toque leve, mas intencional. Ah, ótimo… o tal “carisma involuntário” agindo outra vez.

    — Perfeito! Então você não tem onde ficar hoje à noite. Vem comigo! Vou te levar pra estalagem da minha mãe!

    Eu tentei formular um “calma, garota” mentalmente, mas ela já estava me arrastando rua abaixo com a desenvoltura de quem decide que um estranho misterioso é agora responsabilidade dela. Suspirei. Pelo menos estávamos indo exatamente na direção que Priscila apontara antes.

    Quando chegamos, a estalagem era exatamente como descrita: charmosa, arrumada, cheia de flores. O tipo de lugar em que tudo parece limpo demais para ser barato. E ela nem hesitou,  escancarou a porta e anunciou como se estivesse trazendo um príncipe perdido.

    — Mãe! Trouxe um cliente!

    A mulher atrás do balcão ergueu os olhos. Parecida com a filha, só que com uma energia mais madura, os braços fortes de quem passa o dia cozinhando para um batalhão, e uma venda segurando o cabelo com precisão militar. O olhar dela passou da filha para mim em um segundo. Avaliou minha postura, minhas roupas, cada detalhe… e eu pude sentir que ela já tinha um veredito antes mesmo de abrir a boca.

    A filha sorria, orgulhosa, ainda segurando meu braço como se temesse que eu fugisse pela porta.

    Assim que entrei na estalagem, dei aquele giro rápido de olhar, o suficiente pra notar que, pelo menos, os conceitos mínimos de higiene tinham sido descobertos nesse mundo.

    Meu alívio foi real. Não tinha o menor interesse em dormir num ninho de pulgas com cheiro de bode molhado.

    A mulher atrás do balcão soltou um suspiro cansado e encarou a filha como se estivesse dando bronca pela milésima vez.

    — Mila, já falei pra você parar de puxar clientes dessa forma.

    Ela então virou pra mim, num gesto automático de desculpas.

    — Perdoe a atitude dela.

    Levantei a mão num movimento tranquilo, quase preguiçoso, acompanhado de um sorriso leve.

    — Não me incomodou. Na verdade, foi conveniente. Precisava de alguém que me guiasse até aqui, e ela resolveu isso rápido.

    A garota abriu um sorriso vitorioso que gritava “eu te disse”, sem precisar dizer.

    — Viu? Eu sabia que ele ia ficar!

    A dona da estalagem cruzou os braços, soltando uma risada curta, antes de ir direto ao assunto:

    — Certo, e por quanto tempo pretende ficar?

    — No máximo dez dias — respondi, sem rodeios.

    Antes que qualquer outra pergunta surgisse, um homem lá nos fundos — provavelmente o marido dela — avisou que algumas entregas tinham chegado. A mulher soltou mais um suspiro e encarou a filha de novo.

    — Mila, registre o rapaz pra mim.

    A garota pegou um caderno como se estivesse prestes a assinar um tratado de paz entre reinos. Levantou-o com toda a grandeza possível.

    — Eu sei escrever, então posso fazer isso!

    E desapareceu a mãe. Ficamos só eu e Mila, com o silêncio confortável de balcão e pena.

    Ela molhou a ponta da pena no tinteiro, olhou pra mim com um sorrisinho que parecia querer bisbilhotar mais do que registrar, e perguntou:

    — Nome?

    — Renier Kanemoto.

    A pena dela parou no ar. O olhar arregalou no mesmo instante. Reconheci aquela reação antes mesmo de ela surgir por completo. Otto tinha feito a mesma cara quando ouviu meu sobrenome.

    Inclinei levemente o rosto.

    — Pode me chamar só de Renier.

    Ela piscou algumas vezes, sacudindo a surpresa pra longe, e fez a anotação. Depois, outra pergunta:

    — Quantos anos você tem?

    — Dezesseis.

    A mão dela quase soltou a pena.

    — Pera… você é mais velho que eu?!

    Levantei a sobrancelha.

    — Quantos anos você tem?

    — Quatorze!

    Confesso que me pegou por alguns segundos. O corpo dela parecia mais desenvolvido do que alguém dessa idade no meu mundo teria. Provavelmente um detalhe cultural, biológico, ou sei lá mais o quê nesse universo novo. Não era meu negócio.

    Ela voltou ao caderno, prática:

    — Certo… se você vai ficar dez dias, o preço é uma moeda de ouro. Se quiser um quarto individual com refeições inclusas, duas moedas grandes de prata a mais. Mas se topar dividir o quarto com alguém, fica só duas de prata.

    Pensei por um instante. O preço fazia sentido considerando a qualidade do lugar. Tranquilo.

    — Um quarto só pra mim, com refeições inclusas — declarei.

    Peguei as moedas do bolso e coloquei no balcão. Mila arregalou os olhos como se eu tivesse sacado um dragão miniatura dali.

    — Você guarda seu dinheiro no bolso?!

    — Sim. Existe algum problema?

    Ela cruzou os braços e se inclinou um pouco pra frente, cheia de opinião.

    — Nenhum, desde que você saiba se proteger. Mas fica o aviso… se alguém te ver mexendo no bolso assim, pode acabar sendo roubado.

    Assenti, tranquilo.

    — Agradeço o aviso.

    Ela pegou as moedas, anotou tudo com firmeza e sorriu como quem acaba de completar uma missão épica.

    — Agora você está oficialmente vivendo na cidade! Quer subir e conhecer seu quarto?

    Pensei por um instante. Cidade nova… e nome estranho de família causando reação… seria bom entender o ambiente.

    — Acho que vou dar uma volta antes. Quero conhecer a cidade dos Morales.

    Os olhos dela brilharam numa intensidade que entregava tudo.

    — Quer uma guia?

    Soltei um riso leve.

    — Você só quer uma desculpa pra sair, não é?

    Ela deu um sorrisinho cheio de travessura.

    — Talvez.

    — Tudo bem. Eu gosto de companhia.

    Ela girou na mesma hora, puxou o ar e gritou:

    — Mãe! Vou levar o hóspede novo pra conhecer a cidade!

    De lá dos fundos veio a voz da mãe:

    — Tudo bem, mas voltem antes do jantar!

    Dei uma risada baixa. Essa estalagem tinha clima de família mesmo.

    E sair pra explorar uma cidade nova com uma guia bonita, carismática e curiosa… honestamente, isso era quase um luxo.

    O tipo de luxo que eu não recusava nunca.

    Continua…

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