Índice de Capítulo

    A respiração dela estava tão próxima que o ar parecia queimar na minha garganta.

    Sufocante… era o único jeito de descrever. Uma presença que misturava perigo e desejo numa dança que fazia meu coração bater como se tentasse escapar do peito. As palavras da Sombra ecoavam dentro da minha mente como uma melodia venenosa , doce, envolvente, e profundamente errada.

    Ela prometia aquilo que eu mais temi e desejei por toda a minha existência: nunca mais estar sozinho.

    Tão tentador… tão letal.

    Mas eu sabia, não podia acontecer.

    Não devia acontecer.

    Mesmo assim, minha vontade vacilava. Eu sentia cada fissura se abrir dentro de mim, uma muralha interna se desfazendo pedra por pedra. Ela era precisa, quase cirúrgica, tocando nas feridas que eu escondia até de mim mesmo. As perdas, a solidão, o amor distorcido… ela mexia em tudo.

    E quanto mais ela falava, mais o mundo à minha volta parecia se distorcer.

    Os Olhos das Revelações, meus eternos companheiros, começaram a falhar. O azul intenso que simbolizava minha clareza… pulsava, vacilante, contaminado por um roxo profundo.

    O mesmo roxo dos olhos de Kyouka.

    O mesmo brilho que agora ardia no olhar da Sombra.

    A luz dentro de mim oscilava — azul, roxo, azul, roxo.

    Uma guerra travada no meu próprio espírito.

    Minha resistência era inconsistente. Eu sentia meu corpo pesar, como se até minha essência estivesse se voltando contra mim.

    Eu sou o Guardião Negro. O elo entre as dimensões.

    A ponte entre tudo o que é e tudo o que não deveria ser.

    Mas agora… essa ponte estava ruindo.

    A própria natureza que me definia era a minha sentença.

    A Sombra se aproximou mais.

    Eu sentia o calor dela, o toque do Vazio vestindo uma pele quase humana.

    E dentro de mim… um eco sussurrava: ceda.

    Porque, no fundo, eu queria.

    Eu queria ser completo. Eu queria não sentir mais o frio da solidão.

    Mas esse desejo se distorcia.

    Virava algo monstruoso, incontrolável.

    Eu podia sentir o abismo me engolindo — e o pior era que uma parte de mim gostava da queda.

    Foi então que algo pulsou dentro de mim.

    Uma força antiga, primária — um reflexo do próprio Yggdrasil.

    Como se o universo, em um lampejo de lucidez, dissesse: “Basta.”

    A foice em minha mão se moveu sozinha, atravessando o ar com um som que partiu o silêncio ao meio.

    A lâmina cortou a Sombra, um rastro de energia vibrando no espaço.

    Ela não sangrou — mas cambaleou.

    Levou a mão ao peito, olhos se contorcendo em raiva.

    O grito dela ecoou por todo o vazio, uma mistura de fúria e ferimento na alma.

    — O que você fez?! — ela rugiu, a voz transbordando ódio.

    Eu levei a mão à cabeça, tentando afastar a névoa que ainda me envolvia.

    Tudo girava. Tudo doía.

    Mas uma risada escapou de mim.

    Baixa, amarga, debochada.

    — Obrigado por me lembrar do porquê sou tão fraco… — minha voz saiu rouca, quase um sussurro carregado de sarcasmo.

    E então, algo reacendeu.

    Os meus olhos voltaram a brilhar — o azul ardendo como fogo.

    Não um fogo de destruição, mas de determinação.

    De raiva… e de propósito.

    Ergui-me, a foice firme na mão, o peso dela agora parecia leve.

    Olhei para a Sombra, para o reflexo corrompido daquilo que um dia eu temi amar.

    — Mesmo assim… — falei, com a voz firme, cortando o ar como uma lâmina. — Ainda lutarei pela minha vida. Mesmo que eu precise esmagar tudo o que sinto, tudo o que você tenta me fazer reviver.

    Dei um passo à frente.

    A luz nos meus olhos se acendeu com força, iluminando o vazio ao redor.

    — Eu vou proteger aqueles que querem viver.

    E naquele instante, mesmo cercado pela escuridão,

    Eu me sinto vivo outra vez.

    Não havia mais espaço para sentimentos, empatia ou dúvida, só o desejo puro e brutal de destruí-la.

    Aquela coisa diante de mim não era uma Sombra comum.

    Ela era algo maior.

    Algo que não deveria existir.

    A simples presença dela distorcia o ar, e cada vez que se movia, a realidade tremia como se estivesse à beira do colapso. Talvez fosse algo acima de mim… algo que até uma Classe Verdadeira hesitaria em enfrentar.

    A foice em minhas mãos tremia, não por medo, mas por tensão. O metal pulsava com energia, sentindo o mesmo que eu: a iminência da guerra, o gosto metálico da morte prestes a cair sobre nós.

    Meus dedos se fecharam com tanta força que os nós ficaram brancos. O frio da lâmina me cortava levemente, mas eu precisava disso.

    Dor é foco.

    Dor é presença.

    Respirei fundo. Uma, duas vezes.

    O coração acelerava, mas eu o forçava a obedecer.

    Controle. Sempre controle.

    Não podia deixar que o ódio me dominasse.

    Não agora.

    “Posso usar os Olhos das Revelações para cortar qualquer ilusão… qualquer hesitação.”

    A frase ecoou dentro da minha cabeça, e o ar ao redor pareceu parar por um instante.

    Senti a energia subir pela espinha, como um relâmpago subindo em vez de descer.

    O mundo à minha volta se expandiu. Tudo se tornou claro.

    A escuridão perdeu forma.

    A mentira perdeu peso.

    Só a verdade restou.

    Meus olhos queimaram, acendendo em um azul profundo que rasgava o breu.

    O turbilhão de emoções que me afogava se dissolveu em silêncio.

    A raiva virou foco.

    O medo virou precisão.

    E o desejo de destruição… virou destino.

    — Certo… — murmurei, ajustando a postura, o fio da foice refletindo o brilho dos meus olhos. — Então é você o erro que preciso apagar.

    O som que veio depois não foi um grito, nem uma palavra.

    Foi o mundo respirando fundo antes de assistir ao caos nascer.

    Ela salta ao céu como se tivesse combinado com a gravidade um acordeon de mentira: duas plataformas de energia nascem sob os pés dela, arqueadas e frágeis como lâminas de vidro, mas fazem a gravidade se curvar. O espaço ao redor dobra-se obediente, como se a própria realidade fosse tecido e ela puxasse uma ponta.

    Paira ali, alta, com aquela leveza que dá nojo. As mechas negras dançam com o vento que agora corta como serpentes. Olha pra mim com desdém, e, mesmo assim, a voz que sai é doce, perigosa, envolvente, uma melodia que te envenena devagar.

    — Salvar uma cidade, um mundo… até um universo inteiro… não faz de você um herói, Guardião Negro — diz ela, cada sílaba um espinho. — Pode repetir isso até a garganta rachar, garoto, a verdade é inevitável.

    Inclina a cabeça, sorri com aquela mistura de condescendência e crueldade. Fala como quem folheia memórias alheias só pra se divertir. Então toca onde dói: Kyouka. Diz o nome e o ar fica mais espesso, mais cortante.

    — Lembra dela, não é? Kyouka… — a palavra cai como lâmina. — Você amou e foi desprezado. Carregou a impotência como quem carrega ferro. E odeia. Essa contradição te consome.

    A fala dela é um veneno perfumado. Cada frase entra e mexe nas rachaduras que eu juro ter colado tantas vezes que nem lembro mais de quando começaram. Sinto meu estômago virar nó, sinto o peso do passado querendo seduzir minha queda.

    Respondo. Não porque acredito na minha resposta — mas porque preciso que minha voz seja algo mais que um gemido interno.

    — Heh — rio, curto, amargo. — Você pode dizer o que quiser sobre minha história. Pode tentar me quebrar com memórias. Mas meu dever não muda. O Vazio nunca vai consumir Yggdrasil enquanto eu respirar.

    Nem terminei a frase e ela já move a mão. Um gesto simples, e vem uma lâmina de energia negra rasgando o ar. Não é espetáculo, é precisão.

    A onda me atingiu sem pedir licença e eu sou arrancado do chão como se fosse um boneco de vento.

    O mundo explode em fragmentos de pedra e vidro; atravesso o ar, o peito arde, e estampo contra uma rocha com um estrondo que abre uma cratera.

    Sabor de sangue na boca, dor em todo lado. Me arrasto, um joelho rasgando o chão, a foice cravada como se fosse um mastro que ainda me prende ao presente. “Droga…” escapa, pequeno, inútil.

    Ela desceu, flutuando, com esse sorriso de quem não precisou se sujar pra ganhar. — Pobrezinho… — diz, quase maternal. — Fala bonito, mas vamos ver na prática, querido. Lute e mostre se seu poder é tão afiado quanto suas palavras.

    Olho pra ela e uma coisa fica clara, nua: ela trabalha do mesmo modo que Kyouka já trabalhou comigo, palmas suaves, promessas sussurradas, puxar os fios invisíveis que me movem.

    A semelhança não é só lembrança; é sintonia. “Talvez Kyouka tenha ligação direta”, penso, e a cabeça lateja com a possibilidade como se fosse um prego.

    A foice treme nas minhas mãos, e a tensão era cerebral, não só muscular. Aperto tanto que os nós dos dedos ficam brancos, como se estivesse agarrando a própria sanidade. Respiro fundo, empurro o turbilhão pra longe. Preciso de um ponto de apoio. Preciso de verdade, não de arremedos dela.

    A batalha não é só física. É uma guerra de vontades. E eu ainda estou vivo pra escolher lutar.

    Continua…

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota