Índice de Capítulo

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    Despenco pelos dez andares, envolto na agonia provocada pela força impiedosa do ataque de Siryus.

    O mundo gira em câmera lenta, como se o tempo quisesse saborear minha queda. A cada segundo, sinto o peso da gravidade e da dor se unindo num só golpe, e sou apenas um corpo caindo, impotente diante da fúria daquela raposa negra.

    A dor se espalha por todo o meu corpo. O gosto metálico do sangue insiste em permanecer na minha boca, queimando minha garganta.

    Sinto-me como se tivesse sido atingido por um trovão, meu estômago protesta com uma dor excruciante, e minha visão começa a turvar. Tento manter-me consciente, mas o corpo não obedece mais.

    Por um momento, tudo fica escuro.

    Quando recobro a consciência, percebo que estou sendo erguido pela gola. Siryus me encara com aquele olhar malicioso, o sorriso dela frio como aço recém-forjado.

    — Acho que agora você não vai mais me ouvir… — diz ela, com um tom de tédio cruel. — E não tem graça levar você à força. Você podia ser muito mais… Que piada.

    Mesmo meio apagado, escuto cada palavra. A voz dela ecoa nos meus ouvidos, sarcástica e sádica, como se zombasse do que restava de mim.

    Mas o cansaço não me impede de reagir. Não agora.

    De repente, concentro o que ainda me resta de energia. Meus Olhos das Revelações se abrem, pulsando junto com o brilho intenso dos Olhos do Dragão Cósmico. A luz azulada corta o ar, faiscando como uma chama viva.

    — Sua raposa idiota… — murmuro, com a língua para fora num gesto de puro deboche.

    Ela pisca, confusa, os olhos perdendo o foco. Por um instante, seus sentimentos ficam em desordem — hipnotizados pela energia que emano. É o breque que eu precisava.

    Avanço.

    Socos rápidos, precisos, explodem contra o rosto dela. Um, dois, três, cada impacto devolve um fragmento da minha determinação. Siryus cambaleia, perde o equilíbrio e cai no chão com um estrondo.

    O choque de vê-la vulnerável me desperta. Meu corpo ainda dói, mas minha mente se reacende com uma centelha de fúria.

    Avanço outra vez e agarro as caudas dela. Os olhos de Siryus se arregalam.

    — Espera! Não toque nas caudas! Elas são a fonte do meu poder, se você fizer algo…! — ela implora, a voz trêmula.

    Ver aquela criatura arrogante suplicando… é estranho. Quase satisfatório.

    Um sorriso se forma no canto dos meus lábios enquanto apertava as caudas com mais força.

    Começei a girá-la, usando toda a energia cósmica que consigo canalizar, e a lanço com violência contra a parede. O impacto é brutal, o som seco ecoa e vejo sangue escorrer da boca dela.

    Finalmente, vejo dor no rosto da raposa. Pela primeira vez.

    Kitsunes… suas caudas são tudo. Cortadas ou danificadas, perdem sua força mística. E sabendo do vínculo doentio que ela nutre por mim, usei esse laço a meu favor. Misturei o charme dos Olhos das Revelações com a essência dracônica que pulsa em mim. Foi o suficiente para virar o jogo.

    Respiro fundo. Estou exausto, mas não posso hesitar agora. Reúno energia cósmica nas mãos, moldando-a até formar uma lâmina luminosa.

    Sem piedade, cravo-a nas caudas de Siryus.

    O grito dela corta o ar como uma sirene desesperada.

    — Foi um ataque covarde, eu sei — confesso, sentindo o calor da lâmina vibrar. — Mas isso aqui é uma luta até a morte. Então, dane-se!

    A lâmina desaparece em fagulhas e, no mesmo instante, concentro mais energia, materializando uma foice improvisada. Ergo-a sobre a cabeça dela, pronto para acabar com isso.

    — Você causou problemas demais. Isso não é uma execução pessoal, nem um ato de Guardião… mas vamos encerrar isso aqui.

    E então —

    — Kyouka! — grita Siryus, desesperada.

    O nome atravessa o ar e me atinge como uma lâmina invisível. Hesito.

    — C-como… você…? — minha voz falha. A foice cai das minhas mãos, incrédulo.

    Ela ri fraco, tossindo sangue.

    — Sei muito mais do que você imagina… — diz, arfando. — Se quiser descobrir sobre sua antiga namorada e… o que ela é de verdade — uma enviada do Vazio — me deixe viver. Eu posso te levar até ela, Renier.

    Fico em silêncio. Pode ser uma armadilha, claro. Uma das muitas artimanhas de Siryus para sobreviver. Mas… se houver uma chance — uma única chance — de descobrir a verdade sobre Kyouka…

    — Tenho sua palavra, Siryus? — pergunto, tenso, os olhos fixos nos dela.

    Ela limpa o sangue da boca com a manga rasgada do yukata e sorri de forma cansada.

    — Posso ser muitas coisas… mesmo não me importando com as vidas que tirei ou com o caos que causei neste mundo. Mas… kitsunes cumprem suas palavras. Se aceitar, prometo informações valiosas.

    Solto a lâmina cósmica das caudas dela e dou alguns passos para trás. Estou sem forças.

    Siryus se levanta lentamente. Me encara com aquele olhar que mistura ironia e algo quase… afetuoso? Mas antes que eu possa dizer qualquer coisa, sinto o impacto de um chute certeiro no meu estômago.

    O ar foge dos pulmões. Sou arremessado contra um pilar e o atravesso.

    — Urgh… devia ter imaginado… — murmuro, com o corpo pesado demais pra se mover.

    Ela ri, aquela risada irritante e doce ao mesmo tempo.

    — Obrigada, docinho~ — diz, acenando como se tudo fosse uma brincadeira. — Nos vemos por aí.

    E, num piscar de olhos, seu corpo se desfaz em fumaça.

    Fico ali, respirando com dificuldade, apoiado na espada.

    A situação terminou de um jeito que eu não esperava… mas tanto faz.

    Siryus se foi.

    E, no fim das contas, matei ou não, me livrei do estorvo que ela representava neste mundo.

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    Com poucas forças, removendo os escombros que esmagaram Seraline. Cada pedra que tiro parece pesar o dobro do normal, mas não posso parar. Finalmente, consigo colocá-la livre, embora seu corpo ainda esteja frágil sob meus braços.

    Coloco meu ouvido contra seu peito e sinto… um batimento fraco. Mas vivo. Vivo. Um alívio que quase me arranca lágrimas.

    Sem hesitar, começo a canalizar minha energia azul etérea, deixando-a percorrer seus ferimentos internos. Cada pulsar da energia é um sussurro, um pedido para que ela continue lutando.

    Fico ali, imóvel, até vê-la abrir os olhos fracamente. A respiração dela começa a regular, e seu olhar, ainda turvo, encontra o meu.

    — Ren… o que… aconteceu? — pergunta, a voz rouca, quase sussurrando.

    Não respondo com palavras. Apenas a abraço, apertando-a contra meu peito, como se pudesse proteger o mundo inteiro dentro de meus braços.

    — Fiquei com medo de te perder… — confesso, a voz falhando.

    Ela fica surpresa, mas logo solta um riso fraco, ofegante.

    — Ainda estou sentindo um pouco de dor… — murmura, e eu sinto minha determinação se reforçar.

    Afasto-me um pouco, pedindo desculpas, mas não largo sua mão. Não posso. Cada segundo longe dela parece uma eternidade.

    — Eu matei Siryus… — digo, minha voz baixa, pesada. Meus olhos se voltam para trás, para o corpo de Soraya estendido no chão.

    Seraline abaixa a cabeça, a culpa fica evidente em sua postura.

    — Isso… essa vingança custou mais do que eu queria… É minha culpa.

    Neguei, firme, segurando a respiração para conter o choro.

    — Não… foi orgulho meu. Ainda não estou pronto para entrar em combate de novo. A luta contra a Sombra Verdadeira me deixou… quebrado. — A dor apertava meu peito. — E eu… eu perdi Soraya por isso. Qual é o motivo de ser o pilar da vida, se nem sequer consigo salvar um mundo?

    Ela segura meu rosto com delicadeza, forçando-me a encarar seus olhos cheios de ternura.

    — Ninguém nasce maduro o suficiente para saber de tudo — diz ela, firme, mas gentil. — Você ainda é uma estrela, Renier. Mas sei que vai brilhar mais do que qualquer outra.

    O peso em meu peito me alivia um pouco. Sinto meu corpo reagir ao calor de suas palavras. Sem pensar, a beijo. Ela retribui, e por alguns segundos o mundo parece se aquietar. Mas logo me afasto, a realidade me apertando.

    — O mundo… está vazio. Não há mais vida… ele vai ficar no vácuo… sem luz, sem nada.

    Me ergo lentamente. Mentir para Seraline não me deixa orgulhoso, mas é necessário. Caminho até o corpo de Soraya.

    Meus dedos se envolvem com a energia cósmica, e lentamente, desfazemos o corpo dela em pura luz colorida, energia viva que retorna ao universo.

    — Você foi leal até o fim, mesmo não precisando… — murmurei, a voz trêmula. — Me desculpe por não poder te dar um enterro à altura.

    Seraline se aproxima, a mão dela segurando a minha.

    — Ela foi a melhor anjo que alguém poderia ter como proteção — diz com um sorriso triste.

    Olho para ela e sinto a força que ainda posso extrair desse vínculo. Ela pergunta s

    — Já é hora de ir embora? — indaga Seraline.

    Eu aceno com a cabeça.

    — Sim… o objetivo neste mundo… a Sombra… tudo foi concluído. Está na hora de seguir para o próximo universo.

    Ela aperta minha mão, e por um instante, tudo parece em paz. Mas a lembrança do vazio, das batalhas e das perdas permanece, um lembrete de que cada vitória tem seu preço.

    E, ainda assim, seguimos adiante.

    Continua…

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