Capítulo 67: A Queda de um Anjo.
Assim que Siryus ergueu o olhar, pude sentir o peso do ar no salão mudar. O sorriso dela… não era só provocação. Era pura fome. Fome de caos.
A raposa desceu cada degrau do trono com uma elegância cruel, as presas reluzindo sob a luz das tochas.
— Não tenho interesse em ninguém além do Guardião Negro… — murmurou, e o som daquelas palavras soou quase como uma sentença.
Meu corpo reagiu antes da mente. A foice já estava em minhas mãos, o cabo pulsando com energia etérea. Mas… ela sumiu. Simplesmente sumiu. Num instante estava a metros de mim — no outro, bem na minha frente.
Por reflexo, ergui a foice para bloquear.
Erro fatal.
O impacto foi surreal — o estalo seco ecoou quando o salto de madeira da sandália dela acertou a lâmina, partindo-a ao meio como se fosse vidro.
Meus olhos mal acompanharam o movimento, e antes que pudesse entender o que havia acontecido, o golpe atravessou meu abdômen.
Senti o ar escapar dos pulmões — o som abafado do impacto ecoou no salão enquanto meu corpo era lançado contra os portões. As portas de ferro tremeram, depois cederam, despencando sobre mim num estrondo que fez as paredes vibrarem.
O gosto metálico do sangue subiu à garganta.
Ouvi Seraline e Soraya gritarem meu nome, suas vozes se misturando entre desespero e fúria. Mas, por trás delas, veio o som suave da risada de Siryus — doce, debochada, mortal.
— Ah… não se preocupem com ele. O prêmio grande, eu deixo pro final — disse ela, deslizando os dedos pelo próprio queixo, o olhar carmesim agora brilhando como brasas vivas. — Mas vocês duas… sim, vocês serão perfeitas para decorar o chão deste salão com um pouco de cor.
O modo como ela falou… era como se já tivesse decidido o destino delas.
Deitada sob os escombros, ofegante, senti a energia fluir de volta pelo corpo, mas aquele golpe… aquela força… era apenas bruta, sem poder. Como um ser… pode ter tanta força física assim?
Mas estava perdendo a consciência… droga… Preciso me recuperar rápido…
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Seraline ainda sentia o eco do impacto reverberar por seu corpo, mas o olhar dela jamais se desviou de Siryus. Havia raiva, sim — uma fúria crua e incandescente —, mas sob ela pulsava algo muito mais perigoso: controle. A verdadeira face de uma rainha que já tinha sangrado demais para ceder a provocações baratas.
Siryus, por outro lado, parecia se deliciar com a tensão. O brilho cruel em seus olhos vermelhos era quase hipnótico, e o sorriso que curvava seus lábios denunciava o prazer perverso que tirava daquela cena.
— Ah… como foi divertido te quebrar da última vez — provocou a kitsune, com a voz gotejando veneno e escárnio. — Você era um brinquedo tão fascinante… Mas agora? — Ela inclinou a cabeça com desdém, as nove caudas balançando preguiçosamente atrás de si. — Um filhote daquela Deusa Caída imunda. Nada além de um erro repetido. Francamente, você não passa de uma diversão medíocre… servindo apenas para esfregar o chão com o seu corpo.
Cada palavra era uma lâmina que cravava mais fundo no orgulho da Oni.
Foi como acender um pavio. O ar pareceu mudar — pesado, denso, vibrando com energia pura. Os cabelos de Seraline começaram a se erguer, tingindo-se de branco como neve ao luar. Dois chifres de cristal avermelhado despontaram de sua testa, e o chão sob seus pés rachou com o peso da força que emergia.
— Como ousa… — rosnou, e sua voz ecoou como um trovão contido. — Como se atreve a mencionar minha família com essa boca podre?
Soraya, sentindo a energia subir como uma tempestade, ergueu as asas, tentando intervir.
— Seraline, espera! — gritou, mas era inútil.
A Oni já havia desaparecido num borrão carmesim.
Num piscar de olhos, ela estava diante de Siryus, a katana cortando o ar em um arco letal, mirando o pescoço da kitsune. Era um golpe para matar — rápido, preciso e impiedoso.
Mas Siryus sorriu.
Com um simples passo para o lado, desviou como se previsse o movimento desde o início. A perna dela se moveu em seguida — um golpe direto e seco no abdômen de Seraline.
O som do impacto ecoou como uma explosão abafada. Um pulso de energia percorreu o salão, estilhaçando pedaços do chão e jogando Seraline para trás.
Ela cambaleou, o corpo instintivamente buscando equilíbrio, mas o sangue subiu à boca, quente e metálico. Cuspiu-o com raiva no mármore carmesim, deixando uma marca vermelha que se espalhou lentamente.
Ainda ofegante, firmou o joelho no chão, apoiando-se na espada cravada à frente.
Siryus avançou alguns passos, o olhar carregado de superioridade.
— Continua com o mesmo fogo de antes, Oni — zombou, e o sorriso se alargou, venenoso. — Mas, no fim, uma besta daquela Deusa Dragão ainda é apenas uma criatura inferior… destinada a rastejar.
As palavras eram mais afiadas que qualquer lâmina.
Seraline, mesmo ajoelhada, ergueu o rosto. O sangue escorria do canto dos lábios, mas seus olhos — agora dois sóis brancos incandescentes — não demonstravam fraqueza. Apenas fúria controlada.
O silêncio que se seguiu foi quase sagrado.
Soraya, imóvel, sentiu a pressão da energia das duas dobrar o ar ao redor.
E quando Seraline enfim se levantou, o chão sob seus pés se desfez em fagulhas.
Se Siryus queria brincar com fogo… estava prestes a ser queimada viva.
Soraya observava o caos ao redor — o salão destruído, o chão rachado, o ar saturado de energia. E ali, entre os escombros e o eco dos gritos, ela viu Renier… imóvel, soterrado sob o portão quebrado. O coração dela apertou.
Se Seraline caísse também…
Ela sabia. Renier jamais seria o mesmo.
Um impulso tomou conta dela, um fogo antigo e desesperado queimando em suas veias.
— Que se dane. — sussurrou, abrindo suas asas negras.
A aura celestial dela se distorceu, as penas escurecendo com energia corrompida. Um clarão ofuscante se formou entre suas mãos, e num único gesto, ela disparou dezenas de feixes — raios dourados e negros, girando como lanças divinas enlouquecidas em direção à kitsune.
As explosões tomaram o salão em sequência, o chão tremeu e o teto se fragmentou. Por um momento, tudo virou fumaça e luz.
Soraya correu em meio à névoa de energia, pegando Seraline pelos ombros, tentando mantê-la de pé.
— Você não pode agir sozinha assim, caramba! — exclamou, a voz trêmula de adrenalina. — Ele precisa de você viva, entendeu?
Mas antes que Seraline pudesse responder, algo mudou.
Um movimento sutil.
Uma risada.
De dentro da fumaça, Siryus emergiu — ilesa. Nenhum arranhão, nem um fio de cabelo fora do lugar. Suas nove caudas se agitaram, espalhando a névoa como se fosse pó.
Soraya congelou.
— Isso… é impossível… — murmurou, descrente.
Siryus inclinou a cabeça, sorrindo com ironia.
— Impossível? — repetiu num tom zombeteiro. — Ah, doce anjo, você ainda não entendeu… O impossível é só uma ilusão para quem acredita em limites. — Seu olhar vermelho cintilou maliciosamente. — Mas falando em estética… um anjo sem asas ficaria muito mais bonito.
Soraya sentiu um calafrio correr pela espinha, um instinto que gritou dentro dela para fugir — mas era tarde demais.
Ela se posicionou à frente de Seraline, abrindo as asas por completo. Os olhos da Serafim em suas penas se abriram em uníssono, irradiando poder. Energia pura, celestial e corrompida, começou a fluir como um vendaval invisível, fazendo o chão rachar.
Os olhos de Soraya se tornaram poços negros com íris em forma de “X” vermelho.
— Venha então, maldita… — murmurou, preparando-se para o impacto.
Siryus apenas observava, entediada.
— Vocês duas… são tão tediosas… — disse calmamente, sem emoção.
No instante seguinte, Soraya avançou. O som do ar rasgando ecoou, mas algo estava errado — muito errado.
Antes que pudesse reagir, uma mão atravessou seu peito por trás.
O tempo pareceu parar.
Soraya olhou para baixo, vendo os dedos finos e manchados de sangue de Siryus emergirem do outro lado do corpo dela — segurando algo pulsante.
Seu próprio coração.
— Engraçado, não é? — Siryus riu, aproximando os lábios do ouvido dela. — Dizem que anjos não são seres vivos, e ainda assim… você tem um coração. Quase poético.
Soraya tentou responder, mas sua voz morreu na garganta. O sangue corrompido escorria lentamente pelo canto da boca, enquanto o brilho de seus olhos se apagava. Ela caiu de joelhos, depois desabou no chão, imóvel.
— Soraya! — gritou Seraline, a voz quebrada pela dor e desespero. Ela se arrastou até o corpo da amiga, segurando-o nos braços. — Você não pode morrer! Ouviu? Ele… Renier pode te trazer de volta! Ele pode!
Siryus riu baixinho, o som ecoando pelo salão como uma canção cruel.
Ela se inclinou, segurando Seraline pelos cabelos, aproximando seu rosto do dela.
— Oh… doce ilusão. — sussurrou, com os olhos brilhando em um tom escarlate intenso. — Mesmo que aquele garotinho tenha poder o bastante para brincar de deus… anjos caídos não têm alma.
O sorriso dela se alargou, frio e triunfante.
— E o que não tem alma… não pode ser trazido de volta.
O som do riso dela preencheu o salão enquanto o corpo de Soraya jazia imóvel, e Seraline — entre a raiva e a dor — sentia o início de algo sombrio crescer dentro dela.
Um poder que Siryus, talvez, não estivesse pronta para despertar.
Continua…

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